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segunda-feira, junho 13, 2011

ADAM ZAGAJEWSKI (3)

(este post é para Hugo Pinto Santos)
ADAM ZAGAJEWSKI (Lvov, 1945) é provavelmente o mais importante poeta polaco da actualidade, assunto para dois anteriores posts (aqui e aqui), no Poesia Ilimitada. Os poemas que se seguem são versões das traduções para inglês de Clare Cavanagh (professora de Línguas e Literaturas eslavas na Northwestern University), retirados do último livro de Adam Zagajewski em inglês, “Unseen Hand” (Farrar, Strauss and Giroux, New York, 2011), onde os seus temas favoritos regressam (o peso e a ausência de memória; a história, em particular, o tema do holocausto; a sua relação com o pai; lugares e cidades europeias; a sua particular relação com o Cristianismo; a natureza, a pintura e a música), desta feita, porém, com um olhar que me parece mais americano e menos europeu, se comparado com "Eternal Enemies", o seu anterior livro; ou dito talvez de outra forma: um olhar europeu, ainda, mas tomado pela distância, fruto talvez da sua vivência e vida académica em Chicago. O poeta polaco está particularmente no seu elemento quando escreve, em diversos poemas, sobre os momentos de alegria ou átimos de felicidade que inesperadamente ocorrem no imo do quotidiano, mas que súbitamente se desvanecem pela ocorrência de um elemento perturbador. Quatro poemas, com a devida vénia:



AUTO-RETRATO NUM AVIÃO

em classe económica


Dobrado como um embrião,
esmagado num assento estreito,
tento recordar
o aroma do feno recém-cortado
quando em Agosto as carroças de madeira
descem dos prados de montanha,
baloiçando pelas estradas de terra
e o condutor grita
como os homens sempre gritam quando entram em pânico
- gritaram dessa forma na Ilíada
e nunca mais se silenciaram desde então,
nem durante as Cruzadas,
nem mais tarde, muito mais tarde, próximo de nós,
quando ninguém os escutou.

Estou cansado, penso naquilo o que
não pode ser pensado - no silêncio que reina
nas florestas quando as aves dormem,
sobre o final próximo do verão.
Mantenho a cabeça entre as mãos
como se a protegesse da aniquilação.
Visto de fora, sem dúvida que
pareço imóvel, quase morto,
resignado, merecendo simpatia.
Mas não é assim - sou livre,
talvez mesmo feliz.
Sim, seguro a pesada cabeça
em minhas mãos,
mas dentro nasce um poema.



§



27 DE JANEIRO


Dia gelado. Um sol de inverno. Branco vapor.
Mas nesta sexta-feira não sabíamos
o que celebrar, e o que chorar –
o Dia Memorial do Holocausto
ou o aniversário de Mozart.
Nossa memória ficou perplexa.
A imaginação perdeu o rumo.
No parapeito da janela, uma vela chorou
(fomos convidados a acender velas),
mas a suave música do jovem Mozart
chegou até nós pelos altifalantes, em estilo rococó,
a época das asas de prata e não dos cabelos grisalhos
que conhecíamos de Auschwitz,
idade dos figurinos, e não da nudez,
da esperança, e não do desespero.
Nossa memória ficou perplexa,
a imaginação cresceu, perdida em pensamentos.



§



O JARDIM BOTÂNICO


No Jardim Botânico de Cracóvia
deparei-me com uma árvore Asiática
com o nome de Metasequoia Chinesa – uma bela árvore
com folhas agulha achatadas.
Mas porquê metasequóia – e não apenas uma sequóia normal?

A metasequóia cresce além de si mesma?
Será que se eleva acima das outras árvores?
Até mesmo as plantas começaram a recorrer
ao misterioso jargão
de certos sábios académicos?



