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segunda-feira, fevereiro 04, 2013

LUCIO PICCOLO

LUCIO PICCOLO (Palermo, 1901 – Capo d'Orlando, 1969), barão de Calanovella, é considerado um dos mais importantes representantes da “lírica pura” do segundo Pós-Guerra, além de ter sido um célebre caso literário em 1954. Foi Eugenio Montale, como se sabe, o primeiro a valorizar a obra desse “barão mágico” siciliano, autor das 9 liriche, correspondente epistular de William Butler Yeats e primo do autor de «Il Gattopardo», Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Será ainda Montale a prefaciar a primeira edição dos Canti barocchi e altre liriche, em 1956, definindo Piccolo como «um grande senhor cosmopolita e campesino e sedentário cantor». Se bem que rica em sugestões da terra siciliana, a poesia de Lucio Piccolo surge mais como grande evocação do mito cultural da Sicília do que como uma representação física e histórica. Poesia, de facto, simbolista e visionária, repleta de facetas “cosmopolitas” e ao mesmo tempo estritamente ligada à tradição lírica italiana, de Petrarca até ao próprio Montale. Em 1954, Lucio Piccolo publica os 60 exemplares da plaquette 9 liriche, seguida por Canti barocchi e altre liriche (1956), Gioco a nascondere (1960) e Plumelia (1967). São póstumos os conjuntos La seta (1984) e Il raggio verde (1993).

Em mais um extraordinário post de Andrea Ragusa (nota introdutória e traduções), eis 5 poemas de Lucio Piccolo.




MÓVEL UNIVERSO DE RAJADAS

Móvel universo de rajadas
de raios, de horas sem cor, de perenes
trânsitos, de fasto
de nuvens: é só um instante e já mudadas
resplandecem as formas, milénios balançando.
E o arco da porta baixa e o degrau puído
por demasiados invernos, são fábula no repentino
raiar do sol de Março.

(de Canti Barocchi e altre liriche, 1956)


§


XAROCO

E pelos montes, longe nos horizontes
é longa a risca da cor do açafrão:
irrompe a tropa mourisca dos ventos,
de assalto toma as portas grandes
os observatórios nos telhados d'esmalte,
dá nas fachadas de meio-dia,
agita cortinas escarlates, pendões sanguíneos, papagaios de papel,
abertas azuis descerra, cúpulas, formas sonhadas,
os parreirais sacode, as telhas vivas
aonde água de nascente pousa em potes iriados,
rebentos queima, vergônteas torna em galhos,
para tromba muda os vestíbulos,
precipita-se sobre os gomos incertos
dos jardins, pega nas folhas desertas
e nos jasmins pueris – depois torna-se mais suave
rufa tambores; tiras, fitas...

Mas quando a Ocidente fecha as asas
d'incêndio o selvagem pontifical
e o último charco cliva
por todo lado sobe a noite quente já à espreita.

(de Canti Barocchi e altre liriche, 1956)


§


RONDA

Nas horas de cabeça inclinada, nas horas
perdidas, por vezes em redor
surge zumbindo, roçando-nos
a ronda de sílabas mudas,
os escarabeus da fábula! Indícios
de labiais, de sibilantes sem
vogais, impalpáveis marcas
de vozes negadas anelantes
por uma célula vibrante de ar;
mensagens dos vãos érebos
escavados pelo tempo em nós, esmorecidas
crisálidas de esperas
descidas sem regressos
que talvez um vislumbre afaste
d'um labirinto de dias,
suspensos sobre mínimos vórtices
de silêncio, ou balançando num fio
de sentido, têm a medida
do instante de areia descendo...
depois ocultam-se, apanhadas
por outra ronda mais escura.

(de Gioco a nascondere, 1960)


§


ONDE É MAIS BASTO O MIRTO

Onde mais basto o mirto abre as folhas
entre o verde trigueiro das folhas vivendo
d'uma escondida nascente o breve riacho
desce no som da erva que germina.

Conduz os sonhos até ao limiar ignoto
d'um vale encantado onde ao estival
sopro derrete a luz a clara oliveira
e a memória é um canto sem angústia.

Amplo alguidar em pedra o errabundo
humor acolhe – na margem pousa
a ânfora – e espelhos faz de nuvens e ramos.

Quebrando um dia os fracos velames
dos musgos levantar-se-á do mais fundo
o deslizar do serpe ou o palpitar da rosa?

(de La seta, 1984)


§


OS MORTOS

Uma sombra
que se estendeu por cima do louceiro,
ou no quintal debaixo da caldeira
o olho ainda resplandecendo
quando tudo está apagado,
somente isso, mas são
os mortos. Mal não fazem, o que é que pode
um fluxo de memória
sem músculos nem sangue? Pavor
nas assoalhadas ao entardecer, brancas
sombras, movimentos nas esplanadas
esticadas pela lua nos sonhos de infância...
Também são inquietação, nas noites
humildes – paciência, preces.
Estão nas cordilheiras e nos passos
dos montes, também nos dias
em que é calmo o manto estendido
dos domingos bordados de ouro...

(de Plumelia, 1967)


tradução de Andrea Ragusa


sábado, janeiro 14, 2012

GIORGIO CAPRONI


«VOZES» DA POESIA ITALIANA (3)

por Andrea Ragusa


Apresentamos, no âmbito do percurso «Vozes da poesia italiana», alguns poemas de Giorgio Caproni: «Amanhecer», incluído na colectânea «Il passaggio d’Enea» (1956), «Prece», que pertence ao conjunto «Il seme del piangere» (1959) e «Também eu» (de «Il muro della terra»), por nós traduzidos. Publicamos, de seguida, mais cinco breves apontamentos de Caproni na versão em português da autoria de David Mourão-Ferreira: «Pedradas», «Condição», «Experiência», «Regresso», «Deus absconditus», que também fazem parte do livro «Il muro della terra», de 1975.


