Mostrar mensagens com a etiqueta JORGE SOUSA BRAGA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta JORGE SOUSA BRAGA. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, março 06, 2013

OSVALDO MANUEL SILVESTRE acerca de "O Novíssimo Testamento e outros poemas", de JORGE SOUSA BRAGA


PLÁTANOS, TÍLIAS E DEMAIS EPIFANIAS

O facto de a obra de Jorge Sousa Braga (JSB) se ter afastado há muito da disputa do CPPP (o Campeonato da Poesia Portuguesa Contemporânea) faz esquecer que a sua entrada na nossa cena poética, nos idos de 1981, com a dupla publicação de De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu e Plano para salvar Veneza, foi a todos os títulos um acontecimento. Com essas duas obras publicadas na Fenda, oficina então coimbrã – dois livros, aliás, tipograficamente preciosos –, a poesia portuguesa era visitada, já sem drama, pela contracultura, com a sua teoria de heróis e mártires (Jim Morrison, antes de todos, bem como um Camões que se passeia «Na auto-estrada do norte, de jeans coçados e óculos escuros», «completamente pedrado»), mas também por um devir zen, propiciado pela tríade «sexo, drogas & flores», que se harmonizará cada vez mais profundamente com uma prática auto-deflacionada do poético. Livros epocais e acompanhados por uma prática performativa lendária, neles se explora uma densa cartografia das mitologias da decadência – tema tratado num ensaio marcante por Carlos Mendes de Sousa –, oscilando entre a ambição global de Veneza como alegoria do século que se afunda e a local, como no memorável poema «Portugal», em cuja declaração de amor-ódio uma geração inteira se pôde reconhecer (JSB prestaria um serviço ao país se reescrevesse o poema, adaptando-o aos tempos actuais de crime sem castigo).

A indiferença ao agon literário patenteia-se ainda no facto de da obra de JSB não se poder dizer que tenha de facto evoluído. As suas coordenadas ficaram gravadas desde os primeiros livros, quer no repertório temático – a mulher (amor e sexo), o lugar (ruas, cidades, a cidade do Porto), o mundo vegetal e animal – quer no verso, de uma liberdade livre que vai do haicai ao poema de maior fôlego ou do verso ao poema em prosa. Em vez de evoluir, JSB optou por viajar por uma série de tradições poéticas, orientais e ocidentais, que com afinco traduziu, aproveitando para explorar as possibilidades da forma antológica em várias das obras com as quais construiu o seu perfil de poeta-leitor.

Não surpreende que a obra reunida, em 1991, ainda na Fenda, tenha levado o título feliz O Poeta Nu. Não só porque a nudez é recorrente na cena amorosa a que os poemas de JSB regressam, mas sobretudo porque esta é uma poesia que aspira a formas de plenitude que são em simultâneo ocorrências de despojamento. Podíamos chamar a isto uma «política do desarmamento» e ler no regime da sua indiferença ante o social e político mais curto e intrusivo a radicalidade de uma proposta na qual a deflagração ínfima do belo, mas também do abjecto, embora em grau menor, dispensa qualquer caução ou ressalva, valendo por si enquanto rejeição da Razão instrumental. E tudo isto sem «crítica», «negatividade» ou sequer dialéctica, antes no modo oriental de quem oferece o radical espectáculo da contemplação do mundo àqueles que ou são incapazes dela ou a rejeitam como «conivência».

Se em 2001 A Ferida Aberta, um dos cumes da obra de JSB, era o «livro da mãe», o recente O Novíssimo Testamento e outros poemas é «o livro do pai». Se a primeira parte do livro recupera a Bíblia como matriz textual – e daí títulos que incorporam palavras como novíssimo testamento, génesis, baptismo, iluminação, sermão, epístola, salmo ou aleluia -, a segunda parte explora a «valsa da morte» e a «última morada», enquanto por seu turno a terceira oscila entre agapantos, árvores, legumes, ervas daninhas e o intermitente anúncio da morte, no poema admirável com que o livro encerra: «Semáforo vermelho». O testamento novíssimo deixado pela morte do Pai podia ser esse: a percepção aguda de que ao chegar a casa, quer se acelere ou se reduza a velocidade, tudo é em vão: «Fica sempre vermelho quando / te aproximas esse semáforo».

