Terça-feira, Novembro 10, 2009

ADÍLIA LOPES (2)

Em leitura: Dobra, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, de Adília Lopes.


Também aqui.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (4)

De "O Viajante sem Sono" (Assirio & Alvim, 2009), por José Tolentino Mendonça:



BICICLETAS


Por muito tempo amarei casas que existam apenas
para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote
As casas interessantes não têm pretensão nenhuma
Estão perto de nós na hora necessária
mas a qualquer momento
com mais clareza
afastam-se das certezas que perdemos
e da imensidão que se avista de lá

Um velho provérbio diz:
Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo
de uma estação clemente


§


Também aqui, aqui e aqui.

Domingo, Outubro 25, 2009

O Problema das etiquetas



E aqui está, razoavelmente arrumado, o Poesia & Lda (Poesia Ilimitada, para os amigos..), com os seus 177 posts sobre poesia, poetas e poemas. No fundo, uma antologia, levada a cabo por mim (e pelo Jorge Sousa Braga), ao sabor das nossas leituras dos últimos 3 anos.
Em alguns dos casos a tarefa de etiquetar revelou-se difícil: Max Aub, por exemplo, nasceu em Paris, filho de pai alemão e de mãe francesa, passou grande parte da sua vida em Espanha e editou no México. Isso faz dele um poeta francês, alemão ou de lingua castelhana? Rilke, intimamente ligado à cidade de Praga, é mais um poeta alemão que checo, certo?

Felizmente, é fácil corrigir uma etiqueta. Os blogues têm essa vantagem(?) sobre os livros. E as vossas sugestões serão bem-vindas. Particulamente para a secção "Poesia & Lda feita pelos seus leitores" (título roubado ao Abrupto). Pela nossa parte, e depois de vários pedidos feitos nesse sentido, entrego-vos o blogue mais arrumado e mais fácil de consultar.

E agradeço as mais de 4.000 visitas por mês, num blogue que por vezes passa meses inteiros em silêncio. Só a nossa absoluta falta de tempo nos tem impedido de postar (estranho verbo) com mais frequência.

Boas leituras.

Domingo, Agosto 16, 2009

MARGARETA EKSTRÖM

MARGARETA EKSTRÖM nasceu em 1930 em Estocolmo. Poeta, critica, cronista, é mais conhecida porém como ficcionista de histórias curtas, algumas das quais traduzidas em diversos países. Mãe da poeta Johanna Ekström (Estocolmo, 1970), a sua poesia é marcada por uma atenção feliz às pequenas coisas, à ternura, à fragilidade humana, num frágil equilibrio que revela o nosso medo de viver. Os poemas que se seguem são versões minhas traduzidas do inglês e retiradas do livro “To catch Life Anew – 10 swedish women poets” (tradução do sueco de Eva Claeson), Oyster River (Durham, New Hampshire, 2006).



PARA USO DIÁRIO

Se a vida não fosse tão insubstituível
talvez ousássemos utilizá-la.
Porém arrumamo-la na prateleira
como um vistoso par de sapatos
que é bonito de se ver
mas não para uso diário.
Assim, continuamos por aí sentados
numa expectativa descalça.



§



CANÇÃO DA FORMIGA


Na compota de framboesa
da firma respeitada
jazia uma formiga.
Fiquei tão agradada:
uma formiga, uma verdadeira formiga,
uma formiga não listada nos "ingredientes"
a provar que existe verão.

Lá fora, a névoa do árctico caí espessa.
Cá dentro, uma formiga deitada no meu prato
como que fechada em âmbar.

As idades encontram-se.
Os espaços colidem.
Tempo da framboesa e espaço da framboesa
com o tempo do jornal e o espaço do pequeno-almoço.
E o tempo da formiga,
tão piedosamente contrariado pela compota
veio aterrar
num jarro.

Nem mesmo o Museu Nacional de História Natural
nos consegue surpreender tanto!



§



O FUNERAL


Na noite do funeral
eles abraçaram-me,
beijaram-me, mesmo esses
que habitualmente não beijam.
Apoiaram-me e perguntaram
se precisava de soporíferos,
estimulantes,
um xerez ou companhia para a noite.

Cada noite é um funeral
mas ninguém vem para me abraçar.
Ninguém pergunta como as coisas vão
se preciso de companhia para a noite,
um xerez, um soporífero.

Porque é apenas um dia como tantos
que morreu, e todos
temos que gerir isso o melhor que pudermos.


Sexta-feira, Agosto 07, 2009

"Ok, a poesia vende, mas muito pouco..."

Dos 89% de leitores que compraram poesia neste meio ano (e responderam ao inquérito do Poesia Ilimitada), 47% não chegaram a fazê-lo à média de um livro por mês. A esses - e a novos visitantes deste blogue que se revejam nessa permissa - gostaria de fazer a pergunta que se segue, bem como convidá-los a comentar o resultado deste inquérito:






Quinta-feira, Agosto 06, 2009

SONIA ÅKESSON, KRISTINA LUGN, BARBRO DAHLIN

SONIA ÅKESSON nasceu em 1926 na ilha báltica de Gotland, tendo falecido em 1977 com 51 anos. Poeta de referência para gerações ulteriores, escreveu poemas socialmente comprometidos com o estado social – uma sociedade consciente, com segurança económica para todos - e do papel da mulher na nova sociedade sueca, num estilo simples e confessional conhecido por “Nova Simplicidade”, caracterizado entre outros aspectos pelo ritmo e pela repetição.


SIM, POR FAVOR

Uma mão quente.
Uma casa quente.
Um pullover quente
para cobrir meus pensamentos gelados.
Um corpo quente
para cobrir o meu corpo.
Uma alma quente
para cobrir a minha alma.
Uma vida quente
para cobrir a minha vida gelada.


KRISTINA LUGN, poeta e dramaturga sueca, nasceu em 1948. A sua é igualmente uma poesia que reflecte as aspirações e os sentimentos, a fragilidade e a solidão das mulheres subjugadas, em poemas negros e dramáticos, onde a morte é um elemento presente de uma forma quase inocente. Diversas vezes premiada, foi directora artística e directora do Dramaten Theather de Estocolmo.


TENHO DE TRATAR DAS COISAS

Tenho de tratar das coisas antes de partir.
Preciso de sapatos.
Preciso de uns bons sapatos.
Com solas de borracha.
Acho que isto vai ser duro.

Olhem para mim agora.

Vejo que me estou a aproximar com uma faca.
Vejo que me estou a aproximar com uma corda.
Alguma vez o tiro terá de ser disparado.
Importunei as pessoas com isto durante cinquenta anos.
Demorará meio segundo.

Porque é que me estão a olhar agora?

O amor não é para sempre.
Mas a morte é.
A morte é para sempre.

Adeus, vemo-nos mais tarde!

BARBRO DAHLIN (1940-2000) viveu em Estocolmo e em Öland, uma ilha do Mar Báltico. Além de poeta e novelista, exercia psiquiatria. A sua poesia, à semelhança de muita da poesia sueca, é caracterizada por um recurso a símbolos da natureza, em concreto, imagens de sensualidade e esperança.


DIA CLARO


Em Junho existem dias
em que o vento vem de norte
e o ar é gelado e limpo
o céu nu e apagado
Ao longe no horizonte
um pássaro gela parado
Tirando isso não há sinais
e nenhum rastro marcado
Quem olhar para cima cai
como se a gravidade não mais
segurasse as suas maçãs
Esse é o dia que a terra pára
para recuperar o fôlego


§


Os poemas seleccionados são versões minhas do inglês retiradas do livro “To Catch Life Anew – 10 Swedish Women Poets” (tradução do sueco de Eva Claeson), Oyster River (Durham, New Hampshire, 2006).


Domingo, Agosto 02, 2009

«Sabe, a poesia não se vende...»


Segunda-feira, Julho 06, 2009

A. M. PIRES CABRAL

A. M. PIRES CABRAL nasceu em 1941 em Chacim, Macedo de Cavaleiros, Trás-os-Montes. Licenciou-se em Filologia Germânica na Universidade de Coimbra. É autor de uma vasta obra literária onde a poesia não assume o menor papel. "As Têmporas da Cinza" (Cotovia, 2008), é um livro impressionante de maturidade. Esta é a poesia dos grandes temas entre os quais a morte, a frágil condição humana, a fraca matéria de que é feita a carne, a crítica a um deus indiferente perante o peso omnipresente da passagem do tempo. Dois poemas, com a devida vénia, deste livro que curiosamente, foi também finalista da short-list do prémio Correntes d' Escritas 2009:



A MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA


A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa,
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe - mais dia, menos dia -
por devorá-los todos.



§


FARPAS


Tanta farpa cravei por acidente
no meu próprio flanco.

As farpas oscilam a cada passo meu,
lacerando sempre um pouco mais
os rasgões que já trago na carne.

Toma para ti - ò touro divino,
verdadeiro destinatário delas! -
algumas dessas farpas.

Que todas sobre mim são muito peso,
muita dor,
muito sangue empastando sobre a pele,
muita mosca cevando-se no sangue.


Domingo, Julho 05, 2009

JORGE GOMES MIRANDA (3)

(Leia a crítica do jornal espanhol abc: Objetos parlantes, por Jaime Siles)


O título, como convém, é ambiguo. Começamos a ler os poemas - que têm por título substantivos, - e logo nos assalta a dúvida sobre quem será o narrador: o poeta, autobiográfico, ou uma personna literária. Logo no primeiro poema, “Chávena” apercebemo-nos da existência de um homem como personagem, para mais tarde descobrirmos, vinte e uma linhas depois, que afinal é a própria chávena quem fala: “o chá desce sobre mim”.

"O Acidente" é um livro de poemas que joga com o leitor e o surpreende a cada passo. Ao segundo poema, “Bilhete de comboio”, começamos a desconfiar que o jogo da personificação se vai repetir, que a voz de cada poema irá ser a do objecto cujo significante encima o texto como título. Pela fala do “Bilhete de comboio” apercebemo-nos de que alguém partiu, e ao terceiro poema, pela voz da “Estante”, ficamos a saber que também existe uma criança a rondar por ali. No corpo do quarto texto é o “Lápis” quem informa que a partida aludida no segundo poema terá sido definitiva, - uma morte, portanto - e é um “Relógio”, ao sexto poema, quem nos diz que quem morreu foi uma mulher.

Este processo prossegue, de revelação em revelação, socorrendo-se de um quotidiano familiar e coloquial, mas mais importante do que isso, traçando a arqueologia de uma narrativa, re-construindo o esboço de um episódio, de uma estória, libertando aos poucos informação rasurada, enigmática, tensa, sintética, como é próprio da construção de uma ficção. Como se a complexidade sintática das obras anteriores a esta desse agora lugar a uma prosa fluente e limpa, densificando-se, ao invés, a forma e a estrutura.

