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quinta-feira, março 21, 2013

WISŁAWA SZYMBORSKA (5)


WISŁAWA SZYMBORSKA não precisa de apresentação. No Dia Mundial da Poesia, este blogue tem o prazer de oferecer aos seus leitores mais três poemas traduzidos do polaco por TERESA SWIATKIEWICZ. Três poemas que a poetisa polaca dedicou a três mulheres cujo denominador comum é a desconstrução de protótipos. Muito obrigado, Teresa.



UM MINUTO DE SILÊNCIO POR LUDWIKA WAWRZYŃSKA*
(1975)


E tu aonde vais?
Se ali já só há fumo e fogo!
- Ficaram lá quatro crianças,
vou buscá-las!

Como é possível
assim de repente
desprender-se de si próprio?
Da ordem do dia e da noite?
Das neves do ano que vem?
Dos rubores das maçãs?
Da mágoa do amor
que nunca é demais?

Sem se despedir, nem ser despedida
sozinha a correr acode as crianças,
olhem só, trá-las em braços,
mergulhando no fogo até aos joelhos,
levando o fulgor no cabelo revolto.

Ela, que queria comprar um bilhete,
sair da cidade por um tempo,
escrever uma carta,
abrir a janela após a trovoada,
trilhar o caminho aberto no bosque,
espantar-se com as formigas,
ver como o lago se enruga
com o sopro do vento.

Um minuto de silêncio pelos mortos
perdura às vezes pela noite fora.

Sou testemunha ocular
do voo das nuvens e dos pássaros,
ouço a relva crescer
e sei como ela se chama,
decifrei milhões
de caracteres impressos,
segui com o telescópio
estrelas bizarras,
só que até hoje
ninguém me pediu socorro
e se acaso lamento
uma folha, um vestido, um poema –

De nós próprios só sabemos,
o que nos foi posto à prova.
É isto o que eu vos digo
deste meu coração que desconheço.


*Ludwika Wawrzyńska - professora primária que salvou de um incêndio quatro crianças, vindo a falecer em consequência das queimaduras sofridas.


§


DECAPITAÇÃO
(1967)

Decote provém de decollo,
decollo significa corto o pescoço.
A rainha da Escócia, Maria Stuart,
subiu ao cadafalso com uma blusa apropriada;
a blusa era decotada
e vermelha como uma hemorragia.

Nesse mesmo instante
num aposento solitário
Isabel Tudor, rainha de Inglaterra,
quedava-se à janela com um vestido branco.
O vestido estava vitoriosamente apertado até ao queixo
e era rematado com uma gorgeira engomada.

Pensavam em coro:
«Meu Deus, tende piedade de mim»
«A razão está do meu lado»
«Viver significa tropeçar»
«Em certas circunstâncias a coruja é filha do padeiro»
«Isto nunca mais acaba»
«Isto já acabou»
«Que faço eu aqui, aqui onde não há nada».

Diferença no traje – sim, dela temos a certeza.
O pormenor -
esse é inalterável.


§


A MULHER DE LOT
(1976)

Ao que parece olhei para trás por curiosidade.
Mas, para além de curiosidade, podia ter outras razões.
Olhei para trás com pena da malga de prata.
Por distração – ao atar a correia da sandália.
Para não ver mais os ombros justiceiros
do meu marido, Lot.
Com a certeza repentina de que, se eu morresse,
ele não se dignaria parar.
Com a desobediência dos humildes.
Ao escutar se alguém vinha atrás de nós.
Afetada pelo silêncio, na esperança de que Deus mudasse de ideias.
As nossas duas filhas afastavam-se já para além da colina.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A inutilidade da caminhada. A sonolência.
Olhei para trás ao pousar a trouxa no chão.
Olhei para trás receosa sem saber onde pôr o pé.
No meu caminho atravessaram-se cobras,
aranhas, ratos do campo e filhotes de abutre.
Já não eram nem bons nem maus – porque tudo o que estava vivo,
rastejava e pulava num alvoroço gregário.
Olhei para trás por solidão.
Com vergonha de fugir às escondidas.
Com vontade de gritar e regressar.
Ou terá sido somente quando se ergueu um pé-de-vento
que me soltou o cabelo e levantou o vestido,
ficando eu com a sensação de que atrás das muralhas de Sodoma
toda a gente estava a ver e desatara a rir às gargalhadas.
Olhei para trás cheia de raiva.
Para me saciar com a sua imensa destruição.
Olhei para trás por todos os motivos atrás invocados.
Olhei para trás sem querer.
Foi um pedregulho que se virou, rangendo sob os meus pés.
Foi uma fenda que de repente me cortou o caminho.
Na borda um hamster vacilava agarrando-se com duas patinhas.
E foi então que ambos olhámos para trás.
Não. Não. Eu continuei a correr,
rastejando e levantando voo,
enquanto as trevas não desabaram do céu
e, com elas, uma gravilha escaldante e pássaros mortos.
Com falta de ar, dei várias voltas.
Quem o visse, diria que eu estava a dançar.
Não é de excluir que tivesse os olhos abertos.
É possível que tivesse caído com o rosto virado para a cidade.

Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz

segunda-feira, julho 09, 2012

WISŁAWA SZYMBORSKA (4)

(este post é para Lúcia Pinho e Melo)
O Poesia Ilimitada nunca escondeu a imensa admiração que nutre pela obra da poetisa polaca Wisława Szymborska (2 de Julho de 1923 - 1 de Fevereiro de 2012), recentemente falecida. Nascida em Prowent, Szymborska já vivia em Cracóvia quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura de 1996, segundo a Academia Sueca «por uma poesia que com precisão irónica permite que os contextos histórico e biológico reluzam em fragmentos de realidade humana».

Este extraordinário post dá inicio à colaboração de Teresa Swiatkiewicz no Poesia Ilimitada como correspondente de poesia polaca, através da tradução a partir do original, de uma amostra de dois poemas de cada um dos últimos três livros da poetisa polaca, ainda inéditos em Portugal: "Dois Pontos" (2005), "Aqui" (2009) e "Basta" (2012). Seis poemas, portanto, de Szymborska, na tradução de Teresa Swiatkiewicz. Muito obrigado, Teresa.



ESTÁTUA GREGA

Apesar da ajuda das pessoas e de outras forças da natureza,
mesmo assim, o tempo teve muito que fazer.
Primeiro privou-a do nariz, depois dos órgãos genitais,
um a um, dos dedos das mãos e dos pés,
com o decurso dos anos, dos braços, um após outro,
da coxa direita e da coxa esquerda,
das costas e das ancas, da cabeça e das nádegas,
e o que caiu por terra, desfez em pedaços,
cacos, cascalho, areia.

Quando algum dos vivos morre desta maneira,
a cada golpada, muito sangue escorre.

As estátuas de mármore, porém, perecem brancas
e nem sempre até ao fim.

Da estátua, de que aqui se fala, resta o tronco
que, em esforço, parece suster a respiração,
pois agora tem
de atrair
a si
toda a graça e peso
do resto que se perdeu.

E consegue-o,
ainda o consegue,
finge e deslumbra,
deslumbra e perdura –
E, aqui, também o Tempo merece um elogio:
deixou para amanhã
o que podia fazer hoje.


§



ABC

Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o facto de eu estar por perto,
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto.



§



ADOLESCENTE

Eu – adolescente?
Se, de repente, aparecesse aqui, agora, diante de mim,
saudá-la-ia como pessoa que me é próxima,
embora seja, para mim, estranha e distante?

Verter uma lágrima, beijar-lhe a testa
pela simples razão de termos
a mesma data de nascimento?

Tão poucas semelhanças entre nós,
quiçá, apenas os ossos são os mesmos,
a caixa craniana, as órbitas.

Já que os olhos dela parecem maiores,
as pestanas mais compridas, ela mais alta
e todo o seu corpo revestido
com uma pele lisa, sem mácula.

Na verdade, ligam-nos parentes e conhecidos,
no mundo dela, porém, quase todos estão vivos,
enquanto no meu já não há quase ninguém
deste círculo que tínhamos comum.

Somos tão diferentes uma da outra,
pensamos e falamos sobre coisas tão diferentes.
Ela pouco sabe –
mas com uma teimosia digna de melhores causas.
Eu sei muito mais –
mas sem nada saber ao certo.