GIORGIO CAPRONI (Livorno, 1912 - Roma, 1990), é um dos escritores que mais contribuiram para construir um mapa da Itália dilacerada do segundo Pós-Guerra. A espontaneidade, o abandono à palavra, a «leveza» da sua linguagem, põem-no muito longe de qualquer intelectualismo e, ao mesmo tempo, fazem dele um dos que melhor souberam juntar a erudição com a vida do dia-a-dia. Neste sentido (e se excluirmos o livro «Cronistoria» de 1943, onde estão presentes experimentações «herméticas»), Giorgio Caproni, tal como Penna, está muito mais perto de Saba do que do chamado «hermetismo» do seu tempo. Nasceu em Livorno e morreu em Roma, mas ficou sempre estritamente ligado à cidade de Génova, onde morou durante alguns anos: é esta a sua principal cidade-cenário – com seus cafés, seus eléctricos, suas subidas e descidas, suas bicicletas e seus comboios – a que mais está presente na sua obra, como se pode observar em «Stanze della funicolare», de 1952, e em vários componimentos de «Il passaggio d’Enea» (1956). Aliás, Livorno, cidade-berço, voltará a ter o seu lugar proeminente nos «Versi livornesi», incluídos na colectânea «Il seme del piangere» de 1959. A melancolia manifestada em obras como «Finzioni», ou os citados «Cronistoria» e «Stanze della funicolare» (todos reunidos depois em «Il passaggio d’Enea»), reaparece em «Il seme del piangere» – que é uma ode à juventude, à infância em Livorno, a um passado distante onde parte à procura da mãe, Anna Picchi: solidão e melancolia, enfim, correm paralelos ao silêncio do céu ‘governado’ por um «Deus absconditus», nos versos de «Il muro della terra», publicado em 1975. O muro da terra, expressão que o cristão Dante utilizava, no décimo primeiro canto do «Inferno», para descrever a cidade de Dite, torna-se, na poesia de Caproni, em alegoria do limite da condição humana, a qual não se pode lacerar, nem sequer depois de uma «guerra de unhas», mesmo porque «Deus não está oculto / Mas suicidado».



AMANHECER

Meu amor, nos vapores dum café
ao amanhecer, meu amor que inverno
longo e que calafrio estar à tua espera! Cá
aonde o mármore do sangue é gelo, e sabe
a frescura até o olho, agora no ermo
ruído além da geada eu que elétrico
ouço, abrindo e fechando eternamente
as portas desertas?... Amor, está parado
o meu pulso: e se o copo no fragor
subtil tem um tremor nos dentes, talvez
seja o eco dessas rodas. Mas tu, amor,
não me digas que agora em vez de ti está o sol
brotando, não me digas que daquelas portas,
eu cá, com teus passos, já estou a aguardar pela morte.

(de «Il passaggio d’Enea», 1956)


§


PRECE

Minha alma leve,
peço-te que vás a Livorno.
E com tua candeia
tímida, à noitinha,
dá uma volta; e, se tiveres tempo,
explora e perscruta, e escreve
se por acaso Anna Picchi
ainda estiver viva entre os vivos.

Ainda hoje retorno,
desiludido, de Livorno.
Mas tu, bem mais nítida
do que eu, a camisola
lembrarás, e o rubi
de sangue, na gargantilha
de ouro que ela tinha
no peito, embaciado.

Minh’alma, sê boa
e vai à procura dela.
Tu sabes o que eu daria
para encontrá-la na rua.

(de «Il seme del piangere», 1959)


§


TAMBÉM EU

Também eu tentei.
Foi tudo uma guerra
de unhas. Mas agora eu sei. Ninguém
poderá jamais perfurar
o muro da terra.

(de «Il muro della terra», 1975)

traduções de Andrea Ragusa



§




PEDRADAS

Também eu tentei falar.
Sem talvez saber a língua.
Todas as frases erradas.
Em resposta: só pedradas.


§


CONDIÇÃO

Um homem só,
fechado no seu quarto.
Com todas as suas razões.
Com todos seus erros.
Só, nesse quarto vazio,
e falando. Aos mortos.


§


EXPERIÊNCIA

Todos os lugares que vi,
que visitei,
agora sei – estou certo:
nunca lá me encontrei.


§


EXPERIÊNCIA

Voltei a esse lugar
onde nunca tinha estado.
Do que não foi, nada mudado.
Sobre a mesa (de oleado
aos quadrados) meio vazio
encontrei o mesmo copo
nunca cheio. Tudo
permanece tal e qual
eu o não tinha deixado.


§


DEUS ABSCONDITUS

Este simples dado:
Deus não está oculto.
Mas suicidado.