Este é um livro conceptual e aí reside a sua originalidade. Não que JORGE GOMES MIRANDA (Porto, 1965) não tivesse já esboçado este internar da poesia na ficção (citarei apenas como dois exemplos “Quatro Mensagens deixadas no Telemóvel” (de “A Hora Perdida”, Campo das Letras, 2003), ou a sequência de dois poemas em forma de "E-Mail" sobre a Guerra do Golfo (“Pontos Luminosos”, Averno, 2004), mas aqui como mais tarde em “Resgate” (Fundação de Serralves, 2008), - neste último cruzando de forma ideal duas narrativas e duas vozes diferentes num só livro, - essa intenção representa todo um programa de escrita. Surpreendente e original, repito.

A razão porque regresso a este livro é a oportuna edição que teve em Espanha na Editorial Quálea, (Torrelavega, Cantábria, 2009), graças à visão, labor e inteligência crítica de José Ángel Cilleruelo que o repescou à vasta poesia portuguesa de hoje e o traduziu para castelhano, assim repondo além-fronteiras com inteira justiça, a atenção que este livro não mereceu em Portugal.

Voltando ao livro: aquele jogo de personificações narra qualquer coisa que não revelarei aqui mas permitir-me-ei escolher alguns dos seus momentos tensos, elípticos, irónicos ou humorados, como quando, por exemplo, o “Bilhete de comboio” lamenta placidamente que “meu destino será permanecer / e um dia despertar, no meio de um livro”, ou a “Lâmina de barbear II” (existe uma primeira “Lâmina de barbear”), enciumada, fala da “casa de banho / onde, sem hesitação ou culpa, / me trocou por outra", ou ainda quando o “Calendário de bolso” pisca o olho ao peso da memória relembrando que “em mim trago também / os dias passados”. Ou, finalmente, quando a “Mala de viagem” se queixa de que ele “Atira a porta de casa / (...) Com maus modos leva-me pela mão" rematando óbviamente com duplo sentido, que só "Por pudor não direi o que trago dentro de mim.

Objectos com sentimentos, portanto, mas também o sentir os objectos olhando uma parcela do mundo com uma fortíssima preocupação ficcional, distanciando-se esta escrita da biografia e do confessionalismo. José Ángel Cilleruelo fala mesmo "de um passo mais no caminho de despersonificação que abriu Fernando Pessoa na poesia europeia: perdida a essência do eu, ganham vida os objectos, as coisas, os acidentes impregnados do rumor do sujeito".

Este é seguramente um daqueles livros que pelos motivos explicados funciona melhor em leitura completa. Mas aqui fica um poema de “O Acidente” (Assírio & Alvim, 2007), que, relembro, foi finalista da short-list de poesia do importante prémio literário Correntes d’ Escritas 2009. Com a devida vénia:



MOLA DE ROUPA

Conservei-me afastada do estendal
durante algum tempo.
Sofro de vertigens, por isso
intimidava-me olhar para baixo,
o pátio vazio, restos de flores secas.
Um prédio com dez andares
e ele tinha logo que viver no último,
tendo como horizonte o mar
de terraços e antenas parabólicas.

Quando, chegado com a roupa
da máquina de lavar,
pega em mim,
de suas mãos eu deslizo para o chão.
Apressado, em vez de me apanhar
imediatamente, escolhe outra;
no final, atira-me para o cesto
de verga.

Não é que seja particularmente ardilosa,
mas verdade seja dita, preferia ser
mola de rés-do-chão,
dessas que faça sol ou chuva
sempre prendem a roupa numa corda
estendida no pátio.
O destino quis-me feita de plástico,
com um coração inclinado à melancolia.
Tenho, no entanto, como divisa
antes quebrar que torcer.

Sonho com o dia em que nas mãos da criança
serei um comboio.


§


Também aqui e aqui.


Sexta-feira, Julho 03, 2009

RUI PIRES CABRAL (5)

(este post vai dedicado ao meu novo amigo João Paulo Sousa)

RUI PIRES CABRAL (Macedo de Cavaleiros, 1967) acaba de publicar “Oráculos de Cabeceira” (Averno, 2009). Neste seu último livro, o autor permite que a sua voz assuma um registo mais pessoal - sem sombra de confessionalismo, porém - onde o assunto dos amores e do desencontro ("um coração / com defeito"), bem como uma especial capacidade para ver (para re-parar) naquilo que pode constituir material poético passivel de plasmar a contemporaneidade ("esta pomba trucidada pela ambulância"), são transversais a toda uma obra que, se quisermos, pode ser vista e lida como um único poema urbano feito de fragmentos que terminam, quase sempre, em finais disfóricos.

Uma das características que mais aprecio na poesia de Rui Pires Cabral é a qualidade sintáctica com que os poemas se desembrulham, se desenvolvem, numa original teia descritiva (a tempos, mais narrativa), que deixa vincada uma angustiante sensação de incompletude (“como um verso interrompido / nas costas de um envelope”), e a descrença niilista no absurdo da vida (“ou vontade de vingar / o dissabor de viver”).

As viagens (físicas) que caracterizavam os seus primeiros títulos dão agora lugar (porque "As cidades cansam") a uma muito particular viagem por uma lista de leituras (literalmente “abertas ao acaso”) que encimam cada poema, e que decorrendo num ambiente urbano que estava já presente na sua escrita, acentuam agora a perplexidade de uma paisagem sentimental interior que não é particularmente alegre nem feliz, e que a cada passo questiona a vida e os limites da existência, os "encargos / de sombra", sob o signo da solidão. Um desencanto indesistente, portanto: "tinta preta que não sai". Inconformado.

Um poema deste livro, com a devida vénia:



“He loved beauty that looked kind of destroyed”

Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrebalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


§


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Quarta-feira, Junho 24, 2009

JOHN MONTAGUE


JOHN MONTAGUE nasceu em Brooklin, Nova Iorque, em 1929 mas cedo se mudou, ainda criança, para Garvaghey, Irlanda, devido a dificuldades económicas de seu pai que emigrara para o Novo Mundo em 1925. Tal facto representou como que um retrocesso no tempo e não deixou de influênciar a sua poesia que assim não rejeita uma certa ruralidade, contrária aos modismos reinantes. É um poeta de tal qualidade que bem poderia ter sido o escolhido para vencer o Nobel atribuido a Seamus Heaney, sem desprimor para este. É um poeta dessa estirpe. Montague é celebrado, entre outros aspectos, pela musicalidade da sua poesia, pelo uso da assonância e pela forma como cuida de cada linha do poema através de um apurado uso do enjambement, acreditando que a forma como o poema se apresenta à leitura deve simetrizar o discurso coloquial. Não fugiu à temática irlandesa mas como bem notou Jorge Gomes Miranda: "Como Heaney, a sua atitude em relação à luta entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte é a de alguém que não toma partido por nenhum dos lados, nela apenas vendo a universal tragédia da vida humana." Ética, enfim. De saída para Dublin, aqui deixo 3 poemas que foram alvo de tradução colectiva nos encontros de poesia "Poetas em Mateus", em Setembro de 1991, e editados pela Quetzal em 1993 sob o título "Uma Luz Diferente", edição revista, completada e apresentada por Fernando J. B. Martinho. Com a devida vénia:




A TRUTA

De bruços na margem afastei
Os juncos, para deixar que as mãos
Entrassem na água sem a enrugar
E para as inclinar lentas no sentido da corrente
Até onde ela estava, leve gavinha
No seu fluido sonho sensual.

Senhor sem corpo da criação
Debrucei-me por instantes sobre ela
Tomando o gosto à minha própria ausência,
Expandindo os sentidos em câmara
Lenta, a pausa fotográfica
Que precede a acção,

Enquanto a curva das minhas mãos
Ia ondulando sobre o seu corpo
Ela irrompeu, com visível prazer.
Estava tão irrealmente perto
Que podia contar-lhe cada pinta
Mas sem a cobrir de sombra, até que

As palmas das mãos se tornaram armadilha
Sob as guelras que latejavam levemente.
Depois (revestindo a minha própria forma
Ampliada, a cavalo nas águas)
Agarrei-a. E ainda hoje
Saboreio o seu terror nas minhas mãos.


§


A GAIOLA


Meu pai, o menos feliz
dos homens que conheci. O seu rosto
retinha a palidez
dos que trabalham debaixo do chão:
os anos perdidos em Brooklyn
ouvindo o metropolitano
sacudir a terra.

Mas um irlandês tradicional
que (libertado das grades
da estação de Clark Street)
bebia whiskey puro até
alcançar o único elemento
em que ainda se sentia
à vontade: o espesso olvido.

E mesmo assim recompunha-se,
quase todas a manhãs,
para marchar rua abaixo
distribuindo sorrisos
em todas as direcções
do decente bairro de brancos
apascentado pela igreja de Santa Teresa.

Quando regressou
dávamos passeios juntos
pelos campos de Garvaghey
olhando os espinheiros nas moitas
de verão, como se ele
nunca tivesse partido;
uma curva da estrada

que abrigava ainda
malmequeres. Mas nós
não sorríamos na
partilhada cumplicidade
de um sonho, pois quando,
exausto, Ulisses volta a casa
Telémaco deve partir.

Muitas vezes, ao descer
ao metro ou às profundas,
vejo a sua cabeça calva, atrás
das grades da bilheteira;
a marca de um antigo acidente
de automóvel lateja-lhe
na fronte de fantasma.


§


UMA LÍNGUA ENXERTADA


(Muda,
em sangue, eis a cabeça
decepada sufocando
ao falar outra língua —

Como num
sonho longamente reprimido
a provação gaguejante e
confusa que me cabe)

Uma criança
irlandesa chora na escola
ao ter de decorar o seu Inglês.
De cada vez que erra

O professor
grava-lhe mais um sinal
na coleira de pau
que traz ao pescoço

Como o chocalho
de uma vaca, a peia
de uma cabra extraviada.
Tartamuda, tropeça

Cheia de vergonha
nas sílabas mudadas
do seu próprio nome:
regressa triste a casa

Para achar
a pedra enegrecida
da lareira paterna
cada vez mais estranha:

Nas choupanas
e no campo, ainda
falam a velha língua.
Impossível saudá-los.

Aprender
uma segunda língua,
tão dura humilhação
como nascer duas vezes.

Décadas depois
a fala do neto da criança
tropeça ainda nas sílabas
perdidas de uma velha ordem.


Domingo, Junho 07, 2009

MANUEL ANTÓNIO PINA


Ontem, 6 de Junho, na Feira do Livro do Porto, Manuel António Pina apresentou o meu último livro "A Parte pelo Todo", no âmbito de uma mesa submetida ao tema "Aquele que escreve é também eternamente escrito". O que se segue é o texto que li na ocasião e que pretendo partilhar com os leitores do Poesia Ilimitada sobre a poesia de Manuel António Pina.