Mostra-me uns poemas,
escritos com letra clara e cuidada,
como já há muito eu não escrevo.

Leio esses poemas e leio.
Bem, talvez este daqui,
se o reduzirmos
e corrigirmos aqui e ali.
O resto nada de bom augura.

A conversa está difícil.
No seu pobre relógio,
o tempo ainda é vacilante e barato.
No meu, já é muito mais caro e preciso.

Na despedida nada, um breve sorriso
e nenhuma comoção.

Somente quando se afasta
e, apressada, se esquece do cachecol.

Um cachecol de pura lã,
às riscas coloridas
feito em croché para ela
pela nossa mãe.

Ainda hoje o tenho.



§



VERMEER

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.



§



NO AEROPORTO

Correm um para o outro de braços abertos,
exclamam ridentes: Até que enfim! Enfim!
Ambos vestidos com agasalhos de inverno,
gorros de lã,
cachecóis,
luvas,
botas,
mas só para nós.
Porque um para o outro estão nus.


Tradução de Ana Kalewska, Beata Cieszyńska e Teresa Swiatkiewicz



§



A MÃO

Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.

segunda-feira, junho 13, 2011

ADAM ZAGAJEWSKI (3)

(este post é para Hugo Pinto Santos)
ADAM ZAGAJEWSKI (Lvov, 1945) é provavelmente o mais importante poeta polaco da actualidade, assunto para dois anteriores posts (aqui e aqui), no Poesia Ilimitada. Os poemas que se seguem são versões das traduções para inglês de Clare Cavanagh (professora de Línguas e Literaturas eslavas na Northwestern University), retirados do último livro de Adam Zagajewski em inglês, “Unseen Hand” (Farrar, Strauss and Giroux, New York, 2011), onde os seus temas favoritos regressam (o peso e a ausência de memória; a história, em particular, o tema do holocausto; a sua relação com o pai; lugares e cidades europeias; a sua particular relação com o Cristianismo; a natureza, a pintura e a música), desta feita, porém, com um olhar que me parece mais americano e menos europeu, se comparado com "Eternal Enemies", o seu anterior livro; ou dito talvez de outra forma: um olhar europeu, ainda, mas tomado pela distância, fruto talvez da sua vivência e vida académica em Chicago. O poeta polaco está particularmente no seu elemento quando escreve, em diversos poemas, sobre os momentos de alegria ou átimos de felicidade que inesperadamente ocorrem no imo do quotidiano, mas que súbitamente se desvanecem pela ocorrência de um elemento perturbador. Quatro poemas, com a devida vénia:



AUTO-RETRATO NUM AVIÃO

em classe económica


Dobrado como um embrião,
esmagado num assento estreito,
tento recordar
o aroma do feno recém-cortado
quando em Agosto as carroças de madeira
descem dos prados de montanha,
baloiçando pelas estradas de terra
e o condutor grita
como os homens sempre gritam quando entram em pânico
- gritaram dessa forma na Ilíada
e nunca mais se silenciaram desde então,
nem durante as Cruzadas,
nem mais tarde, muito mais tarde, próximo de nós,
quando ninguém os escutou.

Estou cansado, penso naquilo o que
não pode ser pensado - no silêncio que reina
nas florestas quando as aves dormem,
sobre o final próximo do verão.
Mantenho a cabeça entre as mãos
como se a protegesse da aniquilação.
Visto de fora, sem dúvida que
pareço imóvel, quase morto,
resignado, merecendo simpatia.
Mas não é assim - sou livre,
talvez mesmo feliz.
Sim, seguro a pesada cabeça
em minhas mãos,
mas dentro nasce um poema.



§



27 DE JANEIRO


Dia gelado. Um sol de inverno. Branco vapor.
Mas nesta sexta-feira não sabíamos
o que celebrar, e o que chorar –
o Dia Memorial do Holocausto
ou o aniversário de Mozart.
Nossa memória ficou perplexa.
A imaginação perdeu o rumo.
No parapeito da janela, uma vela chorou
(fomos convidados a acender velas),
mas a suave música do jovem Mozart
chegou até nós pelos altifalantes, em estilo rococó,
a época das asas de prata e não dos cabelos grisalhos
que conhecíamos de Auschwitz,
idade dos figurinos, e não da nudez,
da esperança, e não do desespero.
Nossa memória ficou perplexa,
a imaginação cresceu, perdida em pensamentos.



§



O JARDIM BOTÂNICO


No Jardim Botânico de Cracóvia
deparei-me com uma árvore Asiática
com o nome de Metasequoia Chinesa – uma bela árvore
com folhas agulha achatadas.
Mas porquê metasequóia – e não apenas uma sequóia normal?

A metasequóia cresce além de si mesma?
Será que se eleva acima das outras árvores?
Até mesmo as plantas começaram a recorrer
ao misterioso jargão
de certos sábios académicos?



§



AINDA VITA CONTEMPLATIVA

No comboio para Varsóvia


Pode acontecer em qualquer lugar, por vezes no combóio,
quando estou muito longe: subitamente a porta
abre e figuras esquecidas entram,
o meu sobrinho, que já não anda por cá,
mas que se aproxima, alegre, sorrindo,
e um determinado poeta chinês que amava
a música e as folhas das árvores no outono,
estudantes de teologia de Córdoba, ainda sem barba,
emergem de nenhures e saltam à vista,
retomando o debate sobre os atributos de Deus,
e a esplêndida vida surge como uma queda de água na primavera,
até que finalmente um telemóvel soa, inoportuno,
depois outro, e um terceiro, e todo este mundo excelente, estranho
se contraí e desaparece, exactamente como um rato de campo,
que, apercebendo-se do perigo, se retira habilmente para
o seu apartamento secreto.

domingo, março 06, 2011

MARCIN ŚWIETLICKI

(este post é para Luís Filipe Parrado)
MARCIN ŚWIETLICKI nasceu em 1961 em Piasli, perto de Lublin e vive em Cracóvia. Estudou Filologia polaca. É actor e vocalista do grupo rock “Świetliki”. Irreverente, desalinhado, melhor do que qualquer outro poeta da sua geração conseguiu expressar o mal-estar da passagem do comunismo corroído e decadente dos anos 80, para o capitalismo incipiente dos anos 90. É talvez o mais conhecido dos "Novos Bárbaros". A influência do rock e da cultura popular estão muito presentes numa poesia que nega veementemente o establishment literário e cultural, e centra-se em experiências e obsessões pessoais, num constante jogo auto-irónico, uma irreverente forma de lirismo. Cinco poemas, com a devida vénia.



FUMANDO

Pergunto: porque é que os não fumadores
sobem sem escrúpulos aos compartimentos
para fumadores? Porque querem impôr-se? Porque
parecem sempre nauseados?

Cigarro, meu velho amigo.
Passei contigo mais tempo do que com qualquer outro.
Estamos-nos a destruir mutuamente, num cordial
compromisso.

Pergunto: porque não apreciam
a nossa solidão,
o nosso valor ingénuo, nosso
fogo, cinza?

(versão do castelhano, após tradução do polaco por Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, incluida no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008)


§


OS BÁRBAROS REVISITADOS


Sabemos que vão entrar
nesta terra, que não é nossa
nem deles – por isso as compras
que fazemos por estes dias são tão
suficientes (um quarto de pão, por favor).

Os velhos deixaram de ser um problema. Já não os saudamos
amavelmente nas lojas, nas ruas. Acabou.
Desgostam-nos as nossas antigas
diversões, estamos demasiado concentrados.

À espera. Deixamos de alimentar os animais.
Esperamos o dia em que
a nossa debilidade se confirme e
triunfe.

(versão do castelhano e do inglês, após tradução do polaco para castelhano por Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, incluida no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008, e do polaco para inglês por Tadeusz Pióro, incluída no livro “Altered State: The New Polish Poetry”, Arc Publications, 2003)


§


INÍCIO


E ela ainda não sabe que escrevo sobre a morte.
Ela ainda pensa que estou a escrever sobre ela
ou sobre outra mulher. Se sentir o cheiro
de outra mulher – ficará zangada,
mas entenderá. Não entende a morte,
porque ela ainda não compreende a morte.

