quinta-feira, novembro 24, 2022

MARCO MACKAAIJ

 


PEQUENO-ALMOÇO COM BILLY

Marco Mackaaij

On y va, Agosto 2022

72 páginas

 

É um dos livros surpreendentes do trimestre. Marco Mackaaij (Amstelveen, 1970) nasceu nos Países-Baixos e vive em Portugal desde 1995. Lecciona Matemática na Universidade do Algarve, e escreve em português: publicou dois livros de poemas – E se não for (2015) e Em Segunda Língua (2018) – e uma plaqueta, Perdidos e Achados (2017), e regressa agora à edição com Pequeno-almoço com Billy

A mais valia desta poética não está exactamente na procura de uma dicção singular com uma “taxa de lirismo” acentuado, que embale o leitor com a beleza dos vocábulos mas no carácter lógico dos poemas cuja chave de compreensão reside muitas vezes em conhecimentos de Matemática, Astrofísica, Filosofia, Sociologia, História, mais do que numa qualquer banal vivência da realidade, algo a que o leitor português de poesia, tendo sido muito marcado pela pauta do simbolismo francês, não está de todo habituado. Mas que é comum nas poéticas que evoluíram do imagismo anglo-saxónico ou noutras poéticas centro-europeias ou de Leste (lembremo-nos de Hans Magnus Enzensberger, Remco Camper ou Mirolslav Holub, entre tantos), nas quais a conexão com o leitor se faz mais pela inteligência, pelo raciocínio e pela ironia das imagens, do que pelo choque sonoro de signos. 

E não traí a sua origem, a voz que aqui fala. Desde logo porque esta é uma poesia que não se queixa, não se lamenta, não cultiva a melancolia, antes é positiva (“há que aproveitar o que há”), mostrando uma evidente preocupação em contar uma história como queria Frank O’Hara, gerindo silêncios e suspense em pequenos textos cuja geografia, nas três partes que compõem o livro são a de um holandês em Portugal, a de um europeu no Mundo, e por fim, a de um “português” que se quer europeu. 

Para tanto, Marco Mackaaij constrói a macro-realidade fixando com atenção o detalhe, observando agudamente o que o rodeia, por exemplo, criticando a construção imobiliária desenfreada (cf. Os Salgados) ou a hipervigilância das redes sociais (cf. LinkedIn), tendo sempre em mente os versos de Northrop Frye (“The center of reality is whereever / one happens to be, / and its circunference is whatever / one’s imagination can make sense of.“), seja para os mais altos desígnios daquilo a que chamamos vida, seja para escrever poemas sobre temas tão prosaicos quanto gastronomia, neste ou naquele poema trazendo à memória do leitor, o extraordinário livro de Egito Gonçalves, E no entanto move-se

Marco Mackaaij transcende assim a mera realidade, ao procurar sentidos ocultos (que acredita que existem) nas geografias (e nos acontecimentos) nas quais, e com os quais, se vai deparando, sendo este portanto um livro de poemas que pressupõe a existência de leitores (com quem o autor dialoga) e que se apercebem, por sua vez da existência de um poeta-actor, de uma biografia activa, de factos vividos pelo poeta que não fogem, por exemplo, à menção de nomes comerciais contemporâneos (Ryanair, Panini, iPhone, Booking.com, LinkedIn, Uber, SEF, Brexit, Google, SNS) na justa medida em que essas marcas e siglas existem, e que por isso, não há absolutamente razão nenhuma para que não sejam incluídas da poesia contemporânea portuguesa, aqui e agora, no exacto sentido em que são úteis ao poeta, ao exercício de uma narração elíptica que deixa sempre o pormenor essencial da compreensão do poema para que o complete o leitor,  socorrendo-se da sua experiência e imaginação, para desvendar o mesmo. 

De passagem por diversas cidades estrangeiras, por exemplo, na segunda parte do livro, o poeta tenta ler nos acontecimentos, nos cenários e na cultura dos lugares, uma verdade essencial, um pormenor especifico, não como mero turista que estivesse de visita, antes emprestando-lhe o seu pensamento, como quem se recusa a viver os sítios sem os pensar. O que fica destes textos é a inteligência com que foram construídos. Esse estrato de leitura.

 

ADÍLIA LOPES

 


PARDAIS

Adília Lopes

Assírio & Alvim, Julho 2022

72 páginas 

 

Cada livro da autora lê-se sempre com duas terríveis perguntas na cabeça: pode tanta inocência ocultar algum cinismo? Pode tanta simplicidade esconder ironia? 

A verdade é que a poesia de Adília Lopes é reconhecível em qualquer lugar do mundo lusófono; segundo julgo saber, no Brasil, existe mesmo o adverbio “adilianamente”, o que de certo modo corrobora a minha suspeita de que Adília Lopes é a prima portuguesa que Paulo Leminski não conheceu. 

Adília é tom e é persona. Diz quem priva com a autora que Adília “é mesmo assim”, tal como escreve. Os seus textos (muitos deles em prosa) são atravessados por uma candura, uma inocência e uma ingenuidade desarmantes, mostrando uma obsessão extrema pela descrição e pela narração de detalhes, não só como alguém que procura a verdade do Mundo mas como alguém que quer ter a certeza de que a mesma não só é transmitida ao leitor, como também correctamente apreendida por ele: “Outra coisa de que gosto em casa é de ver a luz da rua apagar-se no castiçal do piano que tenho na casa de estar. O castiçal é de metal, reflecte a luz da iluminação pública”. Assim, tudo explicito. 

