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terça-feira, dezembro 06, 2011

TOMAS TRANSTRÖMER (2)

A quatro dias de ser entregue em Estocolmo, o Prémio Nobel da Literatura de 2011, - a 16 dias deste blogue fazer 6 anos de vida (22.12.2005) e a 19 dias do Natal, - o presente é para os leitores do Poesia Ilimitada. E chega, uma vez mais, pela mão do poeta Jorge Sousa Braga, que acaba de traduzir e oferecer a este blogue, o livro "O GRANDE ENIGMA" (2004), de Tomas Tranströmer. Na integra.

Boas festas!




O ROCHEDO DAS ÁGUIAS


Por detrás do vidro do terrário
estranhamente imóveis
os répteis.

Uma mulher estende a roupa
em silêncio.
A morte está ao abrigo do vento.

Nas entranhas da terra
a minha alma desliza
silenciosa como um cometa.



§



FACHADAS


1.

No fim da estrada vejo o poder
e é como uma cebola
com rostos sobrepostos
que caem um a um…


2.

Esvaziam-se os teatros. É meia-noite.
Palavras ardem nas fachadas.
O enigma das cartas sem resposta
afunda-se na fria cintilação.



§



NOVEMBRO



Quando se aborrece, o verdugo torna-se perigoso.
Enrola-se o céu ardente.

Gotas de água a cair da torneira ouvem-se de cela em cela
E o espaço transborda da terra gelada

Algumas pedras brilham como luas cheias



§



A NEVE CAI



São cada vez mais
numerosos os funerais
como os painéis na autoestrada
ao aproximar-se uma cidade.

Milhares de pessoas
na terra das grandes sombras.
Uma ponte constrói-se
lentamente
direito ao espaço.



§



ASSINATURAS


Devo passar
pelo umbral escuro.
Uma sala.
O documento em branco resplandece.
Como as muitas sombras que se movem
todos querem assiná-lo.

Até que a luz me trespasse
e dobre o tempo.



§



HAIKUS


1.


Jardins suspensos
num mosteiro lama.
Pinturas de batalhas.


*


Muro do desespero…
Não têm rosto
as pombas que vão e vêm.


*


Pensamentos parados,
os mosaicos coloridos
no pátio do palácio.


*


Jaula de sol.
De pé na varanda
como um arco-íris.


*


Murmúrio na névoa.
Longe um barco de pesca
…um troféu nas ondas.


*


Cidades cintilantes:
Tons, lendas, cifras—
Também…



2.


Veado ao sol:
as moscas cozem
a sombra ao chão



3.


Um vento gelado
trespassa a casa esta noite—
o nome dos demónios



*


Pinheiros descarnados
no mesmo pântano —
sempre e sempre.


*


Perdido na escuridão
encontrei um enorme sombra
num par de olhos.


*


Sol de Novembro.
A minha sombra nada:
Espelho.


*


Aqueles marcos de pedra
algures no caminho. Escuta
o arrulhar duma pomba


*


A morte dobra-se sobre mim.
Problema de xadrez.
Ela tem a solução.



4.


Com a sua cara de bulldog
o rebocador contempla
o pôr do sol.


*


Numa saliência da rocha
o estalido na escarpa mostra
o sonho, um iceberg


*


Subindo a encosta
debaixo do sol as cabras
ruminavam fogo



5.


As víboras
erguem-se no asfalto
como mendigos


*


Folhas ocre no outono—
tão valiosas como
os manuscritos do Mar Morto



6.


Na estante da biblioteca
do manicómio,
intacto o livro dos sermões


*


Sai do pântano!
O siluro contorce-se de riso
quando o pinheiro bate as doze.


*


Inchado de felicidade
naqueles pântanos-
mas quem canta são as rãs.


*


Ele escreve e escreve…
Grude flutua nos canais.
No Estige, aquela barcaça.


*


Silencioso como a chuva
ao encontro do murmúrio das folhas—
Escuta o sino do Kremlin



7.


Estranho bosque
Onde Deus vive sem dinheiro—
claras muralhas


*


Sombras rastejantes…
Perdida no bosque
a tribo de cogumelos.


*


Pega negra e branca:
teimosa corre em ziguezague
a direito através dos campos


*


Olha como me sento
uma barca em terra.
Aqui sou feliz


*


Trotam as alamedas
com armadura de raios solares.
Alguém chamou?



