quinta-feira, setembro 29, 2022

JOSÉ GARDEAZABAL


PENÉLOPE ESTÁ DE PARTIDA

José Gardeazabal

Relógio de Água, Abril de 2022

64 páginas


A história é de todos conhecida, pela Odisseia de Homero: Penélope aguarda há dez anos pelo regresso de Ulisses com quem havia casado depois de este ter vencido o seu pai, numa competitiva disputa. Constatando que o genro tarda em regressar de Troia, Icário incita agora a filha a aceitar a corte de uma longa fila de pretendentes, o que Penélope faz, contrariada, não sem antes estabelecer como condição não escolher noivo sem que termine o sudário que começou a tecer para Laerte, o pai do marido. É uma serva quem põe a nu que Penélope desfaz à noite, os avanços que tece durante o dia.

A provocação de José Gardeazabal vai explícita desde o título: a mãe de Telémaco está de partida. A surpresa é para a poesia o que o suspense é para a ficção – força de propulsão, energia – e a primeira surpresa deste livro é-nos desde logo oferecida pelo título: a mulher de Ulisses não vai mais ficar à espera dele e vai partir.

De surpresa em surpresa, o autor proporciona-nos um monólogo dramático de 41 poemas, não na voz de Ulisses como o género do autor poderia fazer antever, mas na de Penélope. É uma voz feminina quem fala. Enquanto criador, é todo um desafio o que o poeta se coloca a si próprio. Por várias vezes me questionei, ao avançar na leitura, como iria o poeta aguentar o momentum do desafio a que se propôs e a verdade é que o consegue, desde logo pelo exercício da ironia cósmica presente na escolha do tema, que resulta do facto de o leitor conhecer a história de fundo e umas vezes a ver corroborada pela expectativa que tem dos factos aludidos, outras a ver defraudada na antecipação que faz dos mesmos. Um jogo muito bem urdido.

Penélope, portanto, decide partir. Por saturação, por fastio, por autonomia, por madurez, por desapego, por cansaço, por decepção, por ciúme, por incerteza, por anseio, por menosprezo, por marasmo. Ou por todas essas razões: cedo o leitor se apercebe de que a voz que fala não é apenas a da mulher de Ulisses mas a da mulher anónima, da cabeleireira, da porteira e também talvez mais significativamente, a de Virginia Wolf, Susan Sontag, Golgona Angel, Gertrude Stein e a de muitas outras mulheres que surgem mais tarde explicitamente nomeadas no poema da página 40. Devo confessar que teria preferido que esse poema não tivesse sido incluído no livro, mantendo-se dessa forma implícito o jogo meta-literário para ir sendo desvelado se não numa primeira leitura, pelo conhecimento literário acumulado de cada leitor, ao deparar-se com essas autoras em ulteriores leituras. A poesia não tem de ser pedagógica e um livro como este tem, por si só capacidade de durar, também pelos extratos de que é feito proporcionando sucessivas descobertas a cada releitura. Há que confiar na sagacidade do leitor. Como também teria preferido, confesso ver omitido um ou outro texto (pág. 37, pág. 43) onde o tom altissonante do manifesto feminino é mais explícito, poemas esses que é possível que encerrem uma visão mais masculina do que se esperaria do tema.

Mas esta nota em nada retira valor à excelência da ideia que o livro encerra, à inventividade e qualidade do verso ao longo da página ou ao brilhantismo do final: se é verdade que Ulisses não pôde convidar Penélope para o acompanhar a Troia – porque seria uma viagem agitada em tempos de guerra, aceita-se isso, sim – nada obsta que agora, em tempos de paz, o guerreiro não possa aceitar o desafio que a mãe de Telémaco lhe deixa. A história entre os dois não tem de terminar apenas porque Penélope se cansou de esperar em Ítaca.


quinta-feira, setembro 15, 2022

FILIPA LEAL

 


A RAPARIGA JÁ NÃO GOSTA DE BRINCAR

Filipa Leal

não (edições), Março 2022

72 páginas

 

É talvez o livro mais interessante que li dos escritos durante a pandemia. Ou deverei chamar-lhe objecto?