(de «Il muro della terra», 1975)

traduções de David Mourão-Ferreira

terça-feira, dezembro 27, 2011

SANDRO PENNA


«VOZES» DA POESIA ITALIANA (2)

por Andrea Ragusa

Continuamos com as «vozes» da poesia italiana traduzidas por David Mourão-Ferreira, com estes «Cinco Breves Poemas» de Sandro Penna. Acrescentamos a esses poemas mais três apontamentos («Cemitério no campo», «Escola» e «Lívido alvorecer...») , por nós traduzidos, da primeira colectânea «Poesie» de 1939. Parece-me justo homenagear este poeta, mesmo no período de Natal, enquanto as nossas sociedades oferecem o melhor expectáculo de si próprias e das ficções que as percorrem eternamente. Foi, este Penna, uma pessoa que através das «armas» da poesia combateu às aparências, a vaidade das coisas transitórias, que são muitas e cada vez mais: na vida como na poesia. É essa antiga elegância que Sandro Penna nos deixou que me parece-me digna de valorizar e divulgar hoje.


SANDRO PENNA (Perugia, 1906 - Roma, 1977) foi autor de uma obra poética que poderíamos aproximar à de Umberto Saba, pelo menos no que diz respeito à distância das vanguardas e a espontaneidade lírica da expressão. A poesia de Penna desenvolve-se em redor de temas, motivos, imagens, formas constantes que exaltam o pormenor, o fragmento, em particular através do epigrama, modelo clássico por excelência e já frequentado por vários poetas ao longo da tradição literária italiana: de Machiavelli a Ariosto, passando por Leopardi, até Montale e Pasolini. A sua condição de «marginal», devido em grande parte à sua declarada homosexualidade, leva-o à exaltação da vida através da poesia, meio esse que lhe permite viver a realidade como que ‘dormindo’: «Eu quisera viver adormecido, / dentro do doce ruído da vida». Desta forma, Penna parece afirmar a sua condição de «irregular», serenamente, criando um mundo cândido, um estado de graça no qual increve a felicidade pela vida, lado a lado com a angústia pelo «ofício de viver». Por isso, nesta dimensão clássica e pagã – aliás confirmada pela linguagem, sempre alta, elegante e ao mesmo tempo «nobilmente popular» – não raramente a exaltação da vida se transforma em canto de solidão e de alienação. O seu primeiro livro, «Poesie», apareceu em 1939, seguido por «Appunti» (1950), «Una strana gioia di vivere» (1956), «Croce e delizia» (1958), «Stranezze» (1976) e o livro de prosas «Un po’ di febbre», publicado em 1973. Nos últimos anos de vida de Sandro Penna, a sua obra (tal como a sua enigmática figura) – durante muito tempo esquecida e pouco considerada – tornou-se num objecto de culto e até em verdadeiro mito, tornando-se aliás um modelo e referência para muitos escritores das novas gerações.




CINCO BREVES POEMAS


I

Talvez a juventude apenas seja isto:
sem arrependimento amar sempre os sentidos.

(de Croce e delizia, 1958)



II

Este corpo que aperto (e me aperta)
tem um sabor de estrelas e de lodo.
E eu não sei quem agora me tinge
(profundíssimo jogo) de vermelho
as estrelas.

(de Stranezze, 1976)



III

Era no cinema, onde as portas
se abrem e fecham continuamente.
Àquele rumor ela pensou
que ele voltasse
mas não voltou.

(de Stranezze, 1976)



IV

Fazer do verde prado
um jogo proibido.
Já o tenho tentado.
Sem o ter conseguido.

(de Appunti, 1950)



V

«Poeta exclusivo do amor»
me chamaram. E era talvez certo.
Mas o vento aqui sobre a erva e os rumores
da cidade longínqua
não são eles também amor?
Sob nuvens quentes
não são ainda o som
de um amor que arde
e não mais se afasta?

(de Stranezze, 1976)


Tradução de David Mourão-Ferreira



§



CEMITÉRIO NO CAMPO

Entre o júbilo dos grilos
obscuros fachos.
E em cima as estrelas.
Ao jovem coração
o calmo afluxo
das solares
gestas do dia.
Mas uma ânsia já perturba
os ridentes olhos
do menino vindo
comigo por alegria.

(de Poesie, 1927-1938)



ESCOLA

Nas manhãs azúis
as filas lestas e pretas
dos colegiais. Curvados
sobre livros depois. Bandeiras
de saudade campestre
as árvores frente às janelas.

(de Poesie, 1927-1938)




Lívido alvorecer, eu estou sem deus.
Caras de sono andam pelas ruas
sepultadas por feixes de erva gelada.
Gritam no frio oco os vendedores.

Alvoradas mais densas de cores já vi
nos mares nos campos inutilmente.

Entrego-me ao amor daqueles rostos.

(de Poesie, 1927-1938)


Tradução de Andrea Ragusa



domingo, dezembro 18, 2011

UMBERTO SABA

«VOZES» DA POESIA ITALIANA

por Andrea Ragusa

Vamos propor uma breve ‘releitura’ de alguns poemas italianos traduzidos para português por David Mourão-Ferreira ao longo da sua vida e publicados num número especial, a ele dedicado, da revista Colóquio/Letras em 2003. O volume, entitulado «Vozes da poesia europeia – de Charles Baudelaire a Tomás Segovia», é composto por várias secções, sendo a parte relativa à poesia italiana, depois da francesa (tendo ainda traduções das poesias russa, castelhana, alemã e inglesa), a mais rica, demonstrando, uma vez mais, o interesse e o amor que Mourão-Ferreira tinha para com Itália e para com as «vozes» da sua literatura. Iremos assim homenagear David Mourão-Ferreira, relembrando algumas das belíssimas traduções de David incluídas no volume da Colóquio/Letras que compreendem obras diversas: de Gabriele D’Annunzio a Umberto Saba, de Eugenio Montale a Sandro Penna, de Cesare Pavese a Giorgio Caproni. Decidímos dedicar o primeiro desses posts a Umberto Saba, de quem Mourão-Ferreira traduziu magistralmente: «O poeta» (Il poeta, 1912), «Despedida» (Commiato, 1920), «Folha» (Foglia, 1946) e os longos poemas «À minha mulher» (A mia moglie, 1911) e «Arrabalde» (Il borgo, 1926). Por razões de direitos de autor, relembraremos apenas alguns desses poemas.