ANÕES AOS OMBROS DE GIGANTES


dedicado a Manuel António Pina, poeta gigante


O tema que nos é proposto esta noite (“Aquele Que Escreve É Também Eternamente Escrito”), é particularmente pertinente quando falamos da obra de Manuel António Pina, não apenas porque são seus os versos “aquele que escreve / é também eternamente escrito” ou numa outra variante “Também aquele que escreve / é escrito para sempre”, mas porque na sua poesia - e na sua técnica de escrita, se posso usar este termo, – é perceptível a questão das famílias literárias, ou, usando uma expressão mais visceral, da consanguinidade literária.

Manuel António Pina (jornalista, poeta, cronista, ficcionista, dramaturgo, escritor de literatura infantil), é um daqueles escritores que já não se apresenta em colóquios como este pelos livros que escreveu, mas pelos prémios que recebeu: o Prémio da Critica da Associação Internacional de Críticos Literários, por “Atropelamento e Fuga” (de 2001), os Prémios da Associação Portuguesa de Escritores A.P.E. e da Fundação Luís Miguel Nava, pela obra “Os Livros” (de 2003), prémios que destaco de entre outros porque dizem respeito a duas obras de extraordinária maturidade que consagraram MAP como um dos maiores poetas portugueses actualmente a escrever e a editar.

Após uma fase inicial, a partir de 1965-1966 (sob a pena de falsos heterónimos como Billy The Kid de Mota de Pina ou Clóvis da Silva, ou Slim da Silva que “Aos 50 anos descobriu a irresistível vocação de falar sobre o que não conhecia”), onde a sua obra revisita o surrealismo, a escrita Beat, um certo niilismo, sendo possível encontrar versos directamente colhidos, como escreveu Shakespeare, do “olho da mente” (“the mind’s eye”):


“Só me faltavas tu para me faltar tudo”

“O braço que falta ao mendigo é o que o sustenta”



é a partir do anos 80, sensivelmente, que a sua escrita se renova enquanto discurso criativo, enigmático, subversivo, irónico e auto-irónico, de forte cariz analítico e filosofante, tendo no provocado cotejo de contrários – com vista à problematização do “eu”– e na morte ou principalmente na pequena morte quotidiana, temáticas recorrentes.

A questão dos “múltiplos” na obra poética de Manuel António Pina é um dos aspectos mais fascinantes e prende-se intimamente com o tema desta palestra. Jorge Luís Borges, uma referência seminal para MAP escreveu “Eu sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, todos os lugares que visitei, todas as pessoas que amei”. E é, de facto, impressionante o rol de autores cuja obra ou cujos versos é possível entrever na obra de MAP, mesmo para um leitor médio de poesia como sou, quer através da técnica da colagem, uma técnica vanguardista à década de 60 (quando outros se perdiam com a linguagem da linguagem) – lembremo-nos (como bom exemplo) de Rauchenberg, na pintura, uma década antes - técnica hoje chamada no mundo da música de samplagem, quer também o que MAP intitula de metamorfoses, no sentido de transformações de poemas, por vezes artes poéticas, que não assumem ainda o pendor kitsch de pastiche ou paródia, antes o de homenagem e afecto: Holderlin, Breton, Camões, Laforgue, Baudelaire, Blok, Quevedo, Yeats, Mallarmé, Fernando Lemos, Pound, Antero, Shakespeare, Nietzsche, Bataille, Hugues, Apollinaire, assim mesmo, sem qualquer ordem geográfica ou cronológica, somente ao fluir das leituras e da escrita que escreveram e que assim se vê eternamente lida para voltar de novo a ser escrita. Para ser re-escrita.

São referências intertextuais que surgem naturalmente no decurso da sua obra, não por pedantismo ou petulância, que não restem dúvidas, - aquele que os cita refere igualmente como referências Bob Dylan ou os Beatles, oriundos da música popular anglo-saxónica, Hugo Pratt, vindo da banda desenhada, ou até a Bíblia (como veremos mais adiante), - antes surgem por pura honestidade intelectual, deste que assegura:


“Igual aos deuses (com pouco me contento)
de livros e silêncio me alimento”


Existe porém nesta obra um grupo mais estrito onde a afinidade literária é significativamente maior, no tom (talvez), nos assuntos (seguramente), e na técnica (por vezes). Diria até que se trata de uma afinidade visceral, fraternal, tal é a consanguinidade literária com este grupo de poetas acerca de cujos livros – e pensando em MAP - Borges bem poderia sublinhar a sua máxima de que é bem mais importante para um autor reler (e reler e reler) do que ler: T. S. Eliot, Alexandre O’Neill, Mário Cesariny, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Rilke, Lewis Caroll, Ruy Belo e os maiores, para MAP, de entre todos, Jorge Luís Borges, ele mesmo, e esse outro poeta contra quem, suspeito, MAP escreve e escreveu – "matando o pai?" - chamado Fernando (de Campos Caeiro Reis Soares) Pessoa.

Porque a dicotomia entre o “eu” e o “outro”, (ou os “outros”,) num processo de ciciante afastamento e aproximação, em que o “eu” se diz “múltiplo” descobrindo-se e ocultando-se no “outro” ou nos “outros”, esta dicotomia, dizia, aparece a cada verso na poesia de MAP. O “eu” (seja o poeta narrador ou uma persona literária) confronta-se assim por um lado com a “memória” de si mesmo que re-lembra, re-conta e re-nova, ao mesmo tempo que engloba a "memória" do “outro”, ou dos "outros" em si. Igualmente presente na sua obra leio a dissociação corpo-mente, como se, a tempos, a mente descrevesse acções ou o pensamento do próprio corpo onde se insere, falando porém de um ponto de vista exterior a ele. Borges, Pessoa e possivelmente Roberto Juarroz sentir-se-iam eternamente reescritos se pudessem ler MAP.

Um dos instantes mais ternos em que a sua poesia plasma na perfeição o que acabo de referir acontece no poema KINDERGARTEN, onde o poeta escreve:


“As filhas brincam fora de o quê?
que infinitamente se interroga?
O fora de elas é dentro
de que exterior centro?”


ou neste outro poema de “Cuidados Intensivos” (de 1994), que ficciona uma Última Ceia de Cristo sui generis, instabilizando o papel do narrador/poeta naquela mesa de 13 mas também, de forma mais abrangente e transfigurada, questiona o seu peso pessoal no seu círculo de influência – ou poderia ter escrito, o lugar que a fé ocupa nas suas crenças pessoais -, mas também, se quisermos, interrogando os valores da Honestidade e da Justiça pelas quais tudo no mundo se rege ou se não rege, tudo isto através de um salto temporal histórico de séculos tão característico do pluralismo pós-moderno, onde o poeta é, à vez, o “eu” e os seus “múltiplos”: os apóstolos, o servo, um pecador, São Tomé, que duvidou, São Pedro, que descartou, São João, enternecido, Judas, que o traiu, e o próprio Cristo, como que dizendo “eu sou todos os outros”:


D’APRÈS D. FRANCISCO DE QUEVEDO

Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu peito.

E traí e fui traído,
e duvidei, e impacientei-me, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).

Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.

Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.


Como se o Real não passasse – utilizando a conhecida metáfora da cebola – de um pequeno globo de camadas concêntricas onde cada camada desconhece ainda quantas placas de sedimentação protege para dentro, e quantas a protegem por fora. Agrada-me este conceito de poesia enquanto arqueologia do Real, como forma de des-tapar, des-cobrir, des-cascar, deixando apenas a última camada, que chamaria de fina camada de pudor, sob pena de à custa de tanto descascar, como à cebola, levar o leitor às lágrimas do sentimentalismo, o que deve ser evitado.

Queria fechar a comunicação lembrando ainda, à vista do tema “Aquele que escreve é eternamente escrito” que o mau poeta copia descaradamente os versos de outros; o bom é o que rouba com classe e ainda tem o topete de intitular o acto com o pomposo epítome de “intertextualidade”. E queria louvar o papel do poeta que respeita a tradição e sobre ela trabalha. O dito de Bernard de Chartres, que viveu no século XII, relatado pela primeira vez no Metalogicon de John of Salisbury é sobre isso mesmo significativo:


Frequentemente sabemos mais, não porque tenhamos avançado pela nossa habilidade natural, mas porque somos apoiados pela força mental de outros, e possuímos riquezas que herdámos dos nossos antepassados. Bernard de Chartres costumava comparar-nos a insignificantes anões encarrapitados nos ombros de gigantes. Ele assinalou que nós vemos mais e mais longe do que os nossos predecessores, não porque nós tenhamos uma visão mais perspicaz ou maior altura, mas porque nós somos levantados e levados em cima da sua gigantesca estatura.


Anões aos ombros de gigantes, portanto, como nos lembra Matei Calinescu. É como me sinto perante MAP. A inspiração, desenganem-se os românticos, não passa de leitura, ofício e tradição. O meu desejo é que um dia alguém me roube tão bem como eu o roubei a si, Manuel António, tão bem como suspeito, - apenas suspeito, - que o Manuel António soube roubar a outros.


Porto, Feira do Livro, 6 de Junho de 2009.

Domingo, Maio 31, 2009

NELSON ASCHER

NELSON ASCHER (São Paulo, 1958) é poeta, tradutor e jornalista. Estudou um ano de Medicina que abandonou para seguir o curso de administração da Fundação Getúlio Vargas e posteriormente pós-graduação em semiótica na PUC-SP. Colaborou no jornal Folha de São Paulo desde os anos 80 até Agosto de 2008, escrevendo sobre literatura, cinema e política. Como poeta publicou Ponta da Língua (1983), Sonho da Razão (1993), Algo de Sol (1996) e Parte Alguma (2005). O Jorge Sousa Braga descobriu estes gatos no blogue do António Cícero e achou-os magníficos. Do livro Parte alguma, editado em São Paulo na Companhia das Letras, com a devida vénia:



ELEGIAZINHA

[i. m. nikita (gata da Inês)]


Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.



Terça-feira, Maio 12, 2009

RYSZARD KRYNICKI

RYSZARD KRYNICKI (Sankt Valentin, Áustria, 1943), poeta polaco, tradutor e editor. Publicou o seu primeiro livro em 1968. É um dos poetas da Geração de 68 (com Stanisław Barańczak e Adam Zagajewski), profundamente inspirados por Czesław Miłosz. Para além da dimensão politica da sua obra, os poetas da Nova Onda põem ênfase na renovação da linguagem, introduzindo na poesia polaca o cliché, a frase feita, fragmentos de artigos de jornal ou formulários burocráticos. Os 4 poemas que se seguem são versões minhas de poemas incluídos no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, selecção e prólogo de Maciej Ziętara com tradução do polaco para castelhano de Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008.



