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domingo, agosto 29, 2010

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - CESARE PAVESE (2)



UMA SOMBRA ENTRE NÓS -
Retratos de Cesare Pavese

por Andrea Ragusa


Uma fotografia tirada em 1932 mostra quatro jovens sentados em cima de um muro nas colinas das Langhe. Primeiro à esquerda, Cesare Pavese. Ao seu lado estão, por ordem: Leone Ginzburg, com uns papéis nas mãos; no meio, de chapéu, Franco Antonicelli, escritor, ensaísta, e mais tarde senador da República; último à direita, por fim, o editor Carlo Frassinelli, pioneiro da serigrafia em Itália, para além de fundador da editora que tem o seu nome. Sendo homem de cultura heterogénea, Frassinelli estava profundamente interessado na tradução e difusão de obras estrangeiras, que pensava publicar na colecção Biblioteca Europea da sua editora. E por isso Pavese e Ginzburg deveriam parecer-lhe colaboradores ideais para desenvolver esta sua tarefa pois estes conheciam inglês e russo respectivamente: e tinha sido o próprio Antonicelli a apresentar os dois jovens colegas do Liceo D’Azeglio de Turim ao editor, em 1931. Mas o que a imagem nos diz é mais do que isto. Anos depois, Franco Antonicelli – que parece o mais elegante e estatuário – escreve, inspirado por aquela fotografia, um «Postal a Pavese»:

D’improvviso le Langhe! E t’ho pensato.
Dure, gialle, custodi al sole, arate
da grandi ombre. Lì è nata la tua voce
il gusto dei solinghi patimenti.
Mesi non ci parliamo, anni, ma solo
per quell’urto del sangue che ho sentito
io ti saluto. Un’ombra c’è tra noi
che giudica severa i nostri stenti


«De repente as Langhe! E pensei em ti. Duras, amarelas, guardas ao sol, aradas por grandes sombras. Ali nasceu a tua voz e o prazer dos solitários sofrimentos. Não falamos durante meses, talvez anos, mas só por causa daquele impulso do sangue que senti eu saúdo-te. Uma sombra há entre nós julgando severamente as nossas penas».