UMBERTO SABA (Trieste 1883 - Gorizia 1957), pseudónimo de Umberto Poli, é um escritor difícil de colocar dentro das tendências da literatura italiana do século XX. A sua figura intelectual de forma alguma se pode encaixar na parábola das vanguardas e nem sequer na da poesia «pura» e absoluta: apesar disto, grandes personagens como Debenedetti e Montale, cedo reconheceram o valor da obra daquele poeta. Por volta de 1910, Saba foi vendedor de material eléctrico, depois funcionário público durante a Primeira Guerra Mundial e, por fim, livreiro alfarrabista antes do segundo conflito, até que as leis raciais o obrigaram – sendo judeu – à fuga, inicialmente para Florença e depois para Roma. A sua experiência literária (entre poesia e prosa) foi fortemente caracterizada pela sobreposição de linguagem literária e linguagem comum, pela ligação constante ao que é considerado tradição ou até convenção (que implica, de facto, a recusa de qualquer ligação entre poesia e «modernidade»), pela espontaneidade e simplicidade que deixam entrever o seu «mal subterrâneo»: a nevrose que o acompanhou ao longo da vida. A obra poética de Saba (de «Trieste e una donna» até «Epigrafe») foi por ele reunida no «Canzoniere», título que ecoa Petrarca mas sobretudo Heine, sendo clara a intenção de criar uma obra única, dinâmica, um «poema contínuo» que irá ser testemunho da sua vida e da sua actividade literária. Eis, com a devida vénia, três poemas de Saba, numa tradução de David Mourão-Ferreira.


O POETA

O poeta tem os seus dias
contados,
como todos os homens; mas quanto,
quanto mais variados!
As horas do dia e as quatro estações,
um tanto menos de sol ou mais de vento,
são o devaneio, o acompanhamento
sempre diverso para suas paixões,
sempre as mesmas; e o tempo que faz,
ao levantar-se, eis o grande acontecimento
do dia, sua alegria assim que desperta.
Nada como as luzes contrárias o alegra,
nada como os belos dias
movimentados,
e em longas histórias multidões imersas,
onde o azul e a tempestade duram pouco,
onde se alternam searas de infortúnio
e de vitória.
Com um rubro crepúsculo se entusiasma;
e com as nuvens muda de cor,
ainda que lhe não mude a alma.
O poeta tem os seus dias
contados,
como todos os homens; mas quanto,
quanto mais abençoados!

(de Trieste e una donna, 1910-1912)



§



DESPEDIDA

Vós o sabeis, amigos, e eu o sei.
Também os versos são quase bolas de sabão:
umas sobem outras não.

(de Cose leggere e vaganti, 1920)



§



FOLHA

Sou como aquela folha – olha –
naquele ramo nu, que ainda um prodígio
mantém presa.

Nega-me, pois. De tal não entristeça
a bela idade que te dá essa cor ansiosa
e em mim só se demora num ímpeto infantil.

Dize-me tu adeus, se pela minha parte o não consigo.
Morrer é nada; perder-te é que é difícil.

(de Mediterranee, 1946)




domingo, março 27, 2011

GABRIEL DEL SARTO (2)

GABRIEL DEL SARTO nasceu em Ronchi (Massa Carrara, Toscânia) em 1972 e estreou-se como poeta em 1998 nas páginas da colectânea Sesto quaderno italiano di Poesia contemporanea (Edições Marcos y Marcos). Depois de ter publicado parte da sua obra poética em antologias – entre as quais L’opera comune (Atelier, 1999), Poeti di Vent’anni (La Stampa, 2000) e Nuovissima poesia italiana (Mondadori, 2004) – saiu em 2003 o conjunto I viali (Edições Atelier) e, em 2008, a plaquette Meridiano Ovest, publicado pela Transeuropa. Del Sarto é igualmente autor de ensaios sobre a utilização da narração nas áreas da consultadoria e formação, entre os quais se destacam: Raccontare storie (Carocci, 2007), o manual de escrita criativa Narrazione e invenzione (Erickson, 2007), Raccontare le competenze (Transeuropa, 2008) e I sommersi e i sopravvissuti (Transeuropa, 2008). A sua página pode ser visitada em http://www.gabrieldelsarto.com/. O Poesia Ilimitada acolhe uma vez mais a colaboração de Andrea Ragusa, tradutor e correspondente de poesia italiana deste blogue, responsável pela selecção e tradução dos poemas de Gabriel del Sarto que se seguem, traduzidos de «I viali» (2003).




A visão


Esplêndida lua de Dezembro ela

a poucos dias do fim

branca altalucente como nunca, e perdidos

ramos, filigranas, e sedosas crinas

estelares, poeira dourada.


...


A idade avança, também nós ausentes

dos nossos anos anteriores, hóspedes

do crescimento cruel.

À luz – fogo ou lua? – os rostos

esboçados, vizinhos, os gestos

descompostos

de quem conhecemos, de quem

fomos

- mas é pouco: no encontro desta noite,

com fácil cuidado, os mecanismos humanos

doces se desabituam.



