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quarta-feira, maio 24, 2023

ROSA ALICE BRANCO

 


AMOR CÃO

Rosa Alice Branco

Assírio & Alvim, Março de 2022

80 páginas

 

Konrad Lorenz, Prémio Nobel da Medicina de 1973, zoólogo austríaco que entregou uma parte significativa da sua vida ao estudo do comportamento animal, empresta as epígrafes aos poemas desta obra de Rosa Alice Branco que se desenvolve em 44 poemas. São textos que tratam da relação do homem com o cão, uma relação assimétrica – de poder, por parte do dono que decide, dá ou castiga; fidelidade, por parte do animal que agradece e está. Mas, antes disso, o assunto das primeiras oito, nove peças recupera o homem do paleolítico, a tribo, os movimentos nómadas, a fogueira onde se aquecia e cozinhava, e a relação com as outras espécies: a aproximação do chacal e do lobo até, por fim, chegarmos à domesticação do cão, então familiaris: “Quando o colectivo oferece vantagens inegáveis / damos as mãos”.

 

Pode dizer-se que cada poema se inicia com a antropologia de Lorenz para se desenvolver e terminar na sociologia de Rosa Alice Branco, um salto evidente das coisas concretas para os conceitos abstractos. Assiste-se aqui e acompanha-se um percurso que se terá iniciado na tribo à volta de cujo acampamento os chacais rondavam, para muito rapidamente nos apercebermos enquanto leitores de que, em boa verdade, os poemas nos estão a falar de fluxos, preocupações e acontecimentos de tribos urbanas contemporâneas e que os chacais, em particular, são metaforicamente outros; que ao mesmo tempo que acompanhamos aquele processo de milénios através das epígrafes e do incipit de cada poema, a poeta muito diligentemente nos transporta para a contemporaneidade: “Às vezes / pensamos saber quem nos periga e ao fugirmos / caímos no laço do maior engodo. Falinhas mansas, / palavrinhas doces”. É a outro sítio que os poemas querem chegar, da epígrafe à epifania, nesse salto de milénios.

 

Com o avançar na leitura veremos como os poemas se vão centrar na relação do homem com o cão, evocando por exemplo, momentos que se prendem com a predação, o processo de domesticação, a função de proteção, o acto de submissão, mas também mais adiante, a obediência, a fidelidade, o acasalamento, a companhia, o treino, a maternidade e a morte, assim como outros aspectos da relação entre as duas espécies no que à aparente relação de poder do homem sobre o cão diz respeito – ou quiçá, melhor, a relação de poder que o cão (que também domestica o homem) tem sobre este – quer quando se consideram as duas partes envolvidas no sentido literal (humano e cão), quer no sentido metafórico (entre humanos).

 

Torna-se evidente o modo como a autora se delicia em inúmeros versos a assinalar o paralelismo com ironia e coloquialidade. São relembradas imagens do “lobo solitário” e de “alcateias de homens” como símbolo desses comportamentos. O poema 16 é um excelente exemplo: dois cães (dois homens, se quisermos) detestam-se cordialmente um ao outro (propõe a epigrafe de Lorenz). E remata Rosa Alice Branco: “Mas é imperioso mostrar / que o prestigio não mascara a cobardia. Alçam / as orelhas, os cantos da boca e rosnam surdamente. / Esgrimem flanco contra flanco, rodam / em círculo como um ritual de iniciação e / farejam-se anal e lentamente. Finda a cerimónia / afastam-se ufanos e altivos pela vitória / de tanta contenção.” O leitor sorri ao recordar-se de semelhante ritual na última reunião da sua empresa.

 

Este gosto pela ligação da poesia a outras disciplinas – Biologia, Arte, História, Filosofia, outras – é o que de melhor a poesia contemporânea tem para oferecer. Poemas com vários estratos de leitura, livros com estrutura, que não deixem os poemas soltos mas acrescentem sentido e colem a obra. No livro em epígrafe, é possível perceber (num estrato mais profundo) como esta colecção de poemas de Rosa Alice Branco arranca do tema do Instinto para terminar na Razão, não sem que se verifiquem desvios ocasionais pela Intuição e pela Emoção: “Se Lorenz dá sentido aos sons / que imitam o verso, é porque o sigo como cão lupino”. Fica a certeza de que António Damásio haveria de apreciar este livro.

domingo, novembro 06, 2011

ROSA ALICE BRANCO


ROSA ALICE BRANCO (Aveiro, 1950) publicou este ano "O Gado do Senhor", na &etc. Parece-me ser um livro distinto na sua obra poética, no qual uma ironia cínica, mais sistemática (quase sarcástica e herética) se faz sentir, em poemas de temática contemporânea onde Rosa Alice não tenta sequer resolver o caos - ou procurar o belo, - antes se dá bem com o novelo simbólico e metafórico da alusão: se, pontualmente, um ou outro referente nos parece conduzir à tranquilidade do reconhecimento - numa poesia onde vários planos descritivos e discursivos se entrecruzam, provocando o choque da indeterminação, - imediatamente esse sentido surge sabotado para o campo da fealdade, desalojando o leitor do conforto da prosa. A estranheza e a incompletude, por vezes em imagens agressivas e surpreendentes, surgem ao virar da esquina neste livro de Rosa Alice Branco, ao torcer do verso, conduzindo o discurso para um registo subjectivo, pleno de actualidade, da parca condição humana: "Os altares do sacrifício estão sempre acesos. / Somos o teu gado, Senhor.". Doutorada em Filosofia Contemporânea, tem exercido docência na área da Psicologia da Percepção e Cultura Contemporânea tendo reunido a sua poesia em "Soletrar o Dia" (Quasi Edições, 2002).



OFÍCIOS DO MUNDO

Pias são as vacas
aspirando o chão com as manchas brancas
enquanto as negras erguem para o céu
um olhar bovino por cima da casa
onde o pasto secou há muito
no coração dos homens.
Só a vara lhes cabe na mão.
Ofício do mundo. Contar os minutos quilo a quilo.
Fazedores de carne, do livro de contas,
que contarão ao Senhor
no altar do sacrifício
que ele não saiba ou não tenha sido?
No fim da noite bebem o vinho sagrado
de fato sombrio e rosto encoberto
pela lua. Cá fora trocam-se "mus":
mantras de amor sob as estrelas.
Senhor, de quanta compaixão precisas
para apadrinhares o churrasco de domingo?



§



PROVA DA EXISTÊNCIA DA ALMA

Deixaste a ressurreição a meio.
Não me lembro de nada tão incompleto como ela.
O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.
Nas palavras de São Paulo a criação teve parto e dores
em relação. Um prelúdio, sabemos hoje, prelúdio
sem mais nada. Os animais não aspiram à eternidade.
Nisto deveria consistir a alma que lhes foi negada.
Por menos despediria eu um empregado.
O meu cão brinca a que eu sou o cão dele.
Atira-me um osso e corro atrás, todos corremos atrás.
Mas é assim que se sobe na vida porque aspiramos.
Prova provada de que temos alma.