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quinta-feira, março 15, 2012

WILLIAM WORDSWORTH



WILLIAM WORDSWORTH (1770 – 1850) foi um poeta romântico inglês que, com Samuel Taylor Coleridge, contribuiu para o lançamento do romantismo na literatura inglesa em 1798, com a publicação conjunta de "Lyrical Ballads". O poema que se segue, traduzido por Jorge Sousa Braga, constitui o segundo post dedicado ao tema "A primeira luz".




COMPOSED UPON WESTMINSTER BRIDGE, SEPT.3, 1802

Earth hath not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.

Never did sun more beautifully steep
In his first splendor, valley, rock, or hill;
Ne'er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! The very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!


§


ESCRITO NA PONTE DE WESTMINSTER, A 3 DE SETEMBRO DE 1802


Não tem a terra nada mais belo para mostrar
Pobre de espírito seria aquele que pudesse ignorar
esta visão tão comovente na sua majestade
Como um traje veste agora esta cidade

a beleza da manhã. Silenciosas e nuas
torres cúpulas navios teatros catedrais a prumo
erguem-se no céu e estendem-se pelas ruas
brilhantes e reluzentes no ar sem fumo

Nunca o sol se ergueu com tanta alma
por sobre vales rochedos e colinas
nunca vi nunca senti uma tão profunda calma

O rio desliza consoante o seu desejo
Meu Deus o casario parece que dorme
Dorme também aquele coração enorme

quarta-feira, março 07, 2012

CORAL RUMBLE

CORAL RUMBLE é uma escritora inglesa, de poesia e livros infantis. Publicou "Teachers and Family Features", em 1999, "Breaking the Rules", em 2004, e "My Teacher's as Wild as a Bison", em 2005. O poema "The first bit", traduzido por Jorge Sousa Braga, inicia uma série de posts dedicados a um tema que lhe é muito grato: "A primeira luz".



THE FIRST BIT

I love the first bit of the morning,
The bit of the day that no one has used yet,
The part that is so clean
You must wipe your feet before you walk out into it.
The bit that smells like rose petals and cut grass
And dampens your clothes with dew.

If you go out, you will bump into secrets,
Discover miracles usually covered by bus fumes.
You will hear pure echoes, whispers and scuttling.

I love the first bit of the morning
When the sun has only one eye open
And the day is like a clean shirt,
Uncreased and ready to put on;
The part that gets your attention
By being so quiet.


§


OS PRIMEIROS MOMENTOS

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados



sábado, dezembro 11, 2010

W.H.AUDEN (2)


W. H. AUDEN
nasceu em 1907, em York, tendo falecido em 1973, em Kischtetten, perto de Viena. Viveu em Inglaterra até 1938, convivendo com Louis MacNeice e Stephen Spender, entre outros, ano em que emigrou para os Estados Unidos, onde conheceu o seu companheiro Chester Kallman, e obteve a cidadania americana, convertendo-se ao cristianismo. Em 1959 foi nomeado professor de poesia em Oxford. A editora Assírio & Alvim publicou em 1994, uma antologia de poemas de Auden que José Alberto Oliveira intitulou de “O Massacre dos Inocentes”, a partir do título de um dos poemas que traduziu, “For The Time Being”. Também a Relógio d’Água editou em 2003, o belíssimo “Outro Tempo”, com tradução de Margarida Vale de Gato. Já aqui havia trazido ao Poesia Ilimitada um poema de Auden de que gosto muito, “Funeral Blues”; não é esse porém o meu poema de eleição do poeta anglosaxónico, antes “Musée des Beaux Arts”, do qual tento aqui uma tradução.



MUSÉE DES BEAUX ARTS

About suffering they were never wrong,
The Old Masters: how well they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Brueghel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.




MUSÉE DES BEAUX ARTS

Acerca do sofrimento, nunca se enganaram
Os Velhos Mestres: quão bem entenderam
A condição humana; como está presente
Enquanto alguém se alimenta ou abre uma janela ou monotonamente segue a caminhar;
Como, enquanto os velhos esperam apaixonada e reverentemente
Pelo miraculoso nascimento, deve sempre haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lago na orla da floresta:
Nunca esqueceram
Que até o mais terrível martírio deve seguir o seu curso,
Custe o que custar, a um canto, nalgum lugar descuidado
Onde os canídeos acorrem em suas vidas de cão, e o cavalo do torturador
Coça seu inocente traseiro por detrás de uma árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo se afasta
Ociosamente do desastre; o lavrador poderá
Ter ouvido o splash, o grito desamparado,
Mas para ele não era um importante fracasso; o sol brilhou
Como soía
sobre as pernas brancas que desapareceram na verde
Água; e o frágil e grandioso navio que deve ter avistado
Algo espantoso, um rapaz caindo do céu,
Tinha um destino para ir e afastou-se calmamente.


