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sábado, dezembro 01, 2012

NOTAS SOBRE LIVROS (5)

ANA LUÍSA AMARAL
Vozes
Lisboa, Dom Quixote, 2011


por JOÃO PAULO SOUSA


A poesia de Ana Luísa Amaral entretece uma relação hábil com os seus predecessores – ou, para ser mais exacto, com os textos a que a autora atribui essa dignidade –, por vezes mais dissimulada, outras vezes mais explícita. Não surpreenderá, assim, que o seu último volume de poemas até à data se intitule Vozes, pois esse é um título que bem poderia aplicar-se a um vasto corpus do seu labor lírico. Estas vozes são variações ou distorções, novos cantos que glosam ou ecoam velhos tópicos, exibindo com determinação a certeza de que a criação não se faz sobre o vazio. Apresentam-se sob a forma de versos alheios, de nomes ou de imagens que a autora mostra ostensivamente ou dilui com subtileza. O leitor pode, então, ser confrontado com um poema intitulado «Inês e Pedro: quarenta anos depois», que serve à autora para uma desconstrução irónica da lenda, ou uma sequência de trovas em que a fala de um cavaleiro alterna com a de uma dama, sendo ambas personagens que assumem – e, ao mesmo tempo, questionam – a sua dimensão de figuras de papel.

É a abrir esta sequência, aliás, que encontramos uma verdadeira arte poética, significativamente intitulada «Palimpsesto», cuja primeira estrofe, no prolongamento do meu raciocínio inicial, vale a pena transcrever:


Limpa o cesto bem limpo,
mas deixa lá ficar sombra ligeira:
essa primeira sílaba.
Sobre ela
podes encher o cesto com mais sílabas,
e até outras palavras.


Em consequência de um rigoroso corte dos versos, sugerindo uma estratégica delimitação de sentidos, esta estrofe apresenta as diversas etapas da construção (apetecia-me dizer tacteada) do poema; os três últimos versos, em particular, compõem quase uma narrativa (falsa, na medida em que todas as narrativas, impondo uma ordem que é sobretudo reconstrutiva, inventam uma realidade) do labor lírico. Poder-se-á acrescentar então, para prolongar ou completar esta ideia, que é sobretudo na capacidade de gerir a dosagem do que fica no fundo do cesto com o que lá se põe de novo – e também, como talvez seja óbvio, na subtileza com que se misturam esses materiais – que reside o que habitualmente se designa como o talento poético.

sexta-feira, março 26, 2010

ANA LUÍSA AMARAL acerca de EMILY DICKINSON


«Emily Dickinson é a poeta mais fascinante que conheço. O não ter praticamente publicado em vida autorizou sucessivas e revistas edições dos seus versos, espalhando a polémica entre críticos e organizadores. O ter incluído poemas em cartas, o ter falado da poesia como carta e trazido para o corpo das cartas o ritmo, a rima e a música da poesia fez com que dos seus textos uma poeta mais recente escrevesse: “
os poemas chamar-se-ão cartas e as cartas chamar-se-ão poemas”. A sua linguagem poética, ao mesmo tempo metafórica e elíptica, sincopada e oblíqua, sem muitas vezes concordância de formas verbais, nem respeito por plurais ou regras de gramática, deixou espaço a que dela se acentuasse o excessivo ofício com a gramática ou se falasse até de uma gramática própria. O seu uso recorrente de travessões, que fragmentam e questionam o verso, permitiu que deles se dissesse serem formas de dispersão da unidade discursiva, ou, sexualizados, uma espécie de hímen-hifen. Tudo isto me fascina em Emily Dickinson. E mais ainda: o ter falado de tudo, misturando Deus com ladrões, aranhas com vassouras, alma com vulcões, sonho com abelhas, gerânios, piscos e trevos; ou o ter examinado a morte e a vida, explorado o amor e o inferno, o êxtase, a mais pura alegria, o sofrimento, a misteriosa energia das coisas todas do universo. Ainda o tê-lo feito numa voz de mulher, aparentemente submissa, de facto poderosa. “Habito a Possibilidade - / Uma Casa mais bela do que a Prosa –“, escreveu. Depois disto, que melhor definição de poesia?»

My life closed twice before its close -
It yet remains to see
If Immortality unveil
A third event to me

So huge, so hopeless to conceive
As these that twice befell.
Parting is all we know of heaven,
And all we need of hell.


A minha vida fechou-se duas vezes antes de se fechar –
Mas fica por saber
Se a imortalidade me revela
Um evento maior

Tão largo, tão incrível de pensar
Como estes que sobre ela duas vezes tombaram.
Partir é tudo o que sabemos do céu,
Tudo o que do inferno se pode precisar.


§


To pile like thunder to its close
Then crumble grand away
While Everything created hid
This - would be Poetry -

Or Love - the two coeval come -
We both and neither prove -
Experience either and consume -
For None see God and live -




Crescendo de trovão até findar,
Depois o esboroar-se, grandioso,
Quando o Tudo criado era escondido
Isto – a Poesia -

Ou o Amor - os dois vêm coevos -
Ambos, nenhum provamos -
Um qualquer experimentamos e morremos -
Ninguém vê Deus e vive –



ANA LUÍSA AMARAL
nasceu em Lisboa, em 1956. Vive em Leça da Palmeira. Ensina Literatura Inglesa no Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras do Porto. É doutorada em Literatura Norte-Americana com uma tese sobre Emily Dickinson. Autora de oito livros de poesia e dois livros infantis, está representada em diversas antologias portuguesas e estrangeiras e foi traduzida para várias línguas, como castelhano, inglês, francês, alemão, holandês, russo, búlgaro e croata.