8.


Cresce a erva –
o seu rosto é uma runa
em memória


*


Uma imagem obscura.
Pobreza dissimulada,
flores num uniforme de presidiário



9.


Chegada a hora
repousa o vento cego
contra as casas


*


Eu estive ali –
sobre a parede caiada
amontoam-se as moscas.


*


O sol queima…
Um mastro com uma vela negra
de um tempo longínquo


*


Aguenta, rouxinol!
Do abismo cresce:
estamos disfarçados.



10.


A morte escreve
sobre o mar, enquanto
a igreja respira ouro.


*


Algo aconteceu.
O luar enche o quarto.
Deus sabia-o.


*


Caiu o tecto
e a morte pode ver-me:
aquele rosto.


*


Escuta o zumbido da chuva.
Para lá entrar
sussurro um segredo.


*


Cais da estação.
Que estranha esta quietude –
é a voz de dentro



11.


Milagre –
uma velha macieira
perto do mar


*


O mar é um muro.
Oiço grasnar as gaivotas:
elas saúdam-nos.


*


Por trás vento de Deus.
O tiro chega surdo—
sonho demasiado longo


*


Silêncio cor de cinza.
Passa o gigante azul.
A brisa do mar.


*


Um vento forte e pacífico
da biblioteca do mar.
Aqui posso repousar.


*


Aves com forma humana.
Macieiras em flor.
O grande enigma.




domingo, outubro 23, 2011

LENNART SJÖGREN

LENNART SJÖGREN nasceu em 1930 na aldeia de Böda, em Öland, uma estreita e longa ilha do mar Báltico. A crítica notou que as palavras, na sua poesia, vêm «com a quantidade certa de ar entre elas». Nos anos 50, estudou na Academia de Arte de Gotemburgo onde conheceu a esposa, a artista Eva Forsberg, que tem ilustrado parte do seu trabalho. Estreou-se como poeta em 1959. Segundo o crítico Bernleft, «Sjögren olha para a natureza que o rodeia, os campos, os animais, o mar, com um olhar frio e às vezes até irado. Com ele, na natureza não há espaço para o romantismo – é um mundo de comer ou ser comido, um mundo que é indiferente à natureza humana e à moralidade». Sjögren comparou o poema longo a uma pintura panorâmica (inclusiva e aparentemente estática), e o poema curto a uma natureza-morta (limitada em motivo e alcance). Ainda segundo Bernleft, «Tal como o poeta francês Francis Ponge, acredita que "o mundo em silêncio é o nosso único refúgio" e tenta chegar o mais próximo possível do mundo silencioso das árvores, animais, pedras e minerais, a partir da convicção de que eles também têm uma linguagem – que não é a nossa e que apenas pode ser sugerida, usando as nossas palavras». Os poemas que se seguem são versões trazidas do inglês, do livro “Five Swedish Poets” (Norvik Press, Norwich, 1997), numa selecção e tradução de Robin Fulton. Eis, com a vénia devida, seis dessas naturezas-mortas.



O REMO

O achador de um remo quebrado
não pode dizer com certeza
que um naufrágio ocorreu

mas é provável que haja um remador
na água

um esquecimento pode ter ocorrido
seu nome
rendeu-se à corrente
e renunciou as possibilidades do remo



§



O BEZERRO


Certa manhã, um bezerro de olhos arregalados
desce à praia
para beber.
As antigas marinhas figuram uma praia diferente.
Algo que o bezerro desconhece.

Com os olhos bem abertos bebe,
e, como sempre, nas águas tranquilas,
o bezerro é encontrado por um outro bezerro
das profundezas marinhas.
E seus olhos e focinhos
bebem da mesma mão.



§



UM GATO COM ASAS


Um gato com asas
muito parecido ao Silêncio
entra à tardinha, pergunta:
posso ficar um pouco por aqui
haverá um peixe
ou alguma alma que se coma
posso trazer a minha noite
comigo?
Em troca poderão escutar
como ronrono
como enrrolo as garras no sono
e as minhas asas se retraem
sob a pele.



§



A CABEÇA

Encontrei a cabeça de um bezerro na água
ergui-a
perguntei como se costuma perguntar:
Para quem viveste, bezerro
para quem morreste
quem separou tua cabeça
do resto do mundo.