sexta-feira, abril 09, 2010

RUI LAGE acerca de THOMAS HARDY


«Escolho um poema de Thomas Hardy publicado em 1917, na colectânea
Moments of Vision. Pese embora a qualidade e popularidade de muitos dos seus romances ("Tess of the D' Ubervilles" ou "Jude the Obscure", por exemplo, ambos adaptados ao cinema), entre nós a sua poesia é praticamente desconhecida. Mas Hardy é o grande poeta inglês da transição do período vitoriano para o modernismo. Não cheguei a este poema através de qualquer antologia mas sim através de um CD da colecção belga "Made to Measure". Samy Birnbach (vocalista dos pós-punks israelistas Minimal Compact) e Benjamin Lew (colaborador assíduo de Steven Brown dos Tuxedomoon) musicaram em 1989 uma série de poemas notáveis num disco intitulado "When God was famous: A tribute to poetry": Lowry, Apollinaire, Yeats, Celan, Patchen, entre outros, e este "An Upbraiding". Para exprimir o seu desencanto com uma relação amorosa que decerto já conhecera melhores dias, e "repreender" – daí o "upbraiding" – a amada (a primeira esposa Emma Lavinia Gifford? Who cares!), Hardy escolhe pôr-se a falar depois de morto, recordando, a partir da morte, as canções que o casal, in illo tempore, conhecia, e que a viúva vem agora cantar junto ao seu túmulo mas que, em vida do sujeito, ela se abstinha de cantar. Singular estratagema (pois que se pode retorquir a um morto?) que baralha a nossa percepção da regular sucessão temporal, e do qual resulta um misto de romantismo negro e de cinismo amargo. Sobretudo na última estrofe onde há uma pontinha de ódio a surgir por dentro do amor de um espectro que, não fosse espectro, e pudesse voltar atrás (mas ele pode, e aí é que está) teria feito as coisas doutra maneira… Ora, se este poema, muito breve e muito simples, deve ter impressionado à época da sua publicação, mais impressiona agora, 82 anos após a morte de Hardy. Porque agora ele verdadeiramente fala a partir do túmulo. Duas vezes morto, o poeta não cessa de, alheio ao leitor, repreender a sua amada, a qual não cessa de visitar o seu túmulo (inconsolável quando em vida do defunto lhe serviu frieza). Note-se que ela ainda não está morta: "When you are dead", lê-se. Mas a isto ainda podíamos juntar a circunstância de Hardy ter ditado o seu derradeiro poema à sua segunda esposa Florence Emily Dugdale, no seu leito de moribundo…»


AN UPBRAIDING

Now I am dead you sing to me
The songs we used to know,
But while I lived you had no wish
Or care for doing so.

Now I am dead you come to me
In the moonlight, comfortless;
Ah, what would I have given alive
To win such tenderness!

When you are dead, and stand to me
Not differenced, as now,
But like again, will you be cold
As when we lived, or how?




UMA REPREENSÃO


Morto agora tu cantas-me
Canções que usávamos cantar,
Em vivo não tiveste ensejo
Ou vontade de as entoar.

Morto agora tu vens a mim
À luz do luar, inconsolável;
Ah, o que teria dado em vida
Para ganhar-te assim amável!

Quando morreres, frente a mim
sem diferenças, como agora,
mas como igual, serás tão fria
como em vida, como outrora?


Rui Lage nasceu no Porto em 1975. Autor de poesia ("Antigo e Primeiro", "Berçário", "Revólver" e "Corvo"), ensaio, teatro e literatura para a infância. Traduziu poesia de Paul Auster e Pablo Neruda, e ficção de Samuel Beckett. Co-fundou, em 1998, a revista de literatura, música e artes visuais "aguasfurtadas". Em 2009, juntamente com Jorge Reis-Sá, foi responsável pela organização, selecção, introdução e notas de "Poemas Portugueses: Antologia da Poesia Portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI" (Porto Editora). Encontra-se a ultimar a sua tese de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.


Leia mais sobre Rui Lage no Poesia Ilimitada, aqui.

quarta-feira, abril 07, 2010

MÁRIO CLÁUDIO acerca de BASIL BUNTING

«É um texto pequeníssimo, de um enorme poeta irascível, Basil Bunting, um desses poemas que eu, cidadão de suaves costumes, jamais me atreveria a escrever. De resto talvez se marque nesta escolha o meu crescente envolvimento na prosa, e a minha galopante relutância à poesia.»


Basil Cheesman Bunting
(1 de Março de 1900 – 17 de Abril de 1985) foi um poeta modernista britânico cuja reputação foi estabelecida com a publicação em 1966 de Briggflatts. Ao longo da vida manifestou um crescente interesse pela música, o que o levou a enfatizar as qualidades sonoras da poesia, em particular da leitura da poesia em voz alta.



ENVOI TO THE READER


From above the moon
to below the fishes
nobody knows
my secret heart.
Do you suppose
I’d publish it?
Spell out a fart
and have it printed?



ENVIO AO LEITOR

Do cimo da lua
ao fundo dos peixes
não há quem conheça
meu secreto coração.
Vocês acham mesmo
que o publicaria?
Que soletrava um peido
e o imprimiria?