De resto, este é um JSB vintage, desde os primeiros versos, no poema que dá título ao livro: «Escrevi este testamento com sangue / de galinha / eu que não esqueço nunca a minha condição de pilha-galinhas / condenado a viver num galinheiro povoado de fantasmas de galinhas-da-Índia patos perus gansos garnizés / e a cacarejar pela noite fora». O poeta cita sem vergonha (no caso, Nietzsche e a sua proclamação de que só é válido aquilo que se escreve com o próprio sangue) e decepciona sem qualquer escrúpulo o leitor incauto, substituindo a auto-exigência trágica pela paródia e o humano pelo galináceo. A retórica do anti-clímax, tão cara a JSB, regressa associada àquilo a que podíamos chamar uma ética do ínfimo, quando se comparam erroneamente almas pelas suas dimensões: «A minha alma é uma pequena alma entre biliões de outras almas / Que tamanho tem a alma dum mosquito?» A questão regressa no poema seguinte, «Génesis», sobre o princípio do universo, poema enquadrado na física do Big Bang mas que o poeta faz terminar numa espécie de contracção do sublime matemático, saltando do infinitamente grande ao pequeno: «E continua a arrefecer e a expandir-se a expandir-se e a arrefecer / e a condensar-se para formar galáxias estrelas planetas nebulosas / e este ramo de rosas». Este ludismo deceptivo estrutura todo o poema «Sermão da Montanha», cuja primeira parte consiste num elenco de nomes de picos montanhosos - «Cho Oyo / Dhaulagiri / Evereste…» - a que se segue o breve comentário da segunda: «Quando chegares ao cimo da montanha / continua a subir». É nestes momentos que a arte de JSB funciona em compacto e escolhe os seus leitores, já que um número considerável deles verá em poemas como este meras brincadeiras sem transcendência. O problema, claro, não está na transcendência, que no poema abunda, mas na brincadeira a que ela é submetida, uma brincadeira entre o zen e o apelo ao consumo de substâncias ilícitas («Get high!»). Como se sabe, o sentido de humor é um bem muito mal distribuído…

Note-se contudo que os dois versos com que o poema encerra poderiam ser «traduzidos» como haicai. Identicamente, várias das estrofes de poemas como «Epístola sobre o silêncio» e «Epístola sobre o mar» denotam a mão longamente afeita à tradução de poetas japoneses e chineses, decisivos para aquela auscultação da epifania tão marcante em JSB. Alguns exemplos: «Vento por dentro / Um pensamento / levanta voo»; «Maresia: / o coração dum peixe / enche-se de alegria»; «Noite de breu: onde acaba o mar / e começa o céu?». «Iluminação na ponte de Leça» é, deste ponto de vista, o poema em que as várias linhas do livro – a iluminação demasiado profana de um semáforo e a epifania bíblica – se cruzam e ecoam: «Arranca Pára / Pára Arranca / De súbito a tua cara / a tua barba branca // Em cima dum contentor / manobrando um guindaste / Pai Pai porque / me abandonaste?» «Em nome do pai», por seu turno, é o poema que religa a morte do pai à anamnese anteriormente explorada no belíssimo «Baptismo no rio Cávado». Se neste poema se regressa a quando se tinha quinze ou dezasseis anos - «Estavas nu no meio do rio imerso até à cintura» -, no poema sobre a morte do pai, em que este, nos cuidados intensivos, delira o passado familiar - «A tua mãe – dizias – estava à tua espera / com um cesto de vime na cabeça» -, é o mesmo rio que regressa de longe: «No fim da noite / corre um rio». Tudo se estabiliza enfim em «A última morada», um dos grandes textos do autor, explorando o tópico antigo da «morada» (neste caso, fúnebre) como assentimento com o mundo e dispensa da linguagem. Uma certa oralidade informal conduz-nos pelo cemitério - «Quem passa o portão de ferro / do lado esquerdo estão os teus pais / e alguns irmãos» -, descrevendo essa comunidade de vizinhos na sua maioria forçados mas resignados e, por fim, cúmplices: «Lentamente / vão-se restabelecendo cumplicidades / num mundo onde as palavras / (e a vida) são desnecessárias».