Porque ela ainda não acredita que é a morte que
me dita o poema. Prefere pensar: é a preguiça.
Perdi a caneta. As finanças.
Multa por não ter bilhete válido. Uma letra por pagar.
Desejo de solidão. Álcool. Visitas
à casa de banho. Tudo isto são – sinais.

Alguma vez saberá que escrevo sobre a morte?
Saberá que se fico imóvel,
estou a aprender? Porque é mais difícil não ser
do que não ter. Não saberá que quando rio,
rio-me contra? Nas anteriores edições
ligava-me ela, agora já não quero.

(versão do castelhano e do inglês, após tradução do polaco para castelhano por Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, incluida no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008, e do polaco para inglês por Tadeusz Pióro, incluída no livro “Altered State: The New Polish Poetry”, Arc Publications, 2003)


§


CAMPO DE BATALHA


Ela está deitada a meu lado. Finge dormir.
Alguma coisa agradável sobreviverá à destruição?
Destruímos tudo. Mariposas luminosas
tocam ambos os lados da janela. Paz.
Sossego, até agora.

Uma centena de vezes deixou claro que não me quer.
Eu tentei todos os truques
masculinos. Ela está aqui. Está
a meu lado na cama de outrém.
Ela perdeu. Ganhou. Eu ganhei. Perdi.

Está ali deitada. Sento-me à distância,
vestido. Observando.
Derrubadas, as chávenas de chá partidas.
Um cinzeiro com duas longas beatas.
Quando ela abrir os olhos, vou abrir fogo.

(versões do inglês, após tradução do polaco por Tadeusz Pióro, incluído no livro “Altered State: The New Polish Poetry”, Arc Publications, 2003)


§


APAGANDO

Limpar todas as pontas
de cigarro da marca favorita
para que não reste qualquer vestígio
da minha passagem por aqui.

Limpar as impressões digitais
dormir um pouco entre os mortos
limpar com um gesto o último rosto
antes do sono.

Sonhar o nada, uma redução precisa,
as cores em fuga, deixando em fundo
uma só palavra. Com ela
ressuscitar.

(versão do castelhano, após tradução do polaco por Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, incluida no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008)


PIOTR SOMMER

PIOTR SOMMER, poeta, ensaísta e importante tradutor polaco, nasceu em 1948 em Otwock, uma pequena cidade próxima de Varsóvia. Estudou Filologia Inglesa. É o principal editor da mais importante revista literária polaca dedicada à tradução de poesia estrangeira (Literatura na Świecie), tendo ele próprio traduzido Ashbery, O’Hara, Koch, Heaney, Berryman, James Schuyler, Charles Reznikoff, entre outros. As suas traduções mudaram o panorama da poesia polaca após 1989, sendo hoje consensual nos meios académicos a influência que a poesia anglo-saxónica, designadamente da Escola de Nova Iorque, exerceu sobre a poesia das novíssimas gerações, de que este blogue se ocupará próximamente. A antologia que preparou em polaco sobre O'Hara despoletou uma pequena guerra entre o jovem grupo de poetas influênciados pela poética do americano, conhecidos como "Os Bárbaros", e seus oponentes, "Os Neo-Classicistas", defensores de uma poesia mais tradicional inspirada nos grandes vultos da poesia polaca (Miłosz, Herbert, entre outros). Como Zadura, o seu único compromisso é com uma nova linguagem. Sommer defende a experiência individual frente aos intentos unificadores dos diferentes dispositivos do poder comunista, praticando uma poesia totalmente diversa da oficial, atenta ao detalhe quotidiano comum, o que constituiu, à altura, uma significativa novidade. Os 4 poemas que se seguem são versões minhas de poemas incluídos no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, selecção e prólogo de Maciej Ziętara com tradução do polaco para castelhano de Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008.



PELÍCULA

O sol da tarde
atrás da esquina da cidade,
e cada segmento de pele,
e cada pensamento
permanecem sobrepostos,
e nada se pode ocultar
porque tudo sai a reluzir:
as cartas sem resposta,
a ingratidão,
uma memória curta.


§


FESTAS

Nas festas sempre vêm de longe
algumas pessoas adultas;
estranhos, uma família distante
da esposa ou dos amigos.
Em geral é a última vez
que os vês, ou também
a primeira, quase como os retratos
dos velhos mestres na pequena
Exposição de Época. Querem manter-se
galhardos e sorriem para
ti, e para um par de pessoas mais,
como se quisessem gravar suas fotos
no ar. Vê,
move-se-lhes o branco dos olhos.

Entretanto esfria a comida,
o vodka nos copos
impregna-se de vidro, e eles
seguem falando, oferecem-te a tarte
que prepararam em casa. Os homens
já têm sono, as crianças dormem.

Mas quase sempre
alguém os escuta até ao final.
um jovem tímido,
bem educado, já com idade
para tomar vodka
com os adultos, todavia
um pouco aflito
com as mulheres, ainda sozinho
consente amavelmente as palavras
de uma velhinha afável, que amanhã
terá de acompanhar à estação
depois do pequeno-almoço.


§


DIAS DE SEMANA


Amanhã é quinta-feira.
Se o mundo cumprir com suas obrigações,
depois de amanhã será sexta.
Se não, talvez mesmo domingo
e nunca ninguém saberá
onde se extraviou nossa vida.


§


CORRECÇÃO


Não te ocupes das vírgulas, todos esses signos
de pontuação, hífens e aspas
que marcas com tanta minúcia,
perder-se-ão, por obra do descuido
do corrector e o teu ritmo
da frase, do pensamento, da linguagem
resultará menos importante do que
esperavas ou talvez do que querias.
Tudo isso eram sonhos dourados:
não te lerão ao som da música da fala
antes ao som do estrépito do mundo.

domingo, janeiro 16, 2011

WISŁAWA SZYMBORSKA (3)


WISŁAWA SZYMBORSKA (Kórnik, 2 de Julho de 1923) publicou o seu último livro de poemas em 2009, “Tujaj”, traduzido do polaco para inglês por Clara Cavanagh e Stanisław Barańczak (Houghton Mifflin Harcourt, 2010). Aqui fica um pequeno poema desse livro como exemplo.



EXAMPLE

A gale
stripped all the leaves from the trees last night
except for one leaf
left
to sway solo on a naked branch.

With this example
Violence demonstrates
that yes of course –
it likes its little joke from time to time.


§


EXEMPLO

Um vendaval
despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.


segunda-feira, novembro 29, 2010

WISŁAWA SZYMBOSRKA (2)


É talvez o meu poema favorito de “Chwila” (2002) de Wisława Szymborska (“Instante”, na tradução portuguesa de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio d’Água, 2006).



A MIÚDA QUE PUXA A TOALHA

Há mais de um ano neste mundo
e neste mundo ainda nem tudo pesquisou
nem submeteu a controlo.

Agora estão a ser testadas coisas
que não podem mexer-se sozinhas.

É preciso ajudá-las,
deslocá-las, empurrá-las,
tirá-las do sítio e transferi-las.

Nem todas o desejam, por exemplo, o armário,
a aparador, as paredes intransigentes, a mesa.

Mas já a toalha sobre a mesa obstinada,
se bem agarrada pelas pontas,
mostra-se disposta a viajar.

E sobre a toalha: os copos, os pires,
o jarro de leite, as colherinhas e a tigela
até tremem de desejo.

Interessante,
que movimento vão escolher
depois de vacilarem na beirinha:
um passeio pelo tecto?
um voo em torno do candeeiro?
um salto para o parapeito da janela e de lá até à árvore?

O Senhor Newton ainda não meteu aqui a colherada.
Que olhe lá do céu e agite os braços.

Este teste tem de ser efectuado
e será.