§



AINDA VITA CONTEMPLATIVA

No comboio para Varsóvia


Pode acontecer em qualquer lugar, por vezes no combóio,
quando estou muito longe: subitamente a porta
abre e figuras esquecidas entram,
o meu sobrinho, que já não anda por cá,
mas que se aproxima, alegre, sorrindo,
e um determinado poeta chinês que amava
a música e as folhas das árvores no outono,
estudantes de teologia de Córdoba, ainda sem barba,
emergem de nenhures e saltam à vista,
retomando o debate sobre os atributos de Deus,
e a esplêndida vida surge como uma queda de água na primavera,
até que finalmente um telemóvel soa, inoportuno,
depois outro, e um terceiro, e todo este mundo excelente, estranho
se contraí e desaparece, exactamente como um rato de campo,
que, apercebendo-se do perigo, se retira habilmente para
o seu apartamento secreto.

domingo, setembro 21, 2008

ADAM ZAGAJEWSKI (2)

Nasceu em Lvov, na Polónia, em 1945. ADAM ZAGAJEWSKI vive entre Cracóvia, Paris e Chicago. É considerado pela crítica como um clássico contemporâneo, como o foram Milosz, Herbert, Holub, Popa ou Brodsky. É um poeta dessa estirpe. Acaba de publicar, neste 2008, na Farrar, Straus and Giroux, de Nova Iorque, “Eternal Enemies”, traduzido do polaco por Clare Cavanagh, professora de línguas e literaturas eslávicas na Northwestern University, que já havia traduzido para o inglês Szymborska e Milosz. Humor, inteligência, cepticismo e economia de linguagem podem ser encontrados nestas três versões que trago do inglês, onde conspiram o peso do lugar e da história, a emergência da arte e da vida quotidiana. Quando me cruzei por acaso com o Jorge Sousa Braga em Praga, há uns anos atrás, levava na mão recolhas de Simic e Armitage, que lhe anunciei entusiasmado como as grandes descobertas que são. O Jorge, porém, já transportava uma colecção da Faber and Faber de Adam Zagajewski, poeta do qual eu nunca havia lido nada, e sobre o qual colocou um post há tempos atrás, aqui, no Poesia Ilimitada, com a tradução de 12 poemas. São para o Jorge, estas versões, que encontrei numa estante de Estocolmo. Do último livro:



DESCREVENDO PINTURAS

PARA DANIEL STERN

Normalmente fixamos apenas alguns detalhes –
uvas do século dezassete,
ainda frescas e cintilantes,
quiçá um belo garfo de marfim,
ou a madeira de uma cruz e gotas de sangue,
o grande sofrimento que entretanto secou.
O parquet brilhante range.
Estamos numa cidade estranha –
quase sempre numa cidade estranha.
Algures ergue-se um guarda que boceja.
Um ramo cinza balança para lá da janela.
É absorvente,
descrever pinturas estáticas.
Estudiosos dedicam volumes a isso.
Mas nós estamos vivos,
cheios de memória e pensamento,
amor, por vezes arrependimento,
e por momentos temos um orgulho especial
porque o futuro grita em nós
e seu tumulto torna-nos humanos.


§


NUM PEQUENO APARTAMENTO

PERGUNTO A MEU PAI, “O QUE
FAZ TODO O DIA?” “RECORDO.”


Assim, naquele pequeno apartamento pardo em Gliwice,
num bloco baixo ao estilo soviético
que diz que todas as cidades se deveriam parecer com quartéis,
que quartos espasmódicos derrotarão conspirações,
onde um relógio de parede antiquado marcha, descansado,

ele revive diariamente o moderado Setembro de 39, as bombas assobiando,
e o Jardim Jesuítico em Lvov, cintilando
com o brilho verde do ácer e árvore de cinzas e pequenos pássaros,
caiaques no Dniester, o odor de vime e areia molhada,
naquele dia quente quando conheceu uma rapariga que estudou direito,

a viagem em carro fretado para o oeste, a última fronteira,
duzentas rosas dos estudantes
agradecidos pela sua ajuda em 68,
e outros episódios de que nunca saberei,
o beijo de uma rapariga que não se tornou minha mãe,

o medo e as doces groselhas da infância, imagens puxadas
daquele abismo de calma antes de eu ser.
Sua memória trabalha no apartamento sossegado – em silêncio,
sistematicamente, luta para recuperar por um momento
o seu século doloroso.


