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domingo, abril 11, 2010

JOSÉ CARLOS BARROS acerca de ANTÓNIO CABRAL (e JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE e HELDER MOURA PEREIRA)

«Seria talvez muito tentado a escolher um poema de António Cabral. Mas oh a crítica depois não dava com ele e eu teria dificuldade em explicar que publicava pelo menos desde 1951 e ainda me levavam a mal de dizer que a sua escrita no meu fraco entendimento era de primeira água. O António Cabral contava histórias do senhor Smith. O senhor Smith era um menino bonito do Duque de Wellington e por uma bagatela comprou quinta no Alto Douro que visitava de cinco em cinco anos. Um dia mostrou má cara olhando as contas da vindima e ameaçou vender a quinta com o argumento de pois «não dar resultado». E vendeu-a. António Cabral também escrevia quadras populares e falava de raposas e ralos e de zirros e urzes e quem agora lá quer saber disso. E retomava histórias antigas. E ficávamos assim por exemplo mais tarde a saber que afinal umas décadas depois em face da produção de noventa pipas de vinho de primeira se apressou o senhor Smith a comprar de novo a quinta concluindo-se que portanto «tem-te cá um faro!» Ora isto não é poesia moderna e não dará muito para trazer às antologias. Só por isso não escolho um poema de António Cabral. Podia sempre escolher um poema de João Miguel Fernandes Jorge. Este por exemplo que tanto me perseguiu desde que em 1986 comprei em Évora «O Regresso dos Remadores»:


POEMAS

Aspectos perdidos
pequenas sombras em redor de poderosa imagem.

Aquilo que
distingue a palavra ave da palavra pássaro.


Pensando bem há tantos poemas que podia escolher. No Funchal andei na tropa ostensivamente a atravessar a parada com um livro no bolso da farda número dois que levava na capa o (imagine-se) título de «Sedução pelo Inimigo». Dos versos de Helder Moura Pereira aí sublinhados ainda estes os diria hoje de cor:


Não sei que mais retive da carta
de um amigo, talvez a frase riscada
no máximo da alegria dizendo a morte
mesmo que chegue breve está tão longe
de mim. (…)


Talvez António Cabral não devesse escrever versos que o nosso tempo não merece ("O castanheiro assiste velho / patriarca atento à ânfora / do teu pudor ao vinho novo") para que assim me fosse dado sem pudor deixar aqui de um dos seus livros um poema inteiro. Poderia ser um poema breve. Um poema como este não procurando muito:

OS NOSSOS GOVERNOS

Numa coisa os nossos governos têm sido escrupulosamente
cristãos: mantêm a agricultura pobre para cumprir a profecia de
Cristo que diz: pobres sempre os tereis convosco.


§

«Os dois grandes poetas do Douro – do Douro vinhateiro, entenda-se – são pois Miguel Torga e António Cabral. Um natural de S. Martinho de Anta (Sabrosa), outro de Castedo do Douro (Alijó), povoações circunvizinhas ambas da grande saga do vinho, têm à partida, um e outro poeta, este mérito não pequeno de cantarem o seu, quero dizer, pôr primeiramente a voz na realidade que os viu nascer e desde cedo lhes impressionou, pela sua magnitude, a sensibilidade.» (...) «Obviamente, nenhum deles se esgota no Douro" (...) "São ambos duas vozes poderosas, Torga e Cabral, duas vozes bem timbradas e cheias, substanciosas, empenhadas ambas no canto duriense, mas os olhos com que vêem o Douro são diferentes, e por isso diferente a voz com que o cantam.»
A. M. Pires Cabral, in Cesto da Gávea, Repórter do Marão, Amarante, 24-09-
1993