O que começou por ser uma colagem realizada pela autora por ocasião da jubilação de Perfecto E. Cuadrado da Cátedra de Filologia Galega e Portuguesa da Universidade das Ilhas Baleares, cedo deu origem a um conjunto de 27 colagens, feitas quase automaticamente durante a pandemia, no confinamento de Março de 2020.

Para uma doença absurda, um livro surreal. Durante várias semanas, Filipa Leal colou quase três dezenas de poemas através do recorte e composição de palavras (ou pequenas frases), sequencialmente, muito ao sabor do acaso – do desfolhar de revistas e jornais antigos em casa de cantautora Mafalda Veiga – um pouco ao sabor da razão. Como tantas vezes sucede com a leitura da poesia surrealista – ou da fruição da pintura abstracta, diria eu – o leitor não consegue ler os poemas sem resistir a procurar um sentido lógico nos versos, preenchendo as elipses, ziguezagueando pela sintaxe, confortando o irracional com o racional.

É interessante colocarmo-nos por instantes na cabeça da autora, questionando as suas escolhas, tentando reconstruir na aparente expressividade espontânea o que foi automatismo do que foi pensamento, ao folhear, recolher, recortar, construir numa tensão permanente entre o que a surpresa do achado traz e aquilo que o raciocínio completou – o acaso trazendo a matéria poética concreta sobre a forma de palavras recortadas, o raciocínio resistindo à tentação de alisar a estranheza da sintaxe: “(…) Imagine um edifício organizado à pressa / por mim a dar para o Douro / portas abertas ao pó em segurança / Cuidar mudos concertos de garagem / trabalhar livros e contradições / a imaginação sem arguidos // Corta // O inferno não gosta de casas”

Um outra dimensão deste objecto são as colagens, elas próprias, enquanto obras de arte, recortes de palavras com numerosas Fontes e cores de fundo, cuja composição em papel deu origem a harmoniosas peças gráficas e cromáticas reproduzidas nas páginas ímpares; nas páginas pares está impresso cada um dos poemas, transcrito sobre a forma de texto e já pontuado, podendo portanto cada texto ser lido das duas maneiras; no final do livro aparecem quatro colagens que utilizam recortes com palavras em língua espanhola e cinco em língua inglesa, estas últimas menos interessantes não por falta de labor da autora mas porque o surrealismo não é coisa para a língua inglesa.

Mas acontece sempre poesia nestas colagens onde reconhecemos alguns dos temas presentes na obra de Filipa Leal (a cidade, a solidão, a mulher, a família, a politica), tratados quase sempre num tom irónico e humorístico: “num país livre, conquistar onde sofrer’ / número crescente de vozes reclama espaço / afastam-se da casa e da vida. / quer dizer, do efeito bonito da família. / é tramada a noite da carne / de quem avança equipado / para a separação (…)”.

São pontuais as vezes em que os recortes se limitam a ilustrar a lógica; na quase totalidade dos poemas o tom é surreal ou absurdo, o que significa que a autora foi muito feliz na fuga ao consolo do verso, em benefício de uma tensão, um automatismo e fundamentalmente, uma estranheza que são apanágio do surrealismo: “No nosso país estão de novo a usar o sol”. Um livro para coleccionar.


quinta-feira, setembro 08, 2022

BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

 



A ESTRADA MENOS VIAJADA

Bernardo Pinto de Almeida

Sr Teste, Janeiro 2022

74 páginas


A característica mais expressiva de “A Estrada Menos Viajada”, de Bernardo Pinto de Almeida é a opção que o poeta faz por poemas magros e esguios de verso curto e nervoso, a maioria de género lírico, neste e naquele cindindo a última palavra, obrigando o leitor a optar (“apesar” / “a-pesar”; “acena” / “a-cena”), tal como o sujeito lírico do poema “The Road Not Taken”, de Robert Frost, por um de dois caminhos – uma de duas leituras, um de dois sentidos – ambos válidos, ambos possíveis mas obrigatoriamente como no poema do americano, de escolha exclusiva.

Como na vida. De dentro dessa exígua mancha gráfica, o poeta prossegue o seu conhecido programa de ver, de re-parar nos assuntos da cidade e do amor – a verdadeira força motriz dos recomeços – dialogando com a tradição e com os poetas de eleição através de uma prosódia limpa e de uma dicção aural, aludindo desta vez à pedra no caminho de Drummond de Andrade ou à poesia que existe nas coisas de William Carlos Williams, entre outros.

