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domingo, maio 13, 2012

CHARLES SIMIC (4)

(este post é para Luís Filipe Parrado)


O último livro de CHARLES SIMIC (Belgrado, 1938), poeta que foi assunto para três anteriores posts no Poesia Ilimitada, intitula-se “Master of Disguises” (Houghton Mifflin Harcourt, Boston, 2010). Uma vez mais, no seu estilo sintético, condensado, eliptico, o norte-americano desafia a nossa percepção da realidade ao aludir ao melífluo e ao ominoso que existe num quotidiano aparentemente inocente. Eis, com a devida vénia, quatro poemas do seu último livro, onde é particularmente evidente a força das suas imagens enigmáticas e paradoxais, súbitas e inconclusivas.



BLIND MAN FEEDING PIGEONS

Where did he get all these crumbs?
He tosses right and left
As the birds flock to him,
One alighting on his shoulder.

A few days later I had my answer
In a bakery where he turned up
To collect stale rolls,
Thanking one and all.

Then last night I thought of him
Sitting on a narrow bed
Breaking bread with his hands,
Unless, of course, he was dead.



CEGO ALIMENTANDO POMBOS

Onde arranjou ele essas migalhas?
Lança-as à esquerda e à direita
Enquanto os pássaros rumam a ele,
Um deles pousando em seu ombro.

Alguns dias depois tive a resposta
Numa padaria onde apareceu
Para recolher cacetes antigos,
Agradecendo a toda a gente.

Ainda ontem à noite pensei nele
Sentado numa cama estreita
Partindo pão com suas mãos
A não ser, claro, que estivesse morto.


§


THE ABSENT ONE

Someone’s late coming home.
The lamp left for him in the window
Burns as the day breaks,
and will burn for months after.

Our small street is dark at night.
The birdcages are covered early.
The goldfish barely stir in their jars.
Even the porch lights are off,

Leaving only his window lit
For moths to pay their respects
Until the weather turns cold
And the roofs are white with snow.



O AUSENTE

Alguém se atrasou a voltar para casa.
A lâmpada deixada acesa na janela
Arde enquanto o dia irrompe,
e vai arder durante meses.

À noite, a nossa pequena rua é escura.
As gaiolas cedo são cobertas.
Os peixes mal se mexem em seus jarros.
Mesmo as luzes da varanda são desligadas

Deixando apenas aquela janela acesa
Para as mariposas prestarem homenagem
Até que o tempo fique frio
E os telhados, brancos de neve.



§



DRIVING HOME

Minister of our coming doom, preaching
On the car radio, how right
Your hell and damnation sound to me
As I travel these small, bleak roads
Thinking of the mailman's son
The Army sent back in a sealed coffin.

His house is around the next turn.
A forlorn mutt sits in the yard
Waiting for someone to come home.
I can see the TV is on in the living room,
Canned laughter in the empty house
Like the sound of beer cans tied to a hearse.


CONDUZINDO PARA CASA

Ministro da nossa desgraça, pregando
Pela rádio no carro, quão certo o
Teu inferno e condenação soam para mim
Enquanto viajo por estas pequenas estradas sombrias
Pensando no filho do carteiro que
O Exército mandou de volta num caixão lacrado.

A sua casa é ao virar da próxima curva.
Um vira-latas abandonado está sentado no quintal
À espera que alguém torne a casa.
Consigo ver o televisor ligado na sala de estar,
Risos enlatados na casa vazia
Como o som de latas de cerveja atadas a um carro funerário.


§


THE TREE NO ONE VISITS

So I did. I climbed one afternoon
Up that steep, rocky hill,
Stopping to rest and admire a wildflower
And the view of the lake
In the valley down below.

I would have liked a goat for company.
A black-and-white one with a bell
To go ahead, graze awhile and break
The quiet as he resumes his ascent
To where a tree stands dark and silent

Waiting all these years for someone
To sit in its shade at ease with himself.
Even the wind that’s always thinking up
Little games for its leaves to play.
In no hurry now to disturb the peace.



A ÁRVORE QUE NINGUÉM VISITA

Então eu fui. Uma tarde subi
Aquela colina íngreme e rochosa,
Parando para descansar e admirar uma flor silvestre
E a vista do lago
No vale lá em baixo.

Teria gostado de uma cabra por companhia.
Uma preta e branca, com um sino
Para ir à frente, pastar um pouco e romper
O silêncio quando este retoma sua ascensão
Até onde uma árvore escura e silenciosa está

Esperando todos estes anos que alguém
Se sente à sua sombra, em calma consigo mesmo.
Até o vento está sempre a inventar
Joguinhos para as suas folhas brincarem,
Sem pressa agora de perturbar a paz.



domingo, março 18, 2012

RAYMOND CARVER



RAYMOND CARVER (Clatskanie, Oregon, 1938 – Port Angeles, Washington, 1988) foi um importante escritor americano, que se celebrizou principalmente como poeta e escritor de pequenas histórias, contos e crónicas. O poema que se segue, “Happiness”, foi traduzido por Jorge Sousa Braga, e constitui o terceiro post dedicado ao tema “A primeira luz”.



HAPPINESS


So early it's still almost dark out.
I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.

When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.

They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren't saying anything, these boys.

I think if they could, they would take
each other's arm.
It's early in the morning,
and they are doing this thing together.

They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.

Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.

Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


§


FELICIDADE


Tão cedo está ainda escuro lá fora
Estou à janela bebendo café
e com aquelas coisas matutinas
que passam por pensamentos

E vejo um rapaz e um amigo
que sobem a rua
a entregar jornais

Usam bonés e camisolas
e um deles traz um saco ao ombro
Estão tão felizes
que não dizem nada

Penso que se pudessem dariam
a mão um ao outro
É de madrugada
e sobem a rua juntos

Aproximam-se lentamente
O céu começa a clarear
embora a lua paire ainda pálida sobre a água

Que beleza Por um minuto
a morte e a ambição mesmo o amor
não têm nada a ver com isto

Felicidade Chega
inesperadamente e vai mais além
Qualquer madrugada fala disso

domingo, agosto 21, 2011

ANNE SEXTON

ANNE SEXTON (Newton, 1928 – Weston, 1974) foi uma notável poetisa americana conhecida principalmente pela sua poesia de forte pendor confessional, através da qual abordou temas invulgares como a depressão, de que padecia, e as suas próprias tendências suicidas, bem como assuntos igualmente pouco frequentes na poesia americana à altura como a biologia intíma da mulher. Sexton venceu o Pulitzer em 1967. Tal como Sylvia Plath, foi aluna de Robert Lowell, um mestre da poesia confessional. Suicidou-se a 4 de Outubro de 1974, após um almoço com a sua amiga Maxine Kumin, onde estivera a rever o seu manuscrito The Awful Rowing Toward God, que viria a ser publicado em Março do ano seguinte. Regressando a casa, vestiu o casaco de peles da mãe e fechou-se na garagem com o automóvel ligado.