§

José Carlos Barros nasceu em Boticas em 1963. É licenciado em Arquitectura Paisagista pela Universidade de Évora. Vive no Algarve, em Vila Nova de Cacela. A sua actividade profissional tem sido desenvolvida essencialmente nos domínios do ambiente e do ordenamento do território. Actualmente exerce funções públicas. É autor de, entre outros, os seguintes livros de poesia: “Pequenas Depressões” (em colaboração com Otília Monteiro Fernandes – 1984); “Uma Abstracção Inútil” (1991); “Todos os Náufragos” (1994); “Teoria do Esquecimento” (1995); “As Leis do Povoamento” (1996); “Las Moradas Inútiles” (edição bilingue, Punta Umbría, 2007; edição em castelhano, La Habana, Cuba, 2009). Está representado em diversas antologias e publicações colectivas. Venceu vários prémios literários, sendo-lhe atribuído em 2009 o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama pelo livro (ainda inédito) “Os Sete Epígonos de Tebas”. Publicou, em prosa, “O Dia em que o Mar Desapareceu” (2003) e, em edição da Oficina do Livro, o romance “O Prazer e o Tédio” (2009). É autor do blogue Casa de Cacela.


domingo, abril 23, 2006

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE - 2



Hoje gostava que conversassemos acerca deste poema de João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1942), retirado de “Porto Batel”, o segundo título da sua obra poética, disponível na Editorial Presença, em “Obra Poética, Volume 1”, Lisboa, 1987.


29


Depois de ter falado toda a manhã
com um estranho acerca daquela anónima
cabeça de rapaz do século dezasseis

sinto que é de matéria breve que
tenho composto todos os meus objectos
todos ordenados à vida e sem aquela

alegria que devemos encontrar
no que tentamos reduzir ao tempo.
Uma só hora daquela cabeça não
caberia em toda a manhã

porque ela é lisa como vidro
e nenhuma dissertação de arte
a poderá tornar densa e as suas ideias
essas somos nós que

as fabricamos.



quarta-feira, janeiro 04, 2006

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

À semelhança de alguns leitores deste blog – e de tantos leitores de poesia em geral, – também não me parece indispensável conhecer o contexto em que um poema foi escrito para o poder compreender. Até porque, o poema resultante de um momento de inspiração do poeta pode ter muito pouco a ver com essa epifania. Não quer isso dizer no entanto que paralelamente não me agrade conhecer a biografia de um autor como informação complementar. Afinal de contas, quem resiste a não querer saber que William Carlos Williams, por exemplo, terá sido pediatra de… Allen Ginsberg?

Por isso têm razão, na minha modesta opinião, Vincent Bengelsdorff quando comenta que o poema é “mais universal” sem a explicação - o que vejo como positivo, - e Jorge quando diz que se é verdade que se ganhou “uma referência, um ponto de partida”, também se perdeu alguma “liberdade de interpretação” - o que sinto como negativo.

Mas uma coisa é contexto, outra é o texto. Diferente parece-me ser o caso do uso de alusões por parte de um poeta. Aí, não vejo alternativa senão procurar informação adicional. A alusão é uma referência indirecta a uma pessoa, um lugar ou uma coisa, seja fictícia, histórica ou actual, usada no contexto de uma obra. Há quem goste de lhe chamar, depreciativamente, name-dropping. Lloyd Cole, por exemplo, confessou-me que detestava que lhe chamassem name-dropper. Dizia-me que se em “Rattlesnakes” cantava “she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront/ she reads Simone de Beauvoir in her American circumstance”, não o fazia meramente por estilo mas porque a alusão lhe poupava diversos adjectivos: era mesmo assim, através do recurso à alusão, que pretendia caracterizar aquela personagem feminina.

As alusões, no entanto, podem afastar os "preguiçosos" da poesia. Para entender uma alusão temos por vezes que vasculhar por informação que desconhecíamos. Isso não deve ser sentido como um sinal irreparável de falta de cultura, antes sim como um incentivo à pesquisa e ao conhecimento. Dou dois exemplos. Começei a interessar-me pela obra de Vermeer, ao ponto de agora constituir uma verdadeira paixão, depois de ter lido o seu nome num poema de Luís Quintais. E mais este exemplo ainda: Há um poema no primeiro livro de João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1942), Sob Sobre Voz, – poeta cuja obra estimo ao ponto de também eu ter escolhido quatro nomes para me nomear em poesia, – que pode bem ilustrar este ponto:


22

Quero falar de Amadeu,
talvez nascido a 11 ou 12
de novembro. Era 1919 e
tinha já então muito de

velho. As mulheres gostaram
dele (seduzindo-o na sua
própria vida de cigano) e
do outro lado da montanha

percebiam como sabia de
crisântemos, azuis (do
mesmo azul das dunas).

