quinta-feira, dezembro 29, 2005

CHARLES SIMIC

Um dos registos que mais aprecio na poesia é o tom de ironia e de humor. A ironia verbal, como se sabe, pode ser definida como a prática de afirmar uma coisa quando se pretende dizer – ou se pensa – outra. Assume um valor de subentendido ou atenuação, quando fica aquém dos factos, e a condição de exagero quando diz mais que a verdade. Dois exemplos – não por acaso retirados da Poesia Reunida, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim, 2001) – podem bem ilustrar estes conceitos, o primeiro como exemplo de atenuação, o segundo de exagero (understatement e overstatement, como dizem os anglosaxónicos):



“Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado”

in
Neste Preciso Tempo, Neste Preciso Lugar



"O braço que falta ao mendigo é o que o sustenta”

in O Braço.



CHARLES SIMIC nasceu em Março de 1938 em Belgrado, na antiga Jugoslávia (hoje Sérvia-Montenegro) e emigrou para os Estados Unidos em 1953, onde se encontrou com o pai, emigrante em Nova Iorque, tendo posteriormente obtido a nacionalidade norte-americana. José Alberto Oliveira traduziu-o para a nossa língua em Previsão de Tempo Para Utopia e Arredores, livro que foi editado pela Assírio & Alvim em 2002. O poema que se segue – e que tentei traduzir – é bem exemplo da derisão que caracteriza boa parte da obra deste poeta. São versos exactos e inteligentes, tão inesperados quanto desarmantes, que frequentes vezes tocam o surrealismo. Chama-se o poema Mecânica Popular. Como se perceberá, ainda não será bem esta a solução para os tempos de crise que vivemos cá pelo rectângulo.



POPULAR MECHANICS

The enormous engineering problems
You’ll encounter by attempting to crucify yourself
Without helpers, pulleys, cogwheels,
And other clever mechanical contrivances –

In a small, bare, white room
With only a loose-legged chair
To reach the height of the ceiling –
Only a shoe to beat the nails in,

Not to mention being naked for the occasion –
So that each ribbon muscle shows,
Your left hand already spiked in,
Only the right to wipe the sweat with

To help yourself to a butt
From the overflowed ashtray,
You won’t quite manage to light –
And the night coming, the whiz night.



§



MECÂNICA POPULAR

Os enormes problemas de engenharia
Que encontrarás ao tentar crucificar-te
Sem ajudantes, roldanas, engrenagens,
E outros dispositivos mecânicos inteligentes –

Numa sala pequena, clara e despida
Apenas uma cadeira de pernas frouxas
Para alcançar a altura do tecto –
Um só sapato para martelar os pregos,

Já p’ra não falar de estares nu para a ocasião –
De modo que cada músculo costal se exiba,
A tua mão esquerda já cravada,
Apenas a direita para limpar o suor

E ajudar-te a alcançar a beata
Do cinzeiro a transbordar,
Que não conseguirás acender –
E a noite chegando, a longa noite zumbindo.

4 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns pelo seu blog!
Interessante e inteligente prova que a poesia não nos é distante e pode "conviver" com o nosso dia-a-dia.Este poema é genial!
Sem dúvida, um blog digno de interesse!

Anónimo disse...

Caro João L Barreto Guimarães: obrigado pelo seu blog, a que dedicarei o meu tempo diário nessa busca incessante da poesia e da vida. Rui Coias

Rui Lage disse...

É bom ver-te de novo na web, João. Seguirei com muito interesse as tuas "guidelines" de leituras e experiências de tradução. Obrigado, sobretudo, pelo Lawrence.
Um grande abraço.
Rui Lage

João Leal disse...

Caro amigo: obrigado por este espaço. Fiquei feliz quando dei com ele. Bem haja.