A «sombra», contará o próprio Antonicelli, é mesmo a de Leone Ginzburg, o amigo do liceu que tinha sofrido as torturas até morrer pela mão dos nazis na prisão Regina Cœli de Roma em Fevereiro de 1944. A ele (ainda vivo) é dedicado um poema de Trabalhar cansa, Retrato de autor, que, não por acaso, faz lembrar no título Retrato de um amigo, uma sentida recordação de Pavese feita por Natalia – mulher de Leone – e publicada pela primeira vez no Radiocorrere de Roma em 1957.
Ela, cujo apelido de solteira era Levi, casa com Ginzburg em 1938 e com ele partilha a acção antifascista e o exílio em Abruzzo. Depois da guerra é chamada a colaborar na sede da editora Einaudi de Turim, onde Pavese já estava há algum tempo a desempenhar a função de coordenador editorial (conforme a vontade do próprio Giulio Einaudi), mesmo por ser um dos que, dentro do núcleo inicial, tinham sobrevivido à tragédia da guerra. Aqui começa realmente a amizade entre Natalia e Pavese, uma amizade controversa e intermitente da qual também se fala nalgumas notas do diário pavesiano publicado postumamente.
Foi observado que muitas das referências que a Natalia Ginzburg faz a Pavese, quer em Retrato de um amigo como em outras obras, parecem responder a esses apontamentos de O Ofício de Viver, na qual o escritor não esconde a intolerância pela mulher do falecido amigo, sublinhando a distância de atitude que os separa. O que ele critica em Natalia é a sua presumida ‘facilicidade’ em considerar as coisas, o que não se encaixa bem com o sentimento trágico da vida próprio de Pavese. Esta «antipatia crescente» é evidente nas notas de 1948 onde, numa separação ideal entre tragicidade e espontaneidade, a «jovem N.» é explicitamente colocada no lado oposto ao seu: «A minha crescente antipatia por N. provém do facto de que ela toma por granted, com uma espontaneidade granted também, um demasiado número de coisas da natureza e da vida. Tem sempre o coração à mão – o coração víscera – o parto, a menstruação, as velhotas», e acrescenta a 3 de Dezembro do mesmo ano: «As pessoas que take for granted qualquer coisa entram em colisão contigo na medida em que pretendem escapar a esse carácter trágico».
Retrato de um amigo é uma carinhosa, e, ao mesmo tempo, crítica, descrição desta «colisão», através de um ponto de vista, não apenas diferente, mas oposto – como é óbvio – ao das notas de Pavese. Aquilo a que o escritor chama espontaneidade «granted», é chamado por Natalia de vida «simples e respirável» mas, enquanto Pavese fala com desprezo na presumível «inocência» dela (que Cesare Garboli descreveu como «inocência separada da ingenuidade»), está a afirmar ao mesmo tempo, e no mesmo apontamento, o seu próprio ‘fracasso’: «Odiamos os outros porque nos odiamos a nós próprios».
Mesmo que fosse realmente uma resposta de Natalia, o seu Retrato é feito de comoção sincera: o que ela critica no amigo é a incapacidade de uma vida mais simples e «adulta»: «Era, por vezes, muito triste: mas pensámos, durante muito tempo, que ele podia curar-se daquela tristeza, logo que decidisse tornar-se adulto: porque nos parecia, a sua, uma tristeza como a de um rapaz, a melancolia voluptuosa e distraída do rapaz que ainda não tocou a terra e se move no mundo árido e solitário dos sonhos. ». Este aspecto, diz-nos Natalia, era visível aos que o conheciam e parecia quase uma fraqueza de Pavese: «O nosso amigo vivia na cidade como um adolescente: e assim viveu até ao fim. Os seus dias eram, como os dos adolescentes, muito compridos e cheios de tempo». Nisso está aprisonada a sua alma, sempre mais longe, ao longo dos anos, de uma paz qualquer: «e nós também queríamos ensinar-lhe alguma coisa, ensiná-lo a viver duma maneira mais simples e respirável: mas nunca conseguimos ensinar-lhe nada, porque quando tentávamos expor as nossas razões, levantava a mão e dizia que já sabia tudo».
Mas o retrato que Natalia Ginzburg faz de Pavese é sobretudo uma homenagem à amizade, a qual ele próprio considerava algo totalmente espontâneo e natural: e por isso a sua ironia manifestava-se para com os amigos e raramente se encontra presente nos romances ou na vivência das suas derrotas amorosas . E é também um retrato de Turim, cidade industrial mas surprendentemente literária, misteriosa e envolta no nevoeiro e no cheiro a fuligem, que esconde, em cada canto, uma lembrança do amigo: «A nossa cidade é parecida, reparamos nisso agora, com o amigo que perdemos e que tanto a amava». Natalia Ginzburg não deixa de referir-se à cidade, aquela cidade que em toda a obra de Pavese rapresenta o lugar de «vício» oposto à pureza própria do campo e da terra. A cidade que permite o retrato mais sincero e a cidade que torna possível que ele apareça novamente como uma sombra («Na cidade parecida com ele sentimos reviver o nosso amigo em todo lado»), mas uma sombra viva, presente, uma sombra que julga: a par de Leone na fotografia de muitos anos antes, «Ele estava, mais do que nunca, presente naquela encosta da colina».


Lisboa, 13 de Fevereiro de 2010



§



RETRATO DE AUTOR

(para Leone)


A janela que dá para a rua abisma-me
sempre vazia. O azul estival por cima da cabeça
parece ao invés mais firme e nele vê-se uma nuvem.
Aqui não se vê ninguém. E estamos sentados no chão.

O meu amigo – cheira mal – está sentado comigo
na via pública e, sem mover o corpo,
tirou as calças. Eu tiro a camisola.
O empedrado está gelado, o que dá prazer ao meu amigo,
mais do que a mim, que olho para ele, mas não passa ninguém.
A janela de repente enquadra uma mulher
clara de pele. Talvez não tenha sentido o cheiro
e olha para nós. O meu amigo já está de pé e fita-a.
Tem pêlos o meu amigo, das pernas até a cara,
que o dispensam das calças e lhe saem pelos buracos
da camisola. É um pelame que basta para o vestir.
O meu amigo saltou por aquela janela
para o escuro, e a mulher desapareceu. Fogem-me os olhos
para a franja do belo céu compacto, também ele nu.

Eu não cheiro mal porque não tenho pêlos. Gela-me a pedra
estas minhas espáduas nuas de que as mulheres gostam
porque são lisas: que há de que as mulheres não gostem?
Mas não passam mulheres. Passa em vez disso uma cadela
seguida por um cão que apanhou chuva
e cheira muito mal. A nuvem lisa no céu
Olha imóvel: parece um monte de folhas.
O meu amigo, desta vez, encontrou a mesa posta.
Tratam bem as mulheres que está nu. Aparece
por fim à esquina um miúdo de cigarro na boca.
Tem pernas de enguia também ele, cabelo crespo,
pele dura: as mulheres hão-de querer despi-lo
um belo dia para ver se gostam do cheiro.
Quando passa junto a mim, estendo um pé. Cai logo por terra
E peço-lhe um cigarrito. Fumamos em silêncio.