Os poemas acima traduzidos por Ana Luísa Amaral são publicados pela primeira vez, em exclusivo, no Poesia Ilimitada.


Leia mais sobre Ana Luísa Amaral aqui.

domingo, janeiro 15, 2006

ANA LUÍSA AMARAL

Nascida em Lisboa em 1956, vive em Leça da Palmeira e ensina Literatura Inglesa na Faculdade de Letras do Porto. É doutorada em Literatura Norte-Americana com uma tese sobre Emily Dickinson. Reinventando a tradição - como que a subvertendo, - a sua escrita poética de assomo feminino aborda a esfera doméstica tanto quanto as mitologias, tendo no avesso do quotidiano e na ars poética temáticas de eleição. A atenção ao pormenor, tantas vezes fazendo uso de uma gramática muito própria, valeu à sua obra poemas de grande fôlego criativo. Traduzida em diversas línguas, acaba de reunir de novo a sua Obra Poética sob a chancela da Dom Quixote.


OBRA POÉTICA

Minha Senhora de Quê (1990), 2ª edição, Quetzal, Lisboa, 1999
Coisas de Partir (1993), 2ª edição, Gótica, Lisboa, 2001
Epopeias, Fora do Texto, Coimbra, 1994
E Muitos os Caminhos, Poetas de Letras, Porto, 1995
Às Vezes o Paraíso, Quetzal, Lisboa, 1998
Imagens, Campo das Letras, Porto, 2000
Imagias, Gótica, Lisboa, 2001
A Arte de Ser Tigre, Gótica, Lisboa, 2003
A Génese do Amor, Campo das Letras, Porto, 2005
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, Porto, 2008
Se Fosse Um Intervalo, Dom Quixote, Lisboa 2009



METAMORFOSES
(1990)

Faça-se luz
neste mundo profano
que é o meu gabinete
de trabalho:
uma despensa.

As outras dividiam-se
por sótãos,
eu movo-me em despensa
com presunto e arroz,
livros e detergentes.

Que a luz penetre
no meu sótão
mental
do espaço curto

E as folhas de papel
que embalo docemente
transformem o presunto
em carruagem!


A questão proposta pelo texto de Ana Luísa Amaral é a de uma aparente obrigatoriedade da narradora em se movimentar por entre um rol de tarefas domésticas, entre “presunto e arroz,/ (...) e detergentes”, ante o permanente apelo “mental” para o exercício da escrita. A estranheza, em poesia, de palavras como “presunto” ou “detergentes”, “arroz” ou “despensa”, furta desde logo qualquer intenção idílica do poema - ou lírica, deste dia-a-dia, - dado a surpresa da sua leitura nos atirar, como leitores, rente ao chão, o mesmo chão que a autora se vê compelida a pisar na sua condição de mulher urbana.

Tenho consciência de que o meu quotidiano (doméstico) pode constituir fonte de inspiração para a minha poesia, tanto quanto tenho consciência de que um livro de poesia ou de crítica sobre poesia, um olhar, palavras de alguém por quem me sinta tocada, as minhas aulas, um pôr-do-sol, uma manhã que de repente fica muito de Primavera, o podem”, confidencia-me Ana Luísa Amaral.

Diagnosticando com desconcertante habilidade o que a prende a este “mundo profano”, a escritora dispõe-se a acatar essa inevitabilidade não sem que a encaixe sob o signo da ironia, sorrindo-se de si mesma no seu “gabinete/ de trabalho:/ uma despensa”; “as outras”, suas irmãs de escrita, espalham-se, ao invés, “por sótãos”, universos mais elevados, enquanto a autora se acha compelida a ter que enganar o tempo a cada intervalo da vida “séria” sempre com os “livros” atrás de si.

Sempre arranjei tempo para escrever. Sempre.”, sublinha Ana Luísa Amaral. “Se não consigo escrever durante o dia, escrevo à noite - às vezes a altas horas, mas sou noctívaga, o que me é muito útil. Acho que uma pessoa quando precisa de escrever, escreve – independentemente de condicionantes exteriores. Claro que ter, como dizia Virginia Woolf, "um quarto que seja seu" é uma ajuda, mas não é fundamental.

Tal como a personagem do celebrado conto infantil a quem eram destinadas as tarefas mais desagradáveis, a autora desejaria que a todo o instante lhe entrasse pela porta do quotidiano adentro o “príncipe” que lhe desse a calçar o sapato da escrita, materializando-se assim o seu enlace com a poesia. Mas enquanto tal não acontece - e ante as algemas da vida “séria”, - resta-lhe apelar à inspiração pedindo “Faça-se luz”, “Que a luz penetre/ no meu sótão/ mental”, para que a sua vontade de tinta se vá materializando e seja possível nas “folhas” que embala “docemente”, a epifania da escrita, o almejado sublimar do “presunto/ em carruagem!”.

Nada parece mais justo, dir-se-ía. Que seja o mesmo real que aparentemente asfixia, a oferecer-lhe - generoso - o discorrer do poema, presenteando a autora com a centelha sublime e mágica da inspiração.