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segunda-feira, setembro 25, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (15)

(esta sequência de posts deve ser lida começando no fim da página, do último - que é o primeiro - para cima)

Setembro 25, Terça-feira, Dia 15


9 h 05 m
Completou-se mais uma semana. A vida regressou à vida. Por uma incrível coincidência veio-me hoje parar às mãos, o jornal de há quinze dias.
Na noite do dia 10 jantara em East Village, levado pelo Jorge Colombo ao restaurante habitual de Ginsberg.
A capa do jornal desse dia trazia desporto e moda:
"Hewitt wins US Open". "Fashion Spring 2002".
Cotejo-a com a do jornal de hoje, quase notícia a notícia. Os METS regressam à capa e dentro desfila Anna Sui.
A normalidade já espreita.


18 h 10
Ainda Mychael Judge, nas primeiras fotografias, transportado por quatro homens, o semblante já sem vida.
Em lado nenhum da legenda ele surge identificado. Chamam-lhe "man" ou "victim".
Morreu como Homem, desconhecido. Já havia uma história assim.


18 h 40 m
Foram recolhidos os itens do memorial de Union Square. Nascerá com certeza um museu para tudo isto.
Deixo ficar o desenho que a Francisca enviou. A bandeira americana, em cores alternativas.
Acendo uma última vela pelos queimados da unidade. Cinco deles, os mais graves, juntaram-se aos desaparecidos.
Uma vela pelos queimados. Violenta ironia.


19 h 40 m
Os homens da construção recusam-se a regressar. Preferem ficar em Downtown, debulhando por vidas. Finalmente visito esse fumo que sobe como um vulcão.
Uma úlcera na cidade. Uma úlcera sem vida.
O rendilhado em cinzas é a filigrana do medo.
E há esta coisa estranha, porque arde mas é fria. Um esqueleto fantasma, imóvel, sobre as ruínas.


23 h 15 m
Não escreverei mais estas linhas. Abandono a tinta preta pelo décimo quinto dia.
Estar aqui é muito estranho. Demasiado, diria.
Que não ergam as torres de novo, é o meu último desejo. Perguntassem-me isso agora, era tudo o que eu diria. A ausência é a melhor lembrança. É a presença, no vazio.


João Luís Barreto Guimarães, Nova Iorque, Setembro de 2001.

domingo, setembro 24, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (14)



Setembro 24, Segunda-feira, Dia 14


16 h 55 m

Faço uma festa a um cão, à saída da Deli. Traz a coleira ao pescoço com as cores americanas.
"É um herói", informa o dono. "Esteve quatro dias sozinho, fechado em Batery Park. Só então foi salvo pela polícia."


17 h 20 m
O oriental que há semanas vendia massagens e incenso, propõe agora camisolas “I survived the attack”.


17 h 46 m
O cartaz que o rapaz segura oferece-nos "FREE HUGS".


23 h 45 m
De novo, a televisão. Retenho a plasticidade da língua:
And all those Heroes and Sheroes..."


23 h 58 m
Durmo com o televisor aceso.

sábado, setembro 23, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (13)


Setembro 23, Domingo, Dia 13


9 h 23 m

De novo, em Greenwich Village. Ainda se vê pelo chão a cinza de papéis queimados.
A nossa bandeira lá está. E o mesmo grupo de boémios, em contínua jam session.
A Village é dos estudantes. Já foi mais dos artistas. Em todo o caso é um oásis, no mapa de Nova Iorque. Edward Hopper viveu aqui.
Muitos fugiram para a Village na manhã do ataque:
"I couldn't see anything, didn't know where the fuck where I was going. I just wanted to get away from any capitalist shit anyone would want to boom. I figured the Village was safe."


19 h 15 m

Esforço-me por compreender o jogo que os prende ao ecrã.
Lou Albanese, ao balcão, incentiva os jogadores. O televisor da pizzaria regressa às imagens antigas, distintas das que passaram a toda a hora, em refrão.
Um jogador em corrida ganha um ponto difícil. Todos os comensais festejam, inquirindo a minha distracção.
Meu polegar, ignorante, rejubila.