§


Uma vez mais, Wisława Szymborska é exímia a jogar com as expectativas do leitor, recorrendo à estratégia da ironia cósmica. Estamos perante um poema suspeitadamente escrito após o acidente doméstico descrito, narrado porém num momento cronológico prévio ao acidente, brincando a personna literária do poema com um efeito de falsa adivinhação, num crescendo de tensão e dramatismo até à catástrofe doméstica eminente. A ironia do poema também se encontra no tom quase infantil que a autora assume, fazendo do leitor cúmplice do que irá suceder - ou seja, (percebe-se) do sucedido. Já o título, de certa forma, nos preparava para o poema, aparentemente esgotando-lhe o assunto. Mas graças ao talento da autora e ao recurso a uma estratégia de personificação dos objectos ("(...) já a toalha (...)/ mostra-se disposta a viajar") , rapidamente a ironia se transforma em sarcasmo, intensificado pelos diminutivos ("Interessante,/que movimento vão escolher/depois de vacilarem na beirinha"), isto após uma minuciosa e demorada enumeração dos objectos de vidro que se encontravam em cima da toalha, passíveis de caír, somando dramatismo e acentuando o contraste entre a fragilidade dos mesmos e a catástrofe prestes a acontecer. De provocar um arrepio. Tudo isto apresentado candidamente, com um carácter como que de necessidade, em nome das superiores leis da física... e do caos infantil, quando afinal, sabemos todos, tudo poderia ter sido evitado. Extraordinários efeitos narrativos, extraordinário poema.


§


Outro poema de Wisława Szymborska no Poesia Ilimitada.


sábado, agosto 14, 2010

TADEUSZ RÓŻEWICZ (2)


TADEUSZ RÓŻEWICZ nasceu em Radomsko, Polónia, em 1921. Escreveu prosa, teatro e poesia. Combateu a Alemanha nazi entre 1943 e 1944. No final da guerra, estudou na Faculdade de História de Arte, em Cracóvia. Segundo Fernando Presa González, seu tradutor do polaco para castelhano, Różewicz abriu caminho a “uma poesia quase desprovida de artifícios estéticos, carente de rima, de pontuação, muito pouco dada à metáfora e muito a favor de uma linguagem directa e da imagem real. (...) Marcado pela guerra, o cepticismo de Różewicz alcança uma cota tal que chega a afastar-se de valores muito enraizados na sociedade polaca como a religiosidade e o patriotismo. (...) A mentira abarca tudo, inclusive ele mesmo, que se sabe transformado, filho da guerra e do ódio, produto de um tempo sob o signo da ira e da morte.” Os nove poemas que se seguem foram por mim traduzidos do castelhano, a partir da antologia “Poesia abierta (1944-2003)", publicada em Barcelona pela editora La Poesia, señor hidalgo, com um excelente prefácio de Fernando Presa González.





NOMEIO COM O SILÊNCIO


Posso nomear o inominável com a palavra
posso nomear a pátria
o amor o oiro uma rosa
posso gritar ou calar
posso enunciar as cores
os mares as ilhas os pássaros os frutos.
Digo o nome de minha amada
à pátria chamo-a pelo seu nome
repito duas vezes uma palavra
chamo o inominável com o silencio.



§



O AUTOCARRO NEGRO


Este autocarro negro
é distinto dessa manada de autocarros vermelhos
que fervem como uma panela
no fogo

no seu interior um passageiro
paciente e longitudinal
com casaco de madeira
fechado até ao último prego
descerá na última paragem

Ninguém se mata
por subir a este autocarro
muito pelo contrário

Pintemos todos os autocarros
de negro com uma linha branca
Sua aparência melancólica
incitara as pessoas
a uma reciproca benevolência
quando subam
e quando desçam

1954



§



NÃO ME ATREVO



Assolado
pelo riso e pelas palavras
golpeado
pelos pequenos sentimentos e pelas coisas insignificantes
por meio amor
e meio ódio
aí onde há que gritar
falo com um sussurro

Conheceis esta voz
quebra-se na garganta seca
como uma cana
os velhos poemas caem de mim
todavia não me atrevo a sonhar com os novos
com a nova poesia
a qual
pode pressentir-se
num momento feliz



§



QUEIMA DE POEMAS



Conto-vos uma história
não muito curiosa

a queima de poemas
deve fazer-se em silêncio
é uma cerimónia
desprovida de gestos
patéticos

a queima de poemas deve fazer-se
no meio de uma decoração comum
uma mesa três cadeiras
um armário com livros

arde o papel
dança a chama
o fumo sobe para cima

Quando nasceram as palavras
gritou
agora cala



§



JOGOS


E que importa que amanhã
seja o fim do mundo

Numa povoação eslovaca
aos pés de uma grande nuvem
há um homenzito
com bigodes amarelos
que golpeia um tambor

Por um só ouvido
escuta-o um rapazito
que vai de bicicleta
pelo outro ouvido rosa
um vale entre montanhas azuis

uma rapariga vê-se
entre os espelhos
colocados entre o céu e a terra

um homem moderado e uma mulher
com seriedade e precisão
criam um novo homem

é um professor sábio
que agora se assemelha
a um pequeno cavalo
pese embora no embrião junto à cabeça
e às extremidades se possam descobrir:
os óculos o guarda-chuva o título
a cátedra e a visão do mundo.

Os que melhor se portam são os loucos
constroem casitas para os pássaros
educam os filhos
instalam viveiros
aprendem gramática
no entanto
as pessoas normais
brincam com bombas de hidrogénio.

1957



§



ESTIVE A ESCREVER



Estive a escrever
um momento ou uma hora

sentia ira
mudo
sentei-me junto a mim
os olhos embaciaram-se-me de lágrimas
estava a escrever há muito tempo
de repente dei-me conta
de que não tenho a pena na mão


§


DESDE HÁ ALGUM TEMPO



Desde há alguns anos
que o processo da morte da poesia
se acelera

adverti
que os novos poemas
publicados em semanários
começam a decompor-se
ao cabo de duas ou três horas

os poetas mortos
vão-se rapidamente
os vivos
cospem
à pressa
novos livros
como se quisessem fechar o ralo
com papel



§



ENTRE MUITAS OCUPAÇÕES



Entre muitas ocupações
muito urgentes
esqueci-me
de que também há que
morrer

frívolo
abandonei esta obrigação
ou ocupei-me dela
superficialmente

a partir de amanhã
tudo mudará

começarei a morrer com esmero
de maneira sensata com optimismo
sem perda de tempo



§



CONTO SOBRE AS MULHERES VELHAS



Gosto das mulheres velhas
as mulheres feias
as más mulheres

são o sal da terra

não sentem aversão
pelo lixo humano

conhecem a outra face
de uma medalha
do amor
e da fé

vêm e vão
os ditadores endoidecem
têm as mãos manchadas
com sangue de seres humanos

as mulheres velhas levantam-se pela madrugada
compram carne fruta pão
limpam cozinham
permanecem na rua com os braços
cruzados calam

as mulheres velhas
são imortais

Hamlet agita-se na rede
Fausto faz um papel vil e ridículo
Raskólnikov golpeia com um machado

as mulheres velhas são
indestrutíveis
sorriem com indulgência

deus morre
as mulheres velhas levantam-se cada dia
pela madrugada compram pão vinho peixe
morre a civilização
as mulheres velhas levantam-se pela madrugada
abrem as janelas
retiram a sujidade
morre um homem
as mulheres velhas
levam os restos
enterram os mortos
plantam flores
nas tumbas

gosto de mulheres velhas
de mulheres feias
de más mulheres

crêem na vida eterna
são o sal da terra
o córtex de uma árvore
são os olhos submissos dos animais

vêem na sua justa medida
a cobardia e o heroísmo
a grandeza e a insignificância
como as exigências
de um dia quotidiano
seus filhos descobrem a América
caem nas Termópilas
morrem nas cruzes
conquistam o cosmos

as mulheres velhas saem de madrugada
para a cidade compram leite pão
carne condimentam a sopa
abrem as janelas

só os idiotas se riem
das mulheres velhas
das mulheres feias
das más mulheres

porque são mulheres belas
mulheres boas
mulheres velhas
são um ovo
são um segredo
sem segredos
são uma bola que roda

as mulheres velhas
são múmias
dos gatos sagrados
são pequenos
murchos
secos
frutos mananciais
ou gordurosos
budas ovais

quando morrem
brota do olho
uma lágrima
que se une na boca
com o sorriso
de uma mulher jovem

1963



Outro poema de Tadeusz Różewicz no Poesia Ilimitada.


quinta-feira, abril 01, 2010

FORTINBRAS acerca de ZBIGNIEW HERBERT

«Estou convencido que o Zbigniew Herbert escreveu o poema 'Elegia de Fortinbras' para mim. Esta ideia remonta a uma noite em que quase despachei uma garrafa de Jim Beam Black para provar a uma amiga que o meu fígado era mais robusto que a vontade que ela tinha de ver o 'Lendas de Paixão' em DVD. Não me lembro se a convenci. Tratando-se de um poema incluído num livro publicado em 1961, seria de esperar que versasse sobre a estranha cultura táctica de Czesław Krug. Surpreendentemente isso não acontece. 'Elegia de Fortinbras' é, ao que parece, a explicação mais perfeita sobre semiótica: “vivemos / em arquipélagos / e essa água essas palavras que podem elas fazer príncipe que podem”. É também, numa segunda camada, um poema sobre alguns jogadores do Sporting, senão veja-se: Abel – “sempre em sobressalto como num sono perseguias quimeras”; Rui Patrício – “As tuas mãos sempre que pensava nelas faziam-me sorrir”; Hélder Postiga – “das coisas humanas não sabias nada nem sequer respirar sabias”.


