quarta-feira, maio 24, 2023

ANDREIA FARIA

 


CANINA

Andreia C. Faria

Tinta-da-China, Julho 2022

96 páginas


 

Como o leitor já certamente notou, não constituem estas notas crítica literária mas somente pequenas conversas sobre livros. Ou, se quisermos, breves notas sobre poéticas. O aspecto que me parece mais característico da poesia de Andreia C. Faria – e que a torna, de entre as autoras novíssimas, a mais próxima de Herberto Helder – é o facto de ser, na essência, uma poética de imagens.

 

Imagens de todo o tipo, naturalmente: imagens literais, imagens perceptuais mas, sobretudo, imagens conceptuais, o que faz desta uma poesia de difícil compreensão, dado que este tipo de imagens – que se constitui, como se sabe, de símbolos que podem ser universais ou privados – é feita, quando falamos de poesia, de signos frequentemente pessoais (atente-se ao caso de W.B. Yeats), o que por si só é passível de trazer dificuldades adicionais ao leitor.

 

Esta impressão de inacessibilidade que este género de poética transporta – porque exige bastante mais do leitor no processo da leitura (“deixando em quem te lê alguma coisa / florescer”, nota a poeta) – deverá, ao invés, ser tomada como um desafio, um ponto de partida que não sendo de todo complexo no que às imagens literais (“a ferrugem num portão / aberto em frente ao mar”) ou às imagens perceptuais diz respeito (por exemplo, a sinestesia “a rouca violência de um pavio” ou o símile “Nada rectifica a noite como andar de caravela pela insónia”), já quanto às imagens conceptuais reveste-se de um maior grau de dificuldade no momento de as tentar materializar (“o porte mudo e aromático de um coração”).

 

Mas deveremos, enquanto leitores, tentar materializar um símbolo? Dirá o leitor (vindo das ciências, por exemplo) que um coração não só não tem um porte mudo, como não possui um aroma agradável; que aceitar a imagem de um coração proposto nestes exactos termos é dar um salto de aceitação – uma suspensão de crença – que o leitor de poesia pode não estar disposto a dar. Ora, na poesia de ímpeto expressionista (e na poesia simbolista), a dita suspensão de crença funda-se na plena aceitação à priori de que qualquer justaposição de imagens – e por maioria de razão, de sons – que o poeta nos proporcione é válida, e é a sua. Um símbolo é uma imagem que transporta conotações (por vezes múltiplas) para dentro do poema.

 

Na maior parte das vezes agreste, num processo que visa plasmar a inquietação e a inconformidade da persona que fala nestes textos, esse processo inicia-se este livro desde cedo pelo símbolo do cão recrutado para título, não exactamente o cão-biológico mas o cão-comportamento, o cão-adjectivo, transportador das inúmeras características que, do animal, são passíveis de ser transferidas para o humano. A condição humana (e feminina) vista pelos olhos da condição canina. Nesse sentido, a fruição dos versos que aqui se propõe destina-se a ser efectivamente física, hiperbólica, feroz, múltipla sendo o leitor convidado a percepcionar essa visão cumulativa de imagens que é a visão da persona que fala nos poemas. “É a quotidiana paz possível, / o modorrento real, absoluto”, escreve a autora. Num tom elíptico e crestado, os poemas recrutam imagens do subconsciente de quem se exprime (“Escrevo as coisas que das mãos / me caem, rachadas e celestiais.”), através de uma linguagem inquieta, ricamente alusiva, marcada por uma dicção deliberadamente agreste e de sinal negativo (cf, logo no primeiro poema, “canina”, “devassa”, “lanhos”, “arroubo”, “ladra”, “indigesto”), linguagem essa que se por instantes é passível de causar rejeição (por não ser agradável, e é essa mesmo a intenção), aparece mesclada por tons de coloquialidade (“Come e dorme com regalo, / pela tarde beberica”), o que tem como efeito final reaproximar o leitor, e levá-lo com a oralidade que contém.

 

Curiosamente, mais adiante na obra, a autora parece que se antecipa a esta visão e responde-nos, leitores, com uma versão mais branda da sua voz: em “Mudar de luz”, os poemas são mais curtos e desenvolvem-se através de uma sintaxe mais clara e menos elíptica, não variando o tema significativamente; e na terceira parte, a dicção procura deliberadamente a “Beleza suficiente” (título) em peças de prosa poética onde a dicção é menos agreste. Porém, no conjunto da obra, esta é uma voz que dá e tira, que afasta e aproxima, que atinge e afaga, recusando o apaziguamento, deixando claro desde cedo que existe um avesso para o lado menos ferido da vida (“Quem dera à linguagem a nobreza fria, / afundada, do excremento, / Ela existe como coisa ferida”). O que faz de Andreia C. Faria uma das vozes mais inconfundíveis da actual poesia portuguesa.

 

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