23 h 50 m
A Francisca faz anos amanhã. Nunca quis tanto abraçá-la para poder devolver alguma pureza ao mundo.

sexta-feira, setembro 22, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (12)


Setembro 22, Sábado, Dia 12


8 h 50 m

Na East Side Bagel, um casal e a filha, de preto.
Eles, pelos cinquenta. Ela, jovem, nos trinta.
Ao entrarem pára a conversa. O remate é em surdina. Só regressamos à voz quando abandonam, servidos.
As prioridades mudaram, entre ânimos e recuos. Como se perante a morte, tivéssemos pudor de estar vivos.


9 h 25 m
Doug I. era banqueiro. Kristen L. professora de inglês. Durante anos foram utentes da mesma linha de metro. Ela entrava primeiro e lia o jornal da manhã. Doug sentava-se à frente, vendo as notícias do verso.
Não falaram até ao dia, quatro anos volvidos, em que ele, ao sair, lhe agradeceu a leitura. Iam casar em Dezembro.
( Lua-de-mel, no Hawai.)


18 h 05 m
Vai um cortejo fúnebre a toda a largura da rua. Avança silencioso, em contra-direcção. Ao todo, três sorrisos.
Fico ligado a este chão. A estes cortejos sem corpo.


23 h 55 m
Demasiado escura, a cidade.
Há um globo de luz que sobe, sob Downtown. Onde há gente a escavar. À procura de um milagre.

quinta-feira, setembro 21, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (11)

Setembro 21, Sexta-feira, Dia 11


8 h 15 m
Aquilo que nos é distante não nos toca da mesma maneira. No mínimo não nos afecta tão profundamente.
Eu próprio o constato agora, lendo o U.S.News, ao avançar sistematicamente os parágrafos sobre o ataque ao Pentágono.


8 h 25 m
Logo pela manhã, as imagens. Uma vez mais a tragédia.
Para ajudar a acreditar. Assegurar que não é filme.


17 h 50 m
Na representação diplomática, junto das Nações Unidas, Líbia, Iraque e Argélia drapejam a haste inteira.
Até aqui não sabíamos bem quem era o inimigo. Agora ficamos a saber verdadeiramente quem são.


22 h 35 m
É uma lista interminável, a dos rostos desaparecidos. Quase toda a gente por aqui perdeu um seu conhecido.
As famílias desejam que sejam para sempre lembrados. A palavra “missing” nos posters, vai sendo trocada por despedidas.

quarta-feira, setembro 20, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (10)


Setembro 20, Quinta-feira, Dia 10


8 h 35 m
A face de Mohamed Atta, na capa do Daily News, tem a perversidade e o condão de atribuir um rosto ao mal.


15 h 00 m
Muito e muito se tem escrito sobre a actuação de Bush. Fugindo, no seu próprio país, a bordo de um avião perdido. Alguns senadores criticaram Karen Hugues, da Casa Branca:
"We didn't need her to tell us he was safe; we needed him to tell us we were safe".
Não desgosto do presidente, ainda mais de Colin Powell, e também julgo que Bush saberá “rise to the occasion".
Mas o novel herói político é o Mayor nova-iorquino. Nas primárias de Nova Iorque, desta vez terá de ficar de fora.
Há quem pretenda inscrevê-lo, à mão, no boletim.


15 h 25 m
Esta geração de crianças já teve o seu cogumelo.

A Doutora Carol N., M.D. em Psiquiatria:
"Esta tragédia vai afectar o modo como nos relacionamos com os nossos filhos e os preparamos para o mundo. Acabou essa ideia de que os conseguimos manter afastados dos horrores. Em vez disso, passaremos a ser honestos com eles, dizendo que os perigos e as coisas más acontecem. Reconheceremos que a melhor maneira de proteger as crianças é ensinar-lhes esta realidade."

