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terça-feira, janeiro 12, 2016

LIEKE MARSMAN



LIEKE MARSMAN (Zaltbommel, 1990). Jovem poeta holandesa que começou por publicar poemas na  revista literária Tirade, onde tem um blog e faz tradução de jovens poetas americanos contemporâneos. Em 2010 publicou o livro Wat ik mezelf graag voorhoud (Do que eu gosto de me convencer) que ganhou de imediato três prémios literários, entre os quais o prestigiado Prémio C. Buddingh para melhor estreante de poesia. Em 2014 foi editado o seu segundo livro, De eerste letter (A primeira letra). Ainda numa viagem de descoberta da sua voz, a poesia de Lieke Marsman é acessível, introvertida, sensível e analisa o interior do indivíduo, não descurando o que o rodeia. Os tópicos giram em torno da incerteza e da dúvida, qualquer que ela seja: insegurança social, a infância, questões existenciais, grandes e pequenas dúvidas sobre comportamentos, medos e relacionamentos humanos. Isso repercute-se num eu que interroga, sonha, por vezes analisa. Numa entrevista dada à (também ela) jovem crítica literária Marleen Louter, diz Lieke Marsman: “Um poema meu não é necessariamente um poema sobre a minha pessoa. O início do poema tem a ver comigo, mas depois aumento coisas, escrevo sobre outras pessoas a partir da minha perspectiva”. E, noutra parte da entrevista diz: “É uma espécie de contraste (...) pôr sob a forma de um enunciado bonito coisas que talvez não o sejam na realidade.” Lieke Marsman é considerada uma grande promessa das letras holandesas.
Eis alguns poemas, em mais uma tradução de Leonor Raven.
 
 
ENTRETANTO
Às vezes, somente penso
que devo escrever o mais depressa possível
um conto sobre uma paisagem de neve. Enterrar-me até à relva,
calçada de botas de neve e, escavar avalanches ocas. Se olhar,
conheço os nomes de todas as plantas de cor
sobre elas cantarei em tons de dança
até ficarem de novo a descoberto.
 
Deixarei pedaços da minha úvula no ar,
vazia a minha garganta. Devagarinho, a minha voz
amarrotará estas paredes de neve
até haver tanto lodo
que não conseguiremos caminhar.
 
Ser levada lentamente pela corrente
com as rochas e os ratos, os pinheiros e
os campos, capelas, as imagens da Virgem
que usam os altares como navios.
 
Cantarei tão alto que
o musgo liquefar-se-á.
 
Cantarei tão alto que
a montanha derreter-se-á.
 
Cantarei tão alto que
voltará a ser possível afogarem-se
cavalos no pântano aos meus pés.
 
(De Wat ik mijzelf graag voorhoud, 2010)
 
 
§
 
 
COMO PALAVRAS
Não preciso de pôr um ponto final
a algo que está irrevogavelmente suspenso.
 
Não me devo esconder no rosto de outra pessoa ou
ficar desanimada com isso. Devo projectar algo
que irá descobrir-se ser um mapa, iniciar uma viagem
bela e inesgotável como palavras, como palavras.
 
Não preciso de abrir uma porta
para a deixar entrar.
 
Tão-só fechar uma janela
que ela irá querer arrombar.
 
(De De eerste letter, 2014)
 
 
§
 
 
5
 
Se a palavra angústia começasse pela primeira letra do alfabeto em cada língua
Se eu acordada pensasse que iria despertar de repente
Se eu visse constantemente algo mexer-se no canto do olho,
Sendo contudo sempre uma árvore existente
Se eu tivesse medo de repentinamente começar a pensar que
tudo girava à volta da minha pessoa
Se tudo girasse à minha volta
Se eu esperasse que a minha respiração recuperasse espontaneamente
porque me tinha esquecido que já o fazia, como uma criança
que pensa que vai deixar de ter oxigénio durante o sono
Se eu fosse novamente essa criança
Se eu tivesse medo que a partir de agora o tempo deixasse de passar,
o que me obrigaria a ficar neste momento para sempre
Se me culpasse de ser paradoxal, seria logicamente obrigada
a perdoar-me ao mesmo tempo
Se eu pensasse que de repente o mundo se abriria
Sob a forma de um olho de gato ou de uma vagina:
 
Aqui
ergue-te, abre uma janela
com uma mão que sentes, à vista
de alguém que queres sentir,
no reflexo da janela fechada.
 