O livro não termina contudo sem nos deixar em testamento a imagem da explosão primaveril dos agapantos - «por todo o lado explodem os agapantos» - e um dos mais belos versos da poesia portuguesa de hoje, aquele que estrutura o poema «Dias sem árvores»: «Aos dias com árvores sucedem-se / os dias sem árvores Plátanos // tílias liquidâmbares robínias / dão lugar a um vazio // sem plátanos tílias liquidâmbares / robínias numa moldura de frio». Para que são as palavras necessárias? Para dizer o mundo na sua evidência apática (uma «moldura de frio») e para nos forçar a contemplar o espectáculo do que nos ignora: «plátanos tílias liquidâmbares / robínias».


Osvaldo Manuel Silvestre

Texto publicado no jornal Público. Ao autor, os meus sinceros agradecimentos e a devida vénia.


terça-feira, maio 15, 2012

JORGE SOUSA BRAGA (6)

O NOVÍSSIMO TESTAMENTO E OUTROS POEMAS
Jorge Sousa Braga

A partir de hoje nas livrarias, uma edição Assírio & Alvim:
 
«Logo no início deste livro, em jeito de epígrafe ao poema que lhe oferece o título, Jorge Sousa Braga lança o mote: «Para acabar de vez com os direitos humanos / e restaurar os direitos divinos». E ainda assim, recorrendo a um notável discurso poético e a uma ironia mordaz, o poeta transporta-nos do Universo para o particular e da dimensão divina para a dimensão humana que também é, afinal, divina. Constatamos assim que o desfecho de uma grandiosa cosmogonia é a formação de um «ramo de rosas» e que na conclusão de um salmo afirme que «Não foi por mim que tu morreste / embora eu seja capaz de morrer por ti». Um livro surpreendente, este O Novíssimo Testamento e outros poemas, de Jorge Sousa Braga.

Jorge Sousa Braga nasceu em 1957, em Cervães, e concluiu o curso de Medicina da Universidade do Porto em 1981, optando pela especialidade de Obstetrícia/Ginecologia. Autor de uma singular obra poética tem participado também em numerosas antologias de poesia, como organizador e tradutor, e tem-se dedicado à escrita de livros infantis. O seu Herbário foi distinguido com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil


sexta-feira, abril 06, 2012

Meter conversa (7)



Desde que o meu pai faleceu, o Jorge Sousa Braga liga-me todas as semanas. É um facto que já o fazia antes de aquele dia me ter acontecido, mas actualmente faz questão de me ligar todas as semanas. O poeta com quem partilho o Poesia & Lda é, com o meu irmão, um dos meus melhores amigos, um daqueles raros brindes com que a vida nos surpreende, o podermos privar com pessoas de ética irrepreensível, como era o Egito Gonçalves que tanta saudade deixou.

A única vez que nos zangamos foi por causa de uma doente comum. Antes tivesse sido a poesia, já que a zanga provavelmente teria durado menos tempo. Embora, por outro lado, tivesse sido a poesia, e dificilmente teríamos estado tanto tempo de costas voltadas; não só usamos frequentar a mesma família de poetas, como há mais de duas décadas que ele cuidou de me ensinar não ser a poesia um campeonato, embora persista quem assim pense, antes uma corrida no deserto, e isto já sou eu quem o diz: ninguém sabe onde é a partida, sequer onde fica a chegada, mas muito pior do que isso, o caminho não está marcado.