Eis, em mais uma excelente tradução e colaboração de Jorge Sousa Braga para o Poesia Ilimitada, cinco poemas de Anne Sexton.



IN CELEBRATION OF MY UTERUS

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.



§


EM CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO

Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.


Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.


Cada célula tem uma vida.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.


Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação.


§


DREAMING THE BREASTS

Mother,
strange goddess face
above my milk home,
that delicate asylum,
I ate you up.
All my need took
you down like a meal.

What you gave
I remember in a dream:
the freckled arms binding me,
the laugh somewhere over my woolly hat,
the blood fingers tying my shoe,
the breasts hanging like two bats
and then darting at me,
bending me down.

The breasts I knew at midnight
beat like the sea in me now.
Mother, I put bees in my mouth
to keep from eating
yet it did no good.
In the end they cut off your breasts
and milk poured from them
into the surgeon's hand
and he embraced them.
I took them from him
and planted them.

I have put a padlock
on you, Mother, dear dead human,
so that your great bells,
those dear white ponies,
can go galloping, galloping,
wherever you are.



§


SONHANDO COM SEIOS

Mãe,
estranho rosto de deusa
sobre a minha casa de leite,
esse delicado asilo,
devorei-te.
Todas as minhas necessidades tragaram-te
como se fosses comida.


O que me deste
recordo-o num sonho:
os braços sardentos envolvendo-me,
o riso algures sobre o meu chapéu de lã,
os dedos de sangue atando os meus sapatos,
os seios suspensos como dois morcegos,
precipitando-se depois sobre mim,
até me dobrar.


Agora os seios que conheci à meia-noite
batem em mim como o mar.
Mãe enchi a boca de abelhas
para evitar comer
e isso não foi nada bom para ti.
Finalmente amputaram os teus seios
e o leite derramou-se
nas mãos do cirurgião
e ele abraçou-os
e eu retirei-lhos
e plantei-os.


Coloquei-te um cadeado,
mãe, querida morta humana,
para que as tuas grandes campânulas,
aqueles queridos póneis brancos,
possam galopar, galopar,
aonde quer que estejas.


§


WHEN MAN ENTERS WOMAN

When man
enters woman,
like the surf biting the shore,
again and again,
and the woman opens her mouth in pleasure
and her teeth gleam
like the alphabet,
Logos appears milking a star,
and the man
inside of woman
ties a knot
so that they will
never again be separate
and the woman
climbs into a flower
and swallows its stem
and Logos appears
and unleashed their rivers.

This man,
this woman
with their double hunger,
have tried to reach through
the curtain of God
and briefly they have,
though God
in His perversity
unties the knot.



§


QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER

Quando o homem
entra na mulher,
como a rebentação
batendo na costa,
uma e outra vez,
e a mulher abre a boca de prazer
e os seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó,
de modo que nunca mais
possam voltar a separar-se
e a mulher
trepa a uma flor
e engole o seu pecíolo
e Logos aparece
e solta os seus rios.


Este homem,
esta mulher
com o seu duplo desejo
tentaram atravessar
a cortina de Deus
e conseguiram-no por um instante,
embora Deus
na Sua perversidade
desate o nó.


§


THE BALLAD OF THE LONELY MASTURBATOR

The end of the affair is always death.
She’s my workshop. Slippery eye,
out of the tribe of myself my breath
finds you gone. I horrify
those who stand by. I am fed.
At night, alone, I marry the bed.


Finger to finger, now she’s mine.
She’s not too far. She’s my encounter.
I beat her like a bell. I recline
in the bower where you used to mount her.
You borrowed me on the flowered spread.
At night, alone, I marry the bed.


Take for instance this night, my love,
that every single couple puts together
with a joint overturning, beneath, above,
the abundant two on sponge and feather,
kneeling and pushing, head to head.
At night alone, I marry the bed.


I break out of my body this way,
an annoying miracle. Could I
put the dream market on display?
I am spread out. I crucify.
My little plum is what you said.
At night, alone, I marry the bed.


Then my black-eyed rival came.
The lady of water, rising on the beach,
a piano at her fingertips, shame
on her lips and a flute’s speech.
And I was the knock-kneed broom instead.
At night, alone, I marry the bed.


She took you the way a woman takes
a bargain dress off the rack
and I broke the way a stone breaks.
I give back your books and fishing tack.
Today’s paper says that you are wed.
At night, alone, I marry the bed.


The boys and girls are one tonight.
They unbutton blouses. They unzip flies.
They take off shoes. They turn off the light.
The glimmering creatures are full of lies.
They are eating each other. They are overfed.
At night, alone, I marry the bed.



§


BALADA DA MASTURBADORA SOLITÁRIA

O final de um caso é sempre a morte.
Ela é a minha oficina. Olho escorregadio,
fora da tribo de mim mesma o meu fôlego
encontra-te ausente. Escandalizo
os que estão presentes. Estou saciada.
De noite, só, caso-me com a cama.


Dedo a dedo, agora é minha.
Ela não está demasiado longe. Ela é o meu encontro.
Toco-a como um sino. Reclino-me
no caramanchão onde costumavas montá-la.
Possuíste-me na colcha florida.
À noite, só, caso-me com a cama.


Toma por exemplo esta noite, meu amor,
em que cada casal mistura
com uma reviravolta conjunta, para baixo, para cima,
o dois abundante sobre esponja e pena,
ajoelhando-se e empurrando, cabeça contra cabeça.
De noite, só, caso-me com a cama.


Desta forma escapo do meu corpo,
um milagre irritante. Podia eu
colocar o mercado dos sonhos em exibição?
Espalho-me. Crucifico.
Minha pequena ameixa, dizias tu.
Á noite, só, caso-me com a cama.


Então chegou a minha rival de olhos escuros.
A dama de água, erguendo-se na praia,
um piano nas pontas dos dedos, vergonha
nos seus lábios e uma voz de flauta.
Entretanto, passei a ser a vassoura usada.
Á noite, só, caso-me com a cama.


Ela agarrou-te como uma mulher agarra
um vestido de saldo de uma estante
e eu parti da mesma forma que uma pedra parte.
Devolvo-te os teus livros e a tua cana de pesca.
No jornal de hoje dizem que és casado.
Á noite, só, caso-me com a cama.


Rapazes e raparigas são um esta noite.
Desabotoam blusas. Abrem fechos.
Descalçam sapatos. Apagam a luz.
As criaturas bruxuleantes estão cheias de mentiras.
Comem-se uns aos outros. Estão repletos.
Á noite, só, caso-me com a cama.


§


MENSTRUATION AT FORTY

I was thinking of a son.
The womb is not a clock
nor a bell tolling,
but in the eleventh month of its life
I feel the November
of the body as well as of the calendar.
In two days it will be my birthday
and as always the earth is done with its harvest.
This time I hunt for death,
the night I lean toward,
the night I want.
Well then—
speak of it!
It was in the womb all along.