§



Vidas Vividas


a Bartímeo, cego


Perceber pode não servir, neste excessivo azul-luz,

no sol que continua a esburacar Fevereiro (olhos

sem olhar postos em negras andorinhas de Maio), coisas

por dizer que são caladas: um exausto meio-dia

num cenário de carnaval incerteza (está cheio

de beleza o vazio que no fundo da nossa procura

reaparece sempre) inundado pelo sol de uma graça

animal e mulher. Fico é aqui com os meus bibelôs.


As preces esperaram pelas palavras. A camisola

de lã suada, arrepios de febre, colada às costas.

E edificámos contentamentos por instinto

de conservação, o gesto e o saber viver. Morrer.

Depois reencontrarmo-nos por cima das coisas

perdidas quando os ventos não cessam, motes e esperas, no coração

da noite, um só é o vento quando nos pomos à escuta...

as cãibras, as insónias com geometrias de sombras

e luzes, mas também isto, acreditar por instinto de conservação,

também isto é

sublime e quotidiano.



§



Microclima


Um domingo de manhã com sol, tão fácil

apaixonar-se, acordar mais tarde,

talvez em Abril

ou nas súbitas variações primaveris

do final de Fevereiro,

é fácil apaixonar-se

– apaixonei-me por ti muitas vezes no cais –

do azul, das conversas

dos amigos, sorrisos.

São estes céus insuperáveis, sempre demasiado breves

as horas para as pupilas,

a condicionar as nossas mentes,

as psicologias,

e já não sei viver

na esterilidade sem sentido de culpa.

O que poderia ser – as folhas

nesta avenida comprida, os papéis

nos grandes contentores da freguesia, de madeira – entre nós.


As dissonâncias.

A nossa fronteira são os Alpes

quase azuis, a neve de ontem à noite

faz-nos falar, sentia-se que estava para cair.

Se caísse sobre a cidade sobre a praia

como em oitenta e cinco, as escolas

fechadas, a irrealidade de tudo – outros desesperos.

Os chuviscos tardios nas avenidas que se alagam

facilmente nos lados

e à noite muitas vezes se encontra uma névoa amanteigada

como se estivéssemos no parmigiano. Seguem-se

mal-estares, olheiras, por factos

tão repentinos

e depois as danosas marulhadas, mas também estas

com a sua misteriosa violência, também estas

são qualquer coisa que deve existir.



§



As dependências


Chegou a Primavera com algumas novidades, chegou

Abril.

Ronchi tem a sua calma consistente, invejável,

em Abril,

Abril aqui é lento, estar sentado

nos bancos dos jardins como reformados em Setembro, ou de

mãos dadas pela beira-mar, e construir

as pequenas felicidades

manter uma bondade. Solar

a Primavera chegou – a tua incontornável dignidade de parturiente.

Iniciada por entre as curvas do estio, há meses, um sol excedente

como agora, e as dependências. Silenciosas são estas coisas

que fazem a vida, que alisam

superfícies, amores difusos.

O vento levanta-se entre as palmeiras

e há algo de majestoso, esplendoroso

na sua ligeira descomposição

em luz, talvez o tronco, algo alto

como de uma eleição, e seria preciso acariciar os pinheiros

selvagens, antigos habitadores. Entre os azuis

desta terra

que amplamente se doa existe uma piedade, existem passos

desconhecidos sobre o Inverno, o inferno...

Sim, em certas horas

não sei...

Abril aqui é lento e queria ficar – a tua garganta

tensa, muscular, os teus gritos

animais, fizeste de mim... – as últimas forças bem empregues, assim

ensanguentado

dom do Senhor veio à

luz.



§



Ida e Volta


Quando tiveste um gesto,

assim te lembro,

perfumavas os lugares. Para os céus nocturnos

me levavas, e o mar,

e era sempre Setembro, ou podia

sê-lo. Assim vai para além do limiar

o sentido da terra


toca os filhos, as casas baixas, sempre estivais,

simples sonhos. As vivas

épocas dos amores, nas planícies

que comovem. Assim ainda sofro

os mecanismos, as hordas em cima dos fios

cortados, que te não conhecem.


...


Se visses

os pinheiros da mata no final de Maio,

é suave, e as outras

figuras da vida que esmorecem

em cadência, ida e volta.


E como noutros raios oblíquos

e sombras e ventos

és transparência mais próxima, luz

rasante sobre os campos.



§



Os parques dos mortais


Tenho muitos parques dentro de mim

e delitos

- nas alamedas como

comunicam os bancos,

de madeira mais quentes,

sustentam no longo calor

e se sobrepõem aos dias

dos meus aniversários

amáveis como parecem agora

rostos suados no jardim de casa,

amigos, entre figos e ameixas perfeitas.

Deitado em cima da cama só vejo o céu

e oiço, não abafado pela música

do rádio, o corta-relvas do vizinho,

o alívio da estação, como

um véu estendido, com o cheiro acre

da erva cortada. Eros e sol, assim.

- Como Colin,

embora durante poucos dias,

fora do jardim secreto.

Mas será da morte para a vida,

também para mim? Virá

a hora e no sono imóvel

de doente sou percorrido

pelas voltas ferozes dos meus filhos,

rápidos, nos parques dos mortais.



§



Se revejo, na luz pálida...


Se revejo, na luz pálida

do compartimento, o caminho

da memória, e procuro o fio

que o liga a mim, hoje; se aparece

com normal dor o filho que eu era

o afastamento e os nascimentos

e outros sinais

não apanho mais que as coisas

feitas, ou alguns nomes,

e a eles me reporto.

