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sexta-feira, agosto 13, 2010

INÊS LOURENÇO (3)


INÊS LOURENÇO
(Porto, 1942) acaba de publicar o seu terceiro livro na &etc - uma excelente editora independente, diga-se de passagem - depois de dois óptimos livros: "Logros Consentidos" e "A disfunção lírica". É o oitavo título de uma poeta que tem vindo a assumir uma voz cada vez mais satírica e socialmente crítica, que não esconde uma genuína vontade de transgredir, revisitando a tradição mas preterindo sempre os cómodos sofás do mainstream. A arte poética, bem como uma clara consciência do pequeno papel que cabe à poesia neste início de século, são temas transversais a uma obra onde a mulher, a infância, a cidade, os outros, a língua portuguesa, as outras artes, mas também, o envelhecer e a doença, são assunto para versos que não prescindem de um delicioso tom sarcástico e mordaz. Como neste poema, retirado do seu último livro "Coisas Que Nunca" (Lisboa, &etc, 2010).




MAMOGRAFIA DE MÁRMORE


Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.

Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.

Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.


Inês Lourenço no Poesia Ilimitada também aqui e aqui.


sexta-feira, março 12, 2010

INÊS LOURENÇO acerca de RICARDO REIS

«Pese embora a minha grande admiração pela escrita de poetas de outras línguas», refere Inês Lourenço ao Poesia Ilimitada, «continuo a achar que Fernando Pessoa é um caso à parte em qualquer literatura. No poema «Autopsicografia», ele tira logo o tapete às interpretações mais ou menos impressionistas e biográficas do fazer poético, revelando o lado ficcional da escrita e a prevalência do sujeito poético ou eu-lírico, sobre o sujeito biográfico. Isto foi uma enorme inovação, inserida no Modernismo, de que muito boa gente, ainda hoje, não tomou consciência. E, quem não tomou consciência disso, nada percebe da poesia actual. Muito mais poderia acrescentar sobre heteronímia ou o «drama-em-gente»; mas isso já está sobejamente descrito e estudado. Como poema preferido, lembro-me de uma ode do heterónimo Ricardo Reis que muito aprecio.»




Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.



Inês Lourenço nasceu no Porto em 1942. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Publicou diversos livros de poesia entre os quais "Os Solistas", "Um Quarto com Cidades ao Fundo – poesia reunida (1980-2000)", "A Enganosa Respiração da Manhã", "Logros Consentidos", "Disfunção lírica", entre outros. Coordenou e editou desde 1987, os Cadernos de Poesia – Hífen, com 13 números editados, publicação de carácter inter-geracional, em que participaram com colaborações inéditas, grande parte dos poetas portugueses actuais, bem como poetas de outras línguas. É a autora do blogue "Logros Consentidos".


Leia mais no Poesia Ilimitada sobre Inês Lourenço, aqui.




terça-feira, janeiro 17, 2006

INÊS LOURENÇO

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Universidade do Porto, cidade onde nasceu, Inês Lourenço (n.1942) tem sido uma das mais activas divulgadoras dos caminhos da poesia portuguesa contemporânea.
A sua obra poética - desde o início ligada à memória, à infância e ao corpo feminino, - tem vindo a desenvolver-se de um laborioso percurso vocabular para uma poética urbana da contemporaneidade, não poucas vezes ligada a outras cidades e a outras artes designadamente a música clássica, o cinema e a pintura; uma poesia de imagens frequentes vezes sob a forma de pequenos apontamentos apresentados com o poder de uma revelação.
Foi directora dos Cadernos de Poesia – Hífen, publicação de carácter inter-geracional onde colaboraram, entre 1987 e 1999, um significativo número de poetas portugueses contemporâneos bem como poetas de outras línguas. Publicou, em 2005, o livro de poemas Logros Consentidos, estranhamente ausente da lista dos melhores livros de poesia do ano passado.


OBRA POÉTICA
Um Quarto com Cidades ao Fundo (poesia reunida 1980-2000), Quasi Edições, V. N. de Famalicão, 2000
A Enganosa Respiração da Manhã, Edições Asa, Porto, 2002
Logros Consentidos, &etc, Lisboa, 2005
Disfunção Lírica, &etc, Lisboa, 2007



CARTA DE AGOSTO
(1994)

Um ermo de turismo alarve este
calor paleolítico, uma poeira meridional
ateia os objectos ressequidos, um misto
de esquinas e esplanadas de cerveja, homens
de camisa às riscas escarrando na noite e mulheres
de pernas depiladas e axilas com Impulse. Enjoa
este cortejo carnívoro de utentes
de O Mesmo. Nos balcões
toda a posteridade de Sancho Pança estende as mãos
e há nas ruas muitos vendedores de brincos e colares,
honestos emigrantes, decentes empreiteiros, padres, cartomantes,
velhas prostitutas e mais
milhentas entidades cheias de humanas intenções
e ainda mais senso comum. Gostava
de te ouvir por alguns momentos. Envio-te
mensagens telepáticas que repito sete vezes seguidas.
Há palavras gastas que não escrevo nem digo há tanto tempo,
como: Amo-te muito. Meu amor, que saudades. Vem depressa.
E outras ainda mais gastas que digo todos os dias,
como: Foda-se esta merda. (Somos do norte e não somos
castos nem cautos na linguagem). Abundam as reprises
pelos cinemas escassos. Os hits de verão atroam
discotecas. Há jardins ralos. Passeios gordurosos. Bufões
de motocicleta. Os cimos das torres das igrejas
à espera das bátegas de chuva dum íntimo outono
são ainda as únicas glórias do verão.