SUAVE E SILENCIOSAMENTE

Para Jan Lebenstein


Tememos demasiadas doenças incuráveis,
terramotos, viagens repentinas,
telegramas atrasados – e um olhar, cravado
na nuca –

mas a seu tempo tudo isso vem,
sem grande pressa – e sem atrasos -,
exactamente quando chega a hora,

nem sempre de forma definitiva,

suave e silenciosamente,
sem deixar pegadas na paisagem
movediça

como a hora de partida do comboio
ou uma ida ao cinema


§


PARTICIPANDO


«Participando na grande lotaria
do Centro de Saúde da Criança
comemoras os 2.000.000 de crianças
que caíram em combate ou foram brutalmente
assassinadas durante a II Guerra Mundial.
Levas ajuda e alívio
ao sofrimento de milhares de crianças
incapacitadas e doentes.
Cumpres com uma nobre e honrosa
obrigação cívica.
Obténs a oportunidade
de ganhar um prémio, tal como
automóveis Fiat 125p e 126p
tractores C-330, televisores,
rádios, frigoríficos, máquinas de coser,
máquinas de lavar,

e outros atractivos prémios».


§


NÃO SABIA



A caminho da escola
podia ver cada dia,
erguido sobre a cidade, um quartel
prussiano: não sabia
que durante a guerra ali trabalhou,
como médico militar, o poeta Gottfried Benn.
Não entendia muito de doenças

excepto de poesia.


§


ESTÃO LIVRES


- Estão livres – disse o guarda –
e fecha-se o portão de aço

agora deste lado.


BOHDAN ZADURA

BOHDAN ZADURA (Pulawy, 1945), poeta polaco, ficcionista, ensaísta, tradutor, estudou filosofia na Universidade de Varsóvia. Foi director literário do Teatro da Visão e Movimento de Lublin e co-editor de revistas literárias. Influenciado não tanto pela poesia intelectual e erudita de Zbigniew Herbert - mais pelo mundo poético de Miron Białoszewski, - como a este interessava-lhe mais a província, os subúrbios, os bairros periféricos de Varsóvia, a cultura kitsch da zona onde a cidade colidia com o campo, afirmando que o único compromisso da poesia é com a linguagem, defendendo a experiência individual ante os intentos unificadores dos diferentes dispositivos do poder. Os 3 poemas que se seguem são versões minhas de poemas incluídos no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, selecção e prólogo de Maciej Ziętara, com tradução do polaco para castelhano de Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008.



FRENTE


O tempo estava confuso
A hora imprecisa Acercava-se
chuva ou tempestade No éter
ouviam-se estalidos Apesar
das dificuldades não perdíamos
a conexão com o mundo

As ordens eram claras
Tínhamos que sorrir


§


***


A vida erótica da cidade
concentra-se nas suas zonas
erógenas

Este é o principio dado pelos deuses
gratuitamente Uma fila da cidade
e uma fila do corpo Desde as pontas
dos dedos desde o interior das mãos
até aos túneis de metro os arcos dos viadutos

e as pedras arrancadas com as unhas
das ruas empedradas

Antigamente – diz-me uma voz – o mistério
vivia nos templos Agora
só nos restam
estações e aeroportos

Nos cruzamentos
acendem-se semáforos
vermelhos

Um amigo
com uma covinha encantadora
no queixo
repara
cada situação
interpessoal
pode converter-se numa situação
erótica

A rua afoga-se
e morre de enfarte


§


UMA TARDE DE DEZEMBRO



Pela janela do comboio
vi um letreiro que dizia:
PARQUE INTERNACIONAL DA PAZ
E DA AMIZADE DOS POVOS
CEMITÉRIO MILITAR

no escaparate de uma livraria
vi um livro
Profecias e augúrios
sobre o fim do mundo e o bem para a Polónia

venho de uma família
de doentes da cabeça

um favor, América:

não poderias
cumprir os teus mitos
em tua casa?

Domingo, Maio 10, 2009

Um post que é preciso ler

Um post muito bom de José Miguel Silva.

«Não há nada mais fácil do que parecer profundo e perspicaz em verso. Não tem nada que saber: basta enchumaçar de alusões vagas os poemas, evitar quaisquer referências ao que quer que seja de concreto, nublar o discurso com cogitações tão confusas e gratuitas quanto possível, articuladas no modo elíptico da poesia pós-mallarmeana e vanguardista do século XX. Habilmente mutilado, gramatical e semanticamente, até o fraseado mais oco adquire um não sei quê de prestigiante mistério num país, como o nosso, onde o leitor/poeta médio continua a achar que um discurso é tanto mais “fascinante” ou “poético” quanto mais abstruso e incompreensível. Com isso, não admira que a mais vítrea estupidez passe, amiúde, por alto logro estético e intelectivo, e que o chiste de Agustina Bessa-Luís em Fanny Owen – “Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e está calada” – pudesse ser reformulado em: “Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e escreve versos sem sentido.”»


Sábado, Maio 09, 2009

BÉNÉDICTE HOUART

BÉNÉDICTE HOUART (Bélgica, 1968) acaba de publicar o seu terceiro livro de poemas "Aluimentos" (Cotovia, 2009) e é, para dizer o mínimo, muito original a sua proposta poética. Os assomos de Bénédicte - entre a ironia e o sarcasmo - dão-se a ler dando a ver seu esqueleto, como se de artes poéticas se tratassem, permitindo a autora que o leitor tenha acesso às hesitações da sua voz - à progressão dos próprios poemas, - desembocando estes habitualmente num efeito de surpresa gorando, e bem, as expectativas do leitor. Já assim era em “Reconhecimento” (Angelus Novus, Cotovia, 2005) e em “Vida: Variações” (Cotovia, 2008), numa linguagem que tanto acontece aproximar-se da erudição no mais puro diálogo intertextual com a tradição (de Camões a Pessoa, de Elisabeth Bishop a Sylvia Plath, de Sophia, a Florbela, a Adília, inclusive a Daniel Maia-Pinto Rodrigues, passando por alguma da poesia contemporânea brasileira), como pode assentar em laborações sobre jargões, vernáculo, clichés, provérbios ou o linguarejar popular, estratégia consciente que cria efeitos quer de reconhecimento quer de estranhamento, ainda mais se atentarmos que Bénédicte foi docente universitária de Estética na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Mero preconceito meu. A personna destes poemas são mulheres, (hereges, vividas, velhas, mães, prostitutas), que falam através de poemas que a melhor parte das vezes parece que não querem ser poemas, de tanto simularem desleixo e destilarem irrisão. O jogo, porém, é precisamente esse: desafiar a instituição poética na sua propagada eloquência, com a inteligência de quem sabe manusear a palavra, matéria-prima do poema. Aqui ficam 3 poemas do seu último livro, com a devida vénia:


§


falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida


§


o meu cão parece um coelho
eu pareço uma pessoa
por vezes, raras, as coisas parecem ser o que são
há quem se dedique a descortinar
vida fora tal contradição e
no fim, morra, como todos
sem ter percebido nada afinal

é a vida, a própria vida, queira ou não, deus ou outro qualquer


§


a pedicure disse-me que
os meus pés eram bonitos
apeteceu-me saltar-lhe
para os braços, mas
em vez disso, observei-a
não sem admiração
desconhecia que havia tantas
limas para a mesma ocasião
no fim, recusei pagar-lhe pois
o que ela havia dito
não tinha preço
falando, tirou-me uns calos que
há séculos me atormentavam


(aliás, as palavras são de graça
quanto mais beleza
a ninguém pertencem
a ninguém cabe vendê-las)




Sábado, Abril 25, 2009

Feira do Livro de Braga

E pronto! Lá aguentei eu estoicamente durante hora e meia a minha primeira experiência de assinar livros numa feira do livro. Cinco autógrafos e uma tíbia depois, eis-me de regresso a Leça - aos leitores brasileiros (!!) deste blog cumpre-me informar que uma tíbia é um pastel típico de Braga. Grande. Muito doce. Com muito creme dentro. Hum!

Claro está que também me pus a jeito. Uma mesa irmanada com um stand, mesmo à entrada da feira, pode prestar-se a um sem número de equívocos. Já antes de eu chegar ao recinto, alguém havia perguntado ao simpatiquíssimo Bruno Antunes, das Quasi, se os livros que ele acabara de dispor sobre a mesa eram para oferecer...

Em situações como estas, um tipo acaba por se sentir tudo menos escritor. Lembrei-me logo dos poemas do excelente José Miguel Silva sobre os leitores nas feiras do livro. Ainda me cheguei a entusiasmar quando uma jovem se aproximou célere da minha mesa, trazendo um livro em riste: "A-ha!", pensei, "O primeirinho da tarde". Nada! Na verdade, a leitora apenas pretendia saber se podia trocar um livro de outrém que comprara na véspera para o pai, uma vez que o progenitor também adquirira um exemplar sem ela se ter apercebido. Confesso que ainda me ocorreu propor-lhe que o trocasse por outro autor que estivesse por ali, digamos, mais à mão, mas o pudor falou mais alto. Daí que, Ruben Fonseca, parabéns! Fique a saber que você vendeu pelo menos 2 livros na Feira de Braga deste ano.

Naquela localização, as peripécias sucederam-se. Ao presentir outro leitor a aproximar-se, pensei triunfante: "Ora aí está! O primeiro livro está no papo! Este conhece-me de certezinha!". Falso! O jovem apenas me queria perguntar em que stand poderia adquirir o premiado livro de A.M.Pires Cabral, "O Cónego", vencedor do prémio dst, anunciado em parangonas num enorme cartaz suspenso mesmo atrás de mim o qual apenas eu parecia não ter visto. Mas "Menos mal!", pensei, "Já que posso passar por vendedor, ao menos passo também por ser o excelente poeta transmontano."

Enquanto a tarde avançava, muitos leitores detiveram-se frente ao stand com as mãos enfiadas nos bolsos sem manusearem o livro (com receio de se magoarem?), e Ana Paula Tavares (que apenas avistei ao longe), Gonçalo M. Tavares (extraordináriamente generoso e afável) e Fernando Pinto do Amaral (aborrecido, e com razão, por não terem reposto o seu livro esgotado na própria feira) peroravam a uns trinta metros de distância na tertúlia literária sobre "Ficção e Mundos Possíveis", através de um sistema acústico sofrível que não me permitiu acompanhar uma só palavra que fosse do que disseram. De modo que tive tempo para tudo. Contei os ouvintes da tertúlia pelo menos duas vezes. Chegaram a ter 40 pessoas! Muito bom. Uma das vantagens de se escrever poesia em vez de ficção, é vender menos de um quinto dos livros que um romancista venderia nas mesmas circunstâncias, o que permite que se saia da feira com a agradável sensação de se conhecer os leitores pelo nome (!!): Joaquim Oliveira, Sandra Salgado, e por aí fora... (até 5).