(A Francisca enviou um desenho pelo correio: a bandeira “de Nova Iorque”. Perguntou insistentemente se aquele não era mesmo o meu prédio.)

terça-feira, setembro 19, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (9)


Setembro 19, Quarta-feira, Dia 9


20 h 45 m

A perspectiva que se tem aqui sobre o que ocorreu há uma semana atrás é provavelmente muito diferente da do resto do mundo. O que verdadeiramente importa para quem vive a cidade são as histórias pessoais e cada um dos dramas vividos. Aquele funcionário da Cantor Fitzgerald, por exemplo, está vivo para contar que o vício matinal o atrasou para um último cigarro; as duas colegas, melhores amigas entre si, não: faleceram separadas, cada uma a bordo de um dos voos desviados.
Por mais que o mundo reaja, temos aqui uma cidade parada. Como uma página suspensa, a vontade estagnada.
Porque há gente desaparecida. Não é morta: é desaparecida.


21 h 10 m
Leio jornais on-line, no Memorial.
Enquanto a Europa se esforça por entender a situação, na vida nova-iorquina ainda não houve alma para tanto. Reconhece-se o engenho pérfido dos terroristas. Percebe-se que a acção terá sido auto-financiada.
Mas para já não há muito tempo para doer isso. Porque a dor maior é aqui. A perda maior é aqui.


21 h 40 m
Hoje, depois do bloco, desci com Pablo a Union Square, para visitarmos outro memorial às vítimas. Tal como em Washington Square são incontáveis as bandeiras, os apelos, os poemas, desordenadamente arrumados por entre ramos de flores.
Reparo que a vingança não é o tom mais inscrito. Antes, a reprovação e a revolta, que se recriam na ironia:
"New York City is the closest to paradise that any terrorist will ever get".


22 h 00 m
Começo, pelas piores razões, a reconhecer algumas vítimas. Encontro-as por todo o lado. Como se fossemos conhecidos.
Scott O'Brien, por exemplo, parece ser um tipo bem divertido. Aliança a brilhar no dedo, idade à volta dos trinta. Trabalhava no 101º piso. Conheci-o em Canal Street.
Mary Lou Hague, da Keffe, Bruyette & Woods, face de porcelana, cabelo castanho curto. Teria pouco mais de vinte. Cruzei-me com ela na Broadway.
Ninguém sabe de Laura Rockfeller. Foi vista no último piso.
Eu não esqueço um rosto belo: estava ontem na Village.

segunda-feira, setembro 18, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (8)

Setembro 18, Terça-feira, Dia 8


8 h 10 m
A capa do jornal de ontem, preenchida de nomes e apelidos. São bombeiros e polícias e autoridades portuárias. Cresce entre todos a ideia de que foram mesmo heróis.
E há nomes familiares: Acevedo e Ferrera, Bareto e Maldonado.
As sanduíches enviadas por anónimos para o Ground Zero levam inscritas no invólucro declarações de amor.


8 h 25 m
Cada página de jornal tem uma história para contar. A do Capelão Mychael Judge é assaz impressionante. Na manhã do acidente desceu com os seus bombeiros e viu um deles morrer, atingido por um corpo em queda. Retirou o seu capacete para lhe ministrar os ritos, quando foi atingido na nuca por um bloco de cimento.

(No Saint Vincents Hospital)
Debbie S. entrou de urgência com a perna em muito mau estado. Foi proposta a amputação.
Mas está por ali casualmente um cirurgião plástico, como voluntário.
“Acho que lhe consigo salvar a perna”.
É-lhe dada autorização para operar, não sendo do hospital, e ele fica a tarde toda no bloco. No final da cirurgia, parte sem se identificar.
Cá fora o noivo dela não cabe em si de contente:
"O sonho da sua vida era o baile do casamento."


16 h 32 m
Espalhados pela calçada, à frente das lojas de classe, homens da construção civil gozam a hora do almoço.
Estamos na Madison Avenue e regressaram ao trabalho por excesso de voluntários, depois de uma semana de buscas lá adiante, em Downtown.
Deleita-os o mundo feminino. Impressiona a imperfeição de seus corpos robustos e sujos, ante a fugaz aparição de uns pézinhos delicados.
Ninguém os põe fora dali. Vêm oferecer-lhes bebidas.