§


LENDO MILOSZ


Li a tua poesia uma vez mais,
poemas escritos por um rico homem, sabedor,
e por um mendigo, sem casa,
um emigrante, só.

Sempre quiseste ir
além da poesia, superá-la, planando,
mas também abaixo, onde a nossa região
começa, modesta e tímida.

Por vezes o teu tom
transforma-nos por um momento,
e acreditamos - verdadeiramente –
que cada dia é sagrado,

que a poesia - como pôr isto? –
torna a vida plena,
mais cheia, orgulhosa, ousada
de formulação perfeita.

Mas o fim de tarde chega,
pouso o livro de lado,
e o estrondo banal da cidade retoma -
alguém tosse, alguém chora e maldiz.



PEDIDO: Por favor enviem o link deste post a Sérgio Neves ou a Júlio Sousa Gomes, tradutores de Milosz e Szymboska do polaco, na tentativa de os interessarmos pela tradução de Zagajewski a partir da língua original. Normalmente as versões de versões limam involuntáriamente as arestas dos poemas, local onde se abriga verdadeiramente a poesia...



terça-feira, setembro 26, 2006

ADAM ZAGAJEWSKI

ADAM ZAGAJEWSKI, poeta, ficcionista e ensaista polaco vive em França desde 1982. Nasceu em Lvóv (hoje, Ucrânia) em 1945 e passou a sua juventude na Silesia e em Cracóvia. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1972. É considerado um representante da "Geração de 68". Foi activista dissidente durante os anos 70: alguns dos seus poemas abordam questões politicas. Em 1982 imigrou para Paris. Poesia Ilimitada tem a honra de apresentar 12 poemas de ADAM ZAGAJEWSKI, em mais uma excepcional colaboração de Jorge Sousa Braga.



ODE À SUAVIDADE

As manhãs são cegas como gatinhos,
as unhas crescem confiadamente, não sabem
ainda o que arranhar. São suaves
os sonhos e a ternura abatem-se sobre nós
como nevoeiro, como o campanário da catedral de Cracóvia
antes que o gelo a abrace.


§


AUTORETRATO


Entre o computador, um lápis e uma máquina de escrever
passo metade do meu dia. Daqui a pouco farei meio século.
Vivo em cidades estranhas e por vezes falo
com estranhos acerca de assuntos estranhos para mim.
Ouço bastante música: Bach, Mahler, Chopin, Shostakovich.
Vejo três elementos na música: fraqueza, poder e dor.
O quarto não tem nome.
Leio poetas, vivos e mortos, que me ensinam
tenacidade, fé e orgulho. Tento compreender
os grandes filósofos – mas habitualmente apanho
apenas fragmentos dos seus preciosos pensamentos.
Gosto de dar longos passeios pelas ruas de Paris
e olhar os meus próximos, agitados pela inveja,
ira e desejo; observar a moeda de prata
que passa de mão em mão e lentamente perde
a sua forma redonda (o perfil do imperador está apagado).
A meu lado crescem árvores que não exprimem nada,
a não ser a sua verde e indiferente perfeição.
Aves negras caminham pelos campos,
sempre à espera de algo, pacientes como viúvas espanholas.
Já não sou jovem, mas há gente mais velha do que eu.
Gosto de dormir profundamente, como se deixasse de existir,
de corridas de bicicleta por caminhos rurais quando álamos e casas
se dissolvem como cúmulos em dias de sol.
Às vezes nos museus os quadros falam para mim
e a ironia esfuma-se de repente.
Encanta-me contemplar o rosto da minha mulher.
Todos os domingos telefono ao meu pai.
De duas em duas semanas reúno-me com os amigos,
para provar a minha fidelidade.
O meu país libertou-se do mal. Desejo
que outra libertação se siga.
Posso eu fazer alguma coisa por isso? Não sei.
Não sou um filho do mar,
como António Machado escreveu sobre si mesmo,
mas um filho do ar, da menta e do violoncelo,
e nem todos os caminhos do alto mundo
Se cruzam com os caminhos da vida que – até ver–
me pertencem.