I was thinking of a son ...
You! The never acquired,
the never seeded or unfastened,
you of the genitals I feared,
the stalk and the puppy’s breath.
Will I give you my eyes or his?
Will you be the David or the Susan?
(Those two names I picked and listened for.)
Can you be the man your fathers are—
the leg muscles from Michelangelo,
hands from Yugoslavia
somewhere the peasant, Slavic and determined,
somewhere the survivor bulging with life—
and could it still be possible,
all this with Susan’s eyes?


All this without you—
two days gone in blood.
I myself will die without baptism,
a third daughter they didn’t bother.
My death will come on my name day.
What’s wrong with the name day?
It’s only an angel of the sun.
Woman,
weaving a web over your own,
a thin and tangled poison.
Scorpio,
bad spider—
die!


My death from the wrists,
two name tags,
blood worn like a corsage
to bloom
one on the left and one on the right—
It’s a warm room,
the place of the blood.
Leave the door open on its hinges!


Two days for your death
and two days until mine.


Love! That red disease—
year after year, David, you would make me wild!
David! Susan! David! David!
full and disheveled, hissing into the night,
never growing old,
waiting always for you on the porch ...
year after year,
my carrot, my cabbage,
I would have possessed you before all women,
calling your name,
calling you mine.


§


MENSTRUAÇÃO AOS QUARENTA

Pensava num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino que toca,
mas no décimo primeiro mês da sua vida
sinto o Novembro
do corpo assim como o do calendário.
Daqui a dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terá entregue a sua colheita.
Neste tempo procuro a morte,
a noite para a qual me inclino,
a noite que desejo.
Bem, pois então—
fala dele!
Durante todo este tempo esteve no ventre.


Pensava num filho…
Tu, o nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
tu, o dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do cachorro.
Dar-te-ei os meus olhos ou os dele?
Serás tu o David ou a Susana?
(Ouvi esses dois nomes e elegi-os.)
Podes ser igual aos homens da tua família,
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos originárias da Jugoslávia,
em qualquer parte o camponês, eslavo e determinado,
em qualquer parte o sobrevivente, pletórico de vida—
podia tudo isto ainda ser possível
com os olhos de Susana?


Tudo isto sem ti—
dois dias que se foram em sangue.
Morrerei sem ser baptizada,
a terceira filha que não azucrinaram.
A minha morte virá no dia do santo do meu nome,
O que há de errado com o dia do santo do meu nome?
É só um anjo do sol.
Mulher,
que teces uma teia de aranha sobre ti mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha—
morre.


A minha morte pelos pulsos,
duas etiquetas com o meu nome,
sangue usado como um corpete
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita:
é uma habitação quente,
o lugar do sangue.
Deixa a porta aberta sobre as dobradiças!


Dois dias para a tua morte
e dois dias até à minha.


Amor! Essa rubra doença –
Ano após ano, David, deixar-me-ias furiosa!
David, Susana, David, David!
roliço e desgrenhado, assobiando na noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por ti no alpendre…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
ter-te-ia possuído antes de todas as mulheres,
chamando pelo nome,
chamando-te minha.


sábado, fevereiro 26, 2011

CHARLES SIMIC (3)

É um dos meus poetas americanos de eleição, dos que estão vivos, o meu candidato ao Nobel (com Ashbery), pela consistência da sua poética. Natural da Jugoslávia, CHARLES SIMIC nasceu em Belgrado (Sérvia) em 1938, tendo viajado para os Estados Unidos aos 16 anos para ir ter com o pai, em 1954. Motivo para dois posts (aqui e aqui), no Poesia Ilimitada, na poesia de Charles Simic nunca é evidente onde termina a inocência e começa o ominoso. Simic tem um talento natural para apontar o detalhe que ilumina os bons poemas e desequilibra as coisas comuns, numa poética onde coexistem, lado a lado, o real e o surreal, o riso (irónico) e o lado mais obscuro da condição humana. Numa recensão crítica da People, escreve-se que Simic enche os seus poemas com as coisas que «an isomniac notices on the ceiling». Qualquer boa selecção da sua poesia corrobora imediatamente essa ideia. Eis quatro poemas (apenas), por mim traduzidos do inglês, da escolha pessoal que o poeta encetou para a Faber and Faber em 2004 (“Selected Poems 1963-2003”). Comecei por traduzir o triplo mas divulgo apenas quarto, por óbvias razões de direito autoral: o poema “Pedra”, porque me recorda muito o poema de Wisława Szymborska “Conversa com a pedra”, sublinhando assim que entre os grandes autores, ou eles se furtam entre si com elegância, ou passam pelos mesmos nichos e processos de pensamento ao longo de suas vidas literárias; “Prodígio”, porque me lembra as primeiras coisas do José Tolentino Mendonça em “Os Dias Contados”, no equilíbrio lírico da sua inocência; “Austeridades”, porque é um prodígio de economia, elipse e síntese (na versão inglesa, evidentemente), três das mais fortes qualidades que a poesia (que defendo) deve ter; e finalmente, “O Espantalho”, uma extraordinária analogia acerca da sexualidade na terceira idade, o meu preferido dos quatro. Aqui estão:

PEDRA

Entrar dentro de uma pedra
Seria esse o meu caminho.
Deixar outrem tornar-se pombo
Ou rilhar com dentes de tigre.
Sou feliz por ser uma pedra.

Por fora, a pedra é um enigma:
Ninguém sabe como o desvendar.
Dentro, porém, deve ser fresca e silenciosa
Mesmo que uma vaca a calque com todo o seu volume,
Mesmo que uma criança a atire para um rio;
A pedra afunda-se, lenta, imperturbavelmente
Até ao fundo do leito
Onde os peixes vêm bater na pedra
E escutar.

Eu vi as faíscas voando
Quando duas pedras são friccionadas,
Talvez então não seja escuro, apesar de tudo, lá dentro;
Talvez exista uma lua brilhando
Desde algures, como se por trás de uma colina –
Apenas a luz suficiente para distinguir
Os estranhos escritos, as cartas astrais
Nas paredes de dentro.

(1971)

§



PRODÍGIO

Cresci dobrado sobre
um tabuleiro de xadrez.

Adorava a palavra check-mate.

Todos os meus primos pareciam preocupados.

Era uma pequena casa
perto de um cemitério romano.
Aviões e tanques
sacudiam o vidro das janelas.

Um professor de astronomia reformado
ensinou-me a jogar.

Isto deve ter sido em 1944.

No tabuleiro que usávamos,
a tinta estava quase lascada
nas partes pretas.

O Rei branco estava em falta
e teve que ser substituído por.

Disseram-me, mas eu não acredito
que nesse verão testemunhei
homens pendurados em postes telefónicos.

Lembro-me da minha mãe
vendar-me muito os olhos.
Ela tinha um modo de enfiar a minha cabeça
de repente sob o seu casaco.

Disse-me um professor que no xadrez,
os mestres também jogam de olhos vendados,
os maiores deles em vários tabuleiros
ao mesmo tempo.

(1980)

§



AUSTERIDADES


Da carcaça
De meio pão
De pão preto,
Fizeram a cabeça de uma criança.