21 h 15
Melanie Y., 37 anos, editora na New York One:
I’m just starting to put faces on what happened”.

domingo, setembro 17, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (7)


Setembro 17, Segunda-feira, Dia 7


8 h 30 m

A cidade acordou, uma vez mais, de americano. Jasper Johns ficaria por certo agradado.
Erguem-se por todo o lado. Bandeiras em cada montra, nas antenas dos carros, nas t-shirts das senhoras num nacional minimalismo.
O atentado de terça não as apanhou desprevenidas: a Moda, uma vez mais, provou o seu vanguardismo.


8 h 50 m
No vestiário do bloco, um árabe-americano responde a uma provocação:
"Se vão mandar o meu povo para casa, vão ter que mandar a minha família para casa. And where is my home, exactly?"


17 h 10 m
As ironias não se perdem.
Na véspera do atentado, Tom C. entrevistou um corrector de Wall Street:
"Jim, este é o pior mercado que já vi. O que é que realmente lhe poderia dar a volta?”
James C., experiente:
War."


19 h 55 m
Leio, durante o jantar.
"À porta da mesquita Masjid Al-Farooq, em Atlantic Avenue, uma citação do Corão gravada numa placa de ferro: ‘May Allah expose the wrong doers and bring them to justice, no matter who they are’."
Uma guerra. Esta guerra.
(Nunca tinha estado dentro da guerra.)

sábado, setembro 16, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (6)


Setembro 16, Domingo, Dia 6


13 h 55 m
O Cardeal Edward Egan, na Catedral de Saint Patrick:
“Muitos de vocês devem estar a perguntar-se onde estava Deus quando tudo isto aconteceu? Pois eu digo-vos onde está Deus: Deus está onde sempre esteve.”
A catedral está repleta.
"Nas mãos daqueles homens que estão em Downtown a escavar; no patrão que morreu porque não quis deixar os seus para trás; nas velas que vocês teimam em não deixar apagar; no Capelão Mychael Judge que os guiou na última viagem. É aí que encontram Deus. Na caridade e altruísmo. Por estes dias temos visto Nova Iorque no seu melhor. Nunca a nossa comunidade tinha sido tão corajosa e tão nobre."
O Cardeal Egan rebaptiza o Ground Zero, em Ground Hero.


14 h 25 m
Almoço um cachorro quente, à saída da missa:
"Aqui tem, sir. São dois dólares."
Estranho a subida de preço.
"Costumava ser um dólar e vinte cinco."
"Well, sir, today it’s two dollars."
Abro mão de uma nota gémea:
Keep the change in your conscience."


17h 05 m
Em Greenwich Village, para o Círculo do Silêncio. Centenas de nova-iorquinos estão em Washington Square. Numa vedação de arame, erguida em redor do arco, fotos, bandeiras e flores, velas, posters e poemas ergueram um memorial. Um pouco mais adiante, em contínua jam session, um grupo de músicos expurga, de raiva, a sua alma. Tocam Lennon e Marley, Sinatra e Armstrong. Aproveito a multidão para, finalmente, chorar.
Allow the pain to happen", recomendara Giuliani.
Deixo ficar presa às grades, ao lado da americana, a bandeira nacional que trouxe da Quinta Avenida.
Regresso ao quarto quando Sinatra começa a doer lá no fundo:
"Now, it's up to you, New York, New York."

sexta-feira, setembro 15, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (5)


Setembro 15, Sábado, Dia 5


9 h 40 m
Percorro a 68, ao início da manhã. Passa um homem apressado a conversar para um fio. Os cães passeiam senhoras, e um grupo de rapazes judeus discute amenamente, usando aquilo à cabeça.
Abandono a Delicatessen debicando um cacho de uvas: ninguém toma o pequeno-almoço sentado? À porta de uma brownstone, na escadaria de ferro, uma miúdita loira vende limonada e bolinhos.
Páro para uma fotografia mas alguém atravessa a lente:
Boy, I don't wanna be in that picture."
De súbito, ouve-se um ruído: o motor de um avião. A rua inteira queda estática, estirando o pescoço para trás. É um jacto comercial que divide o céu ao meio.
Parámos a vê-lo a avançar por detrás dos arranha-céus. Interrogamos o seu curso, as nossas hipóteses de fuga, ao levá-lo com o olhar às portas de Nova Iorque.
O polícia suspira de alívio.