Mas há que não desistir. No próximo domingo lá estarei em Lisboa, pelas 15h00, no auditório da Feira do Livro, para participar na apresentação que o poeta Francisco José Viegas fará do meu sétimo livro de originais "A Parte pelo Todo". E conto consigo lá. Consigo, consigo, contigo, consigo e contigo. Com vocês os seis. Temos que bater o record, hã?


Domingo, Abril 05, 2009

DANIIL HARMS, EDGAR ALLAN POE e PHILIP LARKIN almoçam no Café Ceuta




Domingo, Março 29, 2009

RUI MANUEL AMARAL


Caravana
(2008), o primeiro livro de Rui Manuel Amaral (Porto, 1973), publicado pela Angelus Novus, de Coimbra (info@angelus-novus.com) é um livro delicioso. Excelente literatura, este livro é todo um programa do absurdo, ou, se quisermos, de um neo-absurdismo que tem todo o sentido e razão de ser nestes tempos políticos em que vivemos.

O óbvio é aqui apresentado com a força de uma surpreendente revelação que passa, entre outras estratégias, por uma bem conseguida tentativa de normalizar o a-normal e aceitar o dis-funcional; pela obsessão pelo detalhe e a reverência pelo pormenor; pelo abuso da hipérbole, do superlativo, do nonsense, da adjectivação e das onomatopeias; pela desconstrução de narrativas que não se furtam a exibir o esqueleto do pensamento; pelos numerosos apartes que numa constante fuga para a frente, pretendendo explicar tudo mais acrescentam à desinformação; por uma escrita que anuncia a proposição seguinte com um suspense reverencial, criando expectativas e nexos lógicos frequentemente gorados em finais de inconclusa insatisfação.

Os títulos roubados ao hiperrealismo e o rol de personagens irreais mas muito concretas na sua biografia, visam criar no leitor efeitos de verdade e verosimilhança. O narrador coloca-se assim ao lado do leitor para afirmar com toda a certeza do mundo a mais improvável das verdades, não sendo infrequente a eliminação dos tempos históricos, o que permite que Platão se torne, a páginas tantas, coevo de Gregor Samsa, por exemplo, não se conseguindo definir muito bem, como aliás convém, onde começa o humor e acaba o sarcasmo, ou pelo menos, a ironia.

Não há, em tudo isto, uma mera atitude superficial de quem quer provocar o riso, fazer humor, mas antes o ímpeto provocador (e social e politico e crítico) de reflectir sobre o amargo da vida e da condição humana, essa que é transversal a todas as épocas e mundos. Tudo isto com a inteligência da tradição, com a dose certa de auto-ironia, com uma qualidade prosaica inegável, o bom gosto de quem leu uma caravana de génios e os sabe homenagear, tanto quanto os sabe subverter: Gogol, Aub, Vian, Lee Masters, Harms, Dostoievski, Kafka, Walser, tantos.

Mais de 60 micronarrativas ou poemas em prosa poética como lhes prefiro chamar, razão para aqui apresentar três desses textos. Zás!



Ptolomeu Hefestião

Ptolomeu Hefestião resistia imutavelmente a todos os ataques dos homens e à fúria mais terrível dos elementos. Mas era incapaz de resistir ao suave toque de um asfódelo.
Uma bela moral se poderia tirar facilmente daqui, mas não tenho tempo para isso. Bastará dizer que os morangos silvestres, sempre que possível, devem ser acompanhados com chantilly, pois trata-se de um ingrediente que introduz variedade e impede que esmoreça o apetite.


§


História de José Salmasius

José Salmasius era um homem bafejado pela sorte. Quando tinha fome bastava pensar em comida para que um bolo de arroz voasse directa e literalmente para dentro da sua boca. Vou escrever esta frase de novo: quando tinha fome bastava pensar em comida para que um bolo de arroz voasse directa e literalmente para dentro da sua boca. E isto é apenas um esboço daquilo que de facto sucedia, porque normalmente voava para dentro da sua boca toda a espécie de excelentes assados, cozidos, grelhados, estufados, etc.
Sim, concordo que isto não tem muito a ver com literatura, mas a culpa não é minha; limito-me a contar a verdade.
Um dia, de repente, também Salmasius desatou a voar. E voou, voou sem parar. Do outro lado do mundo, um crocodilo bafejado pela sorte estava a pensar em comida. Salmasius quase não sentiu nada. Foi tudo rápido demais.


§


Isto é um assalto!

— Isto é um assalto! — gritou o homem ao mesmo tempo que encostava um caderno de apontamentos à cabeça de uma vendedora, de 21 anos, residente em Mechelen.
A jovem contou que pelas 16h30 de ontem passava na Rue des Bogards, junto aos lavadouros públicos, em Bruxelas, quando foi abordada pelo assaltante, que lhe exigiu pelo menos quatro histórias originais ou o mesmo número de poemas.
Segundo a polícia, a vítima possuía apenas duas histórias e uma lista de supermercado, tudo avaliado em 10.400 caracteres tendo sido obrigada, para completar o valor exigido, a trautear o primeiro andamento do terceiro concerto brandeburguês, imitando uma tuba desafinada. De seguida, o criminoso fugiu na direcção de um automóvel cinzento escuro, onde o esperava um cúmplice que, de acordo com uma testemunha, era «a cara chapada de Mowsle Lockyer». «No mínimo, era o seu irmão gémeo» — acrescentou ainda a testemunha com certa emoção.

Terça-feira, Março 24, 2009

WALLACE STEVENS e WILLIAM CARLOS WILLIAMS almoçam em Coimbra


Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

JOAN BROSSA

JOAN BROSSA (1919-1998) nasceu e morreu em Barcelona. Segundo Isidor Consul, que escreve o prefácio a “Quinze Poetas Catalães” (selecção de Alex Broch e Isidor Consul; tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1994), na obra de Brossadeve ser visto o esforço de actualização do espírito das vanguardas históricas e uma poética em evolução constante. (...) ele foi o fundador do grupo «Dau al Set» com os pintores Tàpies, Ponç, Tharrats e Cuixart, e a sua obra arranca do impacto do surrealismo.» Ainda segundo Consul, «em Brossa o sentido da poesia pode resumir-se encaixando quatro coordenadas: a) um contínuo processo de investigação formal; b) a convicção profunda de que a arte não tem limites nem fronteiras; c) um essencial espírito de pesquisa e de compromisso social, e d) uma manipulação lúdica da realidade.» De saída para Barcelona, aqui deixo um dos poemas de Brossa traduzidos por Egito Gonçalves.




Arlequim mete
no bolso das calças a bolsa de Pierrot.
Pierrot, portanto perdeu a bolsa.
Dómino, o cão de Pierrot, caça perdizes
ao luar.

Pulcinella e Colombina convidam Pierrot a jantar.
Pierrot está desolado.
Com um salto, Dómino aparece no meio da mesa
com as calças de Arlequim.
Já podem imaginar a alegria de Pierrot!
Na manhã seguinte devolvem as calças a Arlequim e brincam
à saúde de Dómino.

Por trás
uma armação ou bastidor percorre de cima
a baixo este poema.
A teia tem um punho na sua parte inferior.
Levantai-a um pouco e o poema ficará
suspenso na ar.


Domingo, Fevereiro 15, 2009

RUI PIRES CABRAL (4)

VICTORIANA

para a Ana Maria e o Rafael


O silêncio e a temperatura dos museus
permeiam toda a cidade. A quantos serviram
estas velhas casas? Hoje são montras de antiqualhas,
folhas roubadas ao calendário da mocidade inglesa
de 1890. Caixas de tabaco, tinteiros de louça,
leques ilustrados com danças de estilo e figuras.
Melhor ou pior, toda a gente desperdiça
a sua vida.
Entretanto o dia acaba a meio da tarde
porque é Dezembro. A esta hora os autocarros
já vão cheios de gente para os arredores, Sydenham,
Whitnash, South Farm, onde as estradas anoitecem
entre casas geminadas e os corvos sobrevoam os quintais
dos imigrantes. Certos sentimentos podem de repente
viciar as cores do mundo. Vêem-se cercas, antenas
e tabuletas, tudo coisas úteis às complicações
do escuro que nos pertence, que sempre
nos pertencerá.


Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967 em Macedo de Cavaleiros. Licenciou-se em História e Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1990. Vive em Lisboa onde trabalha como tradutor de inglês. "Victoriana" foi extraído - com a devida vénia - do seu livro "Praças e Quintais", Averno, Lisboa, 2003


Domingo, Setembro 21, 2008

LASSE SÖDERBERG

LASSE SÖDERBERG nasceu em 1931 em Estocolmo, na Suécia. Vive actualmente em Malmö. Uma selecção da sua poesia, “Coração de Papel”, revista por Ana Luísa Amaral e Gonçalo Vilas-Boas, de forte inspiração surrealista, foi editada em 2001 pela Quetzal, na sequência da tradução colectiva que decorreu em Mateus, em Abril e Maio de 1998. Dois poemas, com a vénia devida:



OUVIDOS CHEIOS DE ALGODÃO

Primeiro tapo os ouvidos
com ambas as mãos
para não mais ouvir
o eterno sussurro.

Depois começo a encher
os ouvidos de algodão,
grandes pedaços de esquecimento.
Poderei assim escapar?

Para ficar convencido
de ter achado a solução
corto as orelhas
segundo um método experimentado.

Ei-las diante de mim
como duas conchas do mar,
cheias de eterno sussurro
e de anestesiante algodão.


§


GUERRILHA URBANA


(Berlim Leste, 1975)

A altas horas da noite está o centro da cidade
fortemente iluminado como uma sala de interrogatório.
Venho de Greifswalderstrasse.
Nem vivalma. Então algo se ouve subitamente
como se umas botas vazias de borracha
corressem sobre a relva.
Do canteiro erguem-se longas orelhas.
Um coelho salta-nos à frente! Mais um!
E mais um! Um bando de agitadores!
Tropel atrevido, tarados sexuais de olhos congestionados
saltitando como num passe de mágica
tirados das almas adormecidas dos funcionários.
Todas as noites aparecem à luz
sorrindo com desdém de tudo o que lhes mete medo.


CLAUDIA EMERSON

CLAUDIA EMERSON (n. 1957, Chatham, Virginia) é uma poeta americana. Ganhou, em 2006, o prémio Pulitzer de Poesia com a colecção “Late Wife”, de onde traduzi o poema que apresento. É professora de inglês na Universidade de Mary Washington, em Fredericksburg, Virgínia, onde vive com o marido, Kent Ippolito, músico de jazz e blues.



MY GRANDMOTHER’S PLOT IN THE FAMILY CEMETERY

She was my grandfather’s second wife. Coming late
to him, she was the same age his first wife
had been when he married her. He made
my grandmother a young widow to no one’s surprise,
and she buried him close beside the one whose sons
clung to her at the funeral tighter than her own
children. But little of that story is told
by this place. The two of them lie beneath one stone,

Mother and Father in cursive carved at the foot
of the grave. My grandmother, as though by her own design
removed, is buried in the comer, outermost plot,
with no one near, her married name the only sign
she belongs. And at that, she could be Daughter or pitied
Sister, one of those who never married.