ELEGIA DE FORTINBRAS

Para C.M.

Agora que estamos sós podemos falar príncipe de homem para homem
ainda que estejas tombado nas escadas e vejas o mesmo que uma formiga morta
nada senão um sol negro com seus raios quebrados
As tuas mãos sempre que pensava nelas faziam-me sorrir
e agora que jazem sobre a pedra como ninhos derrubados
parecem tão indefesas como antes O fim é precisamente isto
As mãos caídas A espada caída Caída a cabeça
e os pés do cavaleiro enfiados em macias pantufas

Sem nunca teres sido soldado terás um funeral com honras militares
o único ritual que mais ou menos conheço
Não haverá círios nem cantos apenas mechas e tiros de canhão
crepes arrastados pelas ruas elmos botas cavalos salvas de artilharia
tambores e tambores nada de muito refinado eu sei
serão essas as minhas manobras antes de tomar o poder
há que agarrar a cidade pelo pescoço e sacudi-la um pouco

De qualquer modo terias que morrer Hamlet não foste feito para a vida
acreditavas em noções cristalinas e não no barro dos homens
sempre em sobressalto como num sono perseguias quimeras
mastigavas o ar com voracidade para depois o vomitar
das coisas humanas não sabias nada nem sequer respirar sabias

Agora alcançaste a paz Hamlet levaste a cabo o que te competia
e alcançaste
a paz O resto não é silêncio é antes pertença minha
escolheste o papel mais fácil o golpe elegante
mas o que é uma morte heróica comparada com a eterna vigília
tendo na mão uma fria maçã um alto cadeirão
com vista para o formigueiro e para a esfera do relógio

Príncipe adeus tenho assuntos a tratar a questão dos esgotos
o decreto respeitante a prostitutas e mendigos
há também que elaborar um melhor sistema prisional
já que tu próprio o disseste e bem a Dinamarca é uma prisão
Vou tratar dos meus assuntos Esta noite nasceu
uma estrela chamada Hamlet Aqui nos separamos
as coisas que deixarei ao morrer não serão dignas de uma tragédia

Pessoas como nós não se dão as boas vindas nem se despedem vivemos
em arquipélagos
e essa água essas palavras que podem elas fazer príncipe que podem


(tradução de José Miguel Silva publicada no blogue Ad Loca Infecta)



§



Fortinbras é o alter-ego do autor do blogue Máscara & Chicote.

terça-feira, maio 12, 2009

RYSZARD KRYNICKI

(actualizado)RYSZARD KRYNICKI (Sankt Valentin, Áustria, 1943), poeta polaco, tradutor e editor. Publicou o seu primeiro livro em 1968. Traduziu Brecht, Trakl e Celan, entre outros. É um dos poetas da Geração de 68 (com Stanisław Barańczak e Adam Zagajewski), profundamente inspirados pela convicção de Czesław Miłosz da responsabilidade do poeta pela palavra. Para além da forte dimensão politica da sua obra, os poetas da Nova Onda punham grande ênfase na renovação da linguagem, desafiando os automatismo da leitura e introduzindo na poesia polaca o cliché, a frase feita, fragmentos de artigos de jornal ou formulários burocráticos. Os 4 poemas que se seguem são versões minhas de poemas incluídos no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, selecção e prólogo de Maciej Ziętara com tradução do polaco para castelhano de Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008.



SUAVE E SILENCIOSAMENTE

Para Jan Lebenstein


Tememos demasiadas doenças incuráveis,
terramotos, viagens repentinas,
telegramas atrasados – e um olhar, cravado
na nuca –

mas a seu tempo tudo isso vem,
sem grande pressa – e sem atrasos -,
exactamente quando chega a hora,

nem sempre de forma definitiva,

suave e silenciosamente,
sem deixar pegadas na paisagem
movediça

como a hora de partida do comboio
ou uma ida ao cinema


§


PARTICIPANDO


«Participando na grande lotaria
do Centro de Saúde da Criança
comemoras os 2.000.000 de crianças
que caíram em combate ou foram brutalmente
assassinadas durante a II Guerra Mundial.
Levas ajuda e alívio
ao sofrimento de milhares de crianças
incapacitadas e doentes.
Cumpres com uma nobre e honrosa
obrigação cívica.
Obténs a oportunidade
de ganhar um prémio, tal como
automóveis Fiat 125p e 126p
tractores C-330, televisores,
rádios, frigoríficos, máquinas de coser,
máquinas de lavar,

e outros atractivos prémios».


§


NÃO SABIA



A caminho da escola
podia ver cada dia,
erguido sobre a cidade, um quartel
prussiano: não sabia
que durante a guerra ali trabalhou,
como médico militar, o poeta Gottfried Benn.
Não entendia muito de doenças

excepto de poesia.


§


ESTÃO LIVRES


- Estão livres – disse o guarda –
e fecha-se o portão de aço

agora deste lado.


BOHDAN ZADURA

(actualizado)
BOHDAN ZADURA (Pulawy, 1945), poeta polaco, ficcionista, ensaísta, tradutor, estudou filosofia na Universidade de Varsóvia. Foi director literário do Teatro da Visão e Movimento de Lublin e co-editor de revistas literárias. Influenciado não tanto pela poesia intelectual e erudita de Zbigniew Herbert - mais pelo mundo poético de Miron Białoszewski, - tal como este interessava-lhe mais a província, os subúrbios, os bairros periféricos de Varsóvia, a cultura kitsch da zona onde a cidade colidia com o campo, afirmando que o único compromisso da poesia é com a linguagem, defendendo a experiência individual ante os intentos unificadores dos diferentes dispositivos do poder. A influência dos poetas da Escola de Nova Iorque (Ashbery, Kock e O'Hara) é perceptível na poesia de Zadura, como aliás numa significativa parte dos poetas polacos pós-1989. A vida individual com toda a sua riqueza temática, os ritos do quotidiano, a família, são os mundos poéticos que informam a sua poesia. Os 3 poemas que se seguem são versões minhas de poemas incluídos no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, selecção e excelente prólogo de Maciej Ziętara, com tradução do polaco para castelhano de Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008.



FRENTE


O tempo estava confuso
A hora imprecisa Acercava-se
chuva ou tempestade No éter
ouviam-se estalidos Apesar
das dificuldades não perdíamos
a conexão com o mundo

As ordens eram claras
Tínhamos que sorrir


§


***


A vida erótica da cidade
concentra-se nas suas zonas
erógenas

Este é o principio dado pelos deuses
gratuitamente Uma fila da cidade
e uma fila do corpo Desde as pontas
dos dedos desde o interior das mãos
até aos túneis de metro os arcos dos viadutos

e as pedras arrancadas com as unhas
das ruas empedradas

Antigamente – diz-me uma voz – o mistério
vivia nos templos Agora
só nos restam
estações e aeroportos

Nos cruzamentos
acendem-se semáforos
vermelhos

Um amigo
com uma covinha encantadora
no queixo
repara
cada situação
interpessoal
pode converter-se numa situação
erótica

A rua afoga-se
e morre de enfarte


§


UMA TARDE DE DEZEMBRO



Pela janela do comboio
vi um letreiro que dizia:
PARQUE INTERNACIONAL DA PAZ
E DA AMIZADE DOS POVOS
CEMITÉRIO MILITAR

no escaparate de uma livraria
vi um livro
Profecias e augúrios
sobre o fim do mundo e o bem para a Polónia

venho de uma família
de doentes da cabeça

um favor, América:

não poderias
cumprir os teus mitos
em tua casa?


