sábado, janeiro 13, 2007

WISŁAWA SZYMBORSKA

Sobre WISŁAWA SZYMBORSKA (Kórnik, Polónia, 1923), prémio Nobel da Literatura de 1996, escreveu Czesław Miłosz (1911-2004), seu conterrâneo, prémio Nobel da Literatura de 1980: "Que relação pode haver entre a poesia de Szymborska, caracterizada precisamente pela sua ligeireza céptica, sorridente, lúdica e a história do século XX, ou de qualquer outro século? (…) A dimensão da sua poesia é pessoal, a de alguém que reflecte sobre a condição humana. (…) Os poemas de Szymborska exploram situações pessoais, mas ao mesmo tempo tão genéricos que permitem à sua autora evitar as confidências. (…) A reticência e a distância irónica consigo mesma são, sem dúvida, reveladoras das tendências mais marcadas da poetisa. (…) Para mim, Szymborska é, antes de mais, uma poetisa da consciência. Isso significa que nos fala, aos seus contemporâneos, como se fosse um de nós, reservando e guardando para si assuntos pessoais e intervindo de certa distância, mas sem deixar de remeter para o que cada um sabe da sua própria vida.” Se acha que já nada em poesia o pode surpreender, corra a ler “Paisagem Com Grão de Areia”, (Relógio d’Água, Lisboa, 1998, tradução de Júlio Sousa Gomes), de onde retirei, com a devida vénia, este poema:



O TERRORISTA… OLHA

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.

O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo... entra.
Um homem de óculos escuros... sai.
Rapazes de jeans... conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.

Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
isso se saberá pelas notícias.

Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo que sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
faltam treze segundos para as treze e vinte,
e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba.... explode


4 comentários:

prozina disse...

há uma coisa em comum entre as suas palavras e as minhas, não me apetece ainda é dizer o que é

Tailer disse...

se fosse um pouco mais depressivo seria óptimo :)

andre disse...

onde compro livro traduzido para português dela?

João Luís Barreto Guimarães disse...

André,
Existem dois livros, ambos na Relógio d'Água. O primeiro chama-se "Paisagem com grão de areia", é de Junho de 1998, e trata-se de uma antologia da sua obra traduzida por Júlio Sousa Gomes. O segundo chama-se "Instante", é de Janeiro de 2006, sendo uma tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, a partir da obra homónima publicada na Polónia em 2002. Para grande tristeza minha, nada mais saiu em Portugal, em mais um exemplo típico de um poeta que tendo recebido um grande prémio internacional, o Nobel(1996), foi depois abandonado editorialmente pelas casas editoras...