Foi a única altura em que as palavras se esgotaram entre nós. Até que me fartei do silêncio e pedi ao Manuel António Pina, o favor de mediar o mal-entendido. Ninguém melhor que um poeta podia encher de palavras, o silêncio de poetas mudos.

Leça da Palmeira, 1 de março de 2012

**

quinta-feira, janeiro 05, 2012

JORGE SOUSA BRAGA (4)

O poeta JORGE SOUSA BRAGA, co-autor deste blogue, acaba de ver publicado em Espanha o livro "DIARIO DE A BORDO (Poesía escogida)", edição bilingue dos Libros del Aire (Colección Jardín Cerrado), com tradução, selecção e prólogo de Diego Valverde Villena. Dois poemas em castelhano, com a devida vénia. ¡Enhorabuena!, Jorge.



CARTA DE AMOR

(A Eugénio de Andrade)

Un día de estos
te voy a matar
Una mañana cualquiera en la que estés (como de costumbre)
midiendo el empalme de las flores
allí en el Jardín de San Lázaro
un tiro de pistola y…
No te voy a dar tiempo siquiera a que te fijes en mi rostro
Puedes invocar a Safo, Kavafis o San Juan de la Cruz
a todos los poetas celestiales
que ninguno vendrá en tu ayuda
Comprometidos definitivamente tus planes de eternidad
Adiós pues mares de septiembre y dunas de Fão
Un día de estos te voy a matar…
Una certera bala de polen
justo en el corazón


§


MUJER

Mitad mujer mitad pájaro
Mitad anémona mitad niebla
Mitad agua mitad amargura
Mitad silencio mitad concha
Mitad mañana mitad fuego
Mitad jade mitad tarde
Mitad mujer mitad sueño.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

JORGE SOUSA BRAGA (3)

O poeta Jorge Sousa Braga faz hoje 53 anos de idade. Um grande abraço, Jorge.

quarta-feira, outubro 10, 2007

JORGE SOUSA BRAGA




O lançamento dos livros "O Poeta Nu", de Jorge Sousa Braga e "O Século das Nuvens", de Guillaume Apollinaire (versões de Jorge Sousa Braga), decorrerá na próxima sexta-feira 12 de Outubro, pelas 18h30m, no Café Piolho (Café Âncora d'Ouro), na Praça Parada Leitão, 43, Porto). Lerão poemas na ocasião Adolfo Luxúria Canibal, João Gesta, e Rui Reininho.

"Jorge Sousa Braga acaba de reeditar, na Assírio & Alvim, uma nova edição da sua poesia reunida, "O Poeta Nu", acrescentada dos livros "A Ferida Aberta" e "Porto de Abrigo", e de uma sequência de poemas inéditos, "O Lírio que Há no Delírio". Para além da sua obra poética, Jorge Sousa Braga publicou alguns livros infantis, também em verso (entre eles, "Herbário", com ilustrações de Cristina Valadas, que recebeu o Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil e foi seleccionado para o Plano Nacional de Leitura), e tem organizado e traduzido várias antologias de poesia, a que acrescenta agora uma segunda versão, revista e ampliada, de "O Século das Nuvens", de Guillaume Apollinaire."


segunda-feira, janeiro 16, 2006

JORGE SOUSA BRAGA

Licenciado em Medicina, nasceu em Vila Verde, Braga em 1957. Exerce a especialidade de Obstetrícia num hospital do Porto. A sua obra poética tem vindo a revelar-se de uma criatividade notável, sendo notório desde o primeiro livro De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu, de 1981, uma abordagem da temática dos Descobrimentos e da portugalidade sempre tomada pelo lado irónico e surrealista, com ressonâncias do movimento Beat, de São Francisco. A sensualidade - e a sexualidade, - em poemas íntimos e por vezes extremos bem como a sua paixão pela poesia oriental têm-no levado a escrever haikus em língua portuguesa com assinalável perfeição. Incansável leitor de poesia verteu para português poemas de Jorge Luis Borges, Matsuo Bashô, Li Po, Guillaume Appolinaire, entre muitos outros. Acaba de publicar o livro de poemas Porto de Abrigo, na Assírio & Alvim.


