quarta-feira, dezembro 28, 2005

Sobre Revisão


Logo após ter entregue o manuscrito do próximo livro de poemas à casa editora que o acolheu, percorreu-me uma grata sensação de alívio. E de desprendimento, devo escrever. É algo recorrente em mim. Certo que ainda falta essa espinhosa tarefa que é a revisão das provas - que mais não é senão uma nova mutilação dos poemas, - mas a consciência que se tem ao encerrar um manuscrito é a de que o livro já não é mais nosso, a de que se pode agora avançar para novas realizações. Como uma porta que se fecha. Desde esse dia tenho andado perdido, deliciosamente perdido no ofício de tratar as dezenas de cadernos – as dezenas de poemas – onde fui deixando tinta desde Março. Sem me ter apercebido, por falta de visão de conjunto, existe já um considerável número de estudos que fui esboçando desde a data da morte de meu pai. Ainda estão todos em aberto. O que se passa comigo é que há um momento certo (qual?) para copiar os poemas dos cadernos (onde existiam em grafia manual) para o computador (onde viverão em letra de imprensa). Uma precipitação nesse acto, uma antecipação ansiosa pode matar um poema ou pelo menos condená-lo a uma longa hibernação por muitos e muitos meses. O choque de ler em letra de imprensa o que se entreteu à mão pode parecer absurdo mas para mim é tremendo. É bem o seu primeiro teste. Daí que as revisões me ocorram vezes sem conta sobre o mesmo papel, camada sobre camada, tinta preta sobre azul, até o texto ser ilegível. Até só mesmo eu conseguir seguir a pista dos versos como quem segue um trilho. Quase o esculpir de um poema, portanto. Antes reescrevê-lo por inteiro, papel sobre papel, que plasmá-lo cedo de mais no branco frio de num ecrã. E quando é que um poema "está pronto"?


4 comentários:

Alexandra disse...

No filme "Pollock" (de Ed Harris), a dada altura uma jornalista pergunta ao famoso artista plástico como é que ele sabe quando um quadro está pronto.
Resposta de Pollock:
"How do you know when to stop making love?".

Jorge A. S. disse...

...um poema, por definição, nunca "está pronto", ou se quisermos, existem graus de "prontidão"...

...passe o cliché: quando temos filhos, embora tecnicamente estes atinjam a "maioridade", nunca deixamos de os considerar como "projectos", a título próprio e enquanto projecção nossa...

Gosto do seu blogue.

monica disse...

João Luís, gostei de te reencontar aqui (cheguei por um link da origem das espécies).

a poesia é-me ainda difícil mas tu, sem dúvida, desde sempre ma tornaste um pouco mais fácil.

m granja

Migtuel disse...

Apreciei muito o comentário
de m granja.