( de De eerste letter, 2014)

JANNAH LOONTJES

 
 
JANNAH LOONTJES (Copenhaga, 1974). Filha de um casal de hippies que se mudou pouco tempo após o seu nascimento para a Suécia, dividiu os anos de infância entre esse país e a Holanda, até se mudar definitivamente com a mãe para a Holanda, onde estudou Filosofia da Arte na Universidade de Amesterdão. Depois da licenciatura, estudou Filosofia  em Nova Iorque, na New School for Social Research. Em 2012 doutorou-se em Estudos Literários na universidade de Amesterdão.
Poeta, prosaísta, filósofa, docente de análise literária e de filosofia, Jannah Loontjes publicou em 2002 o seu primeiro livro de poesia intitulado  Varianten van nu (Variações  Actuais) . Em 2006 foi publicado o seu segundo livro, também de poesia, Het ongelooflijke krimpen (O encolhimento inacreditável). Estreou-se como romancista em 2007 com o romance Veel geluk (Boa Sorte),  a que se seguiu  em 2011 o romance Hoe laat eigenlijk (Que Horas São Estas?), muito bem acolhido pela crítica e nomeado para o Prémio Literário Halewijn.  O ano de 2013 foi especialmente frutífero, tendo publicado um livro de poesia Dat ben jij toch (És tu porém) e um conjunto de ensaios intitulado Mijn leven is mooier dan literatuur (A Minha Vida é Mais Bonita do que a Literatura). Jannah Loontjes escreve ainda críticas literárias para vários jornais e revistas de referência, assim como ensaios sobre poesia e filosofia.
Embora o tom usado na sua obra poética seja ligeiro e gracioso, os temas que aborda podem envolver questões tão antigas como a Humanidade; questões existenciais que todos nós alguma vez nos colocamos. Loontjes mostra interesse em compreender o que sentimos, o que pensamos, como reagimos em grupo ou individualmente, e, aquilo que nos torna únicos como seres humanos. Muitas poesias incidem sobre a vivência do indivíduo numa situação concreta, utilizando uma linguagem acessível, a que não faltam os sons nem as cores. A sua poesia é sobretudo uma expressão da sua admiração e curiosidade pelo que nos rodeia.
Em mais uma excelente tradução de Maria Leonor Raven-Gomes, quatro poemas.


§ 


TAMBÉM

Mãos inexistentes segurando coisa nenhuma
zero graus talvez existam,
contudo. O leite também azeda
com a trovoada. Os vulcões têm nomes
permanentes, mesmo se não expelem lava.
O mesmo nome não promete que
sejamos semelhantes. Água e fantasmas
conseguem atravessar muitas coisas.
Consegues ver através de nada? Os fantasmas
vivem, sim e não. Ausente é quando estás
não estando. Às vezes sinto a tua ausência
mesmo estando tu presente. Às vezes estás
sem seres  aquele de quem sinto a falta.
Nem todas as nuvens têm um nome.

(de Dat ben jij toch, 2013)

§


TRASEIRAS

Abro a porta, entro na varanda. Noite.
Nos quintais vestígios de pombos. Neve
que jaz ao acaso. Um gato sob um arbusto
sacode o pêlo, embosca uma sombra. 