Ainda o visitam, mas o
tempo de Amadeu é agora
uma ilha perdida de Bocklin.


Este é um dos muitos poemas de João Miguel Fernandes Jorge que ainda hoje trago por compreender integralmente, no entanto, a sua obra exerce sobre mim um inexplicável fascínio. O poema encerra duas alusões directas a um (possivelmente dois) pintores: Arnold Bocklin - e ao seu famoso quadro A Ilha dos Mortos, de 1886, (o quadro preferido de Adolf Hitler, by the way), - e Amadeu. Sendo o poema de João Miguel Fernandes Jorge, também crítico de arte, a primeira vez que o li julguei tratar-se de Amedeo Modigliani (1884-1920), mas para além da discordância ortográfica (Amadeu/Amedeu) que logo à partida excluia essa possibilidade (a João Miguel Fernandes Jorge jamais escaparia tal gralha), o italiano nasceu a 12 de Julho. Seria interessante que assim fosse porque, a par da sua vida errante (“sua/ própria vida de cigano”), Modi era também conhecido pelo seu imenso sucesso entre as mulheres. Descartado que estava Modigliani, pensei depois que se pudesse tratar de Amadeu Souza-Cardoso (1887-1918), mas o pintor de Manhufe nasceu a 14 de Novembro e faleceu, de influenza, a 1918. O Amadeu do poema continuava vivo para além de 1919. Acatei portanto que se tratava de um personagem cujos dados biográficos me seriam desconhecidos o que, diga-se de passagem, nenhum brilho retirava ao poema. Voltei-me então para a alusão a Bocklin, essa tida como bastante provável.

Assumindo Amadeu como uma personagem anónima, exploremos então a alusão a Bocklin que - porque encerra o poema, - o domina. A Ilha dos Mortos é uma têmpera sobre madeira de mogno, 80 por 150 cms, de que existem pelo menos cinco cópias, uma das quais se encontra no Museum der Bildenden Kunste, em Leipzig. Tive oportunidade de a ver em Paris, na tão falada exposição sobre a Melancolia. Foi pintado por Bocklin com o intuito de ser um quadro para sonhar: “Terá que parecer tão silencioso que nos assustemos se alguém bater à porta”. Anna-Carola Kraube, na sua História da Pintura (Konemann, 2000), fala-nos do quadro: “o sombrio porto da ilha aparece como ponto de chegada de todos os acontecimentos e irradia uma calma secreta e inquietante. Será aquilo um lugar de culto ou um jazigo? Quem está no barco: uma figura de sacerdote ou uma alegoria de alma errante? Todas as perguntas ficam propositadamente sem resposta. Os detalhes narrativos destinam-se a provocar um ambiente onde a fantasia predomina, onde reina a tranquilidade solene, a despedida e a nostalgia”.


Já no posfácio à sua Obra Poética 1, João Miguel Fernandes Jorge nos diz: “Agora quero lembrar ainda Aristóteles, quando nos diz que é impossível pensar sem recorrer à imagem. Imagens, fantasmas são o que são estes poemas. Imagens que estão a passar, acabaram de passar, irão passar; ou que não sabemos se alguma vez, sequer, existiram; mas sempre imagem, coisa manifesta.

Estaremos então em condições de arriscar, com a devida vénia, uma breve paráfrase de leitura ao poema 22 de Sob Sobre Voz: “Pretendo agora falar de Amadeu, nascido em data incerta, desde muito novo já se sentindo velho. Amadeu agradava às mulheres, na sua vida nómada, que para lá da sua aparência conseguiam perceber como era sensível. Nunca se esquecem de o visitar, mas fazem-no agora num sítio de despedida e nostalgia.”

Eu sei... eu sei... Peço desculpa a João Miguel Fernandes Jorge pela paráfrase mas reparem que o poema continua todo lá, belo, inteiro, insubstituível. Quem foi mesmo que disse que a poesia era aborrecida?