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sábado, abril 07, 2012

Meter conversa (8)

Breve nota a não esquecer: convidar o Rui Manuel Amaral para um café no Marquês, e propor-lhe estas palavras: «O nariz de Paul Gaughin seria o sítio ideal para Vincent van Gogh ter dado uma dentada.
Mas não aconteceu nada
».

Ah, sinto que poderia escrever este diário para sempre.

Leça da Palmeira, 1 de março de 2012

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Diário publicado na última página do Jornal de Letras n.º1082, março 2012

sexta-feira, abril 06, 2012

Meter conversa (7)



Desde que o meu pai faleceu, o Jorge Sousa Braga liga-me todas as semanas. É um facto que já o fazia antes de aquele dia me ter acontecido, mas actualmente faz questão de me ligar todas as semanas. O poeta com quem partilho o Poesia & Lda é, com o meu irmão, um dos meus melhores amigos, um daqueles raros brindes com que a vida nos surpreende, o podermos privar com pessoas de ética irrepreensível, como era o Egito Gonçalves que tanta saudade deixou.

A única vez que nos zangamos foi por causa de uma doente comum. Antes tivesse sido a poesia, já que a zanga provavelmente teria durado menos tempo. Embora, por outro lado, tivesse sido a poesia, e dificilmente teríamos estado tanto tempo de costas voltadas; não só usamos frequentar a mesma família de poetas, como há mais de duas décadas que ele cuidou de me ensinar não ser a poesia um campeonato, embora persista quem assim pense, antes uma corrida no deserto, e isto já sou eu quem o diz: ninguém sabe onde é a partida, sequer onde fica a chegada, mas muito pior do que isso, o caminho não está marcado.

Foi a única altura em que as palavras se esgotaram entre nós. Até que me fartei do silêncio e pedi ao Manuel António Pina, o favor de mediar o mal-entendido. Ninguém melhor que um poeta podia encher de palavras, o silêncio de poetas mudos.

Leça da Palmeira, 1 de março de 2012

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terça-feira, abril 03, 2012

Meter conversa (6)


Um dos momentos altos das Correntes, no que à confraternização gastronómica diz respeito, foi o jantar no Zé das Letras com a minha editora Lúcia Pinho Melo, as Margaridas Ferra e Vale de Gato, e vários outros amigos. Já no final do jantar, o Bruno e a Marta Serra encheram-se de razões, encetando um cotejo de predicados políticos da esquerda e da direita, no que a Valores diz respeito, num gesticular amável mas não menos decidido que se prolongou pelo doce, pela fruta, pelo café, pelo cigarro fumado à entrada, pela calçada, pelo parque, pelas ruas da Póvoa de Varzim.

Ao terminar o e-mail que hoje lhe dirigi, resolvi provocar o Bruno Vieira Amaral, perguntando-lhe se ele e a Marta, de regresso a Lisboa, ainda estavam a gesticular o assunto. A resposta pronta do Bruno não me fez esperar: «[Aquilo ainda se] prolongou por mais um pouco, mas a Marta acabou por me convencer de que eu tinha razão».

Vila Nova de Gaia, 27 de fevereiro de 2012

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domingo, março 25, 2012

Meter conversa (5)

Desde janeiro passado, sempre que atravesso de carro o tabuleiro da ponte da Arrábida, lembro-me do poeta Rui Costa. Nós não éramos amigos mas apenas conhecidos, não nos teremos cruzado mais do que uma mão cheia de vezes, a mais demorada das quais no encontro com poetas Galegos que o António Costa organizou. Mas recordo um rapaz alto, muito activo, bem-parecido, para quem a poesia não era um passatempo marginal, antes uma razão de viver, um modo de estar nos dias. A circunstância da sua morte, o ter aparecido no rio, levaram-me a escrever um poema que não fui capaz de terminar.

Algo que sucedeu hoje numa súbita epifania, ao cruzar de novo a ponte lembrando um paradoxo de Zenão. Que bom seria, Rui, se o Paradoxo do Estádio fosse mesmo verdadeiro: «É impossível atravessar o estádio; porque antes de se atingir a meta, deve primeiro alcançar-se o ponto intermédio da distância a percorrer; antes de atingir esse ponto, deve atingir-se o ponto que está a meio caminho desse ponto; e assim ad infinitum».

Sem nunca tocar as águas, Rui, sem nunca chegar ao chão.

Vila Nova de Gaia, 27 de fevereiro de 2012

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sábado, março 24, 2012

Meter conversa (4)

Distracção, num poeta, é deixar acabar a reserva de cargas de tinta permanente da caneta favorita. Imprudência é sair de casa sem um caderninho no bolso. Não porque tenha por hábito obrigar-me a escrever um poema por dia, antes por ser imperioso ter um sítio onde escrever, se o acaso aparece com um verso que vale a pena:

«Se adormeces a meu peito o / meu braço adormece primeiro».