12 h 10 m
"This conflict was begun on the timing and terms of others; it will end in a way and at an hour of our choosing."
Há frases que ganham a História. Pelo poder das palavras, pela oportunidade. O dom de comunicar é um trunfo, em política.
Já muitos se haviam revisto no seu "make no mistake". Mas quando o presidente clamou, sobre escombros, "I can hear you", perguntei-me se o moveu o apoio aos voluntários mais que o transmitir esperança à alguma vítima, sob ruínas.


19 h 30 m
Os canais de televisão insistiram no apelo. Desçi à rua pelas sete, a hora combinada. Nas esquinas das avenidas cada um ergueu sua vela.
Muito tempo para o silêncio. Fala-se só o essencial.
Um pouco por todo o lado há memoriais às vítimas. Em cada espaço público, à porta dos hospitais.
E milhares de velas, a arder. O riso, no rosto das vítimas.
Paris deixa que esta noite, seja esta a Cidade-luz.

quinta-feira, setembro 14, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (4)


Setembro 14, Sexta-feira, Dia 4


7 h 50 m
Jane C. é enfermeira, e esteve na primeira linha.
"Ao discar o 911, reparei na ironia: o número da emergência é a data da tragédia."


8 h 12 m
Nova Iorque é uma cidade construída pelo mundo. Também o meu avô paterno aqui laborou sete anos. Ao ritmo a que se conhece a nacionalidade das vítimas, ganha corpo o formato de atentado contra o mundo.
Da Austrália ao Japão, da Itália às Filipinas, da Alemanha a Taiwan, do Reino Unido à China, são inúmeras as nações de onde provinham as vítimas.
Cresce o pedido que clama de volta as torres caídas. Giovanni da Verrazano foi o primeiro a sonhar o perfil das torres gémeas.


17 h 30 m
O içar pelos bombeiros da bandeira sobre os escombros, reorienta a revolta para uma raiva antiga.


18 h 35 m
Dói o modo como riem, nas fotos, os desaparecidos. Avisto-os por toda a parte, copiados à exaustão. Os familiares fazem fila na 69th Armory, mas é-lhes devolvida a pergunta logo ao dobrar da esquina.
(Quantos de nós saberiam descrever ao pormenor, a roupa que o companheiro escolheu ao sair pela manhã?)


22 h 05 m
Cancelaram os shows humorísticos. A América perdeu a inocência.
“Nova Iorque perdeu os dentes de leite da frente.”

quarta-feira, setembro 13, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (3)


Setembro 13, Quinta-feira, Dia 3


9 h 25 m
Mais um dia, no bloco. Ontem, saímos às quatro e um pouco erraticamente aconteceu-nos ir descendo em direcção a Downtown, a mim e a Pablo B., o colega argentino.
Tenho resistido a ir ver os destroços. Parece-me algo de inútil. Mas acabámos por descer quarenta e cinco quarteirões, da 68 à 23. E foi nessa mesma rua que o acaso tomou a forma de um sinal.
Encontram-se muitas moedas pelo chão. Já recolhi sessenta e cinco. Mas aquela última moeda pareceu-me especial: era uma moeda polaca, da nacionalidade do Papa, uma ficha telefónica da Polska Telegraf Telefon.
Nos Estados Unidos da América, uma moeda polaca, usada para comunicar..., dei comigo a pedir a Pablo que procurássemos um templo. Um templo, qualquer que fosse. Mesmo até uma sinagoga.
Entrámos numa pequena igreja onde ficámos longamente. À saída, uma senhora quis saber as nacionalidades. Já tinha estado no Porto. Que aquele era um templo holandês.
Concordamos num sorriso que existe um só Deus. Ainda há dias nos lembraram que há quem não pense assim.