No poema “A Queda”, por exemplo, socorre-se de um jogo homonímico entre perda de alegria (e a consequente perda de peso) para um apontamento de humor, num livro que é, no restante maioritariamente sério e reflexivo como sucede em “A Porta”, um dos mais importantes textos do livro. A voz que fala de dentro destes poemas recupera numa mão cheia de instâncias, o tema da idade dourada, a infância pura e irrepetível, por oposição à idade adulta tardia, isto é, o topos da mudança de estação na vida; “Lição de Trevas” é uma peça que alude ao Inverno cronológico (“um / ano mais a cair / do calendário, / dessa misteriosa / agenda, ou livro / de horas, a que / chamamos vida.”). O contraste entre estes dois momentos na vida do sujeito lírico – o primeiro trazido pela memória, este vivido no presente – justificam talvez a urgência destes poemas velozes, a ansiedade objectivada através da forma esguia, reflectindo-se nisso a pressa para o que falta viver.

Relê-se agora com outra propriedade a conhecida epígrafe de Robert Frost que abre o livro (“Two roads diverged in a wood, and I – / I took the one less traveled by, / and that made all the difference.” que alude à escolha por ambos os poetas, o americano e o português, pela estrada menos viajada, que ganha aqui para o nosso autor o cunho de um primeiro balanço de vida, à chegada do Inverno. Estrada essa que, pesados perdas e ganhos, fez toda a diferença. Como no caso do amor.


quarta-feira, agosto 24, 2022

SÉRGIO GODINHO

 


PALAVRAS SÃO IMAGENS SÃO PALAVRAS

Sérgio Godinho

Quetzal Editores, Novembro 2021

128 páginas

  

Esquecemo-nos muitas vezes de que a poesia começou por ser uma arte oral, plena de repetição e mecanismos mnemónicos que fixavam Cosmogonias, de civilização em civilização. O mais recente livro de poemas de Sérgio Godinho lembra-nos a cada página como a música pode acontecer na poesia, sem o auxílio externo, digamos assim, de instrumentos musicais.

O ritmo base de um poema pode ser lento ou rápido, ou mesmo colocado em suspenso por pausas, silêncios, espaços em branco, figuras de sintaxe como o polissíndeto que abrandam o verso; estamos no fundo a falar de percussão; pode ser acelerado através da utilização do assíndeto ou de enjambements, por exemplo, que não autorizam que o verso termine no final da linha projectando-o com a ansiedade própria da poesia contemporânea para a linha seguinte, ou reforçando-o com numerosos tipos de repetições como anáforas, gradações, refrões, enumerações, paralelismos. Onde entra então a melodia – que corresponderia à guitarra, ao piano, à voz – sobre este ritmo base que os poetas criam, complementando-o harmonicamente?

A língua portuguesa é extraordinariamente eufónica. Sobre aquela percussão de base sobrepõem-se como elementos harmónicos as figuras de Som e de Harmonia que Sérgio Godinho tanto aprecia e usa como sucessivas aliterações, assonâncias, paranomásias e outros jogos verbais como trocadilhos, onomatopeias, a própria rima. Tudo isso existe neste livro. Dir-se-ia que uma harmonia sonora atravessa a respiração e a pulsação de cada poema, a maior parte das vezes de forma aberta, em versos brancos tantas vezes curtos e ansiosos, ou em versos projectivos que são aqueles com os quais os poetas compõem quando optam por ouvir o seu pulso, a sua respiração.

Tudo isto constituiria já uma experiência de leitura única se ficássemos por aqui. Mas a poesia é também dicção e imagem. De que falam estes poemas? Naturalmente que de um quotidiano que lhe é próximo, ternurento, melancólico, solitário, a tempos hermético e sempre transfigurado. As imagens fotográficas que surgem com os poemas não se substituem às imagens que os poemas criam, antes são o gatilho que cria uma coisa terceira, o diálogo alusivo e complementar entre as duas artes, escrita e fotografia.