§



O ENREDO DE MINHA AVÓ NO CEMITÉRIO FAMILIAR

Ela foi a segunda mulher do meu avô. Chegando tarde
até ele, tinha a exacta idade que a primeira esposa
tinha quando ele casou com ela. Fez
de minha avó uma jovem viúva, para surpresa de ninguém,
e ela enterrou-o mesmo ao lado daquela cujos filhos
no enterro, se agarraram mais a ela do que os seus próprios
filhos. Mas pouco dessa história é contado
neste lugar. Os dois estendem-se sob uma pedra,

Mãe e Pai em caligrafia esculpida aos pés
da sepultura. Minha avó, como se por seu próprio desígnio
afastada, está sepultada a um canto, sem ninguém próximo,
enredo extremo, o seu nome de casada como único sinal de
que pertence. E nisso, bem poderia ser Filha ou Irmã
compadecida, uma dessas que nunca se casou.



ADAM ZAGAJEWSKI (2)

Nasceu em Lvov, na Polónia, em 1945. ADAM ZAGAJEWSKI vive entre Cracóvia, Paris e Chicago. É considerado pela crítica como um clássico contemporâneo, como o foram Milosz, Herbert, Holub, Popa ou Brodsky. É um poeta dessa estirpe. Acaba de publicar, neste 2008, na Farrar, Straus and Giroux, de Nova Iorque, “Eternal Enemies”, traduzido do polaco por Clare Cavanagh, professora de línguas e literaturas eslávicas na Northwestern University, que já havia traduzido para o inglês Szymborska e Milosz. Humor, inteligência, cepticismo e economia de linguagem podem ser encontrados nestas três versões que trago do inglês, onde conspiram o peso do lugar e da história, a emergência da arte e da vida quotidiana. Quando me cruzei por acaso com o Jorge Sousa Braga em Praga, há uns anos atrás, levava na mão recolhas de Simic e Armitage, que lhe anunciei entusiasmado como as grandes descobertas que são. O Jorge, porém, já transportava uma colecção da Faber and Faber de Adam Zagajewski, poeta do qual eu nunca havia lido nada, e sobre o qual colocou um post há tempos atrás, aqui, no Poesia Ilimitada, com a tradução de 12 poemas. São para o Jorge, estas versões, que encontrei numa estante de Estocolmo. Do último livro:



DESCREVENDO PINTURAS

PARA DANIEL STERN

Normalmente fixamos apenas alguns detalhes –
uvas do século dezassete,
ainda frescas e cintilantes,
quiçá um belo garfo de marfim,
ou a madeira de uma cruz e gotas de sangue,
o grande sofrimento que entretanto secou.
O parquet brilhante range.
Estamos numa cidade estranha –
quase sempre numa cidade estranha.
Algures ergue-se um guarda que boceja.
Um ramo cinza balança para lá da janela.
É absorvente,
descrever pinturas estáticas.
Estudiosos dedicam volumes a isso.
Mas nós estamos vivos,
cheios de memória e pensamento,
amor, por vezes arrependimento,
e por momentos temos um orgulho especial
porque o futuro grita em nós
e seu tumulto torna-nos humanos.


§


NUM PEQUENO APARTAMENTO

PERGUNTO A MEU PAI, “O QUE
FAZ TODO O DIA?” “RECORDO.”


Assim, naquele pequeno apartamento pardo em Gliwice,
num bloco baixo ao estilo soviético
que diz que todas as cidades se deveriam parecer com quartéis,
que quartos espasmódicos derrotarão conspirações,
onde um relógio de parede antiquado marcha, descansado,

ele revive diariamente o moderado Setembro de 39, as bombas assobiando,
e o Jardim Jesuítico em Lvov, cintilando
com o brilho verde do ácer e árvore de cinzas e pequenos pássaros,
caiaques no Dniester, o odor de vime e areia molhada,
naquele dia quente quando conheceu uma rapariga que estudou direito,

a viagem em carro fretado para o oeste, a última fronteira,
duzentas rosas dos estudantes
agradecidos pela sua ajuda em 68,
e outros episódios de que nunca saberei,
o beijo de uma rapariga que não se tornou minha mãe,

o medo e as doces groselhas da infância, imagens puxadas
daquele abismo de calma antes de eu ser.
Sua memória trabalha no apartamento sossegado – em silêncio,
sistematicamente, luta para recuperar por um momento
o seu século doloroso.


§


LENDO MILOSZ


Li a tua poesia uma vez mais,
poemas escritos por um rico homem, sabedor,
e por um mendigo, sem casa,
um emigrante, só.

Sempre quiseste ir
além da poesia, superá-la, planando,
mas também abaixo, onde a nossa região
começa, modesta e tímida.

Por vezes o teu tom
transforma-nos por um momento,
e acreditamos - verdadeiramente –
que cada dia é sagrado,

que a poesia - como pôr isto? –
torna a vida plena,
mais cheia, orgulhosa, ousada
de formulação perfeita.

Mas o fim de tarde chega,
pouso o livro de lado,
e o estrondo banal da cidade retoma -
alguém tosse, alguém chora e maldiz.



PEDIDO: Por favor enviem o link deste post a Sérgio Neves ou a Júlio Sousa Gomes, tradutores de Milosz e Szymboska do polaco, na tentativa de os interessarmos pela tradução de Zagajewski a partir da língua original. Normalmente as versões de versões limam involuntáriamente as arestas dos poemas, local onde se abriga verdadeiramente a poesia...



Quarta-feira, Setembro 10, 2008

EGITO GONÇALVES

EGITO GONÇALVES
(Matosinhos, 1920 - Porto, 2001)



ESTOCOLMO


A festa endomingava a tarde, ardia
no granito o sol – entre nós
o tempo em sebes frias se arrastava;
lembrávamos ausências, elas formavam
a névoa que envolvia os jogos de água,
Estocolmo foi isso;
a fuga de nós próprios, a tentação
reprimida
de formalizar a ternura. Diálogos
breves como pistas de cinza
para a correspondência com que nos propúnhamos
prolongar o passado. Um esquilo
atravessava a relva sob os cedros
com a vivacidade dos teus olhos. O fulgor
que nos comunicou foi transformado
na alegria perene de que já desistíamos.


Esse esquilo, Monique,
esse relâmpago que fendeu o letago
transformando a luz num estuário denso
ainda o vês? Ou perdeu-se
no regresso da angústia que rasgara,
na falta de resposta
que a paisagem oferecia ao apagar-se?

3.76


in "E No Entanto Move-se", Quetzal Editores, Lisboa, 1995

GUNNAR EKELÖF


GUNNAR EKELÖF, poeta surrealista e modernista sueco, nasceu em Estocolmo em 1907 e morreu em Sigtuna em 1968. Segundo Marianne Sandels, "foi mestre na arte de descrever os sabores do Verão, a neblina que se ergue sobre os pequenos lagos à noite, os prazeres simples da vida rural, que lhe permitiam comungar com a Natureza. (...) Este amor pela paisagem sueca, embora simples e discreto, podia na verdade compensar a sua falta de entusiasmo pela «nova» sociedade sueca que então surgia". A Quetzal editou, em 1992, "Antologia Poética" com traduções de Ana Hatherly e Vasco Graça Moura. De partida para o longínquo norte, dois poemas:


ENTRE NENÚFARES

Escrevi uma introdução para o que teria dito
mas rasurei-a. - Quero no entanto
que antes de a noite me envolver
a última coisa que de mim se aviste
seja um punho fechado entre nenúfares
e a última coisa que se oiça de mim
seja uma palavra de bolhas de ar

a vir do fundo.


tradução de Vasco Graça Moura



§


NO MERCADO DE ISFAÃO ...

No mercado de Isfaão,
no estrado,
mil e um corpos
mil e uma almas
estavam à venda para escravos.
E mil e um mercadores
faziam diferentes ofertas por corpos e almas.

As almas eram como mulheres.
Os corpos eram como homens.
E sorte teve o Mercador
que, graças à sua perspicácia,
conseguiu arrematar
Uma alma
e um corpo
que condiziam e podiam acasalar.


tradução de Ana Hatherly


Sábado, Maio 10, 2008

BORIS VIAN

BORIS VIAN (1920-1959) viveu poucos anos, o suficiente porém para alcançar a notoriedade como músico de jazz, autor e actor de teatro, tradutor, cronista, entre muitos outros ofícios onde se conta também a engenharia. Mais conhecido como autor de ficção (“A Espuma dos Dias”, “O Outono em Pequim”, “Morte aos feios”, entre outros títulos), foi igualmente o notável autor de poemas onde a ironia é quase sempre o passaporte para o absurdo. Admirador e amigo de Jacques Prévert (1900-1977), admirado e lido por Alexandre O’Neill (1924-1984), publicou em 1949 “Cantilènes en gelée”, poemas e cartas que Margarida Vale de Gato agora traduziu com elegância e engenho, e a Relógio d’Água editou, em Fevereiro de 2004. Trois poèmes, do melhor que as franjas do surrealismo francês nos ofereceu. Com a devida veniá



… AS MÃOS CHEIAS
[…LES MAINS PLEINES]


Aos inocentes

Se vos perguntassem, à queima-roupa
A inocência é uma virtude?
Eu cá não respondia
Tentava desconversar
Diria: «— Vossemecê já leu Cézanne?»

Algumas pessoas esquecem-se de mentir
E afirmam: «— Não faço ideia!»
Não podemos obrigá-las a todas.

Naturalmente, a inocência não é uma virtude
Porque, passado tempo, seria de desconfiar
A minha tia tinha imensas virtudes.
Ainda as tem. E ela é velha.

Os Gregos também tinham virtudes
E os Gregos não eram inocentes
Visto que guilhotinaram Sócrates.

É difícil de julgar, claro, nós não estávamos lá
Mas o mais seguro, em semelhante circunstância
É abster-nos de responder
E tentar desconversar...

Caso não se consiga, podemos sempre suicidar-nos.