12 h 10 m
(Pausa para almoçar.)
Acumulam-se os relatos e as histórias mais incríveis. Como a do casal que saltou de mãos dadas, para o vazio.
O inferno deve ser isso: o mundo em redor a arder, uma hipótese de fuga, a procura desesperada de mais um minuto de vida.
Escolher o suicídio e saltar para o vazio. Qualquer coisa deve ser melhor que o inferno puro.


16 h 50 m
You guys are experiencing History.
Burton D. é ortopedista.
"Quando voltarem para casa contem tudo o que viram. Nunca mais se esqueçam disto. Eu quero que vocês os dois nunca mais se esqueçam disto…"
Pablo fixa Burton D., enquanto se serve de um cappuccino.
"O meu vizinho de cima ficou no 104º piso."
Nem eu nem o argentino sabemos o que dizer. Mas a América, como sempre, sabe encontrar o caminho:
"Hey, vocês sabiam que o meu cão foi operado ontem? Numa clínica na Quinta Avenida? Puseram-lhe um pace-maker, dei dois mil dólares por aquilo. Vocês acreditam nisto? É um golden retriever. Two fucking thousand dollars. Can you guys believe this?"


18 h 20 m
Enquanto em Downtown não se desiste de revolver o entulho, nos canais de televisão apela-se pelos desaparecidos. É descrita a profissão, a última roupa vestida, aquele acidente físico que leve à identificação.
Até o piso da empresa é o factor de prognóstico.
De Times Square a Downtown, em papel fotocopiado, são às centenas os posters que pedem o impossível.
Apenas mais um paradoxo neste drama sem sentido: a foto dos procurados é, desta vez, a das vítimas.

terça-feira, setembro 12, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE (2)


Setembro 12, Quarta-feira, Dia 2


12 h 30 m
O Memorial está de novo parado, em apoio ao Cornell. Passei a manhã no bloco. Os computadores estão lotados, pela procura de internet. Escrevi há pouco para o Público. Falei com a SIC Notícias. De manhã cedo passamos pela unidade de queimados. Contei centenas de médicos, estudantes e enfermeiros. Tentei então doar sangue mas só estão a aceitar O positivo. Um dos bombeiros queimados relatou com dificuldade que ao entrar na torre, esta lhe pareceu oca por dentro e uma enorme bola de fogo desceu pelo lúmen do prédio, cuspindo-o violentamente contra a porta giratória. O mais provável é que quem vier a ser resgatado dos escombros não seja funcionário dos prédios mas bombeiro ou polícia, homens que tenham entrado no hall das torres escassos instantes antes da queda.
Hoje, ao descer a York Avenue, senti uma dor profunda e foi com esses olhos que vi a cidade acordar sob cinzas. Vou falando com as pessoas e ninguém compreende como é possível que isto possa ter acontecido: em quatro aviões diferentes, em distintos aeroportos, sob distintos controlos de polícia.
Os nova-iorquinos já saíram de novo para as ruas. Para passear o cão ou o carrinho de bebé, para um jogging matinal. Se é a maneira que têm de seguir em frente, deixando transparecer a ideia de que a vida não parou, isso não sei. Mas sentem-se desrespeitados. Sentem-se cobardemente atacados.
As lojas estão abertas, não falta água nem comida. Os preços não aumentaram. Apenas não se vêem carros a circular porque a cidade está isolada em todas as pontes e túneis. De novo, há uma tristeza profunda nas pessoas. Isso impressiona muito. São rostos baços e tristes, estáticos, indignados. Alguns choram nas ruas, muitos usam o telemóvel. Estima-se que tenham morrido mais de 10.000 pessoas. Mas os escombros ainda ardem, não estamos a receber feridos e com a temperatura dos destroços, acredita-se que de dia para dia diminui consideravelmente a probabilidade de recuperar pessoas com vida.
A resposta da população, nas dádivas, foi impressionante. Trabalhadores da construção civil acorreram aos escombros, deixando para trás as suas obras para limpar entulho, noite e dia.
O Mayor falou em três semanas. Para o espírito vai ser bem mais.