Criança, disseram,
Não temos nada para os olhos,
Nada que sobre para as orelhas
E o nariz.

Somente uma faca
Para fazer a fenda
Onde a tua boca
deveria ser.

Podes sorrir,
Podes comer,
Cuspir migalhas
Para os nossos rostos.

(1982)

§



O ESPANTALHO


Deus refuta mas o diabo não.

Os tomates deste ano são algo de se ver.
Trinca-os fundo, Martha,
Como farias numa maçã madura.
Após cada dentada junta um pouco de sal.

Se os sucos correrem pelo teu queixo abaixo
Até aos teus seios nus,
Dobra-te sobre a banca da cozinha.

Daí poderás ver o teu marido chegar
A um ponto morto no descampado vazio
Frente a um dos seus sombrios pensamentos
Esticando os braços como um espantalho.

(1990)

sábado, dezembro 11, 2010

W.H.AUDEN (2)


W. H. AUDEN
nasceu em 1907, em York, tendo falecido em 1973, em Kischtetten, perto de Viena. Viveu em Inglaterra até 1938, convivendo com Louis MacNeice e Stephen Spender, entre outros, ano em que emigrou para os Estados Unidos, onde conheceu o seu companheiro Chester Kallman, e obteve a cidadania americana, convertendo-se ao cristianismo. Em 1959 foi nomeado professor de poesia em Oxford. A editora Assírio & Alvim publicou em 1994, uma antologia de poemas de Auden que José Alberto Oliveira intitulou de “O Massacre dos Inocentes”, a partir do título de um dos poemas que traduziu, “For The Time Being”. Também a Relógio d’Água editou em 2003, o belíssimo “Outro Tempo”, com tradução de Margarida Vale de Gato. Já aqui havia trazido ao Poesia Ilimitada um poema de Auden de que gosto muito, “Funeral Blues”; não é esse porém o meu poema de eleição do poeta anglosaxónico, antes “Musée des Beaux Arts”, do qual tento aqui uma tradução.



MUSÉE DES BEAUX ARTS

About suffering they were never wrong,
The Old Masters: how well they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Brueghel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.




MUSÉE DES BEAUX ARTS

Acerca do sofrimento, nunca se enganaram
Os Velhos Mestres: quão bem entenderam
A condição humana; como está presente
Enquanto alguém se alimenta ou abre uma janela ou monotonamente segue a caminhar;
Como, enquanto os velhos esperam apaixonada e reverentemente
Pelo miraculoso nascimento, deve sempre haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lago na orla da floresta:
Nunca esqueceram
Que até o mais terrível martírio deve seguir o seu curso,
Custe o que custar, a um canto, nalgum lugar descuidado
Onde os canídeos acorrem em suas vidas de cão, e o cavalo do torturador
Coça seu inocente traseiro por detrás de uma árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo se afasta
Ociosamente do desastre; o lavrador poderá
Ter ouvido o splash, o grito desamparado,
Mas para ele não era um importante fracasso; o sol brilhou
Como soía
sobre as pernas brancas que desapareceram na verde
Água; e o frágil e grandioso navio que deve ter avistado
Algo espantoso, um rapaz caindo do céu,
Tinha um destino para ir e afastou-se calmamente.


segunda-feira, novembro 01, 2010

CHARLES SIMIC (2)

CHARLES SIMIC (Belgrado, Sérvia, 1938)


Shirt


To get into it
As it lies
Crumpled on the floor
Without disturbing a single crease

Respectful
Of the way I threw it Down
Last night
The way it happened to land

Almost managing
The impossible contortions
Doubling back now
Through a knotted sleeve


§


Camisa

Entrar dentro dela
Tal como está
Amorfanhada no chão
Sem perturbar uma única prega

Respeitando
O modo como a atirei
Ontem à noite
O modo que aconteceu aterrar

Quase gerindo
Contorções impossíveis
Voltando agora atrás
Pela dobra da manga

quinta-feira, agosto 05, 2010

BILLY COLLINS (2)

BILLY COLLINS nasceu em Nova Iorque em 1941. É um dos poetas vivos mais conceituados dos Estados Unidos, motivo para um anterior post aqui no Poesia Ilimitada. Na opinião do seu tradutor para castelhano Juan José Almagro Iglesias, "concebe o idioma como tempo e espaço necessários para que não se perca a única história documentada que possuímos do sentimento humano: a poesia". Os quatro poemas que se seguem foram traduzidos do inglês da edição bilingue "Lo Malo de la poesia y otros poemas", editado pela excelente Bartleby Editores (Madrid, 2007). A antologia original de Billy Collins é de 2005. Este post é para F.




YOU, READER


I wonder how you are going to feel
when you find out
that I wrote this instead of you,

that it was I who got up early
to sit in the kitchen
and mention with a pen

the rain-soaked windows,
the ivy wallpaper,
and the goldfish circling in its bowl.

Go ahead and turn aside,
bite your lip and tear out the page,
but, listen – it was just a matter of time

before one of us happened
to notice the unlit candles
and the clock humming on the wall.

Plus, nothing happened that morning –
a song on the radio,
a car whistling along the road outside –

and I was only thinking
about the shakers of salt and pepper
that were standing side by side on a place mat.

I wondered if they had become friends
after all these years
or if they were still strangers to one another

like you and I
who manage to be known and unknown
to each other at the same time –

me at this table with a bowl of pears,
you learning in a doorway somewhere
near some blue hydrangeas, reading this.



§


TU, LEITOR



Pergunto-me como te vais sentir
quando descobrires
que fui eu que escrevi isto em vez de ti,

que fui eu que me levantei cedo
para me sentar na cozinha
e mencionar com uma caneta

as janelas ensopadas pela chuva,
o papel de parede com heras,
o peixe-dourado circulando no aquário.

Vá lá, dá a volta,
morde o lábio e arranca a página,
mas, escuta - era só uma questão de tempo

até que um de nós casualmente
reparasse nas velas apagadas
no relógio murmurando na parede.

Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –
uma canção na rádio,
um carro assobiando na estrada lá fora –

e eu simplesmente pensando
no saleiro e no pimenteiro
colocados lado a lado num mantel individual.

Perguntei-me se se haviam feito amigos
depois de todos estes anos
ou se ainda eram estranhos um para o outro

como tu e eu
que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos
um para o outro ao mesmo tempo –

eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,
tu encostado algures na entrada de uma casa
junto a umas hortênsias azuis lendo isto.


§


THE STUDENT



My poetry instruction book,
which I bought at an outdoor stall along the river,

contains many rules
about what to avoid and what to follow.

More than two people in a poem
is a crowd, is one.

Mention what clothes you are wearing
as you compose, is another.

Avoid the word vortex,
the word velvety, and the word cicada.

When at a loss for an ending,
have some brown hens standing in the rain.

Never admit that you revise.
And – always keep your poem in one season.

I try to be mindful,
but in these last days of summer

whenever I look up from my page
and see a burn-mark of yellow leaves,

I think of the icy winds
that will soon be knifing through my jacket.