Esta obsessão explicativa está patente também, por exemplo, na assinatura que cada texto exibe do local e do dia exactos (o mês em numeração romana, o que não é despiciendo) onde o mesmo terá sido escrito, ou finalizado. Os poemas têm um cariz quase exclusivamente biográfico – desta vez encimados pela imagem conceptual pura, simples e livre de um pardal, como Adília – assumindo outras vezes a voz de raciocínios lógicos do tamanho de um aforismo ou de um slogan, não poucas vezes informados por temas religiosos ou ditados colhidos directamente da sabedoria popular. 

Adília recorre frequentemente à tradição, não apenas a literária (neste livro responde a versos de Cesário Verde, Fernando Pessoa e Gil Vicente) mas também, e principalmente, à secular sabedoria oral do bairro onde habita e onde aprecia viver, transmitida, imagina-se, de vizinho para vizinho, de geração para geração. A persona destes textos fala ao leitor num acento cândido, puro, desprovido de excessos, gerindo em cada parágrafo o espaço em branco (ou seja, o silêncio) de modo a convidar o leitor a parar, ver e reflectir, resultando este processo muitas vezes em ironia, uma vez que desarma o leitor com a candura do que parece óbvio; podermos ver o óbvio escrito num livro de poesia, parece-me ser o achado maior desta poética.

 Existe nestes poemas muito trabalho arqueológico de devolver à poesia o que já foi metáfora (no início das linguagens) mas que agora é cliché, o que significa que Adília escreve, na minha opinião, mais com o ouvido do que com o olhar, e ciente disso, cria uma poesia passível também ela de ser transmitida como um slogan – “Sem liberdade não há felicidade.”; “Sem democracia não há alegria” – desvelando com isso um primacial prazer pela vida e por estar viva, em exercícios líricos habitualmente espantados com o banal.

Esse mesmo espanto por descobrir parece assistir à reprodução, na segunda parte do livro, de 12 desenhos da autora feitos com a mão esquerda em Maio de 2022, partindo do “Cogito, ergo sum” de René Descartes. Os desenhos são de péssima qualidade mas não é esse o ponto: a máxima “Penso, logo existo” (“Penso, portanto sou”) é escrita pela autora ao longo de uma semana e meia em sucessivas tentativas com a sua mão não dominante, acompanhada de um torvelinho gráfico, e o que se verifica é que a caligrafia não sofre qualquer melhoria, tentativa após tentativa, contudo representa para Adília um desafio diário, um jogo pessoal, a prova de que a autora está viva e continua viva, a demonstração de que pensa, logo existe, e isso parece ser suficiente. Viva, como um pardal. 

Já na terceira página do livro, a autora havia feito publicar uma foto a preto e branco de uma divisão da sua casa onde são visíveis inúmeros objectos que bem podiam ser assunto de algum dos seus poemas, como se de um Cabinet de curiosités se tratasse – uma bela imagem resumo do que constitui esta poética colecionada dia a dia, onde os pardais do bairro passaram agora a ter também, com este livro, definitivamente o seu lugar.

SÉRGIO ALMEIDA

 


REVOLVER

Sérgio Almeida

Guerra & Paz, Maio 2022

80 páginas

 

Ao contrário do que à primeira vista podemos ser levados a pensar, o título do mais recente livro de Sérgio Almeida, Revolver não é o substantivo sinónimo de “arma” mas o verbo sinónimo de “remexer” ou “revirar”. 

Este primeiro jogo de linguagem com que o autor nos surpreende – e que, de certa forma constitui, a meu ver, o primeiro poema do livro –, prepara o leitor incauto para um regresso ao passado num processo que ameaça não ficar pela superfície das memórias, mas que se propõe escavar as sucessivas camadas que o tempo sedimentou, e cuja recuperação se pode vir a revelar dolorosa como o efeito de um disparo, ou no mínimo, pouco asséptica como um remexer de lama. 

Para o autor “O passado é uma arma carregada de memórias”. O livro dá-nos a ler 45 textos que revisitam temas como a infância (“fazíamos do limiar da realidade a nossa habitação permanente”), a família, o amor (“nem por um segundo apenas desejo libertar-me desse peso”), a morte (“Tenho medo de perder o medo da morte”), a vida quotidiana (“a sinuosa vontade de passar / a limpo a incerteza dos dias”), a actualidade (não fosse o autor um atento jornalista), poetas de eleição e a própria poesia (“Enquanto mastigas as palavras / e lhes trituras as vértebras, / há versos que se alimentam / do teu íntimo.”), entre outros tantos temas como seja a descrição de objectos de que é exemplo Inventário dos meus pertences mais valiosos, o meu favorito neste livro. 