Leça da Palmeira, 26 de fevereiro de 2012


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sexta-feira, março 23, 2012

Meter conversa (3)

Precisamos de estar mais atentos ao que escrevem os políticos em início de carreira. Os indícios estão lá todos. Gonçalo M. Tavares surpreende a plateia ao recuperar extractos dos escritos de Adolf Hitler, onde o putativo ditador lamentava os gastos da sociedade alemã com a saúde dos seus próprios deficientes. A provocação do Gonçalo é demasiado clara para não ser entendida, e em tempos de austeridade com regras vindas da Europa, só não a entende quem não quiser entender: «Degrau a degrau, o mundo contabilístico vai-nos tirando direitos».

Companheiros de ofício, desde há algum tempo conhecidos, sento-me a lanchar com ele enquanto me autografa três livros da série «O Bairro» que acabo de comprar. E percebo que o incomoda que eu os tenha comprado, que tenha gasto dinheiro com ele, não ter consigo exemplares para me oferecer, tanto quanto o incomoda que me tenha levantado para lhe oferecer o sumo com que devolvo humidade, a uma boca onde sobra humildade.

Tanto jovem turco irrompe pisando memória e tradição, que chega a ser desconcertante que a grandeza do Gonçalo não esteja apenas na obra que entretanto construiu, sequer num olhar profundo onde abunda intelecção, quanto na consciência que tem de que faça o que vier a fazer, chegue onde tiver de chegar, jamais deixará de se ver como um «anão aos ombros de gigantes».


Póvoa de Varzim, 25 de fevereiro de 2012



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quinta-feira, março 22, 2012

Meter conversa (2)

Onésimo Teotónio de Almeida dá-nos conta, ao almoço, da luta inglória que Annie trava para que Eduardo Lourenço deixe de coleccionar pirâmides e pirâmides de recortes de jornal, alegando ter de voltar a eles para os arquivar, o que acaba por nunca acontecer. Conta Onésimo que Annie resolve a coisa da seguinte maneira: deixa que Eduardo saia para Portugal e, de quando em vez, das pirâmides de recortes semeadas pela casa, elimina as três ou quatro camadas de baixo de modo a que Eduardo, no seu regresso a Vince, encontre sempre no topo das pirâmides aqueles que a sua memória recente lhe convoca, não dando imediatamente pela falta dos mais antigos. «Se calhar foi assim que desapareceram os diários», ironiza José Carlos de Vasconcelos.

A memória de Onésimo é feita deste mosaico de fragmentos, prodigiosamente justapostos, onde colecciona humor e intelecção. Para Onésimo, tudo pode ser crónica, como para William Carlos Williams tudo podia acabar em verso. Onésimo interpela agora Luís Ricardo Duarte pelo facto de os participantes mais novos das Correntes «não ligarem nada aos tipos com mais de 40 anos, como eu», ao preferirem juntar-se numa mesa à parte, quer ao almoço quer ao jantar. O que não é, de todo, verdade. Esse é somente o pré-texto de que Onésimo necessita para nos arrancar mais um sorriso, com o interminável gesticular de dedos que tem vindo a aperfeiçoar desde 1946: «Uma chatice, eu ter feito agora 41».

É ele o roubador de sorrisos a quem as autoridades da Póvoa sempre entregam a chave da última mesa para que Onésimo feche as Correntes com uma eficácia anglo-saxónica: «Gosto sempre de preparar a minha palestra para as Correntes com muita antecedência. Aquilo que vou dizer logo à tarde, por exemplo, é já a palestra do ano que vem».


Póvoa de Varzim, 25 de fevereiro de 2012

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Meter conversa (1)


Surpreendo o poeta Jaime Rocha ao estender-lhe uma folha amarelecida arrancada a um bloco de notas, onde alguns meses antes eu havia pedido a Hélia Correia para repetir por escrito algo que a ouvira dizer na sessão de homenagem a Maria Helena da Rocha Pereira na Feira do Livro do Porto, e que desde então me tem acompanhado como um refrão: «A erudição é uma aprendizagem; a sabedoria é um triunfo».

Jaime fita o papel, enternecido, estudando a caligrafia a castanho bordada pela sua namorada, com o exacto olhar com que ambos fitaram há alguns meses atrás, em Inglaterra, o único manuscrito conhecido de Dante Gabriel Rosseti recuperado da tumba de Lizzie.

Para além de excelente poeta, Jaime Rocha é uma excelente pessoa. O seu rosto transmite uma tal tranquilidade e sabedoria, uma gentileza e generosidade que me faz lamentar repetidas vezes apenas o reencontrar uma vez por ano nas Correntes d’Escritas, onde sempre partilha histórias singulares como a daquela vez em que um repórter fotográfico procurou Hélia, em Janas, para onde o casal foge ao fim-de-semana, com o intuito de a fotografar para uma edição do Expresso, e incomodada pelo intenso calor capaz de gerar fotofobia, viu Jaime correr para a sombra e para gáudio do fotógrafo, com a mangueira da rega estreitada na extremidade, inventar a chuva com que aspergiu a gabardina que a helenista exibe nas páginas do semanário, num certo dia soalheiro tornado gris.

Impaciento-me enquanto Jaime não me devolve o manuscrito que obtive de sua namorada. Tampouco me ofereço para lho oferecer. Desses pode ele pedir lá em casa quantos quiser.


Póvoa de Varzim, 25 de fevereiro de 2012


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