O detalhe, a biografia, a geografia e seus lugares, a violência sobre o corpo, a lombada dos livros como coluna vertebral, a sua experiência enquanto músico, a pé ou de comboio, na A23, as viagens. Estes são poemas que a nível imagético retém para si uma dose significativa do enigma e do mistério do mundo, no que não é dito, libertando-os verso a verso como faz um bom contador de histórias, calando uma larga margem para que os complete a imaginação. Um belo livro.


terça-feira, janeiro 12, 2016

LIEKE MARSMAN



LIEKE MARSMAN (Zaltbommel, 1990). Jovem poeta holandesa que começou por publicar poemas na  revista literária Tirade, onde tem um blog e faz tradução de jovens poetas americanos contemporâneos. Em 2010 publicou o livro Wat ik mezelf graag voorhoud (Do que eu gosto de me convencer) que ganhou de imediato três prémios literários, entre os quais o prestigiado Prémio C. Buddingh para melhor estreante de poesia. Em 2014 foi editado o seu segundo livro, De eerste letter (A primeira letra). Ainda numa viagem de descoberta da sua voz, a poesia de Lieke Marsman é acessível, introvertida, sensível e analisa o interior do indivíduo, não descurando o que o rodeia. Os tópicos giram em torno da incerteza e da dúvida, qualquer que ela seja: insegurança social, a infância, questões existenciais, grandes e pequenas dúvidas sobre comportamentos, medos e relacionamentos humanos. Isso repercute-se num eu que interroga, sonha, por vezes analisa. Numa entrevista dada à (também ela) jovem crítica literária Marleen Louter, diz Lieke Marsman: “Um poema meu não é necessariamente um poema sobre a minha pessoa. O início do poema tem a ver comigo, mas depois aumento coisas, escrevo sobre outras pessoas a partir da minha perspectiva”. E, noutra parte da entrevista diz: “É uma espécie de contraste (...) pôr sob a forma de um enunciado bonito coisas que talvez não o sejam na realidade.” Lieke Marsman é considerada uma grande promessa das letras holandesas.
Eis alguns poemas, em mais uma tradução de Leonor Raven.
 
 
ENTRETANTO
Às vezes, somente penso
que devo escrever o mais depressa possível
um conto sobre uma paisagem de neve. Enterrar-me até à relva,
calçada de botas de neve e, escavar avalanches ocas. Se olhar,
conheço os nomes de todas as plantas de cor
sobre elas cantarei em tons de dança
até ficarem de novo a descoberto.
 
Deixarei pedaços da minha úvula no ar,
vazia a minha garganta. Devagarinho, a minha voz
amarrotará estas paredes de neve
até haver tanto lodo
que não conseguiremos caminhar.
 
Ser levada lentamente pela corrente
com as rochas e os ratos, os pinheiros e
os campos, capelas, as imagens da Virgem
que usam os altares como navios.
 
Cantarei tão alto que
o musgo liquefar-se-á.
 
Cantarei tão alto que
a montanha derreter-se-á.
 
Cantarei tão alto que
voltará a ser possível afogarem-se
cavalos no pântano aos meus pés.
 
(De Wat ik mijzelf graag voorhoud, 2010)
 
 
§
 
 
COMO PALAVRAS
Não preciso de pôr um ponto final
a algo que está irrevogavelmente suspenso.
 
Não me devo esconder no rosto de outra pessoa ou
ficar desanimada com isso. Devo projectar algo
que irá descobrir-se ser um mapa, iniciar uma viagem
bela e inesgotável como palavras, como palavras.
 
Não preciso de abrir uma porta
para a deixar entrar.
 
Tão-só fechar uma janela
que ela irá querer arrombar.
 
(De De eerste letter, 2014)
 
 
§
 
 
5
 
Se a palavra angústia começasse pela primeira letra do alfabeto em cada língua
Se eu acordada pensasse que iria despertar de repente
Se eu visse constantemente algo mexer-se no canto do olho,
Sendo contudo sempre uma árvore existente
Se eu tivesse medo de repentinamente começar a pensar que
tudo girava à volta da minha pessoa
Se tudo girasse à minha volta
Se eu esperasse que a minha respiração recuperasse espontaneamente
porque me tinha esquecido que já o fazia, como uma criança
que pensa que vai deixar de ter oxigénio durante o sono
Se eu fosse novamente essa criança
Se eu tivesse medo que a partir de agora o tempo deixasse de passar,
o que me obrigaria a ficar neste momento para sempre
Se me culpasse de ser paradoxal, seria logicamente obrigada
a perdoar-me ao mesmo tempo
Se eu pensasse que de repente o mundo se abriria
Sob a forma de um olho de gato ou de uma vagina:
 
Aqui
ergue-te, abre uma janela
com uma mão que sentes, à vista
de alguém que queres sentir,
no reflexo da janela fechada.
 
