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sábado, abril 25, 2009

Feira do Livro de Braga

E pronto! Lá aguentei eu estoicamente durante hora e meia a minha primeira experiência de assinar livros numa feira do livro. Cinco autógrafos e uma tíbia depois, eis-me de regresso a Leça - aos leitores brasileiros (!!) deste blog cumpre-me informar que uma tíbia é um pastel típico de Braga. Grande. Muito doce. Com muito creme dentro. Hum!

Claro está que também me pus a jeito. Uma mesa irmanada com um stand, mesmo à entrada da feira, pode prestar-se a um sem número de equívocos. Já antes de eu chegar ao recinto, alguém havia perguntado ao simpatiquíssimo Bruno Antunes, das Quasi, se os livros que ele acabara de dispor sobre a mesa eram para oferecer...

Em situações como estas, um tipo acaba por se sentir tudo menos escritor. Lembrei-me logo dos poemas do excelente José Miguel Silva sobre os leitores nas feiras do livro. Ainda me cheguei a entusiasmar quando uma jovem se aproximou célere da minha mesa, trazendo um livro em riste: "A-ha!", pensei, "O primeirinho da tarde". Nada! Na verdade, a leitora apenas pretendia saber se podia trocar um livro de outrém que comprara na véspera para o pai, uma vez que o progenitor também adquirira um exemplar sem ela se ter apercebido. Confesso que ainda me ocorreu propor-lhe que o trocasse por outro autor que estivesse por ali, digamos, mais à mão, mas o pudor falou mais alto. Daí que, Ruben Fonseca, parabéns! Fique a saber que você vendeu pelo menos 2 livros na Feira de Braga deste ano.

Naquela localização, as peripécias sucederam-se. Ao presentir outro leitor a aproximar-se, pensei triunfante: "Ora aí está! O primeiro livro está no papo! Este conhece-me de certezinha!". Falso! O jovem apenas me queria perguntar em que stand poderia adquirir o premiado livro de A.M.Pires Cabral, "O Cónego", vencedor do prémio dst, anunciado em parangonas num enorme cartaz suspenso mesmo atrás de mim o qual apenas eu parecia não ter visto. Mas "Menos mal!", pensei, "Já que posso passar por vendedor, ao menos passo também por ser o excelente poeta transmontano."

Enquanto a tarde avançava, muitos leitores detiveram-se frente ao stand com as mãos enfiadas nos bolsos sem manusearem o livro (com receio de se magoarem?), e Ana Paula Tavares (que apenas avistei ao longe), Gonçalo M. Tavares (extraordináriamente generoso e afável) e Fernando Pinto do Amaral (aborrecido, e com razão, por não terem reposto o seu livro esgotado na própria feira) peroravam a uns trinta metros de distância na tertúlia literária sobre "Ficção e Mundos Possíveis", através de um sistema acústico sofrível que não me permitiu acompanhar uma só palavra que fosse do que disseram. De modo que tive tempo para tudo. Contei os ouvintes da tertúlia pelo menos duas vezes. Chegaram a ter 40 pessoas! Muito bom. Uma das vantagens de se escrever poesia em vez de ficção, é vender menos de um quinto dos livros que um romancista venderia nas mesmas circunstâncias, o que permite que se saia da feira com a agradável sensação de se conhecer os leitores pelo nome (!!): Joaquim Oliveira, Sandra Salgado, e por aí fora... (até 5).

Mas há que não desistir. No próximo domingo lá estarei em Lisboa, pelas 15h00, no auditório da Feira do Livro, para participar na apresentação que o poeta Francisco José Viegas fará do meu sétimo livro de originais "A Parte pelo Todo". E conto consigo lá. Consigo, consigo, contigo, consigo e contigo. Com vocês os seis. Temos que bater o record, hã?


sábado, setembro 02, 2006

OS DELAUNAY E A POESIA

Visitei hoje “La Simultanée”, a casa de praia em Vila do Conde onde Sonia e Robert Delaunay viveram com Eduardo Vianna (1881-1967) e o americano Sam Halpert durante cerca de dois anos, de 1915 a 1917, e a partir de onde se corresponderam com poetas e pintores portugueses como José de Almada-Negreiros (1893-1970) e Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), entre outros... A relação dos Delaunay com a poesia sempre foi estreita. Um exemplo: em 1906, com 21 anos, Robert Delaunay (1885-1941) apresentou no Salon des Indépendants de Paris, as obras que havia pintado no verão anterior na Bretanha. Foi esse o gatilho para a amizade que veio a desenvolver com o pintor e aduaneiro Henri Rousseau (1844-1910). Embora Rousseau não tenha sido um dos pintores cuja obra maior influência veio a exercer sobre Robert - ao contrário de Cézanne, por exemplo - os dois franceses encetaram desde cedo uma duradoira e profunda amizade que só a morte de Rousseau viria a talhar, no outono de 1910. Por essa altura, já Guillaume Appolinaire era intimo do casal Delaunay. Jorge Sousa Braga traduziu em “O Século das Nuvens” (Fenda, 1989), o epitáfio que Appolinaire escreveu como última homenagem a Henri Rousseau:


INSCRIÇÃO PARA A SEPULTURA DO PINTOR HENRI ROUSSEAU ADUANEIRO

Gentil Rousseau que nos escutas
Nós te saudamos
Delaunay a sua mulher o senhor Querval e eu
Deixa passar sem pagar direitos as nossas
bagagens pelas portas do céu
Levar-te-emos pincéis tintas e telas
Para que os teus ócios sagrados ali na luz real
Os possas consagrar a pintar como quando fizeste
o meu retrato
O rosto das estrelas