Uma das revelações que a leitura desta obra põe desde logo em evidência é o leitor de poesia que Sérgio Almeida é. Encontramos nestas páginas homenagens implícitas e explícitas a Manuel António Pina, Jorge Sousa Braga, Herberto Helder, Wislawa Szymborska, Manoel de Barros, Sylvia Plath, entre outros (franceses, como Jacques Prévert ou Boris Vian), numa convivência poética que sendo contemporânea não esconde a tempos um especial gosto por ambientes e vozes tradicionais (por vezes rurais) ou temas nada fáceis como é o caso de uma muito peculiar (e difícil) relação com o divino (“Ele não está no meio de nós”; “Um deus imóvel é um deus inútil”). Talvez por isso, também, o humor seja um dos tons mais reconhecíveis nestas linhas – e a chave de resolução de vários poemas –, proporcionando ao poeta a distância necessária que lhe permite abordar certos assuntos, e presente desde logo nos títulos (cf. Poema pombalino, por exemplo), o que mostra, por parte do autor, a aguda consciência como também queria Miroslav Holub de que a poesia também é um jogo (“pobre pombo que encontrei na repartição a saldar o imposto de circulação aérea”). 

Daí que Sérgio Almeida não esconda o seu apreço por jogos de palavras (A cerca da vida por “acerca da vida”; O deserto de Sara por “O deserto do Sahara”; Ceci n’est pas la vie por “Ceci n’est pas une pipe”; “O que se passa na Eternidade / fica na Eternidade”, um trocadilho com a expressão aplicada a Las Vegas), ou mesmo oximoros (“O passado já lá vem”), estratégias menos vezes associados à emoção do que à razão, com a qual o poeta estabelece o contracto de leitura com o leitor. 

Nada disto rouba o lirismo que caracteriza os poemas. Simplesmente, o autor prefere uma poesia de exemplos, de matriz biográfica, com a qual constrói uma persona que atravessa o quotidiano, presente e passado, numa visão de Mundo da qual não está ausente por vezes um leve tom escatológico que, não sendo o dominante no livro, garante a Sérgio Almeida um lugar “de quem faz da margem / o seu eixo”.

A. M. PIRES CABRAL

 



CADERNETA DE LEMBRANÇAS

A. M. Pires Cabral

Tinta da China, Novembro 2021

152 páginas

A propósito da finitude da vida (“e as respectivas peripécias”), António Manuel Pires Cabral lançou-se neste livro numa tarefa tão difícil quanto o mais complexo dos temas: definir deus. “Que coisa é Deus?”, pergunta o poeta. 

E fá-lo, cedo se percebe, com a exacta consciência da extraordinária raridade que é alcançar uma epifania, como se o previsível insucesso da “maratona” (como a define) onde se socorre de memórias e observações na primeira metade do livro e de perguntas e divagações (que avançam “um centímetro ou dois”) na segunda, estivesse presente desde o início, sabotando cada poema deste “cântico apaziguado” onde tenta negociar o epílogo num “humilhante auto-de-rendição” (“nesse momento extremo / a tua compaixão falará mais alto”), consciente porém de que o faz recorrendo a “um demónio dentro”, por vezes sereno, por vezes revoltado, às vezes na Fé, às vezes na descrença, aqui com seriedade, além com humor. Desde o tom humilde a um tom desafiador (“que raio de critério / usas para atender ou não aos rogos”), são múltiplas as vozes usadas pela voz que fala nestes poemas, tendo em comum a percepção clara da existência de um tempo limitado sobre a Terra, curto demais para encetar um diálogo com o divino (“às vezes, na extremidade do medo”). 

Cada sucessivo poema pode, por isso, ser lido como uma nova tentativa de responder ao imbróglio criado pelo próprio autor: uma sequência de títulos na segunda metade é disso mesmo reflexo (cf. Para variar, Rota de colisão, Com um demónio dentro, Um deus lateral, Deus é assim, Implosão, Tanto silêncio), como se o poeta virasse e revirasse nas mãos o objecto em análise (deus) e umas vezes o perscrutasse de fora através de um novo ângulo, outras vezes o atravessasse (“eu preciso absolutamente de ver”), mostrando-se contudo sempre insatisfeito e frustrado com o resultado. 

A consciência prévia que tem da impossibilidade de levar a cabo a tarefa a que se impôs, leva o autor a recorrer não poucas vezes ao humor (“No dia em que houver uma palavra / ou mesmo apenas uma sílaba / saída da tua boca e / inequivocamente dirigida a mim – // – nesse dia, beberei meia garrafa de whisky”), bem como a desenvolver cenários (à revelia de Nietzsche mas tendo presente Giordano Bruno) que o ajudem a materializar algo que é abstracto e, de caminho, a lavrar uma opinião provocadora (como diz) sobre as fragilidades da religião e, já agora, sobre o mau-feitio de um deus que também abandona, usando para tanto aquela que tem sido uma das marcas formais mais características da sua poética: dividir um Tema específico em três ou quatro poemas assunto. 