Cesare Pavese, 1934
trad. CARLOS LEITE


sexta-feira, agosto 27, 2010

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - CESARE PAVESE



«Boa tarde João,

falamos muito em Pavese e até acerca do seu retrato, feito por Natalia Ginzburg. Por acaso hoje é dia 27 de Agosto: há sessenta anos, 27 de Agosto de 1950, Cesare Pavese suicidava-se num quarto do Hotel Roma de Turim, deixando escrito numa cópia dos
Diálogos com Leucó: «Perdono tutti e a tutti chiedo perdono. Non fate troppi pettegolezzi. Va bene?»
É tudo.
Não gosto de aniversários nem de celebrações de qualquer tipo. Mas sempre tive uma ligação com este poeta e a sua morte, e queria lembrá-lo.

Um abraço
Andrea»

sábado, novembro 03, 2007

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - JACQUES PRÉVERT (2)


Ainda o "Para fazer o retrato de um pássaro"

Caro Poeta,

Cumprimentos. Este meu novo contacto é só para informar que já sei quem é o autor da tradução que lhe mandei. Como não fiquei satisfeito, e como de vez em quando sou persistente (para não dizer teimoso), resolvi investigar, até porque me lembrava muito vagamente de o ter visto publicado. E era verdade! A tradução é do Eugénio de Andrade, publicada pela primeira vez na revista
Vértice e depois em 1980 no livro de traduções com o título "Trocar de Rosa". Nele constam dois poemas do Prévert. O outro é o "Bairro Livre", cortado pela censura e que transcrevo abaixo.


BAIRRO LIVRE

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.


Renovo cumprimentos
Amílcar Mendes


quinta-feira, setembro 20, 2007

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - JACQUES PRÉVERT


“Caro Dr., perdão, poeta,

Os meus cumprimentos. Parabéns pelo seu blog
Poesia & Lda do qual sou um habitual e atento frequentador. Aliás já me tenho socorrido dele para as minhas dizeduras por aí. Espero que não mo proíba! A razão do meu contacto é o poema do JACQUES PRÉVERT. Tenho comigo o livro "Poemas" onde consta o original e a tradução de Silviano Santiago. Tenho também comigo há já alguns anos uma outra tradução da qual não sei o autor, pois chegou-me sem essa indicação. Alguém me disse há tempos que seria do Assis Pacheco, do que duvido. Tenho também uma outra que consegui recentemente no sítio www.tanto.com.br/ronaldo é que do Carlos Drummond de Andrade. Na minha modesta opinião de simples leitor, qualquer destas duas está mais bem conseguida que a do Silviano. Sem querer roubar-lhe muito tempo, permito-me enviar o original e as traduções. Faça delas o que entender por bem (…).

Cumprimentos,
Amílcar Mendes




POUR FAIRE LE PORTAIT D'UN OISEAU

A Elsa Henriquez

Peindre d’abord une cage
avec une porte ouverte
pendre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d’utile
pour l’oiseau
placer ensuite la toile contre une arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l’arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l’oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pás le décourager
attendre
attendre s’il le faut pendant des années
n’ayant accun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l’oiseau arrive
s’il arrive
observer le plus profond silence
attrendre que l’oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un a un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes
de l’oiseau
Faire ensuite le portrait de l’arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l’oiseau
peindre aussi
le vert feuillage et la fraîcher du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêttes de l’herbe dans la chaleur de l’été
et puis attendre que l’oiseau se decide à chanter
Si l’oiseau ne chate pás
c’est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s’il chante c’est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l’oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau


§


PARA FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro


§


COMO PINTAR UM PÁSSARO

Tradução-Homenagem: Carlos Drummond de Andrade

Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás da árvores
em dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro.)
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do
vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro."




Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - TIAGO NÉNÉ

"Caro João,

TIAGO NÉNÉ vai lançar o seu primeiro livro de poesia. A sessão pública de apresentação será no dia 29 de Setembro, pelas 19.30, no Onda Jazz, de acordo com a informação que recolhi no sítio oficial do autor (www.tiagonene.pt.vu). (...) Charles Bukowski e Álvaro de Campos formam, na sua poesia, a simbiose perfeita. É uma poesia de ideias, (...) a espaços algo surrealista. Nota-se que o autor faz questão de colocar o sujeito poético em situações insólitas, distorcendo propositadamente a realidade para depois, em mágicas conclusões, passar uma mensagem aplicável ao quotidiano do leitor. É algo kafkiano no modo como cria e interpreta as suas pequenas histórias, e como as recheia de imagens (...).