16 h 45 m
Passa-se esta coisa extraordinária: vêem-se pessoas a correr em massa a comprar postais de Nova Iorque. Postais onde figure a silhueta das torres gémeas. Mesmo nova-iorquinos, que provavelmente passavam pela calçada das lojas sem nunca ter parado para comprar o mais banal dos postais, quedam-se agora estáticos a escolher demoradamente cenas diurnas e nocturnas com as torres atingidas.
É algo que toca fundo, a procura de lembranças, o lamento que exprimem, como se refractariamente sentissem o ímpeto de deslocar a perda de vidas humanas para a perda do ex-libris.
Já se discute a reconstrução. A América vive muito de símbolos.


17 h 45 m
Durante a pausa para o almoço com os colegas de Cirurgia Plástica, conversei com Charles G. que esteve no Ground Zero. O canadiano chegou ao local duas horas após a queda das torres, e confessa-se incrédulo de que ainda possa haver gente viva sob os escombros.
Charles descreveu-nos minuciosamente a triagem de emergência montada no lobby de um arranha-céus, localizado sensivelmente a dois quarteirões do local, e onde se atenderam sequencialmente duas vagas de vítimas: uma primeira, de funcionários das torres gémeas, surpreendidos que foram nos pisos inferiores das torres; uma segunda, de bombeiros e polícias, vítimas de queimaduras e fracturas. Contou também que poucas pessoas foram atendidas, se considerarmos a dimensão do atentado. No Saint Vincents Hospital, um dos da primeira linha, terão sido recebidas somente 400 pessoas. Julian G. esteve por lá doze horas seguidas e confirmou que as equipas por mais prontas que estivessem, a dada altura da tarde ficaram sem ninguém para atender.
Tem sido esse o grande drama. Excesso de equipas médicas. Falta de a quem socorrer.

segunda-feira, setembro 11, 2006

O FIM DO VERÃO DE NOVA IORQUE

Crónica de João Luís Barreto Guimarães

Setembro de 2001

*****

O que desmentidamente começou por ser a forma de enviar notícias, próximas e surreais, sobre a pressa dos acontecimentos, desde cedo assumiu a forma de um diário e, talvez pelo dia três, a urgência de uma crónica. Literária, por isso, finita.

Ao rever o conjunto das mensagens enviadas, constatei que fui perdendo o ímpeto de escrever. Assim vivi o meu luto. Ávido de instantâneos, como os perseguiu Barthes, arrisquei tocar a quente o rastro da situação. Pela vontade de escrita. O que ocorreu na manhã daquele onze de Setembro, foi para mim tão complexo e tão sem precedentes, que sobra-me a amarga consciência de apenas aqui trazer uma colecção de migalhas. Mas é sempre isso o que fica.

Alguma da edição aos
emails originais, não os ousou desviar da verdade da escrita, somente reeducar o ritmo da respiração. A quase totalidade dos textos foi alvo de escrita difícil, a melhor parte das vezes em situações precárias: tanta vez de madrugada recorri ao hospital, para reinventar o Português num teclado sem acentos, quando o mais fácil de tudo não era a feroz segurança nem tão pouco a minha dança em passo descompassado, com as câmaras de vigilância dos corredores do hospital.

Apenas para enviar fragmentos. Fragmentos, é o que são.

*****

Setembro 11, Terça-feira, Dia 1

11 h 40 m
Desço em direcção ao hospital ante um cenário surrealista. O que costumava ser uma artéria calma e ordeira, encontra-se agora envolta na mais tensa agitação. Ao longe sobre Downtown, um imenso cogumelo encobre parte da cidade. Centenas de pessoas fogem em passo apressado para a parte mais alta da ilha. Em cada um desses rostos está cravado o terror, um pânico que atravessa toda e qualquer raça. Nas cabinas telefónicas fazem-se filas para ligar. As mães sobem a avenida extraordinariamente abraçadas às crianças resgatadas, que vão insistindo em perguntas que não têm explicação. O metro foi imobilizado. A ilha está isolada. As sirenes de ambulância alarmam por toda a parte. Rostos tensos, mudos, perturbados vêem de facto, a chorar de revolta e indignação. É difícil descrever o medo. À porta dos edifícios agrupa-se gente em silêncio, a mão amparando o estômago sem saber o que falar.
A América foi atingida aos olhos de todo o mundo. Não há deus que queira isto.