§


Mário Cláudio nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1941 como Rui Manuel Pinto Barbot Costa. É licenciado em Direito e autor de obras de poesia, teatro e ensaio, tendo sido principalmente através da escrita de ficção que atingiu uma grande notoriedade: Amadeo (1984), Guilhermina (1986), Rosa (1988), Tocata para Dois Clarins (1992), O Pórtico da Glória (1997), Ursamaior (2000), Oríon (2003), Gémeos (2004), Camilo Broca (2006) e Boa Noite, Senhor Soares (2008), encontram-se entre os títulos que publicou. Recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB (1984) com Amadeo, o Prémio Pessoa (2004), o Prémio Clube Literário do Porto (2005) e o Prémio Vergílio Ferreira (2008).

domingo, maio 06, 2007

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - ROGER McGOUGH

"Caro João,

Como sabemos, não há escrita que se faça no vazio. Enquanto consultava com muito gosto os arquivos do Poesia & Lda, vi-me a confirmar esta ideia através do poema que traduziu, aqui há uns tempos (Janeiro de 2006), do William Carlos Williams. Onde é que eu já tinha lido isto, ou algo parecido com isto?, pensei. A resposta está em The State of Poetry, um pequeno livro do poeta inglês ROGER McGOUGH (Penguin, 2005, não sei se conhece?) e, particularmente, no poema "Dear Scott". Reescrita quase literal, com a introdução de um elemento paródico e humorístico, a presença da ideia do álcool e do alcoolismo na vida de Zelda e de Scott Fitzgerald (em vez das ameixas, o licor de ameixa e o seu efeito final de embriaguez), o poema de McGough surge como homenagem (não como plágio) e comentário irónico, dirigido não só às incidências biográficas do famoso romancista e novelista americano, mas também à natureza familiar, bucólica e luminosa do poema original de Williams. Roger McGough, sem ansiedade da influência, a escrever torto por linhas direitas... ou direito por linhas tortas? Aqui ficam poema e uma tradução possível (?) do poema de McGough:


"Dear Scott

This is just to say
I have drunk
the plum brandy
that was in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
it was delicious
so cold
and so numbing

x Zelda"


***


"Querido Scott

É só para dizer que
bebi
o licor de ameixa
que estava no
frigorífico

e que
provavelmente estavas
a guardar
para o pequeno-almoço

Perdoa-me
estava delicioso
tão fresco
e entorpecedor

bjs. Zelda"


Com os melhores cumprimentos,
Luís."

terça-feira, janeiro 30, 2007

MORRISSEY

(este post é para o Pedro Mexia)
Steven Patrick MORRISSEY nasceu a 22 de Maio de 1959, em Manchester, Reino Unido. Foi o lendário vocalista dos The Smiths. "First Of The Gang To Die", está incluída no seu álbum a solo "You Are The Quarry", de 2004.



FIRST OF THE GANG TO DIE

You have never been in love
until you've seen the stars
reflect in the reservoirs
and you have never been in love
until you've seen the dawn rise
behind the Home For The Blind
we are the Pretty Petty Thieves
and you're standing on our streets
where Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die
oh my
Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die
oh my
You have never been in love
until you've seen sunlight thrown
over smashed human bone
we are the Pretty Petty Thieves
and you're standing on our streets
Where Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die
such a silly boy
Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and a bullet in his gullet
the first Lost Lad under the sod
And he stole from the rich and the poor
and the not-very-rich
and the very poor
and he stole all hearts away


§


O PRIMEIRO DO GANG A MORRER

Nunca estiveste apaixonado
se nunca viste o reflexo
das estrelas no reservatório

Nunca estiveste apaixonado
se nunca viste o dia crescer
por detrás do Lar para Cegos

Nós somos os Belos Ladrões Insignificantes
e tu estás na nossa rua
onde Hector foi primeiro do gang
com uma arma na mão
o primeiro a cumprir tempo
o primeiro do gang a morrer
oh sim
Hector foi o primeiro do gang
com uma arma na mão
o primeiro a cumprir tempo
o primeiro do gang a esticar
oh sim

Tu nunca estiveste apaixonado
se nunca viste raios de sol abandonados
sobre ossos humanos esmagados

Nós somos os Belos Ladrões Insignificantes
e tu estás na nossa rua
onde Hector foi o primeiro do gang
com uma arma na mão
o primeiro a cumprir tempo
o primeiro do gang a finar
que tolo foi

Hector foi o primeiro do gang
com uma arma na mão
e uma bala na goela
o primeiro rapaz perdido sob a erva

E ele roubava aos ricos e aos pobres
e aos não-muito-ricos
e aos muito pobres
e roubou-nos o coração de vez


domingo, agosto 13, 2006

HELEN FARISH

A colecção de poemas de estreia da escritora e crítica britânica HELEN FARISH, “Intimates” (Cape Poetry, London, 2005), venceu o prémio Forward de poesia de 2005 e foi finalista do Prémio T. S. Eliot de poesia do mesmo ano. Helen Farish (nascida em 1962, numa casa de campo perto de Wigton, Cumbria) é professora na Universidade de Hallam, em Sheffield. Em “Intimates”, Farish pratica uma escrita provocadora e apaixonada onde o corpo assume um erotismo exposto, tanto quanto é lugar de desarranjo e medo. Eis três poemas do livro:


LOOK AT THESE

Seeing you makes me want to lift up my top
breathe in and say Look! Look at these!
I’ve kept them hidden till now
under loose shirts, Dad’s jumpers.