A cabeça respondeu:
como as cabeças geralmente respondem:
Quem eu fui
e de onde vim
quem removeu o meu corpo e porquê
- essa era a tua pergunta.



§



A FERIDA

Em que outra paisagem que não esta
poderia a tarde produzir tal peso.
Os cavalos que vêm beber
trazem grandes feridas

porém, nenhuma guerra
passou por aqui.

Que desejo de naufrágio
se levanta das águas
os humanos têm sido abandonadas
pelas árvores.



§



À NOITE

Não estou a dizer que a vida é boa
Prefiro dizer que foi má
porém também não estou a dizer isso.

Apenas desejo três instrumentos:
esquadro, tesoura, navalha

de modo a que possa medir e cortar
as coisas que podem ser medidas

deixando o resto para a noite cortar,
para os animais que então emergem.



sábado, outubro 22, 2011

WERNER ASPENSTRÖM, LARS FORSSELL, INGEMAR LECKIUS

Li algures por estes dias que “21 Poetas Suecos” (Vega), tradução colectiva com coordenação de Ana Hatherly e Vasco Graça Moura, iria ser reeditado. Seria uma boa ideia. Podem encontrar-se nessa antologia vários poemas (e poetas) suecos muito interessantes, entre eles Gunnar Ekelöf, Margareta Ekström, Lasse Söderberg, Tomas Tranströmer, e muitos outros.



WERNER ASPENSTRÖM (1918 – 1997), nasceu em Norrbärke e foi membro da Academia Sueca, ocupando a cadeira n.º 12, de 1981 a 1997. Aspenström dizia frequentemente que a sua motivação para escrever era fazê-lo para o seu gato.



TU E EU E O MUNDO

Não perguntes quem tu és e quem eu sou
e porque tudo é.
Deixa os professores tratarem disso,
pois são pagos.
Põe a balança da casa sobre a mesa
e deixa a realidade pesar-se.
Põe o casaco.
Apaga a luz da entrada.
Fecha a porta.
Que os mortos embalsamem os mortos.

Estamos a andar aqui, agora.
O que usa botas de borracha brancas
és tu.
O que usa botas de borracha pretas
sou eu.
E a chuva que cai sobre nós ambos
é a chuva.

Tradução de Vasco Graça Moura


§
LARS FORSSELL (1928 – 2007) foi igualmente membro da Academia Sueca. Poeta e dramaturgo muito premiado, nasceu e morreu em Estocolmo. Foi jornalista cultural em diversos orgãos de comunicação suecos, sendo muito popular no seu país devido a uma outra vertente artística que cultivava: a de escritor de canções.



Eu queria escrever mas
porque é que se tem de organizar tudo

tão exactamente

As coisas não são tão rigorosas

A estrada do tinteiro à página
é comprida demais e além disso
é preciso segurar a pena de uma
maneira especial como eu fazia quando tinha seis anos e
a lingua pousava no – era o canto esquerdo
da boca ? e eu aprendi tudo o que
quer que foi
que eu aprendi

Agora aprendi algo diferente

Despejo o tinteiro no papel
Dá uma imagem do que eu quero dizer
Dá uma imagem perfeitamente clara
de tudo o que aprendi

Tradução de Vasco Graça Moura


§INGEMAR LECKIUS (1928 – 2011) nasceu em Kristianstad (como Ingemar Gustafson). Foi poeta, ficcionista e tradutor.


VIDA DE FAMÍLIA (I)

Durante as longas e chuvosas noites de inverno quando o vento uiva lá fora, minha mulher e eu jogamos às cartas. Jogamos em completo silêncio com os nossos corpos por aposta.
Mais ou menos meia hora depois, considero que já perdi o suficiente e levanto-me dizendo calmamente: «Não joguemos mais. Já não tenho mais nada a apostar. Já perdi todo o exterior do meu corpo». O interior quero guardá-lo.
Mas a minha mulher nunca consente isso. Ameaçadoramente obriga-me a continuar o jogo. E só paramos de jogar quando eu perco o meu corpo todo. Só as minhas doenças – dores de cabeça, constipações e todas as minhas febres – ficam do meu lado da mesa. Essas noites são de facto bastante tristes.