9 de Fevereiro de 1948


§


BOM-DIA, CÃO
[BONJOUR, CHIEN]

Avisto na rua um cão
Digo-lhe: como vais, cão?
Pensa que me responde?
Não? Pois bem, mas ele responde-me
E isso não é da sua conta
Agora quando se vêem pessoas
Que passam sem sequer reparar nos cães
Sentimos vergonha pelos seus pais
E pelos pais dos seus pais
Porque uma tão má educação
É coisa que requer pelo menos... e não estou a ser generoso
Três gerações, com uma sífilis hereditária
Mas, para não vexar ninguém, devo acrescentar
Que um número considerável de cães não falam com
muita frequência

9 de Fevereiro de 1948


§


DE TANTO SE VEREM
[A FORCE DE LES VOIR]

De tanto se verem
Há palavras que vos poriam doentes
Palavras conhecidas mas muito perigosas de manejar
A não ser que sejam rodeadas de música
Também há quem meta açúcar nas amêndoas amargas
Palavras como areia, erva
Como sol, como deitados lado a lado
Como pele dourada, como cabelos louros
Como dentes brilhantes e lábios salgados
E depois outras palavras, ainda mais perigosas
«Ninguém à vista, podemos seguir»
E as mais perigosas de todas:
«É ainda melhor à quinta vez.»
Felizmente, que há carradas de aeronaves
A fabricarem fenomenologia a granel
E a meterem-vos bombas atómicas de atravesso pela goela...
Peço desculpa… o sopro da inspiração...
Não é todos os dias que a musa nos visita.



Sábado, Fevereiro 02, 2008

PÉTER KÁNTOR

PÉTER KÁNTOR nasceu em Budapeste em 1949, tendo-se graduado em Literatura Inglesa e Russa. O seu trabalho inicial é caracterizado pelo tom rebelde da geração Beat. Mais recentemente, a sua é uma voz que almeja sem pathos, a objectividade dos pequenos eventos e da banalidade do dia-a-dia. Poeta e tradutor, publicou vários livros de poesia. Foi prémio Attila Jozsef em 1994.



A CAMINHO


[ÚTKÖZBEN]


E houve quartos de hotel no caminho,
e todo o tipo de camas nos quartos,
e nas camas escavadas.

“Afundaram-nas, vês, com o trabalho,
com o gozo e suplício de muitos anos,
escavaram-nas, como uma cova.”

“E agora essa cama, ou seja esse buraco,
espera que venha alguém quiçá
que nela caiba exactamente.”

“Mas eu não caibo de modo algum,
porque não fui eu quem o escavou, eu não,
que cada um se deite em sua cova!”

Disse, e levantei-me de um salto.
No entanto, que boas pegadas!
Que cama tão boa, que caminho, que quarto bom.


versão de JLBG e Juan Carlos Mellidez
a partir da tradução castelhana de György Ferdinandy,
Maria Teresa Reyes-Cortés e
Jesús Tomé


§


DO QUE SE NECESSITA PARA A FELICIDADE ?

[MI KELL A BOLDOGSÁGHOZ ?]


Posto assim,
não muito:
dois seres,
uma garrafa de vinho,
queijo do país,
sal, pão,
um quarto,
uma janela e uma porta,
lá fora, que chova,
chuva de longos fios,
e claro, cigarros.
Mas, ainda assim, de muitas noites
apenas uma o duas vezes resulta,
como os grandes poemas de grandes poetas.
O mais é preparatório,
ou epílogo,
dor de cabeça,
ou espasmo de riso,
não se pode, mas deve-se,
é demasiado, mas insuficiente.


versão de JLBG e Juan Carlos Mellidez
a partir da tradução castelhana de György Ferdinandy,
Maria Teresa Reyes-Cortés e Jesús Tomé


Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

ELEMÉR HORVÁTH

Nascido em Csorna em 1933, junto à fronteira austríaca, foi educado em Pannonhalma, um dos estabelecimentos de ensino mais cobiçados da Hungria, fundado em 966 d.C. pelo Príncipe Gaza, pai do rei Estéfan I (1000-1038), o primeiro monarca cristão da Hungria. Estudou na Faculdade de Filologia da Universidade de Budapeste mas logo após a revolução de 1956 fugiu para Itália onde continuou os seus estudos em Florença, e mais tarde em Roma, onde deixou por acabar um curso de História de Arte para em 1962 partir para os Estados Unidos, onde se naturalizou. Escreveu seis livros de poemas, exclusivamente na língua húngara. Trabalhou até à reforma como tipógrafo, em Nova Iorque. Um mestre do soneto, ELEMÉR HORVÁTH foi também um modernista. Foi-lhe atribuído o prémio Robert Graves em 1997 e o prémio Attila József no mesmo ano.



DE PROFUNDIS

[DE PROFUNDIS]


por causa de 56
executaram uns
outros passaram anos no cárcere
para cima
ou para baixo
dependendo do seu engenho

eu fui condenado
à prisão perpetua
com 22 anos
pelos meus futuros versos
sem possibilidade de indulto

na America


versão de JLBG e Juan Carlos Mellidez
a partir da tradução castelhana de György Ferdinandy,
Maria Teresa Reyes-Cortés e Jesús Tomé



§



A PALAVRA FINAL

[A VÉGSŐ SZÓ]


A Palavra final pertence ao Editor
ele tem um secretário da cultura
o Secretário tem um primeiro-ministro
o Primeiro-ministro tem um governo
o Governo tem uma polícia
a Polícia tem armas

Eu tenho um poema
o poema é um tirano
recusa assumir compromissos
no sentido estrito da palavra
é a palavra final

a neve é azul como uma laranja


versão de JLBG a partir da tradução inglesa de Nicholas Kolumban




Domingo, Dezembro 02, 2007

ISTVÁN BELLA

Nasceu em 1940 em Székesfehérvar, antiga capital da Hungria. Bibliotecário, completou estudos de Língua e Literatura Húngaras na Universidade de Budapeste. Em 1965, tornou-se um dos editores do periódico Tiszta szívvel [Com Um Coração Puro]. Entre 1968 e 1970 viveu na Polónia, regressando em 1978, para ingressar no corpo editorial do semanário Élet és irodalom [Vida e Literatura]. Nos seus primeiros poemas é perceptível a influência de Attila József e de Ferenc Juhász, sendo já evidente o seu talento para moldar a linguagem através de jogos de palavras e da criação de imagens nítidas e sensuais, mesclando experiências reais e as suas próprias meditações. A partir dos anos 70, começou a explorar um estilo mais informal envolvendo elipses e um discurso mais fragmentado, mantendo-se a musicalidade sempre presente. ISTVÁN BELLA atribui poderes mágicos à linguagem, apreciando os arcaísmos, o folclore, os jogos de palavras, as aliterações e as palavras homónimas. Publicou uma dezena de livros de poesia bem como poemas para crianças. Foi-lhe atribuído o prémio Attila József por duas vezes, em 1970 e em 1986.



NOVO JULGAMENTO

[PERÚJRAFELVÉTEL]


Na questão entre Caim e Abel
até agora
ninguém
mencionou o cordeiro.

Nem sequer o Senhor!
O Juiz dos Juízes!

Porém, Ele viu o que se passou,
e poderia atestar
que Caim e Abel são permutáveis.
Abel podia ser Caim
e Caim podia ser Abel.
Mas o cordeiro,
esse é sempre o mesmo.

E o fumo sacrificial, também.

Proponho por isso o adiamento da história.
Avanço para um novo julgamento.
Mas quem deverá ser o juiz?

A vítima pode não julgar!


versão de JLBG a partir da tradução inglesa de István Tótfalusi



§



SILÊNCIO E PALAVRA

[CSÖND ÉS SZO]


Atrás de tanques, de exterminadores,
sempre vagueiam o silêncio e a sombra
de algum quem sabe quem
– vitima? culpado? –
para anotar e logo dizer
o que se passou, o que foi.
E embora o morto já viverá mais,
dir-nos-á que existiu.

Sim, sou o silêncio, e se tivesse sido
outra coisa, não seria eu!
Não sou quem cantava e respirava.
Sou a luz dependurada no arame farpado.
Sou a bolha de ar debaixo do gelo.
Sou um tartamudo que canta
no bordo da cratera de uma bomba.


versão de JLBG e Juan Carlos Mellidez
a partir da tradução castelhana de György Ferdinandy,
Maria Teresa Reyes-Cortés e Jesús Tomé




SÁNDOR ANDRÁS

SÁNDOR ANDRÁS nasceu em Budapeste em 1934 e estudou Língua e Literatura Húngara na Universidade de Szeged. Após os acontecimentos de 1956, fugiu para o ocidente como tantos intelectuais da sua geração, tornando-se um dos primeiros húngaros a ser admitido na Universidade de Oxford, no Reino Unido. De seguida, mudou-se para os Estados Unidos onde se doutorou em literatura alemã, em Los Angeles. Em 1961, foi escolhido para leitor de húngaro na Universidade da Califórnia em Berkeley, progredindo para Professor de Língua e Literatura Alemã na Universidade Howard, em Washington. A sua poesia está marcada por um desencantamento pela politica, tendo-se transformado o seu poema “Petição da Republica Autónoma Sándor András às Nações Unidas” um dos favoritos da diáspora húngara. Os seus poemas mais recentes foram-se tornando cada vez mais abstractos e intelectuais, desenvolvimento a que não será estranha a sua abundante produção como ensaísta. Depois de se ter reformado da Universidade de Howard, regressou à Hungria onde se tornou um dos poucos imigrantes de 1956 a receber o prestigiado prémio Attila József. Ao longo da vida publicou diversos ensaios em alemão e em inglês mas a sua poesia foi sempre escrita em húngaro.



PETIÇÃO DA R.A.S.A. ÀS NAÇÕES UNIDAS

[AZ ASAK BEADVÁNYA AZ ENSZ-HEZ]


Eu, Sándor András, República Autónoma, solicito
ser admitido entre as grandes potências,
uma vez que todos me enganaram até à última,
e quero por fim representar-me a mim mesmo.
Deixei plantados todos os blocos
que apregoavam altissonantes que eu por eles
daria, feliz, a minha própria vida.
E agora apresento-me: sou a turba e o indivíduo,
ou seja, a maior entre as maiores potências;
a terra é um tabuleiro de xadrez vazio,
onde sem mim não há jogo,
porque sou ambas as equipas adversárias:
neste mundo burlão, sou o meu próprio inimigo,
que me agarro, infame, pela garganta.
Não tenho nem avião, nem bombas,
nem foguetes, nem mísseis, nem armada atómica:
a minha república só armazena desejos tradicionais,
e sei que quem não está comigo, não é por isso meu inimigo.
Basta, já estou farto que ninguém me explique,
com a seriedade de uma baioneta, o que quero eu,
isto ou aquilo; confesso que ambas as coisas em geral,
a mim os anjos não me fizeram brilhar a alma.
Procuro-me a mim mesmo, assim vive a minha república,
valente em equivocar-se e livre para atrever-se.
Solicito que me admitam entre as potências,
ou então, não contem comigo no futuro.


versão de JLBG e Juan Carlos Mellidez
a partir da tradução castelhana de György Ferdinandy,
Maria Teresa Reyes-Cortés e
Jesús Tomé


ISTVÁN ÁGH

Irmão mais novo do poeta László Nagy (1925-1978), ISTVÁN ÁGH nasceu em 1939 em Felsőiszkáz. Tendo cumprido estudos secundários em Tapolca, completou o curso de bibliotecário em Budapeste onde trabalhou vários anos em bibliotecas. Quando decidir abraçar a carreira literária, alterou o seu nome de família, Nagy (“grande”), para Ágh (“ramo de árvore”). Apesar da figura do seu irmão ser uma presença constante nos seus escritos de pendor autobiográfico, Ágh é considerado um poeta autónomo e extraordinariamente talentoso, tendo vencido por duas vezes o prestigiado prémio Attila József, em 1950 e 1969, bem como o não menos importante prémio Kossuth, em 1992. A sua poesia evidenciou desde cedo uma nostalgia pelos abrigos que foi obrigado a deixar aquando da sua vinda para a capital, desenvolvendo um método de composição prolífico em imagens, em composições longas, a muitas vozes, como peças de um mosaico. A sua poesia madura lida com a perda da juventude através de uma voz de resignação filosófica. Nas palavras de Jesús Tomé, um dos seus tradutores para espanhol, os seus poemas “dão testemunho de uma humanidade condensada, de um viver e de um existir até à raiz da própria humanidade”. Tendo escrito mais de uma dezena de títulos de poesia, publicou igualmente ensaios, crítica, descrições sociológicas da vida no campo, versos e contos para crianças.