Suddenly I’m offering them
like a woman ready to mate.
I’m holding my breath.
Don’t tell me not to.


.


OLHA PARA ESTAS

Ver-te faz-me querer levantar o top
inspirar fundo e dizer Olha! Olha para estas!
Mantive-as escondidas até hoje
sob camisas soltas, os blusões do pai.

De repente estou a oferecê-las
qual mulher pronta a acasalar.
Estou a suster o fôlego.
Não me peças para não o fazer.


§


24TH JUNE 1955

Waiting on the doorstep you can hear
the distant intent of the engine
at Hollin Root, now Low Woodside.
Summer sways in its wake.
A farmer's boy in the beck field
looks up too late.

By now you know just how
that red MG will swing in the yard,
how dogs will bark and hens flap,
and how it will feel
to turn in his arms, his hand
on your blue satin waist.

It's easy with the tall-grass wind,
sun bouncing off the bonnet
and destiny's intent
running louder than any engine;
girl, it's easy now to say I do
to a lifetime's distance.


.


24 DE JUNHO DE 1955

À espera na soleira da porta podes escutar
a intenção do motor à distância
em Hollin Root, agora Low Woodside.
O verão oscila em seu despertar.
Um filho do fazendeiro no campo do riacho
olha para cima demasiado tarde.

Agora sabes ao certo como
aquele MG vermelho oscilará no pátio,
como ladrarão os cães, as galinhas pelo ar,
como será sentires-te
girar em seus braços, a mão dele
na tua cintura de cetim azul.

É fácil, com o vento na relva alta,
o sol resvalando no capot
a intenção do destino
correndo mais alto que qualquer motor;
rapariga, agora é fácil dizer Aceito
à distância de uma vida inteira.


§


BIOPSY

I’m running away with my breasts
to Barcelona, the Canaries.
They’ve a fancy for some seafront life,
fisherman, local wine.
I’m leaving no more of them at the hospital.
I understand the lump now,
how the cells got together
in a crescent like a young moon,
a smooth-sea boat, a hammock.
All these symbols of longing:
if I had taken notice
they could not have taken shape.


.


BIÓPSIA

Vou fugir com os meus seios
para Barcelona, as Canárias.
Têm afeição por essa vida de esplanada,
pescadores, vinho local.
Não deixo nem mais um pedaço no hospital.
Compreendo agora a massa,
como as células se aglutinaram
em crescente, qual lua jovem,
um barco polido de mar, uma rede.
Todos esses símbolos de desejo:
tivesse eu tomado conta
não teriam tomado forma.


domingo, agosto 06, 2006

LANDEG WHITE

LANDEG WHITE nasceu no sul do País de Gales em 1940 e - pelo que me posso aperceber - vive em Portugal desde 1994. Passou a infância entre Cheshire, Glasgow e Hertfordshire, tendo-se formado na Universidade de Liverpool. Foi professor em Trindade e Tobago, no Malawi (onde conheceu Maria Alice, sua esposa), na Serra Leoa e na Zâmbia. Em 1989 regressou a York, no Reino Unido, onde foi director do Centro de Estudos Sul-Africanos, tendo em 1994 chegado a Portugal, onde lecciona actualmente na Universidade Aberta. Publicou sete livros de poemas, bem como uma rara tradução para o inglês, já premiada, da obra maior de Luís de Camões, “Os Lusíadas”. Confesso que não me tinha cruzado com a existência deste poeta britânico de 66 anos até Junho deste ano, a pretexto de uma estadia em Praga, quando durante uma daquelas intermináveis esperas no Aeroporto de Frankfurt, para grande surpresa minha deparei com uma versão do poema de Camões “Aquela Cativa”, no The Times Literary Supplement de 9 de Junho. Aí se dava grande destaque à sua versão "from the Portuguese of Luis de Camões", “On the Slave, Barbara”. Aqui segue na integra, com a devida vénia, por curiosidade:



ON THE SLAVE, BARBARA

This slave I own
Who holds me captive,
Living for her alone
Who scorns to live,
I never saw woven
In bright bouquets
One dog rose lovelier
To my gaze.

The flowers in the field,
And the stars above
In their beauty, yield
To my love.
Distinct in feature,
Eyes dark and at rest,
Tired creature,
But not of conquest.

Here dwells the sweetness
By which I live,
She being mistress
Of whom she is captive.
Her hair is raven,
And the fashion responds,
Forgetting its given
Preference for blonde.

Love being Negro
At so sweet a figure,
The blanketing snow
Vows to change colour.
Gladly obedient
And naturally clever,
This may be expedient,
But barbarous never!