Um exemplo: 1 - Deus existe e preocupa-se (“Simplesmente (e pede compreensão / para este seu modo de fazer as coisas), / tem aquele costume antigo / de vos responder por interpostos sons / – o vento, o mar, as aves, o trovão”); 2 - Deus existe mas não é de cerimónias (“Não vos estejais a incomodar, meus filhos, / passo muito bem sem essas demonstrações.”); 3 - Deus não existe (“E como havia de existir – / não sendo lanterna para tanta escuridão, / nem água para tanta sede?”); 4 - Deus existiu em tempos, mas supõe-se que morreu (outros dizem que foi assassinado (“Calma, senhores, nada de pânico, / pode ser que não tivesse morrido. / Pode apenas estar amortecido.”). A poesia, perguntando e respondendo, funciona como instrumento de procura e de construção do logos

Seja qual for a resposta, o que os versos refletem é uma insubornável busca pelo “tal relojoeiro / que pôs o universo em movimento”, cuja presença (se é verdade que não se torna mais evidente com o esforço hercúleo dos poemas que fecham o livro), seguramente que se encontra omnipresente nos ciclos poéticos que abrem a obra, e que o poeta dedica à sua experiência como paciente (cf. A um comprimido Hytacand), a alguns meses do ano, e a certos objectos artísticos que se encontram na sua geografia sejam retábulos, espigueiros ou escaleiras que, “Pelo sim, pelo não, vou tomar nota disso / na minha caderneta de lembranças.”. 

Mas, principalmente, omnipresente nos ciclos que dedica a animais, extraordinárias sequências de poemas que a par dos textos sobre arte rural são outro livro dentro deste livro e se constituem, isso sim, como a resposta possível (dada pelo próprio Mundo) à pergunta colocada sobre quem, como e onde está deus. Não deixa de ser revelador que, como um círculo que se completa, o poeta tenha dado a resposta à pergunta final do livro, logo no início. 

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA



 INTRODUÇÃO À PINTURA RUPESTRE

José Tolentino Mendonça

Assírio & Alvim, Outubro 2021

64 páginas

É sempre com redobrado interesse que leio cada novo livro escrito pelos poetas da minha geração, não apenas pelos textos em si, que raramente desiludem, mas pela natural curiosidade de tentar perceber o que acrescentam ao conjunto da obra poética de cada um deles: como a fazem evoluir. 

O lugar que Introdução à Pintura Rupestre ocupa na obra de José Tolentino Mendonça é o de uma Memória dos primeiros anos da sua infância, escrita não em prosa, como é habitual nas Memórias, mas em poesia. Daí que abundem as referências geográficas angolanas, desde o Cine-Esplanada Flamingo aos mangues e à Baía do Lobito nestes 19 poemas de pulsão narrativa, arredondados para cima com um texto sobre uma das avós do autor, A quem deixas o teu oiro, que trata do papel da Oralidade na transmissão de histórias, entre gerações.

Uma vez que o programa do livro é a Memória enquanto arquivo, e as memórias que a preenchem (“subespaços que se acendem lentamente”), predomina nos poemas uma dicção concreta onde os referentes convocados materializam imagens quase fotográficas. No poema A primeira magia, por exemplo, o poeta espanta-se com as aptidões da Memória (“como foi ela capaz de fotografar / este estilhaço, estas formas que ardem / o ruído do sangue que nunca cessa / e a solidão dos ossos”), que são depois ilustradas por uma sequência de textos (aliás muitíssimo bem estruturada, esboçando uma narrativa), onde não faltam alusões à própria memória comum da poesia (e da filosofia) e onde se divisam referências a Herberto Hélder, Ruy Belo, William Carlos Williams e a uma mão cheia de filósofos. 

“Uma parte da beleza do mundo permanece anónima”, escreve-se em A cesta, porém, o poeta trata de a colocar em evidência convocando momentos primaciais como a alegre azáfama das mulheres no fim da faina (“a mortal canção”) com uma alegria anterior à descoberta do fogo; o riso da abundância; a troca de bens que o mar proporciona aos pescadores (numa óbvia referência bíblica); a descoberta de um mundo singular de objectos (“provas milenárias de uma afinação”) e de animais do mar (“em profundidades / onde não existe / caçador nem presa”). 

Mas também a família, fundadora de um “mundo que se começa a ouvir no fundo da casa”, convocada por emoções onde predomina uma ternura tímida através de versos de uma beleza suspensa; ou pelas botas gastas do “avô Matias / caçador de baleias e ocioso tocador de bandolim (...) que jamais se saciaram de paisagens”; pela (difícil) bicicleta do pai; pela miséria de uma “existência selvagem e simples”, já que “as crianças que choram / duram mais que qualquer época”); ou ainda pela Guerra colonial, onde “Uma pessoa habitua-se facilmente / ao absurdo”); por alusões sociais (“Nessa década dizia-se que o socialismo / se chegasse seria de bicicleta”); por aventuras e histórias penosas ouvidas na infância como aquela que é narrada em Aconteceu no capim, poema admirável quer pelo tema, quer pela gestão estrofe a estrofe, do suspense narrativo.