§


TRAÇAS

As traças espiavam-nos através da janela.
Sentados à mesa, os seus olhos
cintilantes cravavam-se em nós,
mais duros que as suas frágeis asas.

Estareis sempre lá fora,
por detrás do vidro. E nós aqui dentro,
cada vez mais dentro. As traças espiavam-nos
através da janela, em Agosto.


§


SEM FORMA

Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
Se houvesse só isto,
as máscaras de morte dos poetas e os esqueletos
dos gigantes nas altas montanhas
e livros sobre o orgasmo dos animais
e negros bem vestidos que não
me vêm, e Keats gritando
e aqueles que estão ausentes e vestígios
tão leves como o arsénico
no cabelo de Napoleão, e máscaras imóveis
em rostos petrificados; os museus fechados
dos sonhos e a força que não quer
dormir e os símbolos maçónicos
Mozart escondido no seu Requiem,
enganando Deus desse modo: tanto por dizer,
e mulheres, que têm que viver neste momento
sem o terem pedido,
e países, livres uma vez,
descascados agora como maçãs,
e o tempo, que não cessa de mudar, e eu, eu próprio, maduro,
sem forma.


§


MISTICISMO PARA PRINCIPIANTES

O dia era calmo, a luz amigável.
No terraço do café aquele turista alemão
tinha no colo um pequeno livro.
Consegui ver o título:
Misticismo para principiantes.
Nesse momento compreendi que
as andorinhas que patrulhavam as ruas
de Montepulciano com os seus silvos estridentes,
e os diálogos surdos dos tímidos viajantes
do Leste, a chamada Europa Central,
e as garças reais de pé—ontem? antes de ontem?—
como freiras em campos de arroz,
e o crepúsculo, lento e sistemático,
apagando os contornos das casas medievais,
e as oliveiras nas pequenas colinas,
abandonadas ao vento e ao calor
e a cabeça da Princesa desconhecida,
que tinha visto e admirado no Louvre
e vitrais como asas de borboleta
salpicadas de pólen,
e o pequeno rouxinol que ensaiava
o seu canto, na berma da auto-estrada,
e qualquer viagem, todas as viagens.
são apenas misticismo para principiantes,
o curso elementar, o prelúdio
para um exame que
foi adiado.


§


A RAPARIGA DE VERMEER

A rapariga de Vermeer, agora famosa,
olha-me. A pérola olha-me.
Os lábios vermelhos, húmidos
e brilhantes da rapariga de Vermeer.

Rapariga de Vermeer, pérola,
turbante azul: és toda luz
e eu sou feito de sombra.
A luz olha a sombra com altivez,
condescendência, talvez piedade.


§


O ADEUS A ZBIGNIEW HERBERT

No início, só as cerejas e o cómico
voo dos morcegos, a maçã da lua, uma coruja sonolenta,
o sabor da água fria das primeiras excursões da escola.
As torres da cidade elevam-se como declarações de amor.
Depois, muito depois, o pó dourado da Provença,
as figueiras nas vinhas, a lição da branca Grécia,
obscuros museus, Piero e a sua Madona grávida
-e entretanto, duas ocupações, dois exércitos humanos,
os veículos amorfos da morte patrulham as tuas ruas.

Os longos dias traduzindo O Canto do melro cativo
de George Trakl, a alegria da primeira Paris,
após anos de fealdade e miséria soviética;
o teu sorriso matreiro, as tuas piadas infantis, a seriedade
e o humor que trouxeste à pequena catedral de Meuax
(Bossuet olhava-nos friamente),
as tardes de Berlim: Herr Doctor, Herr Privatdozent,
o arroz que espargias como confetti nas bodas de amigos,
mas também o silêncio e a amargura de meses nefastos.