Tradução de Ana Hatherly



domingo, outubro 09, 2011

KJELL ESPMARK


KJELL ESPMARK, poeta, ensaista, tradutor, romancista, nasceu em Strömsund em 1930. Foi professor de História da Literatura na Universidade de Estocolmo entre 1978 e 1995. Tornou-se membro da Academia Sueca em 1981, ocupando a cadeira 16, e presidente do Comité Nobel em 1988. A sua produção literária é surpreendente em qualidade e variedade. O primeiro livro (“O assasinato de Benjamim”, 1956) prenuncia uma extensa obra poética de quase uma vintena de livros marcados por assuntos como a crítica doméstica ao estado-providência, a materialização do estado da alma (como o “interior” se torna “exterior”, como no poema “A outra vida”), a crítica à civilização e ao poder (que ao longo dos séculos aparece como principal força motriz da humanidade), e mais recentemente, a doença e a morte. A partir da década de 80, Espmark torna-se romancista, sendo particulmente celebrado o incipit do seu romance de 2000, “Viagem de Voltaire” (“Quando Voltaire se encontrava em processo de acordar, notou que havia conseguido os dentes de volta.”). Eis um poema de Kjell Espmark, vertido da tradução inglesa de Robin Fulton, apresentada no livro “Five Swedish Poets” (Norvik Press, Norwich, 1997).



A OUTRA VIDA

Como se de pé, junto a um carro queimado
vendo o próprio corpo amassado sobre o volante –
Hoje é como um sábado banal de outubro
mas pertence a outro calendário.
Eu pareço atirado para fora da minha vida
tropeçando para dentro da minha vida.

Os mesmos áceres e freixos insubstanciais.
A mesma neblina com as mesmas promessas.
E a relva reivindica o peso de nossas pegadas.
Mas nós nunca aqui estivemos antes.
Escavando furos para bolbos de tulipa, vês
a terra a ser criada sob a pá.
Enquanto desligo a água para o inverno
e oiço o gotejar de água pela primeira vez.

Gralhas de um ano apagado
insistem, insistem
e persuadem o campo para nova tentativa
apenas o brilho recém-arado ainda.

Palavras como "cronologia" e "explicação"
são ferramentas enferrujadas que coloco no barracão.
A razão pode apelar a um tribunal superior.

A outra vida
com as estradas que nunca percorremos
deve ter existido desde sempre
a um braço de distância
com o mar retumbando junto ao mar –
mas não para ele que lhe estendeu a mão.
A palavra é graça.

O vento vira
além do que ainda está latente
e os olhos aprendem que o fumo pode picar:
a vida que não escolhi
escolheu-me subitamente.
E eu estou não escrito.
Escreve-me.


sábado, fevereiro 12, 2011

TOMAS TRANSTRÖMER

(este post é para José Mário Silva)
TOMAS TRANSTRÖMER nasceu em Estocolmo, em 1931. É o poeta sueco mais traduzido em todo o mundo. «O meu pão diário é Quatro Quartetos de T. S. Eliot, que mastigo deliciosamente entre os dentes», afirmou um dia. Na sua poesia, plena de imagens que aludem ao mar e ao longínquo norte - imagens por vezes fantásticas, de inspiração post-surrealista - é perceptível o forte apelo que a natureza tradicionalmente exerce sobre a escrita dos poetas escandinavos. Tranströmer vive presentemente numa ilha, longe dos olhares do mundo e dos meios de comunicação social; anteriormente havia sido psicólogo, particularmente dedicado à readaptação de delinquentes juvenis. Em 1990 sofreu um acidente vascular cerebral que o deixou em parte afásico e hemiplégico. Continuou, porém, a escrever tendo publicado mais três obras. Os poemas que se seguem são versões do castelhano, seleccionadas do livro “Para vivos y muertos” (tradução do sueco de Roberto Mascaro e Francisco Uriz), editado pela colecção de poesia Hiperión (Madrid, 1992). Segundo Louise Von Bergen que assina o prefácio desta obra, na «escrita de Tranströmer há um equilíbrio controlado entre o fantástico e o exacto, entre a liberdade e a consequência lógica». Eis quatro poemas, com a devida vénia.



HISTÓRIAS DE MARINHEIROS

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, más ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).