Quiet presence
That silence storms,
All my disturbance
Finds peace in her arms.
This is the vassal
Who makes me her slave,
Being the muscle
That keeps me alive.



Sem pretender - nem ousaria - tirar mérito à tradução de Landeg White (que saudo...), aí se prova o bastante que as dificuldades com que deparamos ao tentar verter para português poemas de língua inglesa, são naturalmente as mesmas com que poetas e tradutores daquele idioma se deparam ao tentar resgatar para a sua lingua textos originarariamente escritos na nossa. Tive recentemente oportunidade de participar num animadíssimo colóquio na Feira do Livro do Porto com os excelentes Manuel António Pina e Pedro Mexia, moderado pelo jornalista e (deixem-me insistir nisto) poeta Luís Miguel Queirós, em que o desafio que nos era proposto era, na esteira de Derrida, que esgrimissemos acerca do que é isso da poesia. Uma das “definições” que maior consenso reuniu foi a do poeta americano Robert Frost (1874-1963) quando escreveu isto: “poetry is what is lost in the translation”. Percebo bem o que Frost queria dizer. Poesia é, antes de mais, coisa de linguagem... Bem poderia o americano, acaso fosse vivo, vir aqui colher amparo que corroborasse a sua definição. É que na versão inglesa de Landeg White, por competente que seja - e é, - também se perde alguma coisa. Perde-se, por exemplo, poesia, quando o galês é obrigado a abrir mão do imperecível jogo de palavras com que o génio de Camões imortalizou os dois primeiros versos do seu poema na versão original:


"Aquela cativa
que me tem cativo…"


segunda-feira, fevereiro 13, 2006

BRIAN PATTEN

BRIAN PATTEN (Liverpool, 1946) é conhecido como um dos "poetas de Liverpool", juntamente com Adrian Henri e Roger McGough. A sua obra poética faz da poesia imediata e acessível às audiências, um dos seus principais desígnios, demonstrando uma natural habilidade para escrever sobre temas sérios recorrendo ao humor. Traduzido em numerosas línguas, é conhecido no Reino Unido pelo seu trabalho poético tanto quanto pelos numerosos livros infantis que publicou. A tradução de "Uma Folha de Erva" - em especial para este dia 14 de Fevereiro - inaugura a colaboração períodica que o poeta Jorge Sousa Braga manterá no Poesia Ilimitada.



UMA FOLHA DE ERVA

Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
Do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
Não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia àcerca
De como uma folha de erva
Se torna cada vez mais difícil de oferecer

E de como quanto mais envelheces
Uma folha de erva
Se torna mais difícil de aceitar.




terça-feira, janeiro 31, 2006

LLOYD COLE


LLOYD COLE nasce em 1961, em Buxton, Derbyshire, Reino Unido. Filho de Brenda Cole, dona de casa e Brian Cole, instrutor de condução, é filho único até aos três anos de idade, altura em que nasce o seu irmão Adam. Entra para a escola primária em Chapel en le Frith, Derbyshire e tem a sua primeira namorada, Jane Edwards, aos 7 anos de idade, altura em que se começa a interessar por futebol que chega a praticar, sendo no entanto constantemente preterido na equipe sénior. Bom aluno a matemática, conta que chorou aos 9 anos de idade, quando o seu clube de eleição, o Chelsea, ganhou o campeonato inglês de 1970. Teve outra alegria recentemente. Num e-mail que trocamos teceu rasgados elogios a José Mourinho que considera genial... Uma das primeiras bandas que o cativou foram os T Rex, mas as suas preferências musicais aos 10 anos passavam pelos omnipresentes Beatles, David Bowie, e Alice Cooper. Estuda na New Mills Grammar School, em Cheshire e recebe como presente no seu 11º aniversário aquele que fica gravado como o primeiro LP da sua colecção, "Electric Warrior", dos T Rex. Aprende golf e interessa-se por ficção cientifica, apontando Michael Moorcock como o seu favorito. Aos 14 anos ouve "Born To Run", de Bruce Springsteen, e sem abandonar os estudos forma dois anos mais tarde com Michael Towers e Duncan MacKenzie a sua primeira banda de punk rock onde canta e toca baixo em festas particulares e de liceu usando o casaco de couro da mãe que se encarrega de destruir com alfinetes e pins. Aos 16 anos estuda geografia, matemática e economia. Ouve essencialmente punk rock, tocando baixo nos "Vile Bodies" que nunca actuaram ao vivo. Aprende a tocar guitarra. Descobre os Velvet Underground. Aos 18 anos, os pais mudam-se para Glasgow em busca de melhores condições económicas mas Lloyd fica a viver em Chorley, Lancashire, nessa mesma casa onde se dedica a jogar cartas com os amigos depois das aulas. Passa nos exames finais e é aceite em Direito no University College of London. Em Londres, aos 19 anos, faz novos amigos. Adapta-se facilmente à vida cosmopolita. Ouve Chic, Funkadelic, James Brown, Stax. Começa a fumar cigarros de mentol. Tem uma namorada italiana. Dificuldades no estudo de Direito, saí à noites para concertos dos PIL, Magazine, Joy Division. Sente a morte de Ian Curtis. Conhece o seu melhor amigo, Michael, com quem viaja pelo noroeste europeu com pouco dinheiro na algibeira. Deixa Direito e Londres e decide estudar inglês, filosofia e artes gerais. É aceite na Faculdade de Artes da Glasgow University. Aos 20 anos ouve Staple Singers, Al Green, Orange Juice. Conhece Blair Cowen depois de ter colocado um anúncio na associação de estudantes a pedir um teclista e forma os "Fun". Tocam apenas duas vezes ao vivo, músicas tipo Soft Cell e decidem terminar o projecto formando os "The Casuals". Conhecem Neil Clark, guitarrista, com quem decidem formar uma nova banda, "Lloyd Cole and The Commotions". Em dois anos ganham seguidores locais transformam-se numa banda pop-rock e escrevem "Are You Ready To Be HeartBroken?". No verão de 83, Lloyd Cole, então com 22 anos, e Blair Cowan decidem abandonar os estudos para se tornarem músicos profissionais. O pai de Lloyd empresta-lhes 500 libras para ensaiarem e no inverno desse mesmo ano escrevem "Perfect Skin" e "Forest Fire". Pagam a dívida contraída e admitem Stephen Irvine, baterista, e Lawrence Donegan, baixista, para a secção rítmica da banda. Em Fevereiro de 84, aos 23 anos, assina um contracto de 5 discos com a Polydor. Na Primavera desse ano sai o single "Perfect Skin" que de imediato atraí a atenção dos media. Em Setembro, "Rattlesnakes", o álbum de estreia produzido por Paul Hardiman, entra directamente para o 13º lugar da tabela de vendas no Reino Unido e torna-se num curto espaço de tempo disco de ouro. É votado pelos leitores do New Musical Express como o 22º melhor albúm de sempre e pelos críticos da mesma revista como o 96º melhor albúm da história da música.