( de De eerste letter, 2014)

JANNAH LOONTJES

 
 
JANNAH LOONTJES (Copenhaga, 1974). Filha de um casal de hippies que se mudou pouco tempo após o seu nascimento para a Suécia, dividiu os anos de infância entre esse país e a Holanda, até se mudar definitivamente com a mãe para a Holanda, onde estudou Filosofia da Arte na Universidade de Amesterdão. Depois da licenciatura, estudou Filosofia  em Nova Iorque, na New School for Social Research. Em 2012 doutorou-se em Estudos Literários na universidade de Amesterdão.
Poeta, prosaísta, filósofa, docente de análise literária e de filosofia, Jannah Loontjes publicou em 2002 o seu primeiro livro de poesia intitulado  Varianten van nu (Variações  Actuais) . Em 2006 foi publicado o seu segundo livro, também de poesia, Het ongelooflijke krimpen (O encolhimento inacreditável). Estreou-se como romancista em 2007 com o romance Veel geluk (Boa Sorte),  a que se seguiu  em 2011 o romance Hoe laat eigenlijk (Que Horas São Estas?), muito bem acolhido pela crítica e nomeado para o Prémio Literário Halewijn.  O ano de 2013 foi especialmente frutífero, tendo publicado um livro de poesia Dat ben jij toch (És tu porém) e um conjunto de ensaios intitulado Mijn leven is mooier dan literatuur (A Minha Vida é Mais Bonita do que a Literatura). Jannah Loontjes escreve ainda críticas literárias para vários jornais e revistas de referência, assim como ensaios sobre poesia e filosofia.
Embora o tom usado na sua obra poética seja ligeiro e gracioso, os temas que aborda podem envolver questões tão antigas como a Humanidade; questões existenciais que todos nós alguma vez nos colocamos. Loontjes mostra interesse em compreender o que sentimos, o que pensamos, como reagimos em grupo ou individualmente, e, aquilo que nos torna únicos como seres humanos. Muitas poesias incidem sobre a vivência do indivíduo numa situação concreta, utilizando uma linguagem acessível, a que não faltam os sons nem as cores. A sua poesia é sobretudo uma expressão da sua admiração e curiosidade pelo que nos rodeia.
Em mais uma excelente tradução de Maria Leonor Raven-Gomes, quatro poemas.


§ 


TAMBÉM

Mãos inexistentes segurando coisa nenhuma
zero graus talvez existam,
contudo. O leite também azeda
com a trovoada. Os vulcões têm nomes
permanentes, mesmo se não expelem lava.
O mesmo nome não promete que
sejamos semelhantes. Água e fantasmas
conseguem atravessar muitas coisas.
Consegues ver através de nada? Os fantasmas
vivem, sim e não. Ausente é quando estás
não estando. Às vezes sinto a tua ausência
mesmo estando tu presente. Às vezes estás
sem seres  aquele de quem sinto a falta.
Nem todas as nuvens têm um nome.

(de Dat ben jij toch, 2013)

§


TRASEIRAS

Abro a porta, entro na varanda. Noite.
Nos quintais vestígios de pombos. Neve
que jaz ao acaso. Um gato sob um arbusto
sacode o pêlo, embosca uma sombra. 

A lua descansa sobre um telhado. Cortada por vozes
que cantam. Al Jazeera.
Roupa enregelada pendurada num silêncio de morte.
A camada branca ocupa tudo sem vergonha, faz amizade

com ombreiras pálidas, grades de varandas, antenas parabólicas.
Também eu pertenço aqui. Sozinha. Porém,
rodeada de gente e animais.
Porém e porém. Isto é tão inverno, tão noite
como uma noite de inverno. Aspiro. Cheiro. Lixo.
Humidade. Cozinha. Pêlo de gato.

