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quinta-feira, novembro 24, 2022

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA



 INTRODUÇÃO À PINTURA RUPESTRE

José Tolentino Mendonça

Assírio & Alvim, Outubro 2021

64 páginas

É sempre com redobrado interesse que leio cada novo livro escrito pelos poetas da minha geração, não apenas pelos textos em si, que raramente desiludem, mas pela natural curiosidade de tentar perceber o que acrescentam ao conjunto da obra poética de cada um deles: como a fazem evoluir. 

O lugar que Introdução à Pintura Rupestre ocupa na obra de José Tolentino Mendonça é o de uma Memória dos primeiros anos da sua infância, escrita não em prosa, como é habitual nas Memórias, mas em poesia. Daí que abundem as referências geográficas angolanas, desde o Cine-Esplanada Flamingo aos mangues e à Baía do Lobito nestes 19 poemas de pulsão narrativa, arredondados para cima com um texto sobre uma das avós do autor, A quem deixas o teu oiro, que trata do papel da Oralidade na transmissão de histórias, entre gerações.

Uma vez que o programa do livro é a Memória enquanto arquivo, e as memórias que a preenchem (“subespaços que se acendem lentamente”), predomina nos poemas uma dicção concreta onde os referentes convocados materializam imagens quase fotográficas. No poema A primeira magia, por exemplo, o poeta espanta-se com as aptidões da Memória (“como foi ela capaz de fotografar / este estilhaço, estas formas que ardem / o ruído do sangue que nunca cessa / e a solidão dos ossos”), que são depois ilustradas por uma sequência de textos (aliás muitíssimo bem estruturada, esboçando uma narrativa), onde não faltam alusões à própria memória comum da poesia (e da filosofia) e onde se divisam referências a Herberto Hélder, Ruy Belo, William Carlos Williams e a uma mão cheia de filósofos. 

“Uma parte da beleza do mundo permanece anónima”, escreve-se em A cesta, porém, o poeta trata de a colocar em evidência convocando momentos primaciais como a alegre azáfama das mulheres no fim da faina (“a mortal canção”) com uma alegria anterior à descoberta do fogo; o riso da abundância; a troca de bens que o mar proporciona aos pescadores (numa óbvia referência bíblica); a descoberta de um mundo singular de objectos (“provas milenárias de uma afinação”) e de animais do mar (“em profundidades / onde não existe / caçador nem presa”). 

Mas também a família, fundadora de um “mundo que se começa a ouvir no fundo da casa”, convocada por emoções onde predomina uma ternura tímida através de versos de uma beleza suspensa; ou pelas botas gastas do “avô Matias / caçador de baleias e ocioso tocador de bandolim (...) que jamais se saciaram de paisagens”; pela (difícil) bicicleta do pai; pela miséria de uma “existência selvagem e simples”, já que “as crianças que choram / duram mais que qualquer época”); ou ainda pela Guerra colonial, onde “Uma pessoa habitua-se facilmente / ao absurdo”); por alusões sociais (“Nessa década dizia-se que o socialismo / se chegasse seria de bicicleta”); por aventuras e histórias penosas ouvidas na infância como aquela que é narrada em Aconteceu no capim, poema admirável quer pelo tema, quer pela gestão estrofe a estrofe, do suspense narrativo.

Lendo estes poemas com detalhe é difícil resistir à tentação de perguntar quantos dos episódios aqui lembrados foram fundadores da pessoa civil em que José Tolentino Mendonça se tornou: é também para isso que se leem Memórias. Provavelmente todos: a memória é também uma construção do passado (ideal?), tal como o poeta sugere num dos poemas (“A vida dos nossos avós é inventada por nós”), e nesse sentido, este belíssimo livro de poesia fica como um registo dos primeiros anos de José Tolentino Mendonça, passados quer nas ruas do Lobito, quer (numa certa ocasião) na brancura de um hospital por culpa de um “punho infeliz”, onde o poeta foi colecionando palavras “sem nenhum nexo”, como quem descobre o fogo da linguagem, riscando no branco das paredes as primeiras imagens poéticas.

segunda-feira, novembro 09, 2009

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (4)

De "O Viajante sem Sono" (Assirio & Alvim, 2009), por José Tolentino Mendonça:



BICICLETAS


Por muito tempo amarei casas que existam apenas
para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote
As casas interessantes não têm pretensão nenhuma
Estão perto de nós na hora necessária
mas a qualquer momento
com mais clareza
afastam-se das certezas que perdemos
e da imensidão que se avista de lá

Um velho provérbio diz:
Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo
de uma estação clemente


§


Também aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (3)

(actualizado)
Os poemas que se seguem têm uma história curiosa. Em Março de 1991 eu tinha 22 anos e dirigia a página de poesia do jornal da faculdade (I.C.B.A.S./Universidade do Porto), quando convidei o poeta José Tolentino Mendonça, então a estudar em Roma, para publicar na página de poesia “os olhos: pousados na mão”. Nessa altura, José Tolentino Mendonça havia apenas dado à estampa, no Funchal, “Os Dias Contados” (1990).