domingo, setembro 21, 2008

ADAM ZAGAJEWSKI (2)

Nasceu em Lvov, na Polónia, em 1945. ADAM ZAGAJEWSKI vive entre Cracóvia, Paris e Chicago. É considerado pela crítica como um clássico contemporâneo, como o foram Milosz, Herbert, Holub, Popa ou Brodsky. É um poeta dessa estirpe. Acaba de publicar, neste 2008, na Farrar, Straus and Giroux, de Nova Iorque, “Eternal Enemies”, traduzido do polaco por Clare Cavanagh, professora de línguas e literaturas eslávicas na Northwestern University, que já havia traduzido para o inglês Szymborska e Milosz. Humor, inteligência, cepticismo e economia de linguagem podem ser encontrados nestas três versões que trago do inglês, onde conspiram o peso do lugar e da história, a emergência da arte e da vida quotidiana. Quando me cruzei por acaso com o Jorge Sousa Braga em Praga, há uns anos atrás, levava na mão recolhas de Simic e Armitage, que lhe anunciei entusiasmado como as grandes descobertas que são. O Jorge, porém, já transportava uma colecção da Faber and Faber de Adam Zagajewski, poeta do qual eu nunca havia lido nada, e sobre o qual colocou um post há tempos atrás, aqui, no Poesia Ilimitada, com a tradução de 12 poemas. São para o Jorge, estas versões, que encontrei numa estante de Estocolmo. Do último livro:



DESCREVENDO PINTURAS

PARA DANIEL STERN

Normalmente fixamos apenas alguns detalhes –
uvas do século dezassete,
ainda frescas e cintilantes,
quiçá um belo garfo de marfim,
ou a madeira de uma cruz e gotas de sangue,
o grande sofrimento que entretanto secou.
O parquet brilhante range.
Estamos numa cidade estranha –
quase sempre numa cidade estranha.
Algures ergue-se um guarda que boceja.
Um ramo cinza balança para lá da janela.
É absorvente,
descrever pinturas estáticas.
Estudiosos dedicam volumes a isso.
Mas nós estamos vivos,
cheios de memória e pensamento,
amor, por vezes arrependimento,
e por momentos temos um orgulho especial
porque o futuro grita em nós
e seu tumulto torna-nos humanos.


§


NUM PEQUENO APARTAMENTO

PERGUNTO A MEU PAI, “O QUE
FAZ TODO O DIA?” “RECORDO.”


Assim, naquele pequeno apartamento pardo em Gliwice,
num bloco baixo ao estilo soviético
que diz que todas as cidades se deveriam parecer com quartéis,
que quartos espasmódicos derrotarão conspirações,
onde um relógio de parede antiquado marcha, descansado,

ele revive diariamente o moderado Setembro de 39, as bombas assobiando,
e o Jardim Jesuítico em Lvov, cintilando
com o brilho verde do ácer e árvore de cinzas e pequenos pássaros,
caiaques no Dniester, o odor de vime e areia molhada,
naquele dia quente quando conheceu uma rapariga que estudou direito,

a viagem em carro fretado para o oeste, a última fronteira,
duzentas rosas dos estudantes
agradecidos pela sua ajuda em 68,
e outros episódios de que nunca saberei,
o beijo de uma rapariga que não se tornou minha mãe,

o medo e as doces groselhas da infância, imagens puxadas
daquele abismo de calma antes de eu ser.
Sua memória trabalha no apartamento sossegado – em silêncio,
sistematicamente, luta para recuperar por um momento
o seu século doloroso.


§


LENDO MILOSZ


Li a tua poesia uma vez mais,
poemas escritos por um rico homem, sabedor,
e por um mendigo, sem casa,
um emigrante, só.

Sempre quiseste ir
além da poesia, superá-la, planando,
mas também abaixo, onde a nossa região
começa, modesta e tímida.

Por vezes o teu tom
transforma-nos por um momento,
e acreditamos - verdadeiramente –
que cada dia é sagrado,

que a poesia - como pôr isto? –
torna a vida plena,
mais cheia, orgulhosa, ousada
de formulação perfeita.

Mas o fim de tarde chega,
pouso o livro de lado,
e o estrondo banal da cidade retoma -
alguém tosse, alguém chora e maldiz.



PEDIDO: Por favor enviem o link deste post a Sérgio Neves ou a Júlio Sousa Gomes, tradutores de Milosz e Szymboska do polaco, na tentativa de os interessarmos pela tradução de Zagajewski a partir da língua original. Normalmente as versões de versões limam involuntáriamente as arestas dos poemas, local onde se abriga verdadeiramente a poesia...



quinta-feira, junho 07, 2007

ZBIGNIEW HERBERT (2)

ZBIGNIEW HERBERT
(Lvóv, 29.10.1924 - Varsóvia, 28.07.1998)



SOBRE A TRADUÇÃO DE POESIA

Como um abelhão desajeitado
pousa numa flor
vergando o frágil caule
abre caminho com os cotovelos
através duma fileira de pétalas
através das folhas de um dicionário
quer chegar
onde se concentram a fragrância e a doçura
e embora esteja constipado
e sem gosto
continua a tentar
até que a cabeça choca
contra o pistilo amarelo

e não consegue ir mais longe
é tão duro
forçar a coroa
até chegar à raiz
por isso levanta voo
emerge pavoneando-se
zumbindo:
eu estive lá
e aqueles
que não acreditam nisso
olhem para o seu nariz
amarelo de pólen


Tradução de Jorge Sousa Braga


sábado, maio 05, 2007

TADEUSZ RÓŻEWICZ

TADEUSZ RÓŻEWICZ nasceu em Radomsko em 1921. Estudou História da Arte na Universidade de Jagueloniana, em Cracóvia. Viveu em Wroclaw durante trinta anos. Poeta, dramaturgo e novelista foi traduzido em numerosos idiomas, sendo considerado um precursor da vanguarda em poesia e drama, um inovador firmemente arraigado na recriação incessante da tradição romântica. Independente, diz-se convencido de uma missão artística que considera um estado de concentração interna, agilidade interior e sensibilidade ética. Różewicz pesquisa as instâncias contemporâneas da crueldade humana. É o fundador de uma tendência chocante da literatura polaca que se concentra na existência, concebida como o esforço para existir, como a luta contra o nada. Jorge Sousa Braga colabora uma vez mais no Poesia Ilimitada, com a tradução de "A Poesia nem sempre...":


A POESIA NEM SEMPRE…

a poesia nem sempre
adopta a forma
de um poema

depois de cinquenta anos
a escrever
a poesia
pode apresentar-se
ao poeta
na forma de uma árvore
de um pássaro
que voa
de luz

adopta a forma
de uma boca
refugia-se no silêncio

ou vive no poeta
livre de forma e de conteúdo


domingo, março 18, 2007

ZBIGNIEW HERBERT

ZBIGNIEW HERBERT (1924 – 1998) nasceu em Lvov. Mudou-se com a família para Cracóvia quando a sua cidade natal foi integrada na Ucrânia. Formado em economia e direito, estudou ainda filosofia e história de arte. Nas décadas de sessenta e setenta viajou muito, sobretudo pela França, Grécia e Itália. Viveu em Paris, Berlim e nos Estados Unidos, tendo em 1992 regressado definitivamente a Varsóvia, na Polónia, já doente. O poema “O Divino Cláudio” é aqui apresentado, em mais uma notável colaboração de Jorge Sousa Braga, para o Poesia Ilimitada.