É no momento da recordação

que a vida se complica.



§



Sábado


Amigo do nazareno, mais aceitável é o dia da pena

pela dor sua companheira, dor que não se deve perder,

que não se deve esquecer

sendo que nunca se esquece

a Primavera durante o Inverno. Uma aproximação

constante a algo mais amado, talvez

uma loucura apenas, ou uma pobreza maior.

Mas agora mesmo agora no meio desta roupa

para estender, perceber um gelo preguiçoso que já não espera pela

ressurreição, único possível resgate das angústias

nossas... Pescador, do mar vem tudo, do mal

vem cada mal e cada coisa, tu satanás e pedra,

calosa verdade humana,

ó pescador...

que, se à noite, penso em ti,

no que ficou da tua história

da tua prece...

Amigo do nazareno, o vento que agora sopra é quente como

é quente o sangue que nos une, e nos torna iguais na vida

expostos à sua prova.

Além da fronteira fica apenas uma canção de uma coragem

superior –

no coração beleza não acumulável.



§



O amor


Suaves refracções – estas leves

dores. Tempos e linhas rectas e vozes

parciais vindas dos bosques e do mar, e as avenidas.

Sobre a poeira sobre a palmeira de casa

ouve-se um vento novo, claro,

e por vezes as lunações, os regressos. A parte

de nós a nós incessantemente

ignota. Essas noites ainda por trás

das colinas contigo, luminosas, a escuridão

lá fora, caminhando pelos caminhos terrestres

gordurosos de matéria, com alegria e astros. Ver-te

assim, à minha procura. Lembras-me a palmeira que não se quebra

e que luta contra o clima e com os dias. Ó anjos atordoados

pelo verde cheiro a morte da erva, e o renascer,

- e os anjos são a mais algébrica e exacta

fórmula do nosso medo – e a lua

as marés nocturnas dos bosques, sou

frágil, e a galáxia sobre o relvado

da Argegna , o respirar

escuro e espantoso da Natureza.

E gostaria ainda, tal como antes, e tu também,

flor vermelha, mas depois os silêncios, lenta

respiração do amor e não sei nós os dois o nosso

lentíssimo morrer das fibras,

dos filhos.



sábado, março 19, 2011

GABRIEL DEL SARTO


AS LONGITUDES DE GABRIEL DEL SARTO

por Andrea Ragusa


A poesia de Gabriel Del Sarto é uma poesia de longitudes: representações, figurações de distâncias, de «dependências», de «dissonâncias» que recolhe através de meridianos e de avenidas. A busca de uma «medida» para o espaço poético, «para que o enigma dure», emerge na estrutura dos seus dois principais conjuntos poéticos: I viali e Meridiano Ovest, como se estas ‘fronteiras espaciais’ criassem o lugar da poesia. Um espaço linear, como no caso de I viali (As avenidas), em que o eu poético fica, desde o início, «a três quilómetros» de uma saudação que está à sua espera. E o espaço circular próprio do meridiano: um Meridiano Ovest que nos transmite as sensações sombrias de uma noite entre uma sexta-feira e um sábado, noite de confusão e de solidões, noite de vazio e de entusiasmos por um instante. O sujeito lírico deste meridiano, que é dividido em nove partes como a obra Mediterraneo de Montale, exibe também traços do Arsénio montaliano, mas – como foi observado por Massimo Gezzi no seu prefácio a Meridiano Ovest – enquanto Arsénio não se consegue libertar da sua imobilidade perante a iminente tempestade, o «herói» de Del Sarto – apesar de ter vivido uma noite percorrida por um sentido de morte que só desaparece na madrugada de sábado – é fotografado, enfim, no momento em que a tempestade acaba e tudo é «uma montagem perfeita / e as horas são tranquilas / tal como o são profundamente os objectos ». Por isso é ainda possível um «princípio de esperança» não desprovido de um sentido cristão: aliás, a necessidade de medir o tempo e o espaço caminha lado-a-lado com a atitude religiosa e com o tom de invocação, por vezes quase de prece, que nunca abandona a obra de Del Sarto, nomeadamente em I viali.
Desde o seu primeiro conjunto poético, o poeta de Ronchi constrói uma dimensão que está em contacto directo com a religiosidade judáico-cristã e com as suas figuras de referência, deixando que estas figuras dialoguem com o sujeito poético, com um eu que se torna veículo de uma mensagem «pública». É ainda preciso sublinhar que a reflexão sobre a função privada e pública da poesia lírica está presente na obra de Del Sarto: implicitamente na sua produção em verso e de forma mais explícita na sua prosa «Pequeno manifesto poético», onde afirma que o particular se pode tornar universal, na medida em que o eu poético crê que a sua verdade tem um valor universal. E é esta, tal como o próprio Del Sarto acrescenta, a maneira de entender a poesia de alguns dos mais importantes poetas italianos dos últimos vinte anos, como Bacchini, Buffoni ou Benedetti: «O privado constitui-se assim como o lugar em que o público alcança uma maior autenticidade, o lugar da expressão das emoções, ou seja, de tudo aquilo que nos interessa enquanto homens. Somente e apenas no privado pode ter lugar o evento que nos toca, que nos abre ou fecha ao mundo» (http://www.gabrieldelsarto.com/un-piccolo-manifesto-poetico.html). Nesta óptica insere-se o próprio passado pessoal que se torna mítico, tal como míticos se tornaram os lugares e os acontecimentos: Ronchi, a adolescência, os hábitos. Tudo isto permanece envolto numa ritualidade quotidiana que se transforma em mito: a própria «viagem» deste Gabriel cruza o rumo do arcanjo dos Evangelhos e com ele se mistura ao longo dos versos, desde o primeiro poema de I vialiO anjo Gabriel anunciando o filho do homem [...] o arcanjo Gabriel resplandecente de glória caminhando pelas ruas praças palácios, Gabriel entregou a minha saudação a 3 quilómetros daqui.», até à última composição de Meridiano Ovestviolento e deserto presépio estival sobre o qual o emagrecido anjo Gabriel anuncia qualquer coisa a chorar»).
Através dos poemas que aqui se apresentam ao leitor português, tentámos construir um breve percurso por dentro da obra deste poeta, sem dúvida um dos mais interessantes e poliédricos da «novissima» poesia italiana.