(de Dat ben jij toch, 2013)

§


PANORAMA

A noite paira sobre a cidade
imóvel como numa fotografia,
um filtro de crepúsculo lilás
granula o panorama,
entranha-o como
folhas de chá
em água a ferver
e descolora  a vida
como algo
numa velha fotografia polaróide
que mais tarde
quando espero esquecer
me irá recordar
flâmulas de paixão
nas quais o teu nome ondula
como um cachecol perdido
em dias tímidos de inverno.

(de Varianten van nu, 2002)

§


ENFADO

Como uma ligadura de gesso
o tempo enrolou-se à volta das
minhas pernas,
nada vejo à minha volta
ou parece que tudo desapareceu.
Amanhã e ontem colocam-me
as mesmas questões
hoje dobra-se entre
o papel empoeirado
de um pesado livro enfadonho
em cima da secretária,
aonde me sento
e sento.

(de Varianten van nu, 2002)

quarta-feira, abril 02, 2014

INGMAR HEYTZE


INGMAR HEYTZE (Utrecht, 16 de Fevereiro de 1970) começou a escrever poesia aos 15 anos. Cursou Linguas e Literaturas Modernas na sua cidade natal, especializando-se em Comunicação. Faz parte de um grupo de escritores e jornalistas da cidade de Utrecht que tem vários poemas espalhados em muros e paredes da cidade, apelidado de Utrecht Maffia. Este grupo reúne-se regularmente em tertúlia no Café-Teatro De Bastaard. Heytze começou a sua carreira de poeta declamando em palco, aquilo a que na Holanda se chama podiumkunst.  No início, notava-se muito a influência dessa forma de fazer poesia: uma poesia de fácil acesso em termos de vocabulário, por vezes ritmada, abordando variados assuntos, mesmo os mais absurdos, a tempos de forma bombástica e, regularmente com um toque de humor. Essa nota de humor é, segundo o próprio poeta, uma maneira de se distinguir dos seus pares e “a melhor figura de estilo que existe. Sem humor não há arte. Em primeira instância é gozar consigo mesmo”, diz ele numa entrevista concedida à revista cultural 8 weekly. Entretanto, a sua obra tornou-se mais madura, embora se continue a observar um certo elemento de surpresa e irreverência, muitas vezes sob a forma de um punch no último verso. Incide actualmente na observação e na análise de situações ou sentimentos. A acção centra-se em Utrecht (cidade que praticamente não abandona por fobia de viajar), tendo sido o primeiro ‘poeta oficial’ da cidade. Em 2008 foi-lhe atribuído o prémio C.C.S. Crone para estímulo a jovens escritores. A obra de Ingmar Heytze é extensa e variada. Além de continuar a escrever poesia e declamar em público, trabalha para vários jornais e revistas como free-lancer, colabora com outros poetas e escritores, e desde 2009 faz parte de uma banda intitulada Asfaltfeeë, na qual também participam mais alguns artistas conceituados.
Os sete poemas que se seguem foram traduzidos do livro Ademhalen onder de maan (Respirar sob a lua, 2011) por Maria Leonor Raven-Gomes, a quem também se deve a nota introdutória. Muito obrigado, Leonor!
 
 
O ÚLTIMO HOMEM A FALAR UBYKH

Por vezes, no decorrer dos últimos meses,
ele pensava numa palavra
e tentava lembrar-se da árvore ou da espécie de sapo
que ela nomeava:
a verdadeira árvore, sapo ou emoção
e não o sinónimo numa outra língua,
a língua que lhe levara os filhos e a luz da montanha,
os túmulos que ele varria e cuidava, as canções dos casamentos.
Enquanto anos de silêncio se conjugavam à soalheira
ele ficava no quintal
e sussurrava o nome de um pássaro
na sua língua materna,
enquanto memórias de neve e dias de feira,
das mãos do seu pai, do odor a tamarindo
se retiravam em palavras puídas:
o azul da infância dobrado como um lençol
e arrecadado.
Nada do que ele dizia era recordado; nada do que fazia
facto ou lenda,
na praça da aldeia.
Contudo reteriam mais tarde a palavra
que disse nessa manhã, pouco antes de morrer:
um nome para a morte, talvez,
ou para a erva dos prados,
ou, surgida à beira do pensamento,
uma outra palavra que havia quando ele era pequeno,
uma palavra raramente utilizada, embora existisse
para tudo o que ninguém conseguia recordar.
John Burnside
 
