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sábado, agosto 28, 2010

ANACREONTE

ANACREONTE nasceu na ilha de Teos, provavelmente por volta de 570 a. C.. Frederico Lourenço organizou, traduziu e anotou "Poesia Grega de Álcman a Teócrito", (Lisboa, Cotovia, 2006), onde chama a atenção para "a força irónica, o enlevo quase metafísico e a amargura erótica" dos fragmentos da sua poesia que chegaram até nós.



BEBER DE UM TRAGO

Vá lá, ó rapaz, traz-me
uma taça, para que eu beba
de um trago. Põe dez medidas
de água e cinco de vinho,
para que novamente eu faça de bacante,
mas sem insolência.
Vá lá então: assim com este
barulho e com esta gritaria
não bebamos à maneira da Cítia,
mas bebamos moderadamente
no meio de belos cantos.


§


A SOMBRINHA DE MARFIM


Dantes ele andava com uma gorra na cabeça, capuz de vespa;
nos ouvidos punha bocados de madeira e à volta das costelas
uma pele de boi sem pêlo,
cobertura imunda de um reles escudo; com padeiras e rameiras
que o queriam andava metido o porcalhão do Ártemon,
sempre em busca de uma vida de intrujices.
Muitas vezes teve o pescoço no pelourinho, muitas vezes
esteve na roda; muita chicotada levou nas costas com açoite
de pele e arrancaram-lhe os cabelos e a barba.
Mas agora o filho de Circe anda de carrinho; usa brincos de ouro
e segura uma sombrinha de marfim,
tal qual as senhoras.


§


A POLDRA DA TRÁCIA

Poldra da Trácia, por que razão
me olhas de soslaio e teimosamente
foges de mim? Será que pensas
que eu não sei nada de jeito?
Fica sabendo que lindamente
eu te poria o freio;
e com as rédeas nas mãos
te faria virar no poste da corrida.
Mas agora pastas nas pradarias,
toda folgazã com teus coices levianos,
já que te falta o cavaleiro experiente
para te montar.


MANUEL RESENDE acerca de KIKI DIMOULÁ

«KIKI DIMOULÁ (Atenas, 1931) pertence à geração de poetas gregos que se estreou depois da guerra e da guerra civil, e toda a sua obra se debruça sobre a vida quotidiana. Escolhi (e traduzi) o poema “Quadro Biográfico” porque mesmo depois de o ler repetidas vezes, sempre me produz a mesma emoção.»

Manuel Resende colocou um pequeno filme no You Tube, onde lê "Quadro Biográfico" para os leitores do Poesia Ilimitada.

Kiki Dimoulá venceu o
Prémio Europeu de Literatura de 2010. Na página da web do referido prémio (aqui) Kiki faz a seguinte afirmação: "Mes études supérieures: les années passées auprès du poète Àthos Dimoulas", seu marido.




QUADRO BIOGRÁFICO

A casa
fita o caminho público
e o mar
com a lógica de quatro janelas,
rindo-se estereotipadamente
com uma ampla varanda
cor-de-laranja.

Nessa varanda
nesse sorriso
às tardes, a minha mãe
expõe o rosto
ilegível.

O tempo o compôs
sem impulsos
noite após noite
numa língua que escorre dor,
enchendo
páginas de usura.
E nem sequer o erro dum riso.

Senta-se
na pontinha da cadeira
para não pesar na tarde
com todo o peso do seu coração adoentado,
apenas para existir
parada no meio da vida
por uma suspensão do destino,
apenas para poder aguentar agora
o espasmo do seu espanto:

«Existem mares
e barcos nervosos
que empurram soluções
para aquilo que não tem obstáculos?
E ventos que desenraízam aquilo que estagna?
E aquilo que é compreensível onde bebe cores
a tarde alcoólica,
existe?» Não sabe.
Não o soube a sua vida.

Agora
ousa um movimento estranho:
lança o corpo um pouco em frente,
torna a encostá-lo para trás,
dá fortes remadas da memória,
vidro vidro as suas lágrimas.

Pouco a pouco
tarde, rosto e varanda
são minados pelo crepúsculo.
A sua forma enlouquece.
Fecham-se num espaço tumular
para não voltarem a entrar nos no olhar.
Anoitece


§


Manuel Resende (Porto, 1948), poeta e tradutor, publicou Natureza Morta com Desodorizante (Gota d'Água-INCM, 1983), Em Qualquer Lugar (&etc, 1997) e O Mundo Clamoroso, ainda (Angelus Novus, 2004). Traduziu poesia, dedicando especial atenção aos poetas gregos, nomeadamente, K. Kariotákis, N. Engonópoulos, Odisséas Elytis, G. Seféris, Kiki Dimoulá, etc. De entre as suas muitas outras traduções publicadas, destacam-se Coriolano e Otelo, de Shakespeare e A Caça ao Snark, de Lewis Carroll.