domingo, agosto 29, 2010

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - CESARE PAVESE (2)



UMA SOMBRA ENTRE NÓS -
Retratos de Cesare Pavese

por Andrea Ragusa


Uma fotografia tirada em 1932 mostra quatro jovens sentados em cima de um muro nas colinas das Langhe. Primeiro à esquerda, Cesare Pavese. Ao seu lado estão, por ordem: Leone Ginzburg, com uns papéis nas mãos; no meio, de chapéu, Franco Antonicelli, escritor, ensaísta, e mais tarde senador da República; último à direita, por fim, o editor Carlo Frassinelli, pioneiro da serigrafia em Itália, para além de fundador da editora que tem o seu nome. Sendo homem de cultura heterogénea, Frassinelli estava profundamente interessado na tradução e difusão de obras estrangeiras, que pensava publicar na colecção Biblioteca Europea da sua editora. E por isso Pavese e Ginzburg deveriam parecer-lhe colaboradores ideais para desenvolver esta sua tarefa pois estes conheciam inglês e russo respectivamente: e tinha sido o próprio Antonicelli a apresentar os dois jovens colegas do Liceo D’Azeglio de Turim ao editor, em 1931. Mas o que a imagem nos diz é mais do que isto. Anos depois, Franco Antonicelli – que parece o mais elegante e estatuário – escreve, inspirado por aquela fotografia, um «Postal a Pavese»:

D’improvviso le Langhe! E t’ho pensato.
Dure, gialle, custodi al sole, arate
da grandi ombre. Lì è nata la tua voce
il gusto dei solinghi patimenti.
Mesi non ci parliamo, anni, ma solo
per quell’urto del sangue che ho sentito
io ti saluto. Un’ombra c’è tra noi
che giudica severa i nostri stenti


«De repente as Langhe! E pensei em ti. Duras, amarelas, guardas ao sol, aradas por grandes sombras. Ali nasceu a tua voz e o prazer dos solitários sofrimentos. Não falamos durante meses, talvez anos, mas só por causa daquele impulso do sangue que senti eu saúdo-te. Uma sombra há entre nós julgando severamente as nossas penas».