(1954)


§


A ÁRVORE E A NUVEM


Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

(1962)


§


DESDE A MONTANHA



Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

(1962)


§


PÁSSAROS MATINAIS


Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta que como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

(1966)


domingo, agosto 16, 2009

MARGARETA EKSTRÖM

MARGARETA EKSTRÖM nasceu em 1930 em Estocolmo. Poeta, critica, cronista, é mais conhecida porém como ficcionista de histórias curtas, algumas das quais traduzidas em diversos países. Mãe da poeta Johanna Ekström (Estocolmo, 1970), a sua poesia é marcada por uma atenção feliz às pequenas coisas, à ternura, à fragilidade humana, num frágil equilibrio que revela o nosso medo de viver. Os poemas que se seguem são versões minhas traduzidas do inglês e retiradas do livro “To catch Life Anew – 10 swedish women poets” (tradução do sueco de Eva Claeson), Oyster River (Durham, New Hampshire, 2006).



PARA USO DIÁRIO

Se a vida não fosse tão insubstituível
talvez ousássemos utilizá-la.
Porém arrumamo-la na prateleira
como um vistoso par de sapatos
que é bonito de se ver
mas não para uso diário.
Assim, continuamos por aí sentados
numa expectativa descalça.



§



CANÇÃO DA FORMIGA


Na compota de framboesa
da firma respeitada
jazia uma formiga.
Fiquei tão agradada:
uma formiga, uma verdadeira formiga,
uma formiga não listada nos "ingredientes"
a provar que existe verão.

Lá fora, a névoa do árctico caí espessa.
Cá dentro, uma formiga deitada no meu prato
como que fechada em âmbar.

As idades encontram-se.
Os espaços colidem.
Tempo da framboesa e espaço da framboesa
com o tempo do jornal e o espaço do pequeno-almoço.
E o tempo da formiga,
tão piedosamente contrariado pela compota
veio aterrar
num jarro.

Nem mesmo o Museu Nacional de História Natural
nos consegue surpreender tanto!



§



O FUNERAL


Na noite do funeral
eles abraçaram-me,
beijaram-me, mesmo esses
que habitualmente não beijam.
Apoiaram-me e perguntaram
se precisava de soporíferos,
estimulantes,
um xerez ou companhia para a noite.

Cada noite é um funeral
mas ninguém vem para me abraçar.
Ninguém pergunta como as coisas vão
se preciso de companhia para a noite,
um xerez, um soporífero.

Porque é apenas um dia como tantos
que morreu, e todos
temos que gerir isso o melhor que pudermos.


quinta-feira, agosto 06, 2009

SONIA ÅKESSON, KRISTINA LUGN, BARBRO DAHLIN

SONIA ÅKESSON nasceu em 1926 na ilha báltica de Gotland, tendo falecido em 1977 com 51 anos. Poeta de referência para gerações ulteriores, escreveu poemas socialmente comprometidos com o estado social – uma sociedade consciente, com segurança económica para todos - e do papel da mulher na nova sociedade sueca, num estilo simples e confessional conhecido por “Nova Simplicidade”, caracterizado entre outros aspectos pelo ritmo e pela repetição.


SIM, POR FAVOR

Uma mão quente.
Uma casa quente.
Um pullover quente
para cobrir meus pensamentos gelados.
Um corpo quente
para cobrir o meu corpo.
Uma alma quente
para cobrir a minha alma.
Uma vida quente
para cobrir a minha vida gelada.


KRISTINA LUGN, poeta e dramaturga sueca, nasceu em 1948. A sua é igualmente uma poesia que reflecte as aspirações e os sentimentos, a fragilidade e a solidão das mulheres subjugadas, em poemas negros e dramáticos, onde a morte é um elemento presente de uma forma quase inocente. Diversas vezes premiada, foi directora artística e directora do Dramaten Theather de Estocolmo.


TENHO DE TRATAR DAS COISAS

Tenho de tratar das coisas antes de partir.
Preciso de sapatos.
Preciso de uns bons sapatos.
Com solas de borracha.
Acho que isto vai ser duro.

Olhem para mim agora.

Vejo que me estou a aproximar com uma faca.
Vejo que me estou a aproximar com uma corda.
Alguma vez o tiro terá de ser disparado.
Importunei as pessoas com isto durante cinquenta anos.
Demorará meio segundo.

Porque é que me estão a olhar agora?

O amor não é para sempre.
Mas a morte é.
A morte é para sempre.

Adeus, vemo-nos mais tarde!