§


O ALUNO


O meu livro de instruções de poesia,
comprado num quiosque junto ao rio,

contém várias regras
sobre o que evitar e o que seguir.

Mais de duas pessoas num poema
é uma multidão, eis uma.

Mencionar que roupa usas
enquanto escreves, é outra.

Evitar a palavra vórtice,
a palavra aveludado, e a palavra cigarra.

À falta de um final,
coloca umas galinhas castanhas em plena chuva.

Nunca admitas que reves.
E – mantém sempre o teu poema numa só estação.

Tento estar atento,
mas nestes últimos dias de verão

sempre que elevo os olhos da página
e vejo uma mancha queimada de folhas amarelas,

penso nos ventos glaciais
que brevemente me atravessarão o casaco.


§


CONSTELLATIONS


Yes, that’s Orion over there,
the three studs of the belt
clearly lined up just off the horizon.

And if you turn around you can see
Gemini, very visible tonight,
the twins looking off into space as usual.

That cluster a little higher in the sky
is Cassiopeia sitting in her astral chair
if I’m not mistaken.

And directly overhead, isn’t that Virginia Wolf
slipping along the River Ouse

in her inflatable canoe?
See the wide-brimmed hat and there,
the outline of the paddle, raised and dripping stars?



§


CONSTELAÇÕES


Sim, aquela ali é Orion,
os três orificios do cinto
nitidamente enfileirados para lá do horizonte.

E se te virares podes ver
Gémeos, muito nítida esta noite,
os gémeos com o olhar perdido no espaço como sempre.

Aquele grupo um pouco mais acima no céu
é Cassiopeia sentada na sua cadeira astral
se não estou em erro.

E mesmo acima de nossas cabeças,
não parece Virgínia Wolf
deslizando ao longo do Rio Ouse

na sua canoa insuflável?
Vês o sombreiro de aba larga e além,
a silhueta do remo, levantado, gotejando estrelas?


§


THE INTRODUCTION



I don’t think this next poem
needs any introduction –
it’s best to let the work speak for itself.

Maybe I should just mention
that whenever I use the word five,
I’m referring to that group of Russian composers
who came to be known as “The Five”,
Balakiev, Moussorgsky, Borodin – that crowd.

Oh – and Hypsicles was a Greek astronomer.
He did something with the circle.

That’s about it, but for the record,
“Grimké” is Angelina Emily Grimké, the abolitionist.
“Imroz” is that little island near the Dardanelles.
“Monad” – well, you know what a monad is.

There could be a little problem
with mastaba, which is one of those Egyptian
above-ground sepulchers, sort of brick and limestone.

And you’re all familiar with helminthology?
It’s the science of worms.

Oh, and you recall that Phoebe Mozee
is the real name of Annie Oakley.

Other than that, everything should be obvious.
Wagga Wagga is New South Wales.
Rhyolite is that soft volcanic rock.
What else? Yes, meranti is a type of timber, in tropical Asia I think,
and Rahway is just Rahway, New Jersey.

The rest of the poem should be clear.
I’ll just read it and let it speak for itself.

It’s about the time I went picking wild strawberries.

It’s called “Picking Wild Strawberries”.



§


A APRESENTAÇÃO



Penso que o próximo poema não
necessita de qualquer apresentação –
o melhor é mesmo deixar que a obra fale por si.

Talvez devesse apenas mencionar
que sempre que uso a palavra cinco,
me estou a referir àquele grupo de compositores russos
que veio a ser conhecido como “Os Cinco”,
Balakiev, Moussorgsky, Borodin – essa gente.

Ah - e Hípsicles foi um astronomo grego.
Fez algo com a circunfrência.

E é tudo, mas para que conste,
“Grimké” é Angelina Emily Grimké, a abolicionista.
“Imroz” é aquela pequena ilha perto de Dardanelos.
“Mónada” - bom, vocês sabem o que é uma mónada.

Poderá haver um pequeno problema
com mastaba, que é um desses sepulcros
egípcios sobre o solo, do género de tijolo e pedra de cal.

E estão familiarizados com helmintologia?
É a ciência das larvas.

Ah, e recordem que Phoebe Mozee
é o verdadeiro nome de Annie Oakley.

À parte disso, tudo deverá ser óbvio.
Wagga Wagga é a Nova Gales do Sul.
Riolite é aquela pedra vulcânica macia.
Que mais? Sim, meranti é um tipo de madeira, da Ásia tropical penso eu,
e Rahway é mesmo Rahway, Nova Jersey.

O resto do poema deverá ser claro.
Vou então lê-lo e deixarei que fale por si.

É sobre aquela vez que fui colher morangos silvestres.

Chama-se “Colhendo Morangos Silvestres”.


§


(Ouvir Billy Collins)




sábado, julho 24, 2010

JOHN UPDIKE

JOHN UPDIKE
1932 — 2009

OSSOS DE ANJOS

Perto da catedral de Reims carregada de estátuas,
o palácio do bispo tornou-se um museu,
albergando muitas pedras gastas pelo uso,
pelos bombardeamentos, pelas renovações e pelo raro
e tonitroante Te Deum.

Santos e anjos enormes protegidos do tempo erguem-se
acima de nós. Os seus semblantes foram esculpidos para
mostrar uma alma - uma face da graça acima das guerras,
das pestes, do fedor das gentes em congregação -
aos crentes por eles diminuídos.

Agora, fragmentos e falhas provam que estes colossos
emprestados pelo Céu se tornaram posse do terreno mal,
que o calcário, macio ao cinzel, se quebra facilmente.
Olhai aqui! - um flanco cindido e fracturado revela
uma concha minúscula, única, intacta,

salva de desaparecidos mares pré-cristãos, escuros,
imensos. Às gentes piedosas, movendo-se em baixo,
elevando o olhar à imensidão sagrada, faltava-lhes
a ciência para deduzir, a partir desta pequena pista,
o que queria dizer a ausência poderosa.


in "Ponto Último e outros poemas", tradução de Ana Luísa Amaral, Civilização Editora, Porto, 2009

segunda-feira, abril 12, 2010

LUÍS FILIPE PARRADO acerca de ANDREW HUDGINS

«Escolho este poema por ter sido um dos primeiros que apresentei no meu blogue e porque continua a ser um dos que mais gosto. E por que gosto? Por se tratar de um texto que alia um cuidado formal a uma multiplicidade de sentidos que se entrecruzam, tudo isto num registo de uma simplicidade desarmante. O cuidado formal verifica-se, por exemplo, na regularidade estrófica e métrica, bem como no facto de se dizer o que há a dizer sem que se sintam palavras a mais ou a menos. Quanto ao sentido, ele nasce da força discreta de uma narrativa que é uma evocação de uma experiência da infância ou adolescência – real ou imaginária, tanto faz – do “eu” poético. Uma narrativa que faz da memória, do tempo, da “descoberta” da morte e do medo os seus temas fundamentais: numa descida aos infernos (ao fundo de um poço), o poeta, enquanto jovem Orfeu, descobre e resgata a sua Eurídice invertida na figura do cadáver do cão do vizinho que pode contaminar as águas vitais do poço. No fim, o regresso à superfície é o regresso à vida e a sua descrição é a evidência desta espécie de acto de resistência ao tempo e à morte que, muitas vezes, a poesia é.»


