Mostrar mensagens com a etiqueta MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, novembro 24, 2022

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA



O MEU CORPO HUMANO

Maria do Rosário Pedreira

Quetzal Editores, Abril 2022

96 páginas


A característica mais distintiva deste livro é a sua estrutura. Se excluirmos o poema mote que abre o livro, este é composto por sessenta poemas divididos por três partes de vinte poemas cada, intituladas respectivamente “o meu corpo humano”, “o teu corpo humano” e, de novo, “o meu corpo humano”. Todos os poemas têm como título uma expressão de algum modo relacionada com a anatomia, seja através do seu nome científico, seja através de uma expressão de uso mais oral. Os títulos não obrigam o poema a um desenvolvimento científico do mesmo, antes funcionam como pretexto para um texto cujo fio condutor é uma unidade ou uma identidade que é a do corpo humano.

A primeira parte ocupa-se do corpo humano do sujeito poético. Neste conjunto de poemas lutam entre si o “amor” e o “tempo”, eternos inimigos. São poemas o mais das vezes líricos que refletem a fugacidade do tempo, cada vez mais visível nos sinais de envelhecimento do corpo; subjaz a ideia de que cada instante é único e singular, devendo ser vivido com amor; fala-se do território secreto e exclusivo que o amor constitui; alude-se à morte metafórica que ocorre sem o amor e sem o corpo do objecto amado.

 

A terceira parte, para a qual propositadamente salto dada a semelhança do título com a primeira, diz também respeito ao corpo do sujeito lírico, pese embora o assunto dos poemas se foque menos no tempo e nos aspectos físicos do corpo, do que no lado mental da existência. Não o da doença psiquiátrica clássica mas o do episódio de matiz psicológica, esse que atravessa a vida mental e amorosa da persona lírica que nestes textos fala. Aqui, neste outro campo de batalha, travam-se de razões “alegrias” e “tristezas”, luta-se pelo verdadeiro amor. Estes são poemas informados por adversidades e incómodos, sombras e pesadelos, maledicências e inimizades, segredos e ofensas, discussões e diferenças, feridas de alma ou de alegria.

 

Na segunda parte, o corpo humano em questão é o corpo dos outros, e aqui lutam entre si a “indiferença” e a “empatia”. Os poemas deste conjunto podem ser lidos como um retrato sociológico das últimas décadas, e das consequências da crise social pré- e pós-pandemia, sendo uma extensa metáfora do Mundo contemporâneo, da ausência de compaixão e empatia. Nesse sentido, os títulos assumem a voz (e a vez) de sinédoques de um quadro social contemporâneo mais vasto; as partes da anatomia estão por aspectos da vida das personagens a quem o Mundo indiferente falhou: as “costas” estão pela solidão da viúva; o “pulso” está pelo acto do suicida; metonímias, portanto: os “pulmões” estão pela tragédia dos refugiados; o “útero” está pela gravidez de risco; a “perna” está pelo doente com gangrena; os “calos” estão pelo trabalho precário do emigrante de Leste; o “nariz” está pelas vítimas dos incêndios; a “cabeça” está” pelas vítimas das guerras.

 

A parte pelo todo, portanto. E um regresso feliz à poesia de Maria Rosário Pedreira.


terça-feira, março 16, 2010

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA acerca de W.B. YEATS


«William Butler Yeats é um poeta de quem gosto absolutamente de tudo o que li», afirma Maria do Rosário Pedreira ao Poesia Ilimitada. «Basicamente, é considerado 'o último romântico', eu gosto dos românticos, que o influenciaram, mas gosto muito mais deste último romântico, que é se calhar mais directo e menos rebuscado que os ditos românticos (Shelley, Keats…); e, apesar do classicismo da forma, é obviamente um poeta mais moderno (também porque já conviveu com os poetas ditos modernistas, como o Eliot ou o Pound). Mas não sei bem explicar porque gosto tanto dos seus poemas. Admiro, contudo, a sua fidelidade – seja à mulher que sempre amou (Maud Gonne, uma nacionalista, que pediu não sei quantas vezes em casamento), seja ao nacionalismo irlandês (se não tivesse um lado político, talvez não lhe tivessem atribuído o Nobel). Este é o poema dele de que mais gosto (e que recito de cor de quando em quando, por não ter jeito nenhum para cantar).»



WHEN YOU ARE OLD
(1893)

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.


§

José Agostinho Baptista publicou uma versão deste poema em 1996, na Assirio & Alvim. Com a devida vénia:

§


QUANDO FORES VELHA

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.



Maria do Rosário Pedreira
nasceu em Lisboa, em 1959. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses, pela Universidade Clássica de Lisboa (1981). Possui o curso de Língua e Cultura do Instituto Italiano de Cultura em Portugal, tendo sido bolseira do governo italiano. Frequentou durante quatro anos o Goethe Institut, e foi professora do Ensino Básico. Trabalhou como coordenadora dos serviços editoriais das editoras Gradiva, Temas e Debates e QuidNovi. Como escritora, tem publicados vários livros de ficção, poesia, ensaio, crónicas e literatura juvenil. No início de 2010, assumiu funções no Grupo editorial Leya.


Leia mais sobre Maria do Rosário Pedreira no Poesia & Lda,
aqui.