BARBRO DAHLIN (1940-2000) viveu em Estocolmo e em Öland, uma ilha do Mar Báltico. Além de poeta e novelista, exercia psiquiatria. A sua poesia, à semelhança de muita da poesia sueca, é caracterizada por um recurso a símbolos da natureza, em concreto, imagens de sensualidade e esperança.


DIA CLARO


Em Junho existem dias
em que o vento vem de norte
e o ar é gelado e limpo
o céu nu e apagado
Ao longe no horizonte
um pássaro gela parado
Tirando isso não há sinais
e nenhum rastro marcado
Quem olhar para cima cai
como se a gravidade não mais
segurasse as suas maçãs
Esse é o dia que a terra pára
para recuperar o fôlego


§


Os poemas seleccionados são versões minhas do inglês retiradas do livro “To Catch Life Anew – 10 Swedish Women Poets” (tradução do sueco de Eva Claeson), Oyster River (Durham, New Hampshire, 2006).


domingo, setembro 21, 2008

LASSE SÖDERBERG

LASSE SÖDERBERG nasceu em 1931 em Estocolmo, na Suécia. Vive actualmente em Malmö. Uma selecção da sua poesia, “Coração de Papel”, revista por Ana Luísa Amaral e Gonçalo Vilas-Boas, de forte inspiração surrealista, foi editada em 2001 pela Quetzal, na sequência da tradução colectiva que decorreu em Mateus, em Abril e Maio de 1998. Dois poemas, com a vénia devida:



OUVIDOS CHEIOS DE ALGODÃO

Primeiro tapo os ouvidos
com ambas as mãos
para não mais ouvir
o eterno sussurro.

Depois começo a encher
os ouvidos de algodão,
grandes pedaços de esquecimento.
Poderei assim escapar?

Para ficar convencido
de ter achado a solução
corto as orelhas
segundo um método experimentado.

Ei-las diante de mim
como duas conchas do mar,
cheias de eterno sussurro
e de anestesiante algodão.


§


GUERRILHA URBANA


(Berlim Leste, 1975)

A altas horas da noite está o centro da cidade
fortemente iluminado como uma sala de interrogatório.
Venho de Greifswalderstrasse.
Nem vivalma. Então algo se ouve subitamente
como se umas botas vazias de borracha
corressem sobre a relva.
Do canteiro erguem-se longas orelhas.
Um coelho salta-nos à frente! Mais um!
E mais um! Um bando de agitadores!
Tropel atrevido, tarados sexuais de olhos congestionados
saltitando como num passe de mágica
tirados das almas adormecidas dos funcionários.
Todas as noites aparecem à luz
sorrindo com desdém de tudo o que lhes mete medo.


quarta-feira, setembro 10, 2008

GUNNAR EKELÖF


GUNNAR EKELÖF, poeta surrealista e modernista sueco, nasceu em Estocolmo em 1907 e morreu em Sigtuna em 1968. Segundo Marianne Sandels, "foi mestre na arte de descrever os sabores do Verão, a neblina que se ergue sobre os pequenos lagos à noite, os prazeres simples da vida rural, que lhe permitiam comungar com a Natureza. (...) Este amor pela paisagem sueca, embora simples e discreto, podia na verdade compensar a sua falta de entusiasmo pela «nova» sociedade sueca que então surgia". A Quetzal editou, em 1992, "Antologia Poética" com traduções de Ana Hatherly e Vasco Graça Moura. De partida para o longínquo norte, dois poemas:


ENTRE NENÚFARES

Escrevi uma introdução para o que teria dito
mas rasurei-a. - Quero no entanto
que antes de a noite me envolver
a última coisa que de mim se aviste
seja um punho fechado entre nenúfares
e a última coisa que se oiça de mim
seja uma palavra de bolhas de ar

a vir do fundo.


tradução de Vasco Graça Moura



§


NO MERCADO DE ISFAÃO ...

No mercado de Isfaão,
no estrado,
mil e um corpos
mil e uma almas
estavam à venda para escravos.
E mil e um mercadores
faziam diferentes ofertas por corpos e almas.

As almas eram como mulheres.
Os corpos eram como homens.
E sorte teve o Mercador
que, graças à sua perspicácia,
conseguiu arrematar
Uma alma
e um corpo
que condiziam e podiam acasalar.


tradução de Ana Hatherly