ANDREW HUDGINS
nasceu em Killeen, Texas, em Abril de 1951 e é autor de vários livros de poesia e ensaio ("Saints and Strangers", "Babylon in a Jar", "The Glass Anvil" são alguns deles). Tem poemas publicados em revistas como The New Yorker ou Paris Review e em diversas antologias de poesia americana. É professor na Universidade de Cincinnati, no Ohio.

IN THE WELL

My father cinched the rope,
a noose around my waist,
and lowered me into
the darkness. I could taste

my fear. It tasted first
of dark, then earth, then rot.
I swung and struck my head
and at that moment got

another then: then blood,
which spiked my mouth with iron.
Hand over hand, my father
dropped me from then to then:

then water. Then wet fur,
which I hugged to my chest.
I shouted. Daddy hauled
the wet rope. I gagged, and pressed

my neighbor's missing dog
against me. I held its death
and rose up to my father.
Then light. Then hands. Then breath.



NO POÇO

O meu pai cingiu a corda,
um nó em torno da minha cintura,
e baixou-me para o interior
das trevas. Pude provar o sabor

do meu medo. Primeiro do escuro,
depois da terra, depois da podridão.
Oscilei e bati com a cabeça
e nesse instante cheguei

a outro medo: o do sangue,
que me fez cerrar ferreamente a boca.
À força de mãos, o meu pai
fez-me passar por tudo isto:

depois a água. Depois o pêlo encharcado,
que abracei contra o peito.
Gritei. E o meu pai puxou a corda
molhada. Desequilibrei-me, apertei

o cão desaparecido do meu vizinho
contra mim. Segurei a sua morte
e ascendi até ao meu pai.
Depois luz. Depois mãos. Depois a respiração.



LUÍS FILIPE PARRADO nasceu no Seixal, em 1968, onde vive. É professor de Português no ensino secundário. Passa poemas para português no meu blogue favorito: Do trapézio, sem rede. É uma das mais consistentes revelações poéticas dos últimos anos.

sexta-feira, março 26, 2010

ANA LUÍSA AMARAL acerca de EMILY DICKINSON


«Emily Dickinson é a poeta mais fascinante que conheço. O não ter praticamente publicado em vida autorizou sucessivas e revistas edições dos seus versos, espalhando a polémica entre críticos e organizadores. O ter incluído poemas em cartas, o ter falado da poesia como carta e trazido para o corpo das cartas o ritmo, a rima e a música da poesia fez com que dos seus textos uma poeta mais recente escrevesse: “
os poemas chamar-se-ão cartas e as cartas chamar-se-ão poemas”. A sua linguagem poética, ao mesmo tempo metafórica e elíptica, sincopada e oblíqua, sem muitas vezes concordância de formas verbais, nem respeito por plurais ou regras de gramática, deixou espaço a que dela se acentuasse o excessivo ofício com a gramática ou se falasse até de uma gramática própria. O seu uso recorrente de travessões, que fragmentam e questionam o verso, permitiu que deles se dissesse serem formas de dispersão da unidade discursiva, ou, sexualizados, uma espécie de hímen-hifen. Tudo isto me fascina em Emily Dickinson. E mais ainda: o ter falado de tudo, misturando Deus com ladrões, aranhas com vassouras, alma com vulcões, sonho com abelhas, gerânios, piscos e trevos; ou o ter examinado a morte e a vida, explorado o amor e o inferno, o êxtase, a mais pura alegria, o sofrimento, a misteriosa energia das coisas todas do universo. Ainda o tê-lo feito numa voz de mulher, aparentemente submissa, de facto poderosa. “Habito a Possibilidade - / Uma Casa mais bela do que a Prosa –“, escreveu. Depois disto, que melhor definição de poesia?»

My life closed twice before its close -
It yet remains to see
If Immortality unveil
A third event to me

So huge, so hopeless to conceive
As these that twice befell.
Parting is all we know of heaven,
And all we need of hell.


A minha vida fechou-se duas vezes antes de se fechar –
Mas fica por saber
Se a imortalidade me revela
Um evento maior

Tão largo, tão incrível de pensar
Como estes que sobre ela duas vezes tombaram.
Partir é tudo o que sabemos do céu,
Tudo o que do inferno se pode precisar.


§


To pile like thunder to its close
Then crumble grand away
While Everything created hid
This - would be Poetry -

Or Love - the two coeval come -
We both and neither prove -
Experience either and consume -
For None see God and live -




Crescendo de trovão até findar,
Depois o esboroar-se, grandioso,
Quando o Tudo criado era escondido
Isto – a Poesia -

Ou o Amor - os dois vêm coevos -
Ambos, nenhum provamos -
Um qualquer experimentamos e morremos -
Ninguém vê Deus e vive –



ANA LUÍSA AMARAL
nasceu em Lisboa, em 1956. Vive em Leça da Palmeira. Ensina Literatura Inglesa no Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras do Porto. É doutorada em Literatura Norte-Americana com uma tese sobre Emily Dickinson. Autora de oito livros de poesia e dois livros infantis, está representada em diversas antologias portuguesas e estrangeiras e foi traduzida para várias línguas, como castelhano, inglês, francês, alemão, holandês, russo, búlgaro e croata.

Os poemas acima traduzidos por Ana Luísa Amaral são publicados pela primeira vez, em exclusivo, no Poesia Ilimitada.


Leia mais sobre Ana Luísa Amaral aqui.

sexta-feira, março 19, 2010

RUI MANUEL AMARAL acerca de RUSSELL EDSON

«'Outono' não é exactamente um poema.», observa Rui Manuel Amaral. «Também não é propriamente um conto curto. É algo que fica a meio caminho entre um género e outro. Ou que, de certa forma, parece combinar os dois. Os estudiosos chamam-lhe 'prosa poética'. Uma espécie de ornitorrinco literário. É justamente essa ambiguidade, essa condição de coisa escorregadia, desarrumada e difícil de classificar que me apaixona na grande criação literária. A obra de Russell Edson é um dos melhores exemplos disso mesmo: uma poderosa afirmação de liberdade, de negação de categorias e fronteiras. E este conto-poema-ou-o-que-lhe-queiram-chamar é uma obra-prima desse género singular: não é poesia, não é prosa, é grande literatura.»
THE FALL

There was a man who found two leaves and came indoors holding them out saying to his parents that he was a tree.

To which they said then go into the yard and do not grow in the living-room as your roots may ruin the carpet.

He said I was fooling I am not a tree and he dropped his leaves.

But his parents said look it is fall.


