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quinta-feira, novembro 24, 2022

A. M. PIRES CABRAL

 



CADERNETA DE LEMBRANÇAS

A. M. Pires Cabral

Tinta da China, Novembro 2021

152 páginas

A propósito da finitude da vida (“e as respectivas peripécias”), António Manuel Pires Cabral lançou-se neste livro numa tarefa tão difícil quanto o mais complexo dos temas: definir deus. “Que coisa é Deus?”, pergunta o poeta. 

E fá-lo, cedo se percebe, com a exacta consciência da extraordinária raridade que é alcançar uma epifania, como se o previsível insucesso da “maratona” (como a define) onde se socorre de memórias e observações na primeira metade do livro e de perguntas e divagações (que avançam “um centímetro ou dois”) na segunda, estivesse presente desde o início, sabotando cada poema deste “cântico apaziguado” onde tenta negociar o epílogo num “humilhante auto-de-rendição” (“nesse momento extremo / a tua compaixão falará mais alto”), consciente porém de que o faz recorrendo a “um demónio dentro”, por vezes sereno, por vezes revoltado, às vezes na Fé, às vezes na descrença, aqui com seriedade, além com humor. Desde o tom humilde a um tom desafiador (“que raio de critério / usas para atender ou não aos rogos”), são múltiplas as vozes usadas pela voz que fala nestes poemas, tendo em comum a percepção clara da existência de um tempo limitado sobre a Terra, curto demais para encetar um diálogo com o divino (“às vezes, na extremidade do medo”). 

Cada sucessivo poema pode, por isso, ser lido como uma nova tentativa de responder ao imbróglio criado pelo próprio autor: uma sequência de títulos na segunda metade é disso mesmo reflexo (cf. Para variar, Rota de colisão, Com um demónio dentro, Um deus lateral, Deus é assim, Implosão, Tanto silêncio), como se o poeta virasse e revirasse nas mãos o objecto em análise (deus) e umas vezes o perscrutasse de fora através de um novo ângulo, outras vezes o atravessasse (“eu preciso absolutamente de ver”), mostrando-se contudo sempre insatisfeito e frustrado com o resultado. 

A consciência prévia que tem da impossibilidade de levar a cabo a tarefa a que se impôs, leva o autor a recorrer não poucas vezes ao humor (“No dia em que houver uma palavra / ou mesmo apenas uma sílaba / saída da tua boca e / inequivocamente dirigida a mim – // – nesse dia, beberei meia garrafa de whisky”), bem como a desenvolver cenários (à revelia de Nietzsche mas tendo presente Giordano Bruno) que o ajudem a materializar algo que é abstracto e, de caminho, a lavrar uma opinião provocadora (como diz) sobre as fragilidades da religião e, já agora, sobre o mau-feitio de um deus que também abandona, usando para tanto aquela que tem sido uma das marcas formais mais características da sua poética: dividir um Tema específico em três ou quatro poemas assunto. 

Um exemplo: 1 - Deus existe e preocupa-se (“Simplesmente (e pede compreensão / para este seu modo de fazer as coisas), / tem aquele costume antigo / de vos responder por interpostos sons / – o vento, o mar, as aves, o trovão”); 2 - Deus existe mas não é de cerimónias (“Não vos estejais a incomodar, meus filhos, / passo muito bem sem essas demonstrações.”); 3 - Deus não existe (“E como havia de existir – / não sendo lanterna para tanta escuridão, / nem água para tanta sede?”); 4 - Deus existiu em tempos, mas supõe-se que morreu (outros dizem que foi assassinado (“Calma, senhores, nada de pânico, / pode ser que não tivesse morrido. / Pode apenas estar amortecido.”). A poesia, perguntando e respondendo, funciona como instrumento de procura e de construção do logos

Seja qual for a resposta, o que os versos refletem é uma insubornável busca pelo “tal relojoeiro / que pôs o universo em movimento”, cuja presença (se é verdade que não se torna mais evidente com o esforço hercúleo dos poemas que fecham o livro), seguramente que se encontra omnipresente nos ciclos poéticos que abrem a obra, e que o poeta dedica à sua experiência como paciente (cf. A um comprimido Hytacand), a alguns meses do ano, e a certos objectos artísticos que se encontram na sua geografia sejam retábulos, espigueiros ou escaleiras que, “Pelo sim, pelo não, vou tomar nota disso / na minha caderneta de lembranças.”. 

Mas, principalmente, omnipresente nos ciclos que dedica a animais, extraordinárias sequências de poemas que a par dos textos sobre arte rural são outro livro dentro deste livro e se constituem, isso sim, como a resposta possível (dada pelo próprio Mundo) à pergunta colocada sobre quem, como e onde está deus. Não deixa de ser revelador que, como um círculo que se completa, o poeta tenha dado a resposta à pergunta final do livro, logo no início. 

segunda-feira, julho 06, 2009

A. M. PIRES CABRAL

A. M. PIRES CABRAL nasceu em 1941 em Chacim, Macedo de Cavaleiros, Trás-os-Montes. Licenciou-se em Filologia Germânica na Universidade de Coimbra. É autor de uma vasta obra literária onde a poesia não assume o menor papel. "As Têmporas da Cinza" (Cotovia, 2008), é um livro impressionante de maturidade. Esta é a poesia dos grandes temas entre os quais a morte, a frágil condição humana, a fraca matéria de que é feita a carne, a crítica a um deus indiferente perante o peso omnipresente da passagem do tempo. Dois poemas, com a devida vénia, deste livro que curiosamente, foi também finalista da short-list do prémio Correntes d' Escritas 2009:



A MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA


A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa,
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe - mais dia, menos dia -
por devorá-los todos.



§


FARPAS


Tanta farpa cravei por acidente
no meu próprio flanco.

As farpas oscilam a cada passo meu,
lacerando sempre um pouco mais
os rasgões que já trago na carne.

Toma para ti - ò touro divino,
verdadeiro destinatário delas! -
algumas dessas farpas.

Que todas sobre mim são muito peso,
muita dor,
muito sangue empastando sobre a pele,
muita mosca cevando-se no sangue.