"Carta de Agosto”, de Inês Lourenço, é uma torrente descritiva. Trata-se de um poema proposto ao leitor como um duro abanão, um forte estremecimento sob a forma de envio dirigido a alguém suficientemente próximo da autora para com ela poder partilhar a recusa de uma certa ideia de cidade em pleno período de verão. É um daqueles textos em que a escolha do léxico não trai a sua intenção. O “turismo” de Agosto é “alarve”, isto é, pacóvio e grosseiro; os “objectos” são “ressequidos”, por isso, secos e mirrados; o “cortejo” de personagens é “carnívoro”, quer dizer, bárbaro e feroz; até mesmo os “jardins” e os “passeios”, noutros contextos tidos como belos e amplos são – nesta cidade, – lidos como “ralos” e “gordurosos”. A autora parece assim optar pelo adjectivo aguçado, de forte conotação negativa, com o que pretende reforçar o carácter fero do descrito, levando o leitor a acompanhá-la no repúdio veemente da cidade descrita.

Se por vezes as palavras são escolhidas por sugerirem um plural de quantidade – em detrimento da qualidade, – reforçando-se assim a ideia de asco pelo “senso comum” (“misto”; “utentes”; “abundam”; “milhentas entidades”, aqui recorrendo à soma da hipérbole com a ironia), outras há em que se faz uso de marcas comerciais ou estrangeirismos para acusar o lado mais loquaz da aculturação (“axilas com Impulse”; “reprises pelos cinemas”; “hits de verão”), bem como da palavra burlesca (“motocicleta”, por vez de “moto”), sendo outras vezes a autora mais explícita e enfática ao utilizar sem pejo o vocábulo duro (“escarrando na noite”; “Enjoa/ este cortejo”; ou o grito, “Foda-se esta merda”). Até a simples enumeração, por vezes com reforço irónico desse autêntico rol de personagens – os mesmos do costume, dir-se-ía, – acentua o efeito sarcástico pretendido: “há nas ruas muitos vendedores de brincos e colares,/ honestos emigrantes, decentes empreiteiros, padres, cartomantes,/ velhas prostitutas”. Isso também acontece, com particular contemporaneidade quando recorre a outros estereótipos para expressar atitudes de um certo gosto médio (“homens/ de camisa às riscas”), de intimidades escusadas (“mulheres/ de pernas depiladas”), representativos de uma certa formação (“Bufões/ de motocicleta”), ou de um exibicionismo boçal (“Sancho Pança estende as mãos”), com as quais, porém, a autora esboça implicitamente uma ténue cumplicidade feita “de humanas intenções” (“Somos do norte e não somos castos nem cautos na linguagem”).

Ao longo do poema, Inês Lourenço tem o cuidado consciente de propor ao leitor uma ideia de repetição inevitável, com o que pretende significar aprisionamento. Isso é particularmente bem conseguido através do uso de um léxico com todo o peso de um passado implícito (“paleolítico“), do uso da aliteração (“esquinas e esplanadas de cerveja,/ homens (...) escarrando na noite”), ou até mesmo da elevação da “mesmísse”, essa impressiva rotina, ao estatuto de instituição (assim grafada com maiúscula, “O Mesmo”). Na nesga de tal atrocidade, o amor e a amizade surgem como esboço de esperança a cada dia da semana (“sete vezes seguidas”, apontando-se aqui, também, para outra continuidade), hipótese gorada pela distância física e pelo uso desmesurado de palavras entretanto “gastas”. A poeta consegue assim criar uma impressão cognitiva no leitor a expensas do uso e abuso de substantivos e adjectivos, bem como de expressões de tensão e conotação negativas que transmitem indícios de desfavor, repulsa e por vezes asco acerca do cenário descrito. Existe, a espaços, um tal nível de identificação entre cenário e poema que desgostar-se de algum verso é, já, desgostar-se da cidade em vista.

Pelo contrário, os três últimos versos contrastam em efeito no seu apelo ao não-terreno (“cimos das torres das igrejas”; “chuva”; “glórias”), onde fazendo uso de sígnos de beleza e apaziguamento, bem como de imagens poéticas fulminantes (“bátegas de chuva dum íntimo outono”, que lavem de vez estes verões nada íntimos), conseguem asseverar ao leitor onde se acha o boçal e o gosto médio e de que lado se encontra a individualidade e a riqueza da diferença.