RATTLESNAKES (1984)

Jodie wears a hat although it hasn't rained for six days
she says a girl needs a gun these days
hey on account of all the rattlesnakes
she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
she reads Simone de Beauvoir in her American circumstance

she is less than sure if her heart has come to stay in San Jose
and her neverborn child still haunts her
as she speeds down the freeway
as she tries her luck with the traffic police
out of boredom more than spite
she never finds no trouble she tries too hard
she's obvious despite herself

she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
she says all she needs is therapy
yeh, all you need is love is all you need

Jodie never sleeps because there are always needles in the hay
she says that a girl needs a gun these days
hey on account of all the rattlesnakes
she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront
as she reads Simone de Beauvoir in her American circumstance

her heart… heart is like crazy paving
upside down and back to front
she says ooh, it's so hard to love
when love was your great disappointment



§



CASCAVÉIS

Jodie usa chapéu embora não chova desde há seis dias
uma rapariga precisa de uma arma hoje em dia
por causa desses cascavéis
parece-se com Eve Marie Saint em Há Lodo No Cais
e lê Simone de Beauvoir na sua circunstância americana

está menos que certa se o seu coração veio para ficar em San José
e a sua criança perdida ainda a persegue
enquanto acelera pela auto-estrada
enquanto tenta a sorte com a polícia de trânsito
sem aborrecimentos, mais, com rancor
nunca encontra despreocupações, ela tenta bastante
é objectiva, apesar de tudo

parece-se com Eve Marie Saint em Há Lodo No Cais
o que precisa é de terapia,
sim, tudo o que precisas é amor tudo o que precisas

Jodie nunca dorme porque há sempre agulhas no feno
uma rapariga precisa de uma arma hoje em dia
por causa desses cascavéis
parece-se com Eve Marie Saint em Há Lodo No Cais
lê Simone de Beauvoir na sua circunstância americana
seu coração… é como mosaico trocado
de cima para baixo, de trás para a frente
e diz oh, é tão difícil amar
quando o amor foi a grande decepção


segunda-feira, janeiro 30, 2006

T. S. ELIOT

T. S. ELIOT (1888-1965)

THE MUSIC OF POETRY (1942)

I would remind you, first, that the music of poetry is not something which exists apart from the meaning. Otherwise, we could have poetry of great musical beauty which made no sense, and I have never come across such poetry. The apparent exceptions only show a difference of degree: there are poems in which we are moved by the music and take the sense for granted, just as there are poems in which we attend to the sense and are moved by the music without noticing it.
(…) The immediacy of poetry to conversation is not a matter on which we can lay down exact laws. Every revolution in poetry is apt to be, and sometimes to announce itself to be a return to common speech…
It would be a mistake, however, to assume that all poetry ought to be melodious, or that melody is more than one of the components of the music of words. Some poetry is meant to be sung; most poetry, in modern times, is meant to be spoken – and there are many other things to be spoken of besides the murmur of innumerable bees or the moan of doves in immemorial elms. Dissonance, even cacophony, has its place: just as, in a poem of any length, there must be transitions between passages of greater and less intensity, to give a rhythm of fluctuating emotion essential to the musical structure of the whole; and the passages of less intensity will be, in relation to the level on which the total poem operates, prosaic – so that, in the sense implied by that context, it may be said that no poet can write a poem of amplitude unless he is a master of the prosaic.