Outro exemplo: em 1913, Sonia Delaunay (1885-1979) conhece Blaise Cendrars (1887-1961, pseudónimo de Frédéric Louis Sauser, na foto pintado por Modigliani). Numa colaboração inédita (e laboriosamente manual), Sonia ilustrou o longo poema de CendrarsProse du Transibérien et de la Petite Jehanne de France”, aguarela sobre papel impresso numa folha única de dois metros, dobrada como um harmónio. Quando, mais tarde, Sonia aparece no “Le Bal Bullier” - sala de dança onde a boémia parisiense se encontrava quase às escondidas para dançar tango - fazendo furor no seu primeiro “robe simultanée”, Cendrars fica fascinado com os padrões simultâneos coloridos e dedica-lhe o seguinte poema (tradução minha):


SUR LA ROBE ELLE A UN CORPS

Le corps de la femme est aussi bosselé que mon crane
Glorieuse
Si tu t'incarnes avec esprit
Les couturiers font un sot métier
Autant de la phrénologie
Mes yeux sont des kilos qui pèsent la sensibilité des femmes
Tout ce qui fuit, saille avance dans la profondeur.
Les étoiles creusent le ciel
Les coulours déshabillent
Sur la robe elle a un corps
Sous les bras des bruyéres mains lunules et pistils quand
les eaux se déversent dans le dos avec les
omoplates
glauques
Le ventre un disque qui bouge
La double coque des seins passe sous le pont des arcs-en-ciel
Ventre
Disque
Soleil
Les cris perpendiculaires des couleurs tombent sur les cuisses.


SOBRE O VESTIDO ELA TEM UM CORPO

O corpo da mulher é redondo como meu crânio
Glorioso
Se se está possuído de espírito
Os costureiros fazem um trabalho idiota
Tanto quanto a frenologia
Meus olhos são os quilos que pesam a sensibilidade das mulheres
Tudo o que foge, destaca e avança na profundidade.
As estrelas esvaziam o céu
As cores despem-se
Sobre o vestido ela tem um corpo
Sob os braços as urzes mãos lúnulas e pistilos quando
as águas se vertem sobre as costas com as
omoplatas
glaucas
A barriga um disco que se move
A concha dupla dos seios passa sob a ponte dos arcos-íris
Ventre
Disco
Sol
Os gritos perpendiculares das cores caem sobre as coxas.


§


PS (Portugal Sui-generis) – Nem tentem visitar a Casa Museu José-Régio, em Vila do Conde, num sábado. Está fechada!

sábado, agosto 26, 2006

EÇA DE QUEIROZ

Visitei hoje Tormes pela segunda vez. Jacinto e Zé Fernandes acabaram de chegar de Paris – na leitura que a Teresa está a fazer de “A Cidade e As Serras”, - e vão agora mesmo começar a percorrer numa égua e num jumento, o íngreme caminho que vai da estação de caminho de ferro de Tormes-Aregos até Vila Nova, a escalada de 350 metros conhecida como "O Caminho de Jacinto". De modo que nos pareceu bem aproveitar o dia de sábado para contextualizar a leitura desse romance póstumo de Eça de Queiroz (1845-1900), visitando a pequena localidade no Douro que sustenta o adágio de que não poucas vezes a literatura se impõe à realidade: Tormes, enquanto tal, não teve existência real até o nosso cônsul em Paris ter decidido dar esse nome à localidade de Vila Nova no referido romance, inspirado ao que se crê no topónimo da localidade espanhola onde se terão apeado indevidamente parte das malas de viagem que José Maria trouxe da Cidade-Luz. Muito grande é o escritor que consegue rebaptizar uma localidade já depois de morto.
Mas não é somente por esse facto que a Casa de Tormes se nos apresenta como um enorme anacronismo: Eça de Queiroz nunca lá viveu, verdadeiramente. Apesar da sua filha D.ª Maria de Castro Eça de Queiroz (1887-1970) aí ter decidido reunir, como espaço museológico, os objectos pessoais que serviram o escritor em Neuilly, Eça apenas terá pernoitado em Tormes umas quatro vezes: em Maio de 1892 (pela primeira vez, de visita com Benedita, sua cunhada); em 1895; em Junho de 1898 (com Luís de Castro, sobrinho de sua mulher, na viagem que o terá inspirado para “A Cidade e As Serras”); e uma última vez em 1899. Sempre por curtíssimos lapsos de tempo, por vezes de apenas dois dias, fundamentalmente para se inteirar de assuntos decorrentes de heranças da sua esposa D.ª Emília de Castro Pamplona, ou da subsequente conservação das mesmas.
Há seis anos atrás, a convite do Professor Arnaldo Saraiva no âmbito do Congresso Portugal – Brasil, Ano 2000, já havia visto como um pouco abusiva a decoração das divisões da casa (hall de entrada, sala de estar, biblioteca, quarto) com os móveis de que Eça terá feito uso em Paris. Mas, tal como condescende a excelente investigadora Laura Castro, no livro “Viajar com… Eça de Queiroz” (Edições Caixotim, 2003), na Casa de Tormes é interessante ver “com a devida e necessária distância, aspectos da atmosfera de Eça escritor. É certo que o ambiente é outro (…); no entanto, é a eles que podemos ainda agarrar-nos para imaginar o espaço da criação queiroziana.
Entrar no espírito do nosso maior romancista pode passar então, por exemplo, por admirar a escrivaninha onde Eça escrevia de pé, em Paris; saborear o famosíssimo “arroz de favas”; ou adquirir um casal de garrafas de vinho verde branco “Tormes”, de cor citrina, e aroma e sabor frutados, produzido e comercializado pela Fundação Eça de Queiroz. Finalmente, dizer como Jacinto: “um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.
Á vossa!