Lendo estes poemas com detalhe é difícil resistir à tentação de perguntar quantos dos episódios aqui lembrados foram fundadores da pessoa civil em que José Tolentino Mendonça se tornou: é também para isso que se leem Memórias. Provavelmente todos: a memória é também uma construção do passado (ideal?), tal como o poeta sugere num dos poemas (“A vida dos nossos avós é inventada por nós”), e nesse sentido, este belíssimo livro de poesia fica como um registo dos primeiros anos de José Tolentino Mendonça, passados quer nas ruas do Lobito, quer (numa certa ocasião) na brancura de um hospital por culpa de um “punho infeliz”, onde o poeta foi colecionando palavras “sem nenhum nexo”, como quem descobre o fogo da linguagem, riscando no branco das paredes as primeiras imagens poéticas.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA



O MEU CORPO HUMANO

Maria do Rosário Pedreira

Quetzal Editores, Abril 2022

96 páginas


A característica mais distintiva deste livro é a sua estrutura. Se excluirmos o poema mote que abre o livro, este é composto por sessenta poemas divididos por três partes de vinte poemas cada, intituladas respectivamente “o meu corpo humano”, “o teu corpo humano” e, de novo, “o meu corpo humano”. Todos os poemas têm como título uma expressão de algum modo relacionada com a anatomia, seja através do seu nome científico, seja através de uma expressão de uso mais oral. Os títulos não obrigam o poema a um desenvolvimento científico do mesmo, antes funcionam como pretexto para um texto cujo fio condutor é uma unidade ou uma identidade que é a do corpo humano.

A primeira parte ocupa-se do corpo humano do sujeito poético. Neste conjunto de poemas lutam entre si o “amor” e o “tempo”, eternos inimigos. São poemas o mais das vezes líricos que refletem a fugacidade do tempo, cada vez mais visível nos sinais de envelhecimento do corpo; subjaz a ideia de que cada instante é único e singular, devendo ser vivido com amor; fala-se do território secreto e exclusivo que o amor constitui; alude-se à morte metafórica que ocorre sem o amor e sem o corpo do objecto amado.

 

A terceira parte, para a qual propositadamente salto dada a semelhança do título com a primeira, diz também respeito ao corpo do sujeito lírico, pese embora o assunto dos poemas se foque menos no tempo e nos aspectos físicos do corpo, do que no lado mental da existência. Não o da doença psiquiátrica clássica mas o do episódio de matiz psicológica, esse que atravessa a vida mental e amorosa da persona lírica que nestes textos fala. Aqui, neste outro campo de batalha, travam-se de razões “alegrias” e “tristezas”, luta-se pelo verdadeiro amor. Estes são poemas informados por adversidades e incómodos, sombras e pesadelos, maledicências e inimizades, segredos e ofensas, discussões e diferenças, feridas de alma ou de alegria.

 

Na segunda parte, o corpo humano em questão é o corpo dos outros, e aqui lutam entre si a “indiferença” e a “empatia”. Os poemas deste conjunto podem ser lidos como um retrato sociológico das últimas décadas, e das consequências da crise social pré- e pós-pandemia, sendo uma extensa metáfora do Mundo contemporâneo, da ausência de compaixão e empatia. Nesse sentido, os títulos assumem a voz (e a vez) de sinédoques de um quadro social contemporâneo mais vasto; as partes da anatomia estão por aspectos da vida das personagens a quem o Mundo indiferente falhou: as “costas” estão pela solidão da viúva; o “pulso” está pelo acto do suicida; metonímias, portanto: os “pulmões” estão pela tragédia dos refugiados; o “útero” está pela gravidez de risco; a “perna” está pelo doente com gangrena; os “calos” estão pelo trabalho precário do emigrante de Leste; o “nariz” está pelas vítimas dos incêndios; a “cabeça” está” pelas vítimas das guerras.

 

A parte pelo todo, portanto. E um regresso feliz à poesia de Maria Rosário Pedreira.


quinta-feira, setembro 29, 2022

JOSÉ GARDEAZABAL


PENÉLOPE ESTÁ DE PARTIDA

José Gardeazabal

Relógio de Água, Abril de 2022

64 páginas


A história é de todos conhecida, pela Odisseia de Homero: Penélope aguarda há dez anos pelo regresso de Ulisses com quem havia casado depois de este ter vencido o seu pai, numa competitiva disputa. Constatando que o genro tarda em regressar de Troia, Icário incita agora a filha a aceitar a corte de uma longa fila de pretendentes, o que Penélope faz, contrariada, não sem antes estabelecer como condição não escolher noivo sem que termine o sudário que começou a tecer para Laerte, o pai do marido. É uma serva quem põe a nu que Penélope desfaz à noite, os avanços que tece durante o dia.

A provocação de José Gardeazabal vai explícita desde o título: a mãe de Telémaco está de partida. A surpresa é para a poesia o que o suspense é para a ficção – força de propulsão, energia – e a primeira surpresa deste livro é-nos desde logo oferecida pelo título: a mulher de Ulisses não vai mais ficar à espera dele e vai partir.

De surpresa em surpresa, o autor proporciona-nos um monólogo dramático de 41 poemas, não na voz de Ulisses como o género do autor poderia fazer antever, mas na de Penélope. É uma voz feminina quem fala. Enquanto criador, é todo um desafio o que o poeta se coloca a si próprio. Por várias vezes me questionei, ao avançar na leitura, como iria o poeta aguentar o momentum do desafio a que se propôs e a verdade é que o consegue, desde logo pelo exercício da ironia cósmica presente na escolha do tema, que resulta do facto de o leitor conhecer a história de fundo e umas vezes a ver corroborada pela expectativa que tem dos factos aludidos, outras a ver defraudada na antecipação que faz dos mesmos. Um jogo muito bem urdido.