§


O poema 'The Fall', do livro 'What A Man Can See' (1969), foi traduzido por José Alberto Oliveira e publicado em 'O Túnel', Assírio & Alvim, 2002. Russell Edson (EUA, 1935) é autor de vários livros de poesia, além de obras de ficção e peças de teatro. Leia um extracto da introdução de José Alberto Oliveira a "O Túnel", no site da Assírio & Alvim.


§


OUTONO

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.

Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.

Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.

Mas os pais disseram olha é outono.




Rui Manuel Amaral nasceu no Porto, em 1973, cidade onde vive. Autor de 'Caravana', livro de contos, publicado pela editora Angelus Novus, em 2008. Foi fundador da 'Águas Furtadas, Revista de Literatura, Música e Artes Visuais' e seu coordenador literário entre os números 7 e 10. Está representado em diversas antologias dedicadas ao conto breve, editadas em Portugal e no Brasil. Tem colaborações dispersas por múltiplas revistas literárias. É autor de vários livros sobre história oral e tradições populares da cidade do Porto. É co-autor com Cristina Marti do blogue 'Dias Felizes'.

Leia mais sobre Rui Manuel Amaral, aqui.


terça-feira, março 09, 2010

RICHARD ZIMLER acerca de WALT WHITMAN e EDGAR ALLAN POE


«A poesia de Poe», diz Richard Zimler ao Poesia Ilimitada, «demonstra um ritmo extraordinário, às vezes frenético, e as suas rimas tornam os seus versos relativamente fáceis de memorizar. A isso se deve, em grande parte, a sua popularidade. A obsessão de Poe pela morte e as profundas saudades deixadas pelo desaparecimento de pessoas amadas traduzem-se num estilo extremamente dramático e, às vezes, melancólico. A sua poesia marcou a minha adolescência. Mais tarde, no fim do liceu, descobri Walt Whitman. Embora também seja Americano e também da mesma época (século XIX), Whitman é muito diferente de Poe. Por exemplo, utiliza poucas rimas e os seus ritmos são, em geral, mais moderados e, às vezes, invulgares. É por excelência o poeta do corpo, das sensações, da beleza e da benção dos nossos sentidos. É também um poeta de dualidades. Por exemplo, embora seja um poeta muito ligado à terra, à geografia e à paisagem, também evidencia um misticismo esplendoroso. Whitman une corpo e alma nos seus versos, criando assim uma espiritualidade em que não há distinção entre sensações físicas e mentais. Serviu como enfermeiro na guerra civil norte-americana e a sua poesia está marcada pela tristeza e pelo sentimento de solidariedade provocadas por esta experiência. Os meus poemas favoritos de Poe são "O Corvo" e "Os Sinos". De Whitman, "Canto de Mim Mesmo".»

O CORVO
(tradução de Fernando Pessoa)


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!




Richard Zimler nasceu em Roslyn Heights, um subúrbio de Nova Iorque, em 1956. Tem um Bacharelato em Religião Comparada pela Duke University (1977) e um Mestrado em Jornalismo pela Stanford University (1982), tendo trabalhado 8 anos como jornalista na área de São Francisco. Em 1990, vem viver para o Porto, onde ensina Jornalismo desde há 16 anos. Publicou inúmeros romances, entre eles, "O Último Cabalista de Lisboa", "O Guardião da Aurora", "A Sétima Porta" e "Os Anagramas de Varsóvia", entre outros. É crítico literário do L.A. Times e do San Francisco Chronicle.


domingo, setembro 21, 2008

CLAUDIA EMERSON

CLAUDIA EMERSON (n. 1957, Chatham, Virginia) é uma poeta americana. Ganhou, em 2006, o prémio Pulitzer de Poesia com a colecção “Late Wife”, de onde traduzi o poema que apresento. É professora de inglês na Universidade de Mary Washington, em Fredericksburg, Virgínia, onde vive com o marido, Kent Ippolito, músico de jazz e blues.



MY GRANDMOTHER’S PLOT IN THE FAMILY CEMETERY

She was my grandfather’s second wife. Coming late
to him, she was the same age his first wife
had been when he married her. He made
my grandmother a young widow to no one’s surprise,
and she buried him close beside the one whose sons
clung to her at the funeral tighter than her own
children. But little of that story is told
by this place. The two of them lie beneath one stone,

Mother and Father in cursive carved at the foot
of the grave. My grandmother, as though by her own design
removed, is buried in the comer, outermost plot,
with no one near, her married name the only sign
she belongs. And at that, she could be Daughter or pitied
Sister, one of those who never married.



§



O ENREDO DE MINHA AVÓ NO CEMITÉRIO FAMILIAR

Ela foi a segunda mulher do meu avô. Chegando tarde
até ele, tinha a exacta idade que a primeira esposa
tinha quando ele casou com ela. Fez
de minha avó uma jovem viúva, para surpresa de ninguém,
e ela enterrou-o mesmo ao lado daquela cujos filhos
no enterro, se agarraram mais a ela do que os seus próprios
filhos. Mas pouco dessa história é contado
neste lugar. Os dois estendem-se sob uma pedra,

Mãe e Pai em caligrafia esculpida aos pés
da sepultura. Minha avó, como se por seu próprio desígnio
afastada, está sepultada a um canto, sem ninguém próximo,
enredo extremo, o seu nome de casada como único sinal de
que pertence. E nisso, bem poderia ser Filha ou Irmã
compadecida, uma dessas que nunca se casou.



segunda-feira, abril 30, 2007

PAUL VIOLI

PAUL VIOLI nasceu em Nova Iorque em 1944 e cresceu em Greenlawn, Long Island. Tem quatro livros de poesia publicados. É professor na New Scholl e na Columbia University.



COUNTERMAN

- What'll it be?

Roast beef on rye, with tomato and mayo.

- Whaddaya want on it?

A swipe of mayo.
Pepper but no salt.

- You got it. Roast beef on rye.
You want lettuce on that?

No. Just tomato and mayo.

- Tomato and mayo. You got it.
. . . Salt and pepper?

No salt, just a little pepper.

- You got it. No salt.
You want tomato.

Yes. Tomato. No lettuce.

- No lettuce. You got it.
. . . No salt, right?

Right. No salt.

- You got it. - Pickle?

No, no pickle. Just tomato and mayo.
And pepper.

- Pepper.

Yes, a little pepper.

- Right. A little pepper.
No pickle.

Right. No pickle.

- You got it.
Next!

Roast beef on whole wheat, please,
With lettuce, mayonnaise, and a center slice
Of beefsteak tomato.
The lettuee splayed, if you will,
In a Beaux Arts derivative of classical acanthus,
And the roast beef, thinly sliced, folded
In a multifoil arrangement
That eschews Bragdonian pretensions
Or any idea of divine geometric projection
For that matter, but simply provides
A setting for the tomato
To form a medallion with a dab
Of mayonnaise as a fleuron.
And - as eclectic as this may sound –
If the mayonnaise can also be applied
Along the crust in a Vitruvian scroll
And as a festoon below the medallion,
That would be swell.

- You mean like in the Cathedral St. Pierre in Geneva?