A lua descansa sobre um telhado. Cortada por vozes
que cantam. Al Jazeera.
Roupa enregelada pendurada num silêncio de morte.
A camada branca ocupa tudo sem vergonha, faz amizade

com ombreiras pálidas, grades de varandas, antenas parabólicas.
Também eu pertenço aqui. Sozinha. Porém,
rodeada de gente e animais.
Porém e porém. Isto é tão inverno, tão noite
como uma noite de inverno. Aspiro. Cheiro. Lixo.
Humidade. Cozinha. Pêlo de gato.

(de Dat ben jij toch, 2013)

§


PANORAMA

A noite paira sobre a cidade
imóvel como numa fotografia,
um filtro de crepúsculo lilás
granula o panorama,
entranha-o como
folhas de chá
em água a ferver
e descolora  a vida
como algo
numa velha fotografia polaróide
que mais tarde
quando espero esquecer
me irá recordar
flâmulas de paixão
nas quais o teu nome ondula
como um cachecol perdido
em dias tímidos de inverno.

(de Varianten van nu, 2002)

§


ENFADO

Como uma ligadura de gesso
o tempo enrolou-se à volta das
minhas pernas,
nada vejo à minha volta
ou parece que tudo desapareceu.
Amanhã e ontem colocam-me
as mesmas questões
hoje dobra-se entre
o papel empoeirado
de um pesado livro enfadonho
em cima da secretária,
aonde me sento
e sento.

(de Varianten van nu, 2002)

quarta-feira, abril 02, 2014

INGMAR HEYTZE


INGMAR HEYTZE (Utrecht, 16 de Fevereiro de 1970) começou a escrever poesia aos 15 anos. Cursou Linguas e Literaturas Modernas na sua cidade natal, especializando-se em Comunicação. Faz parte de um grupo de escritores e jornalistas da cidade de Utrecht que tem vários poemas espalhados em muros e paredes da cidade, apelidado de Utrecht Maffia. Este grupo reúne-se regularmente em tertúlia no Café-Teatro De Bastaard. Heytze começou a sua carreira de poeta declamando em palco, aquilo a que na Holanda se chama podiumkunst.  No início, notava-se muito a influência dessa forma de fazer poesia: uma poesia de fácil acesso em termos de vocabulário, por vezes ritmada, abordando variados assuntos, mesmo os mais absurdos, a tempos de forma bombástica e, regularmente com um toque de humor. Essa nota de humor é, segundo o próprio poeta, uma maneira de se distinguir dos seus pares e “a melhor figura de estilo que existe. Sem humor não há arte. Em primeira instância é gozar consigo mesmo”, diz ele numa entrevista concedida à revista cultural 8 weekly. Entretanto, a sua obra tornou-se mais madura, embora se continue a observar um certo elemento de surpresa e irreverência, muitas vezes sob a forma de um punch no último verso. Incide actualmente na observação e na análise de situações ou sentimentos. A acção centra-se em Utrecht (cidade que praticamente não abandona por fobia de viajar), tendo sido o primeiro ‘poeta oficial’ da cidade. Em 2008 foi-lhe atribuído o prémio C.C.S. Crone para estímulo a jovens escritores. A obra de Ingmar Heytze é extensa e variada. Além de continuar a escrever poesia e declamar em público, trabalha para vários jornais e revistas como free-lancer, colabora com outros poetas e escritores, e desde 2009 faz parte de uma banda intitulada Asfaltfeeë, na qual também participam mais alguns artistas conceituados.
Os sete poemas que se seguem foram traduzidos do livro Ademhalen onder de maan (Respirar sob a lua, 2011) por Maria Leonor Raven-Gomes, a quem também se deve a nota introdutória. Muito obrigado, Leonor!
 