14 h 35 m
Nova Iorque arde como uma tocha, conferindo ao cenário um ambiente de guerra. É um panorama desolador. As pessoas, aqui e além, começam finalmente a acreditar que isto, de facto, aconteceu. Que a América foi atacada num acto com implicações para todos os países do mundo. Que há centenas, milhares de vítimas. Que os prejuízos são astronómicos. Sabe-se que o presidente está reunido com militares. Espera-se uma resposta cirúrgica.
As cirurgias de hoje foram canceladas. Tenho andado pelo bloco com os dois olhos nas notícias mas nem os próprios repórteres parecem saber o que acrescentar. Os médicos e os enfermeiros vão recebendo telefonemas dos familiares próximos que trabalham em Downtown. Uma auxiliar, percebi, perdeu alguém. Conta-se que algumas vítimas se lançaram das janelas quando o primeiro avião pegou fogo ao edifício. As notícias dividem-se entre os apelos para dádivas e reportagens sobre feridos que vão chegando aos hospitais. Somos informados das baixas mas ninguém pode esclarecer se o tempo que mediou entre os embates foi suficiente para evacuar os funcionários dos prédios. As baixas poderão ser imensas. Os detritos, pelas ruas, são numerosos. As imagens da queda das torres passam vezes sem conta nos ecrãs de televisão. Alguns poderão ver nisso a derrocada de um país. Outros, a queda de um símbolo.
Os carros circulam pelas ruas encobertos por cinza. Deseja-se visão clara aos políticos.

17 h 35 m
Apresentei-me com a equipa de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva no New York Cornell Medical Center, onde se localiza a maior unidade de queimados de Nova Iorque. O Cornell está na 68, mesmo em frente ao Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, o hospital onde me encontro a estagiar. Aparentemente, só agora é que as ambulâncias estão a conseguir chegar perto dos destroços das torres, e os feridos, oito horas depois, a ser retirados dos escombros. No serviço de urgência do New York Presbyterian Hospital, anexo ao Cornell, fomos encontrar centenas de médicos e enfermeiros divididos por equipas, numa enorme sala de emergência com pelo menos 25 equipas a postos. Nunca tinha visto nada assim.
A ansiedade é muita, a vontade de ajudar também. Um dos meus colegas, Julian G., deslocou-se ao Saint Vincents Hospital para dar uma ajuda nos casos de trauma. Um outro, Charles G., canadiano, foi fazer triagem para Downtown. O terceiro, Mark K., encaminhou-nos até ao chefe da unidade de queimados para nos voluntariarmos para o que fosse necessário. Foi-nos dito que, para já, existem médicos suficientes. Têm a unidade cheia: os doentes mais graves que receberam foram cinco queimados em cerca de 95 por cento da superfície corporal atingida. A maior parte das vítimas tem lesões de inalação, o que soma percentagem à superfície corporal queimada exigindo, certamente, ventilação assistida. Têm um péssimo prognóstico. Ficámos de voltar à unidade porque julgam que dentro de horas, quando começarem a chegar mais feridos roubados aos escombros, vão ser necessárias novas equipas.
Volto ao Memorial, on call.

21 h 15 m
Sai de novo, para doar sangue. O movimento na urgência é agora mais contido, o que é por todos interpretado como um muito mau sinal. Subi à unidade de queimados para a visita médica. São cerca de trinta camas. Acompanhei a visita, identificado na lapela, e pude-me aperceber de que eram todos adultos os doentes internados. Desci depois à urgência para tentar doar sangue. Foi-me fornecido um número para ligar pela manhã. Hoje não há capacidade logística para o colher.
Olho pela janela do bloco e as ruas estão desertas. É quase noite lá fora. Ainda se ouve uma ou outra sirene de ambulância mas antevejo agora tempos de profundo silêncio. De longamente chorar os mortos.
Impossível ficar indiferente.

23 h 20 m
A baixa ainda arde. E trago em mim a sensação de não ter feito quase nada. A incómoda evidência não ter como ajudar.