OBRA POÉTICA

O Poeta Nu (1991), 2ª edição, Fenda Edições, Lisboa, 1999
Fogo Sobre Fogo, Fenda Edições, Lisboa, 1998
Herbário, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999
A Ferida Aberta, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
Pó de Estrelas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
Porto de Abrigo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005


CARTA DE AMOR (1981)

A Eugénio de Andrade

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e ...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


Pode um poema significar exactamente o contrário do que diz? É possível, a uma “Carta de Amor”, se iniciar com versos como: “Um dia destes/ vou-te matar”?

Fazendo uso da expectativa gerada pela dedicatória e pelo título, Jorge Sousa Braga surpreende o leitor incauto com o efeito de intimidação que percorre o poema que dedica a Eugénio de Andrade, numa das mais afectuosas homenagens poéticas escritas em vida por um poeta a outro poeta.

O tom geral do texto é o de uma ameaça assumida, de uma sentença a aplicar indiscriminadamente numa “manhã qualquer”, assumidamente com um “tiro de pistola”. Mas se o ditame é a morte, o crime parece ser a poesia – ela mesmo, – esse ofício maldito que perde vidas para o ócio, essa “não-profissão” (o ser-se, simplesmente, poeta), mister que consiste em ficar “(como de/ costume)/ a medir o tesão das flores” num jardim perto de casa.

Neste belíssimo poema de Jorge Sousa Braga, o narrador veste-se do que poderia ser uma desconfiança generalizada acerca da utilidade da poesia, da escassa importância dos poetas (mesmo os “celestiais”), qualquer deles impotente para acudir a Eugénio. Mas porque está ciente da fragilidade da acusação, o narrador propõe-se agir rapidamente, de forma implacável, não dando sequer à vítima (Eugénio de Andrade, a poesia), possibilidade de se defender. É a, tantas vezes anunciada, morte próxima da poesia.

A verdade é que, porém, mais do que (o que se poderia tomar como) uma indiferença “populi” ante a poesia (no confronto com a prosa?), àquela intimação parece sobrar uma oculta invídia pelos dias de Eugénio, resistentemente preenchidos pelo trabalho poético, a tempo inteiro se deleitando com a sapiência de “Safo Cavafy ou S. João da Cruz”, movendo-se numa apetecida geografia biográfica, por entre “mares de Setembro e dunas de Fão”. Subjacente a esse ciúme (ou quase declarada cobiça), lê-se, pela mão de Braga, um incontornável respeito e admiração pelo mestre, seu bom amigo aliás, quer pelo valor da sua obra de que é confesso leitor, quer pelo curso de uma vida inteiramente dedicada à poesia.

Por isso mesmo quando Braga tenta habilmente parecer duro e violento na linguagem (“tesão das flores”, “vou-te matar”), é do fundo de uma enorme doçura que a sua voz estala, seleccionando a mais bela das formas (“uma certeira bala de pólen”), como arma do crime e escolhendo para alvo a caixa dos sentimentos, a casa mais frágil de todas, “mesmo sobre o coração”.

A grande poesia é, afinal, a mais pequena. Matar a figura do pai, matando a obra do mestre? Ameaçar a poesia para assim a sublimar? Quando o autor se propõe comprometer a ”eternidade” do poeta, mais não faz do que oferecer-lhe, de vez, a imortalidade. E o que encerra uma dedicatória senão a voz da vida eterna? Haverá maior prova de amor do que essa?