Onésimo Teotónio de Almeida dá-nos conta, ao almoço, da luta inglória que
Annie trava para que
Eduardo Lourenço deixe de coleccionar pirâmides e pirâmides de recortes de jornal, alegando ter de voltar a eles para os arquivar, o que acaba por nunca acontecer. Conta
Onésimo que
Annie resolve a coisa da seguinte maneira: deixa que
Eduardo saia para Portugal e, de quando em vez, das pirâmides de recortes semeadas pela casa, elimina as três ou quatro camadas de baixo de modo a que
Eduardo, no seu regresso a Vince, encontre sempre no topo das pirâmides aqueles que a sua memória recente lhe convoca, não dando imediatamente pela falta dos mais antigos. «
Se calhar foi assim que desapareceram os diários», ironiza
José Carlos de Vasconcelos.
A memória de
Onésimo é feita deste mosaico de fragmentos, prodigiosamente justapostos, onde colecciona humor e intelecção. Para
Onésimo, tudo pode ser crónica, como para
William Carlos Williams tudo podia acabar em verso.
Onésimo interpela agora
Luís Ricardo Duarte pelo facto de os participantes mais novos das
Correntes «
não ligarem nada aos tipos com mais de 40 anos, como eu», ao preferirem juntar-se numa mesa à parte, quer ao almoço quer ao jantar. O que não é, de todo, verdade. Esse é somente o
pré-texto de que
Onésimo necessita para nos arrancar mais um sorriso, com o interminável gesticular de dedos que tem vindo a aperfeiçoar desde 1946: «
Uma chatice, eu ter feito agora 41».
É ele o
roubador de sorrisos a quem as
autoridades da Póvoa sempre entregam a chave da última mesa para que
Onésimo feche as
Correntes com uma eficácia anglo-saxónica: «
Gosto sempre de preparar a minha palestra para as Correntes
com muita antecedência. Aquilo que vou dizer logo à tarde, por exemplo, é já a palestra do ano que vem».
Póvoa de Varzim, 25 de fevereiro de 2012
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