§


A MÚSICA DE POESIA

Recordar-lhe-ia, antes de mais, que a música da poesia não é algo que exista à parte do seu significado. De contrário, poderíamos ter poesia de grande beleza musical que não faria sentido nenhum, e eu nunca me cruzei com tal poesia. As aparentes excepções só demonstram uma diferença de grau: há poemas onde somos levados pela música e não damos valor ao sentido, tal como há poemas onde atendemos ao sentido e somos levados pela música sem dar por isso.
(…) A proximidade da poesia com a conversa não é uma questão para a qual possamos anunciar leis exactas. Cada revolução em poesia é capaz de ser, e às vezes anunciar-se como sendo um retorno a fala comum…
Seria um erro, no entanto, supor que toda a poesia deve ser melodiosa, ou que a melodia é mais do que meramente um dos componentes das palavras. Alguma poesia foi feita para ser cantada; a maior parte, nos tempos modernos, foi feita para ser dita – e há muitas outras coisas para serem ditas para além do murmúrio das inumeráveis moscas ou o gemido dos pombos nos imemoriais ulmeiros. A dissonância, até mesmo a cacofonia, têm o seu lugar: assim como, num poema de qualquer extensão, deve haver transições entre passagens de maior e menor intensidade, para dar um ritmo de emoção oscilante, essencial à estrutura musical do todo; e as passagens de menor intensidade serão, em relação ao nível onde todo o poema funciona, prosaicas – de modo que, no sentido implicado naquele contexto, possa ser dito que nenhum poeta pode escrever um poema de monta a menos que seja um mestre do prosaico."



sexta-feira, janeiro 27, 2006

W. H. AUDEN

FUNERAL BLUES (1936)

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.


§


BLUES FÚNEBRE

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.

terça-feira, janeiro 10, 2006

SIMON ARMITAGE

SIMON ARMITAGE nasceu em West Yorkshire, Reino Unido, em 1963. Por diversas vezes premiado, é um dos poetas da nova poesia britânica que reúne mais consenso. Eis um poema capaz de gerar dois tipos de reacção opostas.



POEM

Frank O’Hara was open on the desk
but I went straight for the directory.
Nick was out, Joey was engaged, Jim was
just making coffee and why didn’t I

come over. I had Astrud Gilberto
singing "Bim Bom" on my Sony Walkman
and the sun was drying the damp slates on
the rooftops. I walked in without ringing

and he still wasn’t dressed or shaved when we
topped up the coffee with his old man’s Scotch
(it was only half ten but what the hell)
and took the newspapers into the porch.

Talking Heads were on the radio. I
was just about to mention the football
when he said "Look, will you help me clear her
wardrobe out?" I said "Sure, Jim, anything."


§


POEMA

Frank O’Hara estava aberto na secretária
mas eu fui directo à lista telefónica.
Nick estava para fora, Joey ocupado, Jim ia
mesmo fazer café e porque é que eu não

aparecia. Eu tinha Astrud Gilberto
a cantar “Bim Bom” no meu walkman da Sony
e o sol secava a ardósia húmida dos
telhados. Entrei por ali dentro sem tocar

e ele ainda não estava vestido nem barbeado quando
atestamos o café até cima com o Scotch do velhote dele
(ainda eram só dez e meia mas que se lixe)
e levamos os jornais para o alpendre.

Os Talking Heads estavam na rádio. Eu
ia mesmo para falar do futebol
quando ele disse: “Ouve, ajudas-me a esvaziar o
guarda-roupa dela?” Eu disse: “Claro, Jim, o que quiseres.”