Bianca




COCKTAIL BUKOWSKI

Naquele dia
Vestira o meu corpo
Sem a alma,
Vestira o meu corpo
Sem a alegria,
Lavei os dentes
E esqueci-me do sorriso no lavatório,
Lavei as mãos
E deixei o tacto na toalha;
Nesse dia
Após o trabalho fui dormir,
Deitei o corpo
E reecontrei a alma.
No dia seguinte
Vesti a alma
E deixei metade do corpo esquecido
E a memória no secador de cabelo...
E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:
Porque hoje tenho a alma mutilada
E nem o corpo tenho.


§



O HOMEM DOS NOSSOS DIAS

Tu disseste-me
Que o homem dos nossos dias
Engoliu os olhos
E só se vê a si mesmo
Dentro de um estômago cheio.

Tu disseste-me
Que o homem dos nossos dias
Tem os sentimentos maus no lugar de balas
E tem a mão no gatilho.

Tu disseste-me
Que o homem dos nossos dias
Não se suicida
Porque suicidar-se é morrer
Depressa e bem.

Mas tu disseste-me
Que o homem dos nossos dias
Vai ter uma congestão.

Como o sabes eu não sei.
Mas pelo sim pelo não
Resolvi premir o gatilho. "


terça-feira, maio 15, 2007

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT

"Alô, João Luis
conheci o blog Poesia Ilimitada há pouco. Quero dizer, fiz uma única visita e gostei imensamente do conjunto de poemas. Existiu um poeta brasileiro, atualmente meio esquecido pela crítica, que escreveu, creio, um dos mais belos poemas em língua portuguesa. É o AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT e o poema, Visita à Casa Materna. (...) Talvez seja bom dizer algumas palavras sobre seu autor. Nascido em 1906, no Rio de Janeiro, falecido em 1965. Fez parte da "segunda geração dos modernistas", mais por uma questão histórica, ou temporal, do que por estilo ou tendência. Sua poesia muitas vezes é sentimental demais e não se encaixa no "modernismo" brasileiro. Talvez apenas o uso de versos livres, quase que exclusivamente, possa vincular Schmidt a algum modernismo. É, antes disso, um romântico deslocado, com uma voz "messiânica", certamente inédita àquela altura dos acontecimentos. Foi diplomata e com trânsito no métier político de sua época. Não é muito visitado pela crítica e, mesmo em sua época, era considerado, às vezes, como um quase reacionário, ultrapassado, ou algo assim. No entanto, Schmidt produziu passagens que poucos poetas, em qualquer idioma, alcançam. (Evidentemente, a última frase é uma opinião pessoal). O poema a seguir tem a marca de seu estilo condescendente, mas é ingenuidade atribuir a Schmidt alguma ingenuidade. Diga você, João Luis, se estou muito enganado... Bem, vamos ao poema:


VISITA À CASA MATERNA

Neste dia de maio, vim ver-te, Mãe,
Vim a esta tua casa
Construída de pedras cinzentas,
Enfeitada por uma cruz e um coração de mármore.
Vim repousar a cabeça sobre o teto do teu lar.
Não te trago muitas aflições, neste dia de festa,
Não estou em desespero.
Sou um homem maduro, mais velho
Vinte anos do que tu, quando me deixaste nesta terra,
Adolescente entre os homens.
Já vi mais coisas do que viste e tive mais esperanças do que tu,
Que eras lúcida e triste desde a juventude.
Recolhi muitos desenganos; e seguirei até a morte assim
Como sou, incerto, cego, orgulhoso,
Com as desesperanças se acumulando sempre.

Aqui estou, Mãe, diante de ti, homem completo,
De cabelos grisalhos, machucado e exaltado pela vida.
Um homem ferido e estranhamente compensado pela vida,
Um homem já meio do outro lado, vergado,
Curvado ao peso de pecados e erros,
De responsabilidades, de contradições e de amarguras.
Aqui estou diante de ti, Mãe,
Aqui vim
Pedir-te que me perdoes e me justifiques.


Sou quase um velho; durante mais de meio século
Andei pelas estradas da terra, atravessei desertos,
Contemplei paisagens geladas, toquei no fundo
Da minha própria miséria e das misérias alheias.

Durante muitos anos, enquanto dormias aqui,
Fui levado para exílios e encontros de toda a espécie.
Este teu filho é um homem vivido,
É um navio provado por muitos mares,
Um navio batido, curtido por ventos e tempestades.