O DIVINO CLAUDIO



Dizem que fui
gerado pela Natureza
mas que esta deixou o trabalho por acabar
como uma escultura abandonada
um esboço
o fragmento danificado de um poema

durante anos fingi que era um idiota
os idiotas vivem mais seguros
calmamente pus de lado os insultos
se plantasse todos os buracos
cavados na minha face
um olival teria nascido
um vasto oásis de palmeiras

recebi uma educação complexa
Tito Lívio os retóricos e os filósofos
falava grego como um ateniense
embora só me pareça com Platão
quando estou deitado

completei os meus estudos
nas tavernas da doca e nos bordéis
esses dicionários não escritos de latim vulgar
e vós insondáveis tesouros de crime e luxúria

depois do assassínio de Calígula
escondi-me por detrás de uma cortina
arrastaram-me de lá à força
não consegui adoptar uma expressão inteligente
quando arremessaram aos meus pés o mundo
ridículo e plano

a partir de então tornei-me o mais diligente
imperador da história universal
um Hércules de burocracia
recordo com orgulho a minha lei liberal
permitindo que se soltassem gases
do traseiro durante as festas

nego a acusação de crueldade muitas vezes feita contra mim
na realidade estava apenas distraído

no dia do assassínio violento de Messalina—
coitada admito que foi morta às minhas ordens—
perguntei durante o banquete—porque é que Messalina não veio
respondeu-me um silêncio de morte
na verdade tinha-me esquecido

às vezes acontecia-me convidar
o morto para um jogo de dados
punia a falta de comparência com uma multa
sobrecarregado de trabalho
devo ter errado em alguns pequenos detalhes

é o que parece

ordenei que trinta e cinco senadores
e os cavaleiros de cerca de três
centuriões
fossem executados
bem e daí
um pouco menos de púrpura
menos anéis de ouro
por outro lado—
e isto não é um gracejo—
mais espaço no teatro

ninguém queria compreender
que o objectivo destas medidas era sublime
sempre desejei fazer com que a morte fosse familiar às pessoas
embotar o seu gume
reduzi-la à dimensão banal
do dia a dia
de uma leve depressão ou de uma constipação

eis aqui a prova
da delicadeza dos meus sentimentos
retirei a estátua do gentil Augusto
da praça das execuções
para que o mármore sensível
não ouvisse os berros
dos condenados

as minhas noites eram dedicadas ao estudo
escrevi a história dos Etruscos
a história de Cartago
uma composição ligeira sobre Saturno
uma introdução à história do jogo
e um tratado sobre o veneno das serpentes

fui eu quem salvou Ostia
da invasão da areia
drenei pântanos
construí aquedutos
desde então tornou-se mais fácil em Roma
lavar o sangue

expandi as fronteiras do império
até à Britânia e à Mauritânia
e se não me engano a Trácia

a minha morte deve-se à minha mulher Agripina
e a uma paixão incontrolável por boletos os cogumelos—
a essência da floresta—tornaram-se a essência da morte

posteridade—recorda com honra e gratidão
pelo menos um mérito do divino Cláudio
acrescentei novos sinais e sons ao nosso alfabeto
expandi os limites da fala isto é
os limites da liberdade

as letras que descobri—adoradas
filhas—Digama e Antisigma
precedem a minha sombra
enquanto com passos titubeantes
persigo a sombria terra de Orcus


sábado, janeiro 13, 2007

WISŁAWA SZYMBORSKA

Sobre WISŁAWA SZYMBORSKA (Kórnik, Polónia, 1923), prémio Nobel da Literatura de 1996, escreveu Czesław Miłosz (1911-2004), seu conterrâneo, prémio Nobel da Literatura de 1980: "Que relação pode haver entre a poesia de Szymborska, caracterizada precisamente pela sua ligeireza céptica, sorridente, lúdica e a história do século XX, ou de qualquer outro século? (…) A dimensão da sua poesia é pessoal, a de alguém que reflecte sobre a condição humana. (…) Os poemas de Szymborska exploram situações pessoais, mas ao mesmo tempo tão genéricos que permitem à sua autora evitar as confidências. (…) A reticência e a distância irónica consigo mesma são, sem dúvida, reveladoras das tendências mais marcadas da poetisa. (…) Para mim, Szymborska é, antes de mais, uma poetisa da consciência. Isso significa que nos fala, aos seus contemporâneos, como se fosse um de nós, reservando e guardando para si assuntos pessoais e intervindo de certa distância, mas sem deixar de remeter para o que cada um sabe da sua própria vida.” Se acha que já nada em poesia o pode surpreender, corra a ler “Paisagem Com Grão de Areia”, (Relógio d’Água, Lisboa, 1998, tradução de Júlio Sousa Gomes), de onde retirei, com a devida vénia, este poema:



O TERRORISTA… OLHA

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.

O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo... entra.
Um homem de óculos escuros... sai.
Rapazes de jeans... conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.

Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
isso se saberá pelas notícias.

Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo que sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
faltam treze segundos para as treze e vinte,
e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba.... explode


sábado, janeiro 06, 2007

CZESŁAW MIŁOSZ

CZESŁAW MIŁOSZ (1911-2004), poeta, romancista, historiador e ensaísta, nasceu a 30 de Junho de 1911, em Szetejny, na Lituânia, país onde se formou em direito pela Universidade de Vilnius. Foi um dos principais animadores culturais da tertúlia clandestina de Varsóvia, na Polónia, país que adoptou e o adoptou. Depois da ocupação nazi, trabalhou como diplomata em Nova Iorque, Washington e Paris, tendo recebido o Nobel da Literatura em 1980. A editora “Cavalo de Ferro” editou em 2004 a dupla antologia “Alguns gostam de poesia”, (poemas de Czesław Miłosz e Wisława Szymborska), numa tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves, de onde reproduzo, com a devida vénia, este poema.



DESCRIÇÃO HONESTA DE MIM PRÓPRIO BEBENDO
UM WHISKY NO AEROPORTO, DIGAMOS DE MINEÁPOLIS

Os meus ouvidos escutam cada vez menos as conversas, os meus
[olhos enfraquecem, continuando porém insaciados.

Vejo as pernas delas de mini-saia, de calças,
[ou de tecidos vaporosos,

Espreito cada uma, os seus rabos e coxas, pensativo,
[embalado por sonhos porno.

Ó lascivo velho jarreta, estás com os pés para a cova
[e não para os jogos e brincadeiras da juventude.

Mas não é verdade, faço apenas aquilo que sempre fiz,
[compondo as cenas desta terra, movido pela
[imaginação erótica.

Não desejo justamente estas criaturas, desejo tudo,
e elas são como um sinal de convívio extático.

Não tenho culpa de sermos feitos assim, metade de
[contemplação

desinteressada e metade de apetite.

Se depois de morrer for para o Céu, lá, terá de ser como aqui,
apenas hei-de livrar-me dos sentidos entorpecidos
[e dos ossos pesados.

Transformado em puro olhar, continuarei a absorver
[as proporções
do corpo humano, a cor dos lírios, a rua parisiense
[na madrugada de Junho.
Enfim, toda a inconcebível, a inconcebível pluralidade
[das coisas visíveis.


terça-feira, setembro 26, 2006

ADAM ZAGAJEWSKI

ADAM ZAGAJEWSKI, poeta, ficcionista e ensaista polaco vive em França desde 1982. Nasceu em Lvóv (hoje, Ucrânia) em 1945 e passou a sua juventude na Silesia e em Cracóvia. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1972. É considerado um representante da "Geração de 68". Foi activista dissidente durante os anos 70: alguns dos seus poemas abordam questões politicas. Em 1982 imigrou para Paris. Poesia Ilimitada tem a honra de apresentar 12 poemas de ADAM ZAGAJEWSKI, em mais uma excepcional colaboração de Jorge Sousa Braga.



ODE À SUAVIDADE

As manhãs são cegas como gatinhos,
as unhas crescem confiadamente, não sabem
ainda o que arranhar. São suaves
os sonhos e a ternura abatem-se sobre nós
como nevoeiro, como o campanário da catedral de Cracóvia
antes que o gelo a abrace.


§


AUTORETRATO


Entre o computador, um lápis e uma máquina de escrever
passo metade do meu dia. Daqui a pouco farei meio século.
Vivo em cidades estranhas e por vezes falo
com estranhos acerca de assuntos estranhos para mim.
Ouço bastante música: Bach, Mahler, Chopin, Shostakovich.
Vejo três elementos na música: fraqueza, poder e dor.
O quarto não tem nome.
Leio poetas, vivos e mortos, que me ensinam
tenacidade, fé e orgulho. Tento compreender
os grandes filósofos – mas habitualmente apanho
apenas fragmentos dos seus preciosos pensamentos.
Gosto de dar longos passeios pelas ruas de Paris
e olhar os meus próximos, agitados pela inveja,
ira e desejo; observar a moeda de prata
que passa de mão em mão e lentamente perde
a sua forma redonda (o perfil do imperador está apagado).
A meu lado crescem árvores que não exprimem nada,
a não ser a sua verde e indiferente perfeição.
Aves negras caminham pelos campos,
sempre à espera de algo, pacientes como viúvas espanholas.
Já não sou jovem, mas há gente mais velha do que eu.
Gosto de dormir profundamente, como se deixasse de existir,
de corridas de bicicleta por caminhos rurais quando álamos e casas
se dissolvem como cúmulos em dias de sol.
Às vezes nos museus os quadros falam para mim
e a ironia esfuma-se de repente.
Encanta-me contemplar o rosto da minha mulher.
Todos os domingos telefono ao meu pai.
De duas em duas semanas reúno-me com os amigos,
para provar a minha fidelidade.
O meu país libertou-se do mal. Desejo
que outra libertação se siga.
Posso eu fazer alguma coisa por isso? Não sei.
Não sou um filho do mar,
como António Machado escreveu sobre si mesmo,
mas um filho do ar, da menta e do violoncelo,
e nem todos os caminhos do alto mundo
Se cruzam com os caminhos da vida que – até ver–
me pertencem.


