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domingo, março 14, 2010

PEDRO PAIXÃO acerca de LUÍS DE CAMÕES


«O que mais gosto neste poema», diz
Pedro Paixão ao Poesia Ilimitada, «é o que mais aprecio em qualquer poema e na literatura em geral: conjuga sublimemente a verdade com a beleza. Todos os grandes poemas e canções de amor, de que este é um excelente exemplo, são tristes e tingidos de melancolia, porque o amor promete o que não pode: durar eternamente.»



Quem ora soubesse
Onde o Amor nasce,
Que o semeasse!


De Amor e seus danos
Me fiz lavrador;
Semeava Amor
E colhia enganos;
Não vi, em meus anos,
Homem que apanhasse
O que semeasse.


Vi terra florida
De lindos abrolhos,
Lindos pera os olhos,
Duros pera a vida;
Mas a rês perdida
Que tal erva pasce
Em forte hora nasce.


Com tanto perdi,
Trabalhava em vão:
Se semeei grão,
Grã dor colhi.
Amor nunca vi
Que muito durasse,
Que não magoasse.



Pedro Paixão
nasceu em Lisboa em 1956. Estudou em Lisboa, Lovaina e Heidelberga. Doutorou-se aos 29 anos. Foi co-fundador do jornal O Independente. Fundou, com Miguel Esteves Cardoso, a empresa de publicidade Massa Cinzenta. Publicou vinte livros de ficção e dois álbuns de fotografia. Escreveu dois textos para teatro e um para ópera. Não é membro de qualquer associação, clube, partido ou igreja. Nunca votou. Praticou Karate Do. Nada no mar quase todos os meses do ano. Tem um filho. É casado pela quarta vez. Vive em Santo António do Estoril.

domingo, agosto 06, 2006

LANDEG WHITE

LANDEG WHITE nasceu no sul do País de Gales em 1940 e - pelo que me posso aperceber - vive em Portugal desde 1994. Passou a infância entre Cheshire, Glasgow e Hertfordshire, tendo-se formado na Universidade de Liverpool. Foi professor em Trindade e Tobago, no Malawi (onde conheceu Maria Alice, sua esposa), na Serra Leoa e na Zâmbia. Em 1989 regressou a York, no Reino Unido, onde foi director do Centro de Estudos Sul-Africanos, tendo em 1994 chegado a Portugal, onde lecciona actualmente na Universidade Aberta. Publicou sete livros de poemas, bem como uma rara tradução para o inglês, já premiada, da obra maior de Luís de Camões, “Os Lusíadas”. Confesso que não me tinha cruzado com a existência deste poeta britânico de 66 anos até Junho deste ano, a pretexto de uma estadia em Praga, quando durante uma daquelas intermináveis esperas no Aeroporto de Frankfurt, para grande surpresa minha deparei com uma versão do poema de Camões “Aquela Cativa”, no The Times Literary Supplement de 9 de Junho. Aí se dava grande destaque à sua versão "from the Portuguese of Luis de Camões", “On the Slave, Barbara”. Aqui segue na integra, com a devida vénia, por curiosidade:



ON THE SLAVE, BARBARA

This slave I own
Who holds me captive,
Living for her alone
Who scorns to live,
I never saw woven
In bright bouquets
One dog rose lovelier
To my gaze.

The flowers in the field,
And the stars above
In their beauty, yield
To my love.
Distinct in feature,
Eyes dark and at rest,
Tired creature,
But not of conquest.

Here dwells the sweetness
By which I live,
She being mistress
Of whom she is captive.
Her hair is raven,
And the fashion responds,
Forgetting its given
Preference for blonde.

Love being Negro
At so sweet a figure,
The blanketing snow
Vows to change colour.
Gladly obedient
And naturally clever,
This may be expedient,
But barbarous never!

Quiet presence
That silence storms,
All my disturbance
Finds peace in her arms.
This is the vassal
Who makes me her slave,
Being the muscle
That keeps me alive.



Sem pretender - nem ousaria - tirar mérito à tradução de Landeg White (que saudo...), aí se prova o bastante que as dificuldades com que deparamos ao tentar verter para português poemas de língua inglesa, são naturalmente as mesmas com que poetas e tradutores daquele idioma se deparam ao tentar resgatar para a sua lingua textos originarariamente escritos na nossa. Tive recentemente oportunidade de participar num animadíssimo colóquio na Feira do Livro do Porto com os excelentes Manuel António Pina e Pedro Mexia, moderado pelo jornalista e (deixem-me insistir nisto) poeta Luís Miguel Queirós, em que o desafio que nos era proposto era, na esteira de Derrida, que esgrimissemos acerca do que é isso da poesia. Uma das “definições” que maior consenso reuniu foi a do poeta americano Robert Frost (1874-1963) quando escreveu isto: “poetry is what is lost in the translation”. Percebo bem o que Frost queria dizer. Poesia é, antes de mais, coisa de linguagem... Bem poderia o americano, acaso fosse vivo, vir aqui colher amparo que corroborasse a sua definição. É que na versão inglesa de Landeg White, por competente que seja - e é, - também se perde alguma coisa. Perde-se, por exemplo, poesia, quando o galês é obrigado a abrir mão do imperecível jogo de palavras com que o génio de Camões imortalizou os dois primeiros versos do seu poema na versão original:


"Aquela cativa
que me tem cativo…"