NO METRO, DEPOIS DA ESTAÇÃO DO OESTE

[FÖLDALATTIN A NYUGATI UTÁN]


Próximo já do subúrbio os passageiros envelhecem,
sua face reflecte-se nas janelas sem paisagens.
São estranhos, ainda que de alguma maneira se conheçam,
como essa mulher que subiu na praça do mercado,
com os sacos de compras transbordantes de salsa
por pouco se escapa do abrigo o seu corpo magro,
é como se vestisse roupas alheias,
quiçá não me tenha visto, quiçá eu tampouco quisesse
que me cumprimentasse; assim nos recolhemos numa imaginária
indiferença, como um casal desavindo.

Estrangeiros, ainda que de alguma maneira conhecidos
são aqueles também; como se nada tivesse acontecido,
entraram desde cima — atravessando a terra —
no comboio em marcha, com calças
de linho branco e blusa estampada.
E nós, nessa meia-luz subterrânea
não compreendemos o seu resplandecente ser,
preferiríamos recolhermo-nos, se houvesse para onde,
apertando-nos, negro contra negro, esperando
o fulgor da chegada, enquanto
olhamos o nosso tempo em relógios de pulso alheios.

Já faz tempo que ultrapassaram os sessenta.
Então, esse túnel ainda não se tinha construído;
mas estes dois não se incomodam com tais bagatelas,
é como se ainda fossem a uma borga,
bebem, despem-se antecipando-se, abraçam-se
atravessando as capas das roupas e dos corpos,
e nós, que para sobreviver renunciamos
à nossa juventude, buscamos temerosos
nossa face de antigamente em seu rosto;
essa ligeira liberdade, que desperdiçamos
juntamente com o nosso charme.


versão de JLBG e Juan Carlos Mellidez
a partir da tradução castelhana de György Ferdinandy,
Maria Teresa Reyes-Cortés e Jesús Tomé


Sábado, Dezembro 01, 2007

Caminhos da Poesia Húngara Contemporânea

A poesia húngara contemporânea não deve ser lida a partir de um contrato de leitura demasiado distante daquele que tem sido o destino político do estado Húngaro desde a sua formação. Opinião geralmente aceite, por exemplo, é a de que o povo magiar pagou demasiado caro as alianças que foram levadas a cabo, primeiro com a Áustria dos Habsburgos, aquando da libertação da ocupação turca, e, mais em particular já em pleno século XX, com a Alemanha Nazi, que conduziu ao jugo soviético sobre a Hungria. A derrota sofrida no final das duas Guerras Mundiais teve como consequência para a Hungria, o ter que abrir mão de dois terços do seu território (para as actuais Sérvia, Croácia, Eslováquia e, no mais doloroso caso da Transilvânia, para a Roménia), bem como, e mais significativo ainda, o próprio poder interno, de que se serviram sequencialmente Alemães e Soviéticos. Esta interminável dependência governativa que, se formos a ver bem, remonta no caso húngaro desde o príncipio da sua formação, alimenta e inspira dois dos assuntos mais recorrentes e implícitos na poesia húngara: a diáspora e a dificuldade de integração das minorias, para aqueles que se viram forçados a abandonar a Hungria ou cujo território foi englobado pelos países vizinhos; a censura e a perseguição política, para quantos optaram ou se viram obrigados a ficar. Tentarei em próximos posts apresentar "versões" (porque se tratam de traduções do inglês e do castelhano) de poemas de diversos poetas húngaros cuja leitura me impressionou numa recente viagem a Budapeste. Até breve.


Terça-feira, Novembro 20, 2007

SÁNDOR CSOÓRI (2)

NDOR CSOÓRI (n.1930, Zámoly, Hungria) é provavelmente de entre os poetas húngaros que me foram dados a ler, aquele a cuja poesia mais vezes regresso. Diversas vezes premiado, é autor de numerosos livros de poemas, bem como de ensaios, novelas e argumentos para filmes. “Com Cisnes Sob o Fogo do Canhão”, é o livro de versões que Egito Gonçalves editou sobre tradução literal de Pál Ferenc e revisão de Mária Demeter (Limiar, 1997). Três poemas, com a devida vénia:



MEMÓRIA DA NEVE


Às vezes o Inverno muda de parecer
e começa a nevar,
neva espessamente, em desespero, como se temesse
não viver até o dia de amanhã.
Nestes casos é melhor desligar o telefone, a campaínha da porta,
pôr vinho a ferver em cima do fogão,
folhear cartas antigas
e olhar para trás, também, para a minha vida,
como se ela não tivesse acontecido.
Como se não me tivesse olhado o canhão, nem olhos lascivos,
como mão surradas, não se tivessem alongado pela minha mão;
e tudo que fosse polkítica, amor, dobre de sinos,
me esperasse de novo num horizonte de oceano.
Nestes casos o melhor é imaginar
que ainda posso chorar pela minha cabeça perdida,
o vento atrai os lilases para cima
de camas, meios-corpos e almofadas desgrenhadas,
e no juízo final terrestre
posso estar de pé ao lado de bons companheiros
em camisa macia e casaco leve
além de fumo, tascas, cemitérios,
fixando o olhar nos olhos dum país a perverter-se
sublimemente,
na minha cabeça há memória de neve,
neve, neve como se o reboco duma catedral
tombasse silenciosamente.


NO BAGO DE UVA DEIXADA CAIR NO PASSEIO


Neste ano também houve um Outono magnífico, um Novembro ensolarado
mas por toda a parte só velhos deambulavam de um lado
para o outro, interminavelmente,
mexiam-se com lentidão na forte luz solar
como punhos a debulhar milho.
Eu andava entre eles, cabeça baixa, no parque, nas avenidas.
Não queria que vissem: a morte lembra-me apenas
o teu corpo que sempre se torna de novo primaveril.
Foi isso que procurei no bago de uva caída no passeio:
ver se nele descobria a presença na rua
do teu dinamismo doce,
o teu sorriso a condizer com o céu
rodeado de folhas que borboleteiam espessamente, amarelas de morte.


§


POEMA A DUAS MULHERES AO MESMO TEMPO


Vocês vêm, tocam a campaínha,
passando a maçaneta rapidamente de uma para a outra.
Tu, loira, enlutada, de preto,
ela em saia azul de jeans, poída,
como quem após semanas molhadas até aos ossos
estivesse a enxugar-se no Maio inteiro num topo de colina.
Contigo vem também o bosque, também o cemitério,
países, com uma sensualidade oculta,
o mel,
a imprecação;
a anarquia reprimida do álcool
e enxames de moscas loucas
que dançam loucamente sobre a tua cabeça.
E não há Inverno, se vires, não há Verão,
há só febre dentro das costelas, imenso azul
e palavras a despirem-se na boca.
Ela chega sempre de improviso, apenas como quem traz
uma boa nova, como se trouxesse notícias de si própria.
A sua pestana: caniço preto,
em redor das suas ancas de uma vez duas Primaveras
e a sua boca abre-se para sorrir: como se um
comboio branco
passasse silenciosamente.

Vocês vêm, tocam a campainha, rindo uma para a outra
não suspeitando quem é que é a outra:
se amiga, companheira?
se amiga, amante?
mulher de limpeza dos sonhos?
pois as vossas caras só eu as enfrento, egoisticamente,
e brinco, ocultamente, com as vossas mãos também
na mesma cama,
ao mesmo tempo,
na mesma ausência -
das covas secas do mundo
ponho-me a rir, separadamente, por vosso gosto
e não me entristece ser isso uma condenação:
na minha morte serei,
sem falta, indivisível.


ENDRE KUKORELLY (2)

ENDRE KUKORELLY, poeta húngaro de que já aqui falámos brevemente, nasceu em Budapeste em 1951. A sua é uma poesia geralmente satírica onde o gosto pelo absurdo e pela irrisão anunciam uma atitude declaradamente anti-lirica. Isso mesmo nos diz Fernando Pinto do Amaral na apresentação que faz ao livro "Um Jardim de Plantas Medicinais", tradução colectiva (Mateus, Abril de 1995), editado pela Quetzal em 1997, de onde retirei o seguinte poema dedicado à memória de Thomas Bernhard:



ANDAR


Com este meu andar,
ando. Assim se movem
o tornozelo e o pé.

Sei andar. Vagueio.
Ontem fui até
à esquina. Mas

estava muito frio, e voltei
para trás. Rua do Coração.
Vim para casa. Quase

fiquei gelado. Não tinha
luvas. Tentei não pensar
no frio que sentia.

Tentei pensar. Pois,
mas só me vinha à ideia
todo aquele frio

que estava, que bom seria
ter as luvas. Hoje pelo menos
vou até à Rotunda.

É o meu plano. Hoje será
o meu programa. Vou realizar
este projecto.

E assim lá vou outra vez
à esquina da rua do Coração
com a Szondy, e daí

até à Arad, virando
à esquerda para a Szinyei,
e aí à direita:

a Rotunda. A minha vida
é andar assim. Ou seja,
esta marcha. Uma corrente. Enfim,

a vida é feita de
caminhadas e marchas.
Ou melhor, consiste nisso.

Não é um discurso tranquilo. Mas
também não é de acagaçar. Trinta e seis linhas.
Tantas palavras. Tantas letras.




PÉTER ZIRKULI

PÉTER ZIRKULI (n.1948), escritor húngaro, nascido na Roménia. O poema que se segue foi retirado do livro "O Instante Luminoso", Quetzal, 1997, tradução colectiva (Mateus, Abril de 1995), revista e apresentada por Nuno Júdice.



XII


Viveríamos apenas.
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.

Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.

É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.

Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.