Yes, but the swag more like the one below the rosette
At the Royal Palace in Amsterdam.

- You got it.
Next!



§



CAIXA

- O que vai ser?

Rosbife em centeio, com tomate e maionese.

- Oquéque vai querer dentro?

Um toque de maionese.
Pimenta mas sem sal.

- É para já. Rosbife em centeio.
Quer alface?

Não. Só tomate e maionese.

- Tomate e maionese. É para já.
… Sal e pimenta?

Sem sal, só um pouco de pimenta.

- É para já. Sem sal.
E quer tomate.

Sim. Tomate. Sem alface.

- Sem alface. É para já.
… Sem sal, certo?

Certo. Sem sal.

- É para já. – Pickles?

Não, sem pickles. Só tomate e maionese.
E pimenta.

- Pimenta.

Sim, um pouco de pimenta.

- Certo. Um pouco de pimenta.
Sem pickles.

Certo. Sem pickles.

- É para já.
Próximo!


Rosbife em trigo inteiro, por favor,
Com alface, maionese, e no centro uma fatia
De tomate para bife.
A alface aberta, se puder ser,
Numa variação Belas Artes de um acanto clássico,
E o rosbife, finamente fatiado, dobrado
Num arranjo multilobado
Que evite pretensões Bragdonianas
Ou qualquer ideia de projecção geométrica divina
Nesse aspecto, mas simplesmente proporcione
Uma colocação para o tomate
Formar um medalhão com uma pincelada
De maionese qual um florão.
E – por mais eclético que isto possa soar –
Se a maionese puder também ser aplicada
Ao longo da crosta como um rolo de papel Vitruviano
Qual florão sob o medalhão,
Isso seria incrível.

- Está a dizer como na Catedral de S. Pierre em Genebra?

Sim, mas a grinalda mais como aquela sob a roseta
Do Palácio Real de Amesterdão.

- É para já.
Próximo!



NOTA: Acerca de "Counterman”, escreve Paul Violi: “Cruzei-me por acaso com um apontamento no meu bloco onde tinha estado a ensaiar o tempo e a dicção de um diálogo numa deli. Já não o lia há aproximadamente ano e meio e julgava que já não ia fazer nada daquilo, quando dois incidentes me despertaram o poema. Eu tinha estado numa deli na West Third Street, em Manhattan, e escutara um cliente com uma voz muito pesada apresentar este silogismo a um caixa mexicano: ‘Então, tu nunca foste à Irlanda, certo? Então, não sabes o que estás para aí a dizer, certo? Então, tu devias era fechar essa boca, certo? ’ Depois entreolharam-se de um modo muito agudo e todo a gente ficou tensa. A seguir desmancharam-se a rir. Aparentemente aquilo era uma rotina que eles tinham diariamente. O outro incidente ocorreu numa deli de Hoboken, vinte anos antes. Um caixa taciturno e solene aceitou a minha ordem e procedeu com tanto cuidado que parecia que cada sanduíche que ele fazia era a Sanduíche Perfeita. Não me disse uma única palavra e serviu-me com uma atitude que me pareceu uma mistura de dignidade e desdém. Embora o poema não retenha qualquer uma dessas memórias, ocorreu-me somar este episódio ao primeiro e depressa entraram em diálogo".



domingo, abril 29, 2007

NATASHA TRETHEWEY

(actualizado)
(este post é para José Miguel Silva)

NATASHA TRETHEWAY nasceu em 1966 em Gulfport, Mississippi, numa época em que o casamento interracial de seus pais era considerado crime naquele estado. No certificado de nascimento, no espaço destinado a ser preenchido com a raça da mãe, surge a expressão "colored", e no do pai, um americano branco nascido na Nova Escócia, surge a expressão "Canadian". O poema "White Lies", de Natasha Trethewey - escritora que pertence à mais jovem geração de poetas norte-americanos, - plasma num tom inocente a atitude adolescente de uma rapariga mestiça, filha de pai branco e mãe negra, portanto, mas suficientemente clara para conseguir "passar por branca" numa sociedade subjugada pelo enorme peso do racismo. Nathasha Tretheway vive em Atalanta, onde é professora associada de Inglês e de Escrita Criativa na Emory University. O seu primeiro livro de poesia "Domestic Work" (Graywolf Press, 2000), recebeu o prémio Cave Canem, em 1999, o prémio do Mississippi Institute of Arts and Letters, em 2001 e o prestigiado Lillian Smith Award for Poetry, em 2001. A sua segunda colecção de poemas "Bellocq's Ophelia" (Graywolf Press, 2002), recebeu o prémio do Mississippi Institute of Arts and Letters, em 2003, e foi finalista do prémio da Academy of American Poets' James Laughlin e do prémio Lenore Marshall, tendo sido nomeado em 2003 para Notable Book by the American Library Association. A sua terceira colecção de poemas intitula-se "Native Guard", e saiu em 2006 na editora Houghton Mifflin.



WHITE LIES

The lies I could tell,
when I was growing up
light-bright, near-white,
high-yellow, red-boned
in a black place,
were just white lies.

I could easily tell the white folks
that we lived uptown,
not in that pink and green
shanty-fied shotgun section
along the tracks. I could act
like my homemade dresses
came straight out the window
of Maison Blanch. I could even
keep quiet, quiet as kept,
like the time a white girl said
(squeezing my hand), Now
we have three af us in this class
.

But I paid for it every time
Mama found out.
She laid her hands on me,
then washed out my mouth
with Ivory soap. This
is to purify
, she said,
and cleanse your lying tongue.
Believing her, I swallowed suds
thinking they'd work
from the inside out.



§ (tradução colectiva Poesia Ilimitada)



MENTIRAS BRANCAS

As mentiras que eu contava,
enquanto crescia
luminosa, quase-branca,
muito clara, ossos rubros
num lugar de negros,
eram só piedosas mentiras.

Eu podia facilmente dizer à malta branca
que vivíamos na alta da cidade,
não naquela área cor-de-rosa e verde
de vergonhosas cabanas e tiroteios
ao longo do caminho. Podia agir
como se os meus vestidos caseiros
tivessem saído directamente da vitrine
da Maison Blanche. Podia até
ficar calada, deixar-me estar,
como daquela vez em que uma miúda branca
(apertando-me a mão) disse, Agora
temos três como nós nesta classe
.

Mas paguei por isso de cada vez
que a Mamã descobriu.
Ela punha-me as mãos em cima,
depois lavava-me a boca
com sabão de Marfim. Isto
é para purificar
, dizia ela,
e limpar a tua língua mentirosa.
Acreditando nela, eu engolia espuma
pensando que ela trabalharia
de dentro para fora.



COMENTÁRIO: na tradução da expressão "white lies" perde-se o jogo entre "mentira (acerca da cor da pele) branca" e "mentira piedosa". Alertado por Luis Maia Varela, optei por em diferentes momentos do poema, - título e final da primeira estrofe, - usar as duas possibilidades de tradução para que não se perdesse nenhuma.