Penélope, portanto, decide partir. Por saturação, por fastio, por autonomia, por madurez, por desapego, por cansaço, por decepção, por ciúme, por incerteza, por anseio, por menosprezo, por marasmo. Ou por todas essas razões: cedo o leitor se apercebe de que a voz que fala não é apenas a da mulher de Ulisses mas a da mulher anónima, da cabeleireira, da porteira e também talvez mais significativamente, a de Virginia Wolf, Susan Sontag, Golgona Angel, Gertrude Stein e a de muitas outras mulheres que surgem mais tarde explicitamente nomeadas no poema da página 40. Devo confessar que teria preferido que esse poema não tivesse sido incluído no livro, mantendo-se dessa forma implícito o jogo meta-literário para ir sendo desvelado se não numa primeira leitura, pelo conhecimento literário acumulado de cada leitor, ao deparar-se com essas autoras em ulteriores leituras. A poesia não tem de ser pedagógica e um livro como este tem, por si só capacidade de durar, também pelos extratos de que é feito proporcionando sucessivas descobertas a cada releitura. Há que confiar na sagacidade do leitor. Como também teria preferido, confesso ver omitido um ou outro texto (pág. 37, pág. 43) onde o tom altissonante do manifesto feminino é mais explícito, poemas esses que é possível que encerrem uma visão mais masculina do que se esperaria do tema.

Mas esta nota em nada retira valor à excelência da ideia que o livro encerra, à inventividade e qualidade do verso ao longo da página ou ao brilhantismo do final: se é verdade que Ulisses não pôde convidar Penélope para o acompanhar a Troia – porque seria uma viagem agitada em tempos de guerra, aceita-se isso, sim – nada obsta que agora, em tempos de paz, o guerreiro não possa aceitar o desafio que a mãe de Telémaco lhe deixa. A história entre os dois não tem de terminar apenas porque Penélope se cansou de esperar em Ítaca.


quinta-feira, setembro 15, 2022

FILIPA LEAL

 


A RAPARIGA JÁ NÃO GOSTA DE BRINCAR

Filipa Leal

não (edições), Março 2022

72 páginas

 

É talvez o livro mais interessante que li dos escritos durante a pandemia. Ou deverei chamar-lhe objecto?

O que começou por ser uma colagem realizada pela autora por ocasião da jubilação de Perfecto E. Cuadrado da Cátedra de Filologia Galega e Portuguesa da Universidade das Ilhas Baleares, cedo deu origem a um conjunto de 27 colagens, feitas quase automaticamente durante a pandemia, no confinamento de Março de 2020.

Para uma doença absurda, um livro surreal. Durante várias semanas, Filipa Leal colou quase três dezenas de poemas através do recorte e composição de palavras (ou pequenas frases), sequencialmente, muito ao sabor do acaso – do desfolhar de revistas e jornais antigos em casa de cantautora Mafalda Veiga – um pouco ao sabor da razão. Como tantas vezes sucede com a leitura da poesia surrealista – ou da fruição da pintura abstracta, diria eu – o leitor não consegue ler os poemas sem resistir a procurar um sentido lógico nos versos, preenchendo as elipses, ziguezagueando pela sintaxe, confortando o irracional com o racional.

É interessante colocarmo-nos por instantes na cabeça da autora, questionando as suas escolhas, tentando reconstruir na aparente expressividade espontânea o que foi automatismo do que foi pensamento, ao folhear, recolher, recortar, construir numa tensão permanente entre o que a surpresa do achado traz e aquilo que o raciocínio completou – o acaso trazendo a matéria poética concreta sobre a forma de palavras recortadas, o raciocínio resistindo à tentação de alisar a estranheza da sintaxe: “(…) Imagine um edifício organizado à pressa / por mim a dar para o Douro / portas abertas ao pó em segurança / Cuidar mudos concertos de garagem / trabalhar livros e contradições / a imaginação sem arguidos // Corta // O inferno não gosta de casas”

Um outra dimensão deste objecto são as colagens, elas próprias, enquanto obras de arte, recortes de palavras com numerosas Fontes e cores de fundo, cuja composição em papel deu origem a harmoniosas peças gráficas e cromáticas reproduzidas nas páginas ímpares; nas páginas pares está impresso cada um dos poemas, transcrito sobre a forma de texto e já pontuado, podendo portanto cada texto ser lido das duas maneiras; no final do livro aparecem quatro colagens que utilizam recortes com palavras em língua espanhola e cinco em língua inglesa, estas últimas menos interessantes não por falta de labor da autora mas porque o surrealismo não é coisa para a língua inglesa.

Mas acontece sempre poesia nestas colagens onde reconhecemos alguns dos temas presentes na obra de Filipa Leal (a cidade, a solidão, a mulher, a família, a politica), tratados quase sempre num tom irónico e humorístico: “num país livre, conquistar onde sofrer’ / número crescente de vozes reclama espaço / afastam-se da casa e da vida. / quer dizer, do efeito bonito da família. / é tramada a noite da carne / de quem avança equipado / para a separação (…)”.