Leia mais sobre W. B. Yeats no Poesia & Lda,
aqui e aqui.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

Nascida em Lisboa, Maria do Rosário Pedreira (n. 1959) é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Franceses e Ingleses) pela Universidade Clássica daquela cidade, exercendo actualmente o cargo de directora editorial. A sua poesia, caracterizada por uma forte vontade de escrita, é exímia em retratar a dificuldade do amor e a espera feminina onde a solidão e a partida reflectem quase sempre a nostálgica procura da felicidade. Estreou-se em 1989 com o título Água das Pedras, sob o pseudónimo de Maria Helena Salgado, tendo sido com A Casa e o Cheiro dos Livros de 1996, obra duplamente premiada, que granjeou o elogio da crítica. É igualmente autora de ficção e literatura infantil.


OBRA POÉTICA


A Casa e o Cheiro dos Livros
(1996), 2ª edição, Gótica, Lisboa, 2002
O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica, Lisboa, 2001
Nenhum Nome Depois, Gótica, Lisboa, 2004


§

[Os amantes aparecem no verão...] (1995)

para J.G.


Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos

desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.




Por tentador que possa ser ler um poeta à luz da sua biografia, num significativo número de casos tal exercício pouco acrescenta ao poema. Porque um dos méritos da grande poesia é essa espécie de identificação que se celebra entre leitor e poema que chega mesmo a desalojar o autor do seu próprio escrito. É esse o caso de “Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram”, de Maria do Rosário Pedreira.

O texto alude de forma algo indefinida à condição de um narrador, presumivelmente feminino, que ocupa um determinado espaço onde se cruzam personagens - jamais nomeadas pelos nomes próprios - e que se poderiam repartir por duas categorias: os “amantes” (mencionados por três vezes) e os “amigos” (referidos por quatro), cada qual caracterizada por um momento específico, um lugar próprio, atitudes características e objectos singulares, numa diversidade de ritmos cíclicos que se anuncia e repete. É precisamente nesse jogo de entradas e saídas da casa que reside a mestria do poema. Se numa primeira leitura, o mesmo se nos apresenta intrincado e pouco nítido, cedo nos apercebemos ter sido precisamente essa a intenção da narradora ao condicionar o leitor a seguir na esteira dessas movimentações com o que pretendeu transmitir a ideia de desarrumação – não apenas da casa, onde as coisas vão mudando de sítio, – senão também, e principalmente, nas falhas do coração.

Porque lidos em detalhe, “amantes” e “amigos” obedecem a ciclos muito próprios. Desde logo no momento de entrada na casa: os “amantes aparecem no verão”, enquanto “os amigos // desaparecem em agosto” ausentando-se “até setembro”, remetendo estes versos para a estadia fugaz dos primeiros durante uma estação do ano que é - como eles - intensa mas (o mais das vezes) inconsequente, ao contrário dos “amigos” que ausentando-se durante um mês fluído e superficial regressam para os restantes meses do ano para uma cumplicidade séria e duradoira. Do mesmo modo surgem denotados com diferentes divisões da casa e por consequência com desiguais graus de afeição: “os amantes / deixam (...) cabelos na almofada”, enquanto que os “amigos” deixam e posteriormente ocupam “o seu lugar à mesa” remetendo a cama e a mesa - o quarto e a sala, - para diferentes níveis de envolvimento.

Isso mesmo é igualmente sugerido pelo peso dos verbos atribuídos à conduta das personagens: os “amantes aparecem” e “ajudam”, ou seja, comportamentos ocasionais e auto-limitados, enquanto que os “amigos confiaram” e “trazem” remetendo aqui para atitudes de estima e fidelidade. A autora pretende assim reforçar a ideia do nível de expectativas que é lícito esperar de cada um deles. Esta gradação de empatias e expectativas é também subtilmente transmitida por outro tipo de escalas: os “amigos” deixam apenas um “bilhete”, um curto recado, presumivelmente uma nota rápida - não necessariamente fechada porque partilhável, - descomprometidamente “entalado na porta”; os “amantes”, por seu turno, deixam toda uma “carta” carregada de “desculpas”, eventualmente justificativa de uma sensação de culpa que só se transporta num momento de partida.

O grau de envolvimento do narrador com os dois tipos de personagens fica definitivamente estabelecido quando nota que os “amigos” deixam “a memória / das suas biografias incompletas” como garante do regresso, enquanto que os “amantes / deixam um lugar vago na memória”, passível de vir a ser ocupado por outrem. Dos “amigos” ficam marcas de vida (“as plantas”, “o canário”, “um beijo”), restando somente dos “amantes” o delicioso transitório: a sobra de pequenas mortes (“cabelos”, “uma carta”, “desculpas”). Acabam assim por ser os “amigos” a devolver alguma estabilidade com o gesto de restituir o coração, personagem principal do poema, – figurado aqui pelo livro que dentro de casa vai passando de mão em mão, – do quarto para a sala, do acato para a procura, do mais íntimo para o comum, enquanto aguarda por novo amor. A contínua agressão a que é sujeito o coração, oscilando entre “amantes” e “amigos”, não pode senão figurar a dificuldade do verdadeiro amor porque a incompletude da amizade e a incompletude da paixão só por uma vez na vida se fundem no mesmo olhar.