Eu gostava de imaginar os teus passeios
na Umbria , Ligúria: a tua caça elegante,
a tua busca daqueles lugares onde os glaciares
se derretem, revelando as suas formas.
Eu gostava de imaginar as tuas andanças
pelos montes da poesia, na busca daquele lugar
onde o silêncio de súbito explode em fala,
mas encontrava-te sempre nos pequenos apartamentos
daqueles Molochs cinzentos chamados grandes cidades.

Tu por vezes lembras-me as tragédias da vida.
A vida raras vezes te deixou em paz.
Penso na tua geração, esmagada pela fatalidade,
a tua doença em Madrid, em Amsterdam
(Hotel Ambassade), mesmo na sagrada Jerusalém,
o hospital Saint-Louis, onde ficaste internado uma semana,
o calor derretendo os muros das casas e as fronteiras dos países,
e a tua semana final em Varsóvia.
Admiro o porte real dos teus poemas.


§


VIOLONCELO

Aqueles que não gostam dele dizem
que é apenas um violino mutante,
que foi chutado para fora do coro.
Nada disso.
O violoncelo tem muitos segredos,
mas nunca soluça,
apenas canta na sua voz grave.
Nem tudo nele se transforma em
canção, às vezes apanhas
um murmúrio ou um sussurro:
estou só.
não consigo dormir.


§


A ALMA

Tu sabes que não nos é permitido usar o teu nome.
Nós sabemos que tu és inexprimível,
anémica, frágil e suspeita
por misteriosas ofensas quando eras criança.
Nós sabemos que não te é permitido viver agora
na música ou nas árvores no crepúsculo.
Nós sabemos—ou pelo menos disseram-nos—
que tu não existes seja em que lado for.
E no entanto continuamos escutando a tua voz fatigada
--num eco, numa queixa, nas cartas que recebemos
de Antígona no deserto Grego.


§


UM PARDAL MORTO

De todas as coisas
o pardal morto no seu sobretudo cinzento de penas
é a menos invulgar.
Uma pedra na berma da estrada parece-se
com um príncipe quando comparada
com um pardal morto.
As moscas rodeiam-no
atentas como estudantes de anatomia.


§


TENTA LOUVAR O MUNDO ESTROPIADO

Tenta louvar o mundo estropiado.
Recorda os longos dias de Junho,
e os morangos selvagens, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que metodicamente invadem
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens que louvar o mundo estropiado.
Olhaste os iates e os barcos;
um deles preparava-se para uma longa viagem,
enquanto um esquecimento salgado aguardava os outros.
Viste os refugiados partindo para nenhures,
escutaste os carrascos a cantar alegremente.
Devias louvar o mundo estropiado.
Recorda os momentos em que estávamos juntos,
num quarto branco e as cortinas esvoaçavam.
Regressa em pensamento ao concerto onde a música explodia..
Apanhaste bolotas no parque no Outono
e o redemoinho das folhas cobria as cicatrizes da terra.
Louva o mundo estropiado,
e a pena cinzenta que um tordo perdeu,
e a luz afável que se afasta e se desvanece
e regressa de novo.


§


BÁRBAROS

Nós somos os bárbaros.
Vós tremeis perante nós nos vossos palácios.
Vós esperais por nós com os corações batendo ruidosamente.
Vós comentais nas nossas línguas:
Eles aparentemente consistem apenas em consoantes.
sussurros, murmúrios e folhas secas.
Nós somos aqueles que viviam nas florestas sombrias.
Nós somos aquilo que Ovídio receava em Tomi,
Nós somos os adoradores de deuses cujos nomes
vós não sois capazes de pronunciar.
Mas nós também conhecemos a solidão
e o medo, e começamos a ansiar pela poesia.