São pontuais as vezes em que os recortes se limitam a ilustrar a lógica; na quase totalidade dos poemas o tom é surreal ou absurdo, o que significa que a autora foi muito feliz na fuga ao consolo do verso, em benefício de uma tensão, um automatismo e fundamentalmente, uma estranheza que são apanágio do surrealismo: “No nosso país estão de novo a usar o sol”. Um livro para coleccionar.


quinta-feira, setembro 08, 2022

BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

 



A ESTRADA MENOS VIAJADA

Bernardo Pinto de Almeida

Sr Teste, Janeiro 2022

74 páginas


A característica mais expressiva de “A Estrada Menos Viajada”, de Bernardo Pinto de Almeida é a opção que o poeta faz por poemas magros e esguios de verso curto e nervoso, a maioria de género lírico, neste e naquele cindindo a última palavra, obrigando o leitor a optar (“apesar” / “a-pesar”; “acena” / “a-cena”), tal como o sujeito lírico do poema “The Road Not Taken”, de Robert Frost, por um de dois caminhos – uma de duas leituras, um de dois sentidos – ambos válidos, ambos possíveis mas obrigatoriamente como no poema do americano, de escolha exclusiva.

Como na vida. De dentro dessa exígua mancha gráfica, o poeta prossegue o seu conhecido programa de ver, de re-parar nos assuntos da cidade e do amor – a verdadeira força motriz dos recomeços – dialogando com a tradição e com os poetas de eleição através de uma prosódia limpa e de uma dicção aural, aludindo desta vez à pedra no caminho de Drummond de Andrade ou à poesia que existe nas coisas de William Carlos Williams, entre outros.

No poema “A Queda”, por exemplo, socorre-se de um jogo homonímico entre perda de alegria (e a consequente perda de peso) para um apontamento de humor, num livro que é, no restante maioritariamente sério e reflexivo como sucede em “A Porta”, um dos mais importantes textos do livro. A voz que fala de dentro destes poemas recupera numa mão cheia de instâncias, o tema da idade dourada, a infância pura e irrepetível, por oposição à idade adulta tardia, isto é, o topos da mudança de estação na vida; “Lição de Trevas” é uma peça que alude ao Inverno cronológico (“um / ano mais a cair / do calendário, / dessa misteriosa / agenda, ou livro / de horas, a que / chamamos vida.”). O contraste entre estes dois momentos na vida do sujeito lírico – o primeiro trazido pela memória, este vivido no presente – justificam talvez a urgência destes poemas velozes, a ansiedade objectivada através da forma esguia, reflectindo-se nisso a pressa para o que falta viver.

Relê-se agora com outra propriedade a conhecida epígrafe de Robert Frost que abre o livro (“Two roads diverged in a wood, and I – / I took the one less traveled by, / and that made all the difference.” que alude à escolha por ambos os poetas, o americano e o português, pela estrada menos viajada, que ganha aqui para o nosso autor o cunho de um primeiro balanço de vida, à chegada do Inverno. Estrada essa que, pesados perdas e ganhos, fez toda a diferença. Como no caso do amor.


quarta-feira, agosto 24, 2022

SÉRGIO GODINHO

 


PALAVRAS SÃO IMAGENS SÃO PALAVRAS

Sérgio Godinho

Quetzal Editores, Novembro 2021

128 páginas

  

Esquecemo-nos muitas vezes de que a poesia começou por ser uma arte oral, plena de repetição e mecanismos mnemónicos que fixavam Cosmogonias, de civilização em civilização. O mais recente livro de poemas de Sérgio Godinho lembra-nos a cada página como a música pode acontecer na poesia, sem o auxílio externo, digamos assim, de instrumentos musicais.

O ritmo base de um poema pode ser lento ou rápido, ou mesmo colocado em suspenso por pausas, silêncios, espaços em branco, figuras de sintaxe como o polissíndeto que abrandam o verso; estamos no fundo a falar de percussão; pode ser acelerado através da utilização do assíndeto ou de enjambements, por exemplo, que não autorizam que o verso termine no final da linha projectando-o com a ansiedade própria da poesia contemporânea para a linha seguinte, ou reforçando-o com numerosos tipos de repetições como anáforas, gradações, refrões, enumerações, paralelismos. Onde entra então a melodia – que corresponderia à guitarra, ao piano, à voz – sobre este ritmo base que os poetas criam, complementando-o harmonicamente?

A língua portuguesa é extraordinariamente eufónica. Sobre aquela percussão de base sobrepõem-se como elementos harmónicos as figuras de Som e de Harmonia que Sérgio Godinho tanto aprecia e usa como sucessivas aliterações, assonâncias, paranomásias e outros jogos verbais como trocadilhos, onomatopeias, a própria rima. Tudo isso existe neste livro. Dir-se-ia que uma harmonia sonora atravessa a respiração e a pulsação de cada poema, a maior parte das vezes de forma aberta, em versos brancos tantas vezes curtos e ansiosos, ou em versos projectivos que são aqueles com os quais os poetas compõem quando optam por ouvir o seu pulso, a sua respiração.