§


TRAÇAS

As traças espiavam-nos através da janela.
Sentados à mesa, os seus olhos
cintilantes cravavam-se em nós,
mais duros que as suas frágeis asas.

Estareis sempre lá fora,
por detrás do vidro. E nós aqui dentro,
cada vez mais dentro. As traças espiavam-nos
através da janela, em Agosto.


§


SEM FORMA

Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
Se houvesse só isto,
as máscaras de morte dos poetas e os esqueletos
dos gigantes nas altas montanhas
e livros sobre o orgasmo dos animais
e negros bem vestidos que não
me vêm, e Keats gritando
e aqueles que estão ausentes e vestígios
tão leves como o arsénico
no cabelo de Napoleão, e máscaras imóveis
em rostos petrificados; os museus fechados
dos sonhos e a força que não quer
dormir e os símbolos maçónicos
Mozart escondido no seu Requiem,
enganando Deus desse modo: tanto por dizer,
e mulheres, que têm que viver neste momento
sem o terem pedido,
e países, livres uma vez,
descascados agora como maçãs,
e o tempo, que não cessa de mudar, e eu, eu próprio, maduro,
sem forma.


§


MISTICISMO PARA PRINCIPIANTES

O dia era calmo, a luz amigável.
No terraço do café aquele turista alemão
tinha no colo um pequeno livro.
Consegui ver o título:
Misticismo para principiantes.
Nesse momento compreendi que
as andorinhas que patrulhavam as ruas
de Montepulciano com os seus silvos estridentes,
e os diálogos surdos dos tímidos viajantes
do Leste, a chamada Europa Central,
e as garças reais de pé—ontem? antes de ontem?—
como freiras em campos de arroz,
e o crepúsculo, lento e sistemático,
apagando os contornos das casas medievais,
e as oliveiras nas pequenas colinas,
abandonadas ao vento e ao calor
e a cabeça da Princesa desconhecida,
que tinha visto e admirado no Louvre
e vitrais como asas de borboleta
salpicadas de pólen,
e o pequeno rouxinol que ensaiava
o seu canto, na berma da auto-estrada,
e qualquer viagem, todas as viagens.
são apenas misticismo para principiantes,
o curso elementar, o prelúdio
para um exame que
foi adiado.


§


A RAPARIGA DE VERMEER

A rapariga de Vermeer, agora famosa,
olha-me. A pérola olha-me.
Os lábios vermelhos, húmidos
e brilhantes da rapariga de Vermeer.

Rapariga de Vermeer, pérola,
turbante azul: és toda luz
e eu sou feito de sombra.
A luz olha a sombra com altivez,
condescendência, talvez piedade.


§


O ADEUS A ZBIGNIEW HERBERT

No início, só as cerejas e o cómico
voo dos morcegos, a maçã da lua, uma coruja sonolenta,
o sabor da água fria das primeiras excursões da escola.
As torres da cidade elevam-se como declarações de amor.
Depois, muito depois, o pó dourado da Provença,
as figueiras nas vinhas, a lição da branca Grécia,
obscuros museus, Piero e a sua Madona grávida
-e entretanto, duas ocupações, dois exércitos humanos,
os veículos amorfos da morte patrulham as tuas ruas.

Os longos dias traduzindo O Canto do melro cativo
de George Trakl, a alegria da primeira Paris,
após anos de fealdade e miséria soviética;
o teu sorriso matreiro, as tuas piadas infantis, a seriedade
e o humor que trouxeste à pequena catedral de Meuax
(Bossuet olhava-nos friamente),
as tardes de Berlim: Herr Doctor, Herr Privatdozent,
o arroz que espargias como confetti nas bodas de amigos,
mas também o silêncio e a amargura de meses nefastos.

Eu gostava de imaginar os teus passeios
na Umbria , Ligúria: a tua caça elegante,
a tua busca daqueles lugares onde os glaciares
se derretem, revelando as suas formas.
Eu gostava de imaginar as tuas andanças
pelos montes da poesia, na busca daquele lugar
onde o silêncio de súbito explode em fala,
mas encontrava-te sempre nos pequenos apartamentos
daqueles Molochs cinzentos chamados grandes cidades.

Tu por vezes lembras-me as tragédias da vida.
A vida raras vezes te deixou em paz.
Penso na tua geração, esmagada pela fatalidade,
a tua doença em Madrid, em Amsterdam
(Hotel Ambassade), mesmo na sagrada Jerusalém,
o hospital Saint-Louis, onde ficaste internado uma semana,
o calor derretendo os muros das casas e as fronteiras dos países,
e a tua semana final em Varsóvia.
Admiro o porte real dos teus poemas.


§


VIOLONCELO

Aqueles que não gostam dele dizem
que é apenas um violino mutante,
que foi chutado para fora do coro.
Nada disso.
O violoncelo tem muitos segredos,
mas nunca soluça,
apenas canta na sua voz grave.
Nem tudo nele se transforma em
canção, às vezes apanhas
um murmúrio ou um sussurro:
estou só.
não consigo dormir.


§


A ALMA

Tu sabes que não nos é permitido usar o teu nome.
Nós sabemos que tu és inexprimível,
anémica, frágil e suspeita
por misteriosas ofensas quando eras criança.
Nós sabemos que não te é permitido viver agora
na música ou nas árvores no crepúsculo.
Nós sabemos—ou pelo menos disseram-nos—
que tu não existes seja em que lado for.
E no entanto continuamos escutando a tua voz fatigada
--num eco, numa queixa, nas cartas que recebemos
de Antígona no deserto Grego.


§


UM PARDAL MORTO

De todas as coisas
o pardal morto no seu sobretudo cinzento de penas
é a menos invulgar.
Uma pedra na berma da estrada parece-se
com um príncipe quando comparada
com um pardal morto.
As moscas rodeiam-no
atentas como estudantes de anatomia.


§


TENTA LOUVAR O MUNDO ESTROPIADO

Tenta louvar o mundo estropiado.
Recorda os longos dias de Junho,
e os morangos selvagens, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que metodicamente invadem
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens que louvar o mundo estropiado.
Olhaste os iates e os barcos;
um deles preparava-se para uma longa viagem,
enquanto um esquecimento salgado aguardava os outros.
Viste os refugiados partindo para nenhures,
escutaste os carrascos a cantar alegremente.
Devias louvar o mundo estropiado.
Recorda os momentos em que estávamos juntos,
num quarto branco e as cortinas esvoaçavam.
Regressa em pensamento ao concerto onde a música explodia..
Apanhaste bolotas no parque no Outono
e o redemoinho das folhas cobria as cicatrizes da terra.
Louva o mundo estropiado,
e a pena cinzenta que um tordo perdeu,
e a luz afável que se afasta e se desvanece
e regressa de novo.


§


BÁRBAROS

Nós somos os bárbaros.
Vós tremeis perante nós nos vossos palácios.
Vós esperais por nós com os corações batendo ruidosamente.
Vós comentais nas nossas línguas:
Eles aparentemente consistem apenas em consoantes.
sussurros, murmúrios e folhas secas.
Nós somos aqueles que viviam nas florestas sombrias.
Nós somos aquilo que Ovídio receava em Tomi,
Nós somos os adoradores de deuses cujos nomes
vós não sois capazes de pronunciar.
Mas nós também conhecemos a solidão
e o medo, e começamos a ansiar pela poesia.