Encontrei hoje por acaso os três poemas que então me enviou, e que não chegaram a ser editados porque o jornal deixou de ser publidado por falta de verba. São poemas que José Tolentino Mendonça não incluíu em “A Noite Abre Meus Olhos” (Assírio & Alvim, Lisboa, 2006), muito provavelmente porque lhes perdeu o rastro. É da mais elementar justiça que complete, 15 anos passados, aquilo a que me propus e me comprometi. Três poemas inéditos escritos antes de 1991. Que sejam, também para ele, uma surpresa.



CONDITIO MORIENDI
a Arsenij Aleksandrovic Tarkovskij


Dos vultos

No baraço silencioso dos perigos
não se reconhece a morte
é inútil recuar perante a sombra
a morte é de nós
aquele que não tem sombra

Não temas os vultos
não ensombres os dedos
na decifração dos agouros
os mortos só enterram os seus mortos
devias saber

Melhor é correr de encontro ao cão
que mudo nos espera
ao fundo das ruas

e saudá-lo
como se faz a um amigo
e abraçá-lo
como se fossemos loucos


§


De Rubliev

Quando Rubliev morreu, o seu mestre, Danila Tchorny, não jejuou nem fez qualquer lamento. E a sua porta não conheceu o perfume alto dos ramos da árvore do incenso.
Então o ânimo dos seus discípulos vacilou. Que acontecia? Tchorny não amava Rubliev? Ele que fora o vigia fiel dos enigmas arriscados! Ele que sabia, de memória, o escondido desenho dos provérbios!
Por essa altura, Danila Tchorny, o mestre, foi designado para pintar o ícone do Criador, na cúpula do secular mosteiro de Troistsko.
Pintou Deus. Tão grande e brilhante. Os discípulos compreenderam.
Deus era a morada de Rubliev.


§


ainda Dos vultos

O coração
sábio apascentador
dos vultos
que pode temer

a nocturna visitação dos astros
o alvoroçado rumor
as aves
o tumulto que levanta
os mastros



domingo, janeiro 14, 2007

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (2)

(actualizado)José Tolentino Mendonça (n.1965) reuniu no ano passado a sua poesia completa em "A Noite Abre Meus Olhos" (Assírio & Alvim, Lisboa, 2006). A releitura conjunta da sua obra permite-nos recuperar uma linguagem límpida, onde a precisão do vocábulo se reveste de importância sublime. A intertextualidade dos seus poemas com os textos clássicos, designadamente com os textos sagrados - aos quais não será estranho o formato em missal desta edição, - conquanto mais ocupada em enunciar as coisas de todos os dias reveste-as, porém, de uma tonalidade sublime e bela onde uma pretensa inocência ou fragilidade encobre, ao invés, uma imensa sabedoria. Esta é agora uma poesia que não foge às circunstâncias concretas, fixando na sua ética nada autista, o “esterco do mundo”.

Numa nota pessoal, uma das minhas expectativas em relação à obra de José Tolentino Mendonça - que como alguns saberão, é padre, - foi sempre a de desvendar livro após livro de que forma a sua escrita elíptica e alusiva e atenta aos mistérios do mundo se conseguia libertar de um – supunha eu, mas que sei? – maior espartilho na abordagem profana do Amor e dos afectos, como me pareceu antever em “Calle Príncipe, 25”, ou em “A rapariga de Providence”, ou nesse outro poema de "Longe Não Sabia", Presença, 1997, sobre o onanismo "A Mão, o Muro, o Mundo"). A releitura dos poemas de “Estrada Branca” permite ao leitor atento acompanhar esse movimento, partindo de uma temática do amor próximo para o (não menos sublime) amor ao próximo, isto é, um regresso como em outros poetas da sua geração a uma poesia da dolorosa morte social, como se lê em “Clandestinos” ou neste excelente “Santa Teresa e as Prostitutas”.