§
 
PRIMEIRA MEDITAÇÃO

És a única árvore no mundo que recusa
crescer em direcção à luz. Em vez disso enterras-te
com raízes cada vez mais profundas,
camada de terra após camada, tempo passado,
rumo ao calor, e calculas já estar a meio caminho.
Depressa deixas de sentir as toupeiras, minhocas
ou raízes de outros seres, tetra-cego das cavernas
na sua noite infinita. O frio é cada vez maior.
Não sabes se consegues crescer a distância necessária
para encontrares o magma. Estás só, mas a caminho.
 
§
 
LEBRES

As lebres são as mais bonitas, diz ela.
As lebres estão prontas para correr desde que nascem:
patas, olhos e orelhas, tudo funciona desde o início.
Não há animal mais camuflado do que a lebre.
Uma lebre só se veste de prado,
na distância que a separa de ti.
Uma lebre está nua sob o céu.
E os ouriços-cacheiros, pergunto, como são os ouriços?
Os ouriços-cacheiros, diz ela, são míopes, lentos,
sempre a vasculhar nos arbustos, como pequenos trapeiros.
Também são bonitos, mas diferentes, acanhados.
A maneira como eles tentam encobrir
a brandura num forte de espinhos.
Como nunca conseguem
ocultar-se  em si mesmos.
As lebres, diz-me depois de uns momentos,
as lebres são ouriços do avesso.
 
§
 
MARKET MAKER

A única coisa que posso fazer por si, diz o homem
atrás dos computadores, é premir um botão a tempo
porque tudo tem que desaparecer, desaparecer e desaparecer.
E quase ninguém sabe quando é que na realidade
ele preme um gatilho. O passado foi à falência,
o futuro não me interessa; a verdade
flui em números cinzentos pelas minhas retinas,
um piscar de olhos e a próxima apresenta-se.
Os dias não são bons ou maus, vivo indiferente
a onde paro e ao que ponho em movimento.
É assim que eu vejo as coisas: piloto um navio,
o radar pia para onde. O mar? Nunca olhei para ele.
Posso chamar-lhe papá? Tenho biliões de pais e hoje
desapontei-os a todos. Não chore. Prefiro que
me conte uma história para eu conseguir dormir.
 
 
§
 
ÀS VEZES ESTRELAS

Os vizinhos da esquerda, ar reformado
sobre um telhado entre paredes exteriores.
À direita, uma mulher que fala com a televisão
e todas as noites adormece antes das dez.
Debaixo: homem que acorda assustado
se algures alguém abre uma torneira.
Por cima: pombos. De vez em quando uma andorinha.
Às vezes estrelas. Mas mais frequentemente
a trovoada me visita.
 
 
§
 
SEGUNDA MEDITAÇÃO

Alguém te sopra como se fosses um dente-de-leão.
Nua, flutuas no escuro e não sabes –
o que é escuridão, ou luz, ou tu, ou existência.
E no entanto as sementes dançam à tua volta,
filamentos a caminho do nada. Talvez um caia em terra fofa.
A probabilidade de germinar é extraordinariamente pequena,
mas tudo flutua. Tudo junto és tu.
 
§
 
O QUADRO ELECTRÓNICO

Vi-te pela primeira vez debaixo do quadro electrónico.
Que se agitava e movia como uma roda da sorte;
novos horários, comboios extra, locais para onde viajar.
Tinhas ficado à espera, mesmo sem saberes do quê,
disseste-mo essa noite sob as estrelas que
observávamos através da janela do sótão.
Como se o fim estivesse adaptado à forma
contida nele desde o início, veio uma manhã
em que te foste embora. Murmuraste ainda algo
sobre cometas que não sabem onde a trajectória os leva. 
Levei-te à estação. O átrio parecia agora muito maior,
a luz incidia de forma estranha – vi-te pela última vez
debaixo do quadro electrónico, que matraqueava destinos
como se o tempo tivesse ficado suspenso. Olhaste para cima,
escolheste um cais longínquo. A escada rolante engoliu-te.
Ninguém se voltou para olhar para trás.