É um navio perdido na névoa, este homem que aqui está,
Este ser usado que procura sua mãe.
É um velho navio, é um velho homem.
Não se parece, em quase nada,
Com aquele a quem disseste adeus, para sempre,
Na hora da partida, em junho de 1922.

É um ser cansado, um pássaro exausto
Que procura o seu ninho remoto
Nesta casa de pedra em que te escondes,
Em que repousas de uma breve existência.
É um homem este que aqui está,
Em quem mal reconhecerias o filho teu,

O sensível e verde aventureiro, pronto
para os nobres impulsos,
Mas tão incerto e tão fantasioso,
Tão incapaz de perseverar e de crer longamente,
O ser matinal que tremias, Mãe, ao deixá-la, perdido
No mundo, o ser cujo destino te preocupava
Diante da revelação de tantas inconstâncias.


É um homem experimentado este que aqui está, Mãe,
mas é um poeta.
E, porque é um poeta, muito lhe será perdoado.
E, porque é um poeta, não perdeu o dom
De olhar a face da Infância
E de te ver, Mãe,
Como te está vendo nesta hora,
Com os mesmos olhos com que te contemplava
Outrora, quando eras a sua Estrela,
E o seu abrigo, o centro do seu mundo,
A força e a lei que o conduziam,
Quando eras tudo, toda a sua alegria e proteção.

Deus permitiu que em teu filho
Não se perdesse o dom de olhar
O mundo em certos instantes
Com a poesia dos que não foram poluídos,
Dos que não foram enganados pela vida.
Aqui estou, debruçado sobre o teu tÚmulo, Mãe,
E eis que te ergues diante de mim,
E eu te vejo não como adormeceste em Deus,
Pálida, vestida com o burel do Carmo,
Mas matinal e alegre, coroada de flores,
Viva e serena, na primeira e gloriosa maternidade,
Com as tranças repartidas, e no olhar
A luz da beleza intocada.
Assim te pode ver teu filho, de olhos fechados.
Assim te pode ver este homem de gestos cansados,
Este segador no fim da sega,
Este quase velho, debruçado sobre o teu túmulo.
Assim apareces, Mãe, ao filho que deixaste tão cedo,
Entre as perdições do mundo.

Mãe, aqui estou no dia de hoje,
Batendo à tua porta, procurando a tua companhia.
Não me desconheças nem perguntes quem sou.


No fundo de mim mesmo, apesar de tudo o que houve,
Das incompreensões, do pó e da amargura,
Das misérias que pratiquei e que praticaram
Contra mim; apesar da experiência do ódio e do amor,
amargos ambos,

Sou o mesmo filho que deixaste
Na orfandade
Quando partiste,
Estrela materna, flor de beleza,
Que o vento gelado crestou na juventude.


Um abraço e parabéns pelo blog.
Guga Schultze

domingo, maio 06, 2007

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - ROGER McGOUGH

"Caro João,

Como sabemos, não há escrita que se faça no vazio. Enquanto consultava com muito gosto os arquivos do Poesia & Lda, vi-me a confirmar esta ideia através do poema que traduziu, aqui há uns tempos (Janeiro de 2006), do William Carlos Williams. Onde é que eu já tinha lido isto, ou algo parecido com isto?, pensei. A resposta está em The State of Poetry, um pequeno livro do poeta inglês ROGER McGOUGH (Penguin, 2005, não sei se conhece?) e, particularmente, no poema "Dear Scott". Reescrita quase literal, com a introdução de um elemento paródico e humorístico, a presença da ideia do álcool e do alcoolismo na vida de Zelda e de Scott Fitzgerald (em vez das ameixas, o licor de ameixa e o seu efeito final de embriaguez), o poema de McGough surge como homenagem (não como plágio) e comentário irónico, dirigido não só às incidências biográficas do famoso romancista e novelista americano, mas também à natureza familiar, bucólica e luminosa do poema original de Williams. Roger McGough, sem ansiedade da influência, a escrever torto por linhas direitas... ou direito por linhas tortas? Aqui ficam poema e uma tradução possível (?) do poema de McGough:


"Dear Scott

This is just to say
I have drunk
the plum brandy
that was in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
it was delicious
so cold
and so numbing

x Zelda"


***


"Querido Scott

É só para dizer que
bebi
o licor de ameixa
que estava no
frigorífico

e que
provavelmente estavas
a guardar
para o pequeno-almoço

Perdoa-me
estava delicioso
tão fresco
e entorpecedor

bjs. Zelda"


Com os melhores cumprimentos,
Luís."