Tudo isto constituiria já uma experiência de leitura única se ficássemos por aqui. Mas a poesia é também dicção e imagem. De que falam estes poemas? Naturalmente que de um quotidiano que lhe é próximo, ternurento, melancólico, solitário, a tempos hermético e sempre transfigurado. As imagens fotográficas que surgem com os poemas não se substituem às imagens que os poemas criam, antes são o gatilho que cria uma coisa terceira, o diálogo alusivo e complementar entre as duas artes, escrita e fotografia.

O detalhe, a biografia, a geografia e seus lugares, a violência sobre o corpo, a lombada dos livros como coluna vertebral, a sua experiência enquanto músico, a pé ou de comboio, na A23, as viagens. Estes são poemas que a nível imagético retém para si uma dose significativa do enigma e do mistério do mundo, no que não é dito, libertando-os verso a verso como faz um bom contador de histórias, calando uma larga margem para que os complete a imaginação. Um belo livro.


terça-feira, janeiro 12, 2016

LIEKE MARSMAN



LIEKE MARSMAN (Zaltbommel, 1990). Jovem poeta holandesa que começou por publicar poemas na  revista literária Tirade, onde tem um blog e faz tradução de jovens poetas americanos contemporâneos. Em 2010 publicou o livro Wat ik mezelf graag voorhoud (Do que eu gosto de me convencer) que ganhou de imediato três prémios literários, entre os quais o prestigiado Prémio C. Buddingh para melhor estreante de poesia. Em 2014 foi editado o seu segundo livro, De eerste letter (A primeira letra). Ainda numa viagem de descoberta da sua voz, a poesia de Lieke Marsman é acessível, introvertida, sensível e analisa o interior do indivíduo, não descurando o que o rodeia. Os tópicos giram em torno da incerteza e da dúvida, qualquer que ela seja: insegurança social, a infância, questões existenciais, grandes e pequenas dúvidas sobre comportamentos, medos e relacionamentos humanos. Isso repercute-se num eu que interroga, sonha, por vezes analisa. Numa entrevista dada à (também ela) jovem crítica literária Marleen Louter, diz Lieke Marsman: “Um poema meu não é necessariamente um poema sobre a minha pessoa. O início do poema tem a ver comigo, mas depois aumento coisas, escrevo sobre outras pessoas a partir da minha perspectiva”. E, noutra parte da entrevista diz: “É uma espécie de contraste (...) pôr sob a forma de um enunciado bonito coisas que talvez não o sejam na realidade.” Lieke Marsman é considerada uma grande promessa das letras holandesas.
Eis alguns poemas, em mais uma tradução de Leonor Raven.
 
 
ENTRETANTO
Às vezes, somente penso
que devo escrever o mais depressa possível
um conto sobre uma paisagem de neve. Enterrar-me até à relva,
calçada de botas de neve e, escavar avalanches ocas. Se olhar,
conheço os nomes de todas as plantas de cor
sobre elas cantarei em tons de dança
até ficarem de novo a descoberto.
 
Deixarei pedaços da minha úvula no ar,
vazia a minha garganta. Devagarinho, a minha voz
amarrotará estas paredes de neve
até haver tanto lodo
que não conseguiremos caminhar.
 
Ser levada lentamente pela corrente
com as rochas e os ratos, os pinheiros e
os campos, capelas, as imagens da Virgem
que usam os altares como navios.
 
Cantarei tão alto que
o musgo liquefar-se-á.
 
Cantarei tão alto que
a montanha derreter-se-á.
 
Cantarei tão alto que
voltará a ser possível afogarem-se
cavalos no pântano aos meus pés.
 
(De Wat ik mijzelf graag voorhoud, 2010)
 
 
§
 
 
COMO PALAVRAS
Não preciso de pôr um ponto final
a algo que está irrevogavelmente suspenso.
 
Não me devo esconder no rosto de outra pessoa ou
ficar desanimada com isso. Devo projectar algo
que irá descobrir-se ser um mapa, iniciar uma viagem
bela e inesgotável como palavras, como palavras.
 
Não preciso de abrir uma porta
para a deixar entrar.
 
Tão-só fechar uma janela
que ela irá querer arrombar.
 
(De De eerste letter, 2014)
 
 
§
 
 
5
 
Se a palavra angústia começasse pela primeira letra do alfabeto em cada língua
Se eu acordada pensasse que iria despertar de repente
Se eu visse constantemente algo mexer-se no canto do olho,
Sendo contudo sempre uma árvore existente
Se eu tivesse medo de repentinamente começar a pensar que
tudo girava à volta da minha pessoa
Se tudo girasse à minha volta
Se eu esperasse que a minha respiração recuperasse espontaneamente
porque me tinha esquecido que já o fazia, como uma criança
que pensa que vai deixar de ter oxigénio durante o sono
Se eu fosse novamente essa criança
Se eu tivesse medo que a partir de agora o tempo deixasse de passar,
o que me obrigaria a ficar neste momento para sempre
Se me culpasse de ser paradoxal, seria logicamente obrigada
a perdoar-me ao mesmo tempo
Se eu pensasse que de repente o mundo se abriria
Sob a forma de um olho de gato ou de uma vagina:
 
Aqui
ergue-te, abre uma janela
com uma mão que sentes, à vista
de alguém que queres sentir,
no reflexo da janela fechada.
 
( de De eerste letter, 2014)