SANTA TERESA E AS PROSTITUTAS (2006)


Recebi hoje uma carta do José Bento
que dizia sentir-se um rato diante de Santa Teresa
eu gosto tanto dele, posso dizer o mesmo
mas temo seja o que for
de incalculável

Diante de um rato experimento
não exactamente repulsa para a qual sou demasiado fraco
mas uma tristeza submersa
dissimulada na própria forma
lembro-me no meu quarto há muitos anos
a ratoeira armada debaixo da cama
e o deslizante rumor quase inaudível
cortado por um dique mecânico
um cheiro a folhas mortas apoderava-se da superfície
como se alguma coisa mais longínqua
ficasse presa daquele artifício

Tenho também uma história cómica com ratos
que me custou hora e meia da maior vergonha
reuni em minha casa alguns técnicos de saúde
e voluntários dessas causas
para projectar uma ajuda às prostitutas
e um rato circundou, um por um, os sapatos dos presentes
e tentava subir os degraus da escada numa necessidade
que se diria invencível
as pessoas eram educadas e fizeram todas de conta
mas eu estava para ali
afundado num desespero

Quando por vezes vejo tombar
pelos altos degraus a minha vida
procuro pensar nos dois ou três interesses que me restam
entre eles Santa Teresa e o drama das prostitutas




sábado, janeiro 21, 2006

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

(actualizado) Revelada na década de 90, a poesia de José Tolentino Mendonça (n.1965) aporta uma linguagem pura e cristalina onde o silêncio importa tanto quanto o escrito. A intertextualidade desta poesia com os escritos sagrados, conquanto mais ocupada em afirmar as coisas de todos os dias, reveste-a de um tom sublime e belo onde uma pretensa fragilidade desvenda ao invés uma imensa sabedoria. Padre e tradutor do Cântico dos Cânticos do hebraico, tem desenvolvido também significativa obra no domínio do ensaio, sendo um dos mais celebrados poetas da sua geração.


OBRA POÉTICA
A Noite Abre Meus Olhos (poesia reunida), Assírio & Alvim, Lisboa, 2006
O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009



A INFÂNCIA DE HERBERTO HELDER (1990)

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra



A impressiva beleza do poema de José Tolentino Mendonça, A Infância de Herberto Helder, irrompe do tom de aparente inocência que atravessa o texto. Parece claro desde logo que o poema não cuida verdadeiramente da infância do poeta Herberto Helder – que assim é celebrado, – antes da presumível infância do narrador com a qual, implicitamente, seria possível identificar atalhos e levadas em comum. Tendo o autor tido, em concreto, essa experiência iniciática numa mesma geografia insular, aquilata que o mesmo pode ter acontecido com o poeta Herberto Helder.

Mais do que nos fixarmos somente na idade em que essa aprendizagem possa ter ocorrido, é tentador recortar do poema a excepcional envolvente em que aquela se deu. Mais do que rememorar essa infância por atitudes idílicas (“estendia-me na terra”), lúdicas (“ordenando berlindes”) ou inocentes (“não pensava”; “Não sabia”), o texto é exímio em revelar-nos um narrador sábio e avisado, na posse de conhecimento, que revisita a infância anos mais tarde com um olhar maduro e pleno de espanto, capaz de se reconhecer – já então – preocupado em apreender o mundo (“marcava a latitude das estrelas”), desconhecendo todavia (como é próprio da infância), quer a iminência dos perigos (“não pensava / que esses corpos de fogo / pudessem ser perigosos”), quer o imenso poder da palavra (“todo o poema / é um tumulto / que pode abalar / a ordem do universo”).

Não é por isso despiciendo que o autor tenha por três vezes lançado a estrofe com a anáforaNesse tempo” e uma outra vez tenha escrito “No princípio era”, numa clara intertextualidade com os textos bíblicos que, omnipresentes, assistem à respiração de toda a obra no seu apelo ao mais sublime, como se fosse Ele o interlocutor privilegiado desta escrita. Porque há desde o início, uma intenção indisfarçada de balizar o proémio da presença divina nesta infância. Se é claro que o autor “agora” acredita, já nessa altura “o Espírito de Deus / abraçava as águas”, já o poeta indagava “as estrelas” e “era possível / encontrar Deus / pelos baldios”. O que o distanciamento e a idade trouxeram de acrescido foi o reconhecimento da preciosa importância dessa presença embrionária numa consciência em formação, tanto quanto a evidência de que a sua permanência diária se tornou um desafio acrescido depois de se “aprender a álgebra”, – aqui modelada como um ruído, um rumor (em antítese com os “relatórios / precisos / acerca do silêncio”), – “álgebra” que não pode figurar senão o cálculo ou num sentido mais lato, o interesse e o calculismo que assistem a grande parte das atitudes do homem adulto, diversas das encontradas na infância, quer nas crianças quer nos anjos.

"Deus é a palavra mais perto de nós. Deus é a sombra que a sombra guarda”, explica-me José Tolentino Mendonça. “A única forma verdadeira de resistência é a exposição radical da fragilidade." Nesse sentido, este poema pode ser lido não como um salmo, pessoalíssimo, mas quasi como uma inflexão acerca do imperceptível afastamento que a vida adulta opera da sagaz pureza da infância, à maneira de uma “ilha”, afastada de excessos, onde qualquer um pode voltar a qualquer instante.