Eis um poema que rasga as convenções da - geralmente rígida - poesia britânica. Nada no texto é deixado ao acaso por muito que tudo nos pareça ocasional, como aliás costuma acontecer com o trabalho dos grandes poetas. Reparem como o tom do poema é propositadamente solto e despreocupado para responder à necessidade de narrar uma manhã também ela errática e casual, servindo assim excelentemente o contexto e a situação narradas. Através de uma linguagem coloquial, – que chega a incluir calão (“que se lixe”), discurso directo ambíguo e uma interrogação sem pontuação, – há, da parte do autor, a preocupação de plasmar a contemporaneidade ("walkman da Sony") bem com de optar por uma economia verbal num poema que abusa das metonímias (“Frank O’Hara estava aberto na secretária”, "Eu tinha Astrud Gilberto/ a cantar", “Os Talking Heads estavam na rádio”). Os únicos elementos – vamos dizer – naturais no meio da malha urbana (lembram-se de “Transpointing”?) são a referência à lousa molhada dos telhados e ao alpendre. Tudo o resto transpira a alusão juvenil. O tom fortuito e desprendido da acção é-nos, assim, transmitido por uma série de imagens que se vão sucedendo com grande descomprometimento, desde o acordar tarde (numa residência para jovens? num apartamento partilhado?) ao aparecer assim em casa de Jim por acaso, passando por escutar música a toda a hora ou por ingerir álcool logo pela manhã. E quando parece que o poema se esgota na descrição de uma manhã igual a tantas outras, eis que a poesia acontece porque Armitage contorna habilmente o facto do poema se oferecer demasiado – por ser expressivamente quotidiano e real, – e tem o rasgo de propor ao leitor um mistério, tornando o poema críptico e elíptico, obrigando-nos a um conjunto de perguntas que ficam no ar (“ela” quem? a namorada de Jim? mas vivia ali? e porque se foi embora de vez? acabaram? morreu de overdose?). Um nível de leitura alusivo conduz-nos ao poeta americano Frank O’Hara e os seus célebres “Lunch Poems”. Frank O’Hara (1926-1966), traduzido para português por José Alberto Oliveira (“Vinte e Cinco Poemas À Hora do Almoço”, Assírio & Alvim, 1995), trabalhou no MoMA de Nova Iorque durante grande parte da sua vida. Muitos dos seus poemas foram escritos em momentos livres à hora do almoço e como resultado disso são textos geralmente curtos e bastante alusivos à contemporaneidade urbana nova-iorquina (O’Hara morreu cedo, aos 40 anos, atropelado por um buggy, nas dunas de Fire Island). No seu poema, Armitage segue o estilo errático e descritivo que caracteriza a escrita de O’Hara, facto que Simon não encobre: o primeiro verso de “Poema” (“Frank O’Hara estava em cima da secretária”) tanto se pode referir à personae do poema como ser uma arte poética de Armitage.

terça-feira, dezembro 27, 2005

D. H. LAWRENCE

D(avid) H(erbert) LAWRENCE (1885-1930), pseudo-imagista inglês nascido e criado em Nottingham, escreveu poemas sobre figueiras, amendoeiras e ciprestes. Também o fez sobre gencianas. Este Bavarian Gentians é bem exemplo do seu desejo por uma união mais estreita entre homem e natureza. Incluído em Birds, Beasts and Flowers, de 1923, é um poema retórico profusamente ritmado, numa cadência muito ao gosto de um Walt Whitman. O segredo está na música, na aliteração das palavras “dark/darkness", “blue/blueness”, “dark-blue" e "blue darkness”. Um petisco para traduzir, portanto. Quem escolheria “bravas” em vez de “bávaras” que ponha o dedo no ar.



BAVARIAN GENTIANS

Not every man has gentians in his house
in soft September, at slow, sad Michaelmas.

Bavarian gentians, big and dark, only dark
darkening the day-time, torch-like with the smoking blueness of
Pluto's gloom,
ribbed and torch-like, with their blaze of darkness spread blue
down flattening into points, flattened under the sweep of white day
torch-flower of the blue-smoking darkness, Pluto's dark-blue daze,
black lamps from the halls of Dis, burning dark blue,
giving off darkness, blue darkness, as Demeter's pale lamps give
off light,
lead me then, lead the way.

Reach me a gentian, give me a torch!
let me guide myself with the blue, forked torch of this flower
down the darker and darker stairs, where blue is darkened on
blueness
even where Persephone goes, just now, from the frosted September
to the sightless realm where darkness is awake upon the dark
and Persephone herself is but a voice
or a darkness invisible enfolded in the deeper dark
of the arms Plutonic, and pierced with the passion of dense gloom,
among the splendour of torches of darkness, shedding darkness on
the lost bride and her groom.


§


GENCIANAS BÁVARAS

Nem todo o homem tem gencianas em casa
no suave Setembro, no lento e triste dia de São Miguel.

Gencianas bávaras, grandes e escuras, somente escuras
escurecendo as horas do dia, tochas com o azul esfumado da
escuridão de Plutão,
alinhadas como tochas, de chama escurecida espalhada de azul
aplanada em pontos, plana sob a varredura de um dia claro
flor em tocha da escuridão azul-esfumada, ofuscação azul escura de Plutão,
candeias escuras dos salões de Dis, ardendo em azul escuro,
emitindo escuridão, escuridão azul, como as pálidas candeias de Deméter
espalhando luz,
guiando-me então, escolhendo o caminho.

Colhe-me uma genciana, dá-me uma tocha!
deixa que me guie com a forcada tocha azul desta flor
pelas escadas abaixo, cada vez mais escuras, onde o azul é escurecido em
azulado
onde mesmo Prosérpina vai, agora mesmo, desde o Setembro gelado
até ao reino cego onde a escuridão é desperta sobre o escuro
e a própria Prosérpina não é senão uma voz
ou uma escuridão invisível envolta na mais funda escuridão
dos Plutónicos braços, e perfurada com a paixão da densa escuridão,
por entre o esplendor de tochas de escuridão, derrama escuridão sobre
a perdida noiva e o seu noivo.