A «sombra», contará o próprio Antonicelli, é mesmo a de Leone Ginzburg, o amigo do liceu que tinha sofrido as torturas até morrer pela mão dos nazis na prisão Regina Cœli de Roma em Fevereiro de 1944. A ele (ainda vivo) é dedicado um poema de Trabalhar cansa, Retrato de autor, que, não por acaso, faz lembrar no título Retrato de um amigo, uma sentida recordação de Pavese feita por Natalia – mulher de Leone – e publicada pela primeira vez no Radiocorrere de Roma em 1957.
Ela, cujo apelido de solteira era Levi, casa com Ginzburg em 1938 e com ele partilha a acção antifascista e o exílio em Abruzzo. Depois da guerra é chamada a colaborar na sede da editora Einaudi de Turim, onde Pavese já estava há algum tempo a desempenhar a função de coordenador editorial (conforme a vontade do próprio Giulio Einaudi), mesmo por ser um dos que, dentro do núcleo inicial, tinham sobrevivido à tragédia da guerra. Aqui começa realmente a amizade entre Natalia e Pavese, uma amizade controversa e intermitente da qual também se fala nalgumas notas do diário pavesiano publicado postumamente.
Foi observado que muitas das referências que a Natalia Ginzburg faz a Pavese, quer em Retrato de um amigo como em outras obras, parecem responder a esses apontamentos de O Ofício de Viver, na qual o escritor não esconde a intolerância pela mulher do falecido amigo, sublinhando a distância de atitude que os separa. O que ele critica em Natalia é a sua presumida ‘facilicidade’ em considerar as coisas, o que não se encaixa bem com o sentimento trágico da vida próprio de Pavese. Esta «antipatia crescente» é evidente nas notas de 1948 onde, numa separação ideal entre tragicidade e espontaneidade, a «jovem N.» é explicitamente colocada no lado oposto ao seu: «A minha crescente antipatia por N. provém do facto de que ela toma por granted, com uma espontaneidade granted também, um demasiado número de coisas da natureza e da vida. Tem sempre o coração à mão – o coração víscera – o parto, a menstruação, as velhotas», e acrescenta a 3 de Dezembro do mesmo ano: «As pessoas que take for granted qualquer coisa entram em colisão contigo na medida em que pretendem escapar a esse carácter trágico».
Retrato de um amigo é uma carinhosa, e, ao mesmo tempo, crítica, descrição desta «colisão», através de um ponto de vista, não apenas diferente, mas oposto – como é óbvio – ao das notas de Pavese. Aquilo a que o escritor chama espontaneidade «granted», é chamado por Natalia de vida «simples e respirável» mas, enquanto Pavese fala com desprezo na presumível «inocência» dela (que Cesare Garboli descreveu como «inocência separada da ingenuidade»), está a afirmar ao mesmo tempo, e no mesmo apontamento, o seu próprio ‘fracasso’: «Odiamos os outros porque nos odiamos a nós próprios».
Mesmo que fosse realmente uma resposta de Natalia, o seu Retrato é feito de comoção sincera: o que ela critica no amigo é a incapacidade de uma vida mais simples e «adulta»: «Era, por vezes, muito triste: mas pensámos, durante muito tempo, que ele podia curar-se daquela tristeza, logo que decidisse tornar-se adulto: porque nos parecia, a sua, uma tristeza como a de um rapaz, a melancolia voluptuosa e distraída do rapaz que ainda não tocou a terra e se move no mundo árido e solitário dos sonhos. ». Este aspecto, diz-nos Natalia, era visível aos que o conheciam e parecia quase uma fraqueza de Pavese: «O nosso amigo vivia na cidade como um adolescente: e assim viveu até ao fim. Os seus dias eram, como os dos adolescentes, muito compridos e cheios de tempo». Nisso está aprisonada a sua alma, sempre mais longe, ao longo dos anos, de uma paz qualquer: «e nós também queríamos ensinar-lhe alguma coisa, ensiná-lo a viver duma maneira mais simples e respirável: mas nunca conseguimos ensinar-lhe nada, porque quando tentávamos expor as nossas razões, levantava a mão e dizia que já sabia tudo».
Mas o retrato que Natalia Ginzburg faz de Pavese é sobretudo uma homenagem à amizade, a qual ele próprio considerava algo totalmente espontâneo e natural: e por isso a sua ironia manifestava-se para com os amigos e raramente se encontra presente nos romances ou na vivência das suas derrotas amorosas . E é também um retrato de Turim, cidade industrial mas surprendentemente literária, misteriosa e envolta no nevoeiro e no cheiro a fuligem, que esconde, em cada canto, uma lembrança do amigo: «A nossa cidade é parecida, reparamos nisso agora, com o amigo que perdemos e que tanto a amava». Natalia Ginzburg não deixa de referir-se à cidade, aquela cidade que em toda a obra de Pavese rapresenta o lugar de «vício» oposto à pureza própria do campo e da terra. A cidade que permite o retrato mais sincero e a cidade que torna possível que ele apareça novamente como uma sombra («Na cidade parecida com ele sentimos reviver o nosso amigo em todo lado»), mas uma sombra viva, presente, uma sombra que julga: a par de Leone na fotografia de muitos anos antes, «Ele estava, mais do que nunca, presente naquela encosta da colina».


Lisboa, 13 de Fevereiro de 2010



§



RETRATO DE AUTOR

(para Leone)


A janela que dá para a rua abisma-me
sempre vazia. O azul estival por cima da cabeça
parece ao invés mais firme e nele vê-se uma nuvem.
Aqui não se vê ninguém. E estamos sentados no chão.

O meu amigo – cheira mal – está sentado comigo
na via pública e, sem mover o corpo,
tirou as calças. Eu tiro a camisola.
O empedrado está gelado, o que dá prazer ao meu amigo,
mais do que a mim, que olho para ele, mas não passa ninguém.
A janela de repente enquadra uma mulher
clara de pele. Talvez não tenha sentido o cheiro
e olha para nós. O meu amigo já está de pé e fita-a.
Tem pêlos o meu amigo, das pernas até a cara,
que o dispensam das calças e lhe saem pelos buracos
da camisola. É um pelame que basta para o vestir.
O meu amigo saltou por aquela janela
para o escuro, e a mulher desapareceu. Fogem-me os olhos
para a franja do belo céu compacto, também ele nu.

Eu não cheiro mal porque não tenho pêlos. Gela-me a pedra
estas minhas espáduas nuas de que as mulheres gostam
porque são lisas: que há de que as mulheres não gostem?
Mas não passam mulheres. Passa em vez disso uma cadela
seguida por um cão que apanhou chuva
e cheira muito mal. A nuvem lisa no céu
Olha imóvel: parece um monte de folhas.
O meu amigo, desta vez, encontrou a mesa posta.
Tratam bem as mulheres que está nu. Aparece
por fim à esquina um miúdo de cigarro na boca.
Tem pernas de enguia também ele, cabelo crespo,
pele dura: as mulheres hão-de querer despi-lo
um belo dia para ver se gostam do cheiro.
Quando passa junto a mim, estendo um pé. Cai logo por terra
E peço-lhe um cigarrito. Fumamos em silêncio.


Cesare Pavese, 1934
trad. CARLOS LEITE


sexta-feira, agosto 27, 2010

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - CESARE PAVESE



«Boa tarde João,

falamos muito em Pavese e até acerca do seu retrato, feito por Natalia Ginzburg. Por acaso hoje é dia 27 de Agosto: há sessenta anos, 27 de Agosto de 1950, Cesare Pavese suicidava-se num quarto do Hotel Roma de Turim, deixando escrito numa cópia dos
Diálogos com Leucó: «Perdono tutti e a tutti chiedo perdono. Non fate troppi pettegolezzi. Va bene?»
É tudo.
Não gosto de aniversários nem de celebrações de qualquer tipo. Mas sempre tive uma ligação com este poeta e a sua morte, e queria lembrá-lo.

Um abraço
Andrea»