 
O ÚLTIMO HOMEM A FALAR UBYKH

Por vezes, no decorrer dos últimos meses,
ele pensava numa palavra
e tentava lembrar-se da árvore ou da espécie de sapo
que ela nomeava:
a verdadeira árvore, sapo ou emoção
e não o sinónimo numa outra língua,
a língua que lhe levara os filhos e a luz da montanha,
os túmulos que ele varria e cuidava, as canções dos casamentos.
Enquanto anos de silêncio se conjugavam à soalheira
ele ficava no quintal
e sussurrava o nome de um pássaro
na sua língua materna,
enquanto memórias de neve e dias de feira,
das mãos do seu pai, do odor a tamarindo
se retiravam em palavras puídas:
o azul da infância dobrado como um lençol
e arrecadado.
Nada do que ele dizia era recordado; nada do que fazia
facto ou lenda,
na praça da aldeia.
Contudo reteriam mais tarde a palavra
que disse nessa manhã, pouco antes de morrer:
um nome para a morte, talvez,
ou para a erva dos prados,
ou, surgida à beira do pensamento,
uma outra palavra que havia quando ele era pequeno,
uma palavra raramente utilizada, embora existisse
para tudo o que ninguém conseguia recordar.
John Burnside
 
§
 
PRIMEIRA MEDITAÇÃO

És a única árvore no mundo que recusa
crescer em direcção à luz. Em vez disso enterras-te
com raízes cada vez mais profundas,
camada de terra após camada, tempo passado,
rumo ao calor, e calculas já estar a meio caminho.
Depressa deixas de sentir as toupeiras, minhocas
ou raízes de outros seres, tetra-cego das cavernas
na sua noite infinita. O frio é cada vez maior.
Não sabes se consegues crescer a distância necessária
para encontrares o magma. Estás só, mas a caminho.
 
§
 
LEBRES

As lebres são as mais bonitas, diz ela.
As lebres estão prontas para correr desde que nascem:
patas, olhos e orelhas, tudo funciona desde o início.
Não há animal mais camuflado do que a lebre.
Uma lebre só se veste de prado,
na distância que a separa de ti.
Uma lebre está nua sob o céu.
E os ouriços-cacheiros, pergunto, como são os ouriços?
Os ouriços-cacheiros, diz ela, são míopes, lentos,
sempre a vasculhar nos arbustos, como pequenos trapeiros.
Também são bonitos, mas diferentes, acanhados.
A maneira como eles tentam encobrir
a brandura num forte de espinhos.
Como nunca conseguem
ocultar-se  em si mesmos.
As lebres, diz-me depois de uns momentos,
as lebres são ouriços do avesso.
 
§
 
MARKET MAKER

A única coisa que posso fazer por si, diz o homem
atrás dos computadores, é premir um botão a tempo
porque tudo tem que desaparecer, desaparecer e desaparecer.
E quase ninguém sabe quando é que na realidade
ele preme um gatilho. O passado foi à falência,
o futuro não me interessa; a verdade
flui em números cinzentos pelas minhas retinas,
um piscar de olhos e a próxima apresenta-se.
Os dias não são bons ou maus, vivo indiferente
a onde paro e ao que ponho em movimento.
É assim que eu vejo as coisas: piloto um navio,
o radar pia para onde. O mar? Nunca olhei para ele.
Posso chamar-lhe papá? Tenho biliões de pais e hoje
desapontei-os a todos. Não chore. Prefiro que
me conte uma história para eu conseguir dormir.
 
 
§
 
ÀS VEZES ESTRELAS

Os vizinhos da esquerda, ar reformado
sobre um telhado entre paredes exteriores.
À direita, uma mulher que fala com a televisão
e todas as noites adormece antes das dez.
Debaixo: homem que acorda assustado
se algures alguém abre uma torneira.
Por cima: pombos. De vez em quando uma andorinha.
Às vezes estrelas. Mas mais frequentemente
a trovoada me visita.
 
 
§
 
SEGUNDA MEDITAÇÃO

Alguém te sopra como se fosses um dente-de-leão.
Nua, flutuas no escuro e não sabes –
o que é escuridão, ou luz, ou tu, ou existência.
E no entanto as sementes dançam à tua volta,
filamentos a caminho do nada. Talvez um caia em terra fofa.
A probabilidade de germinar é extraordinariamente pequena,
mas tudo flutua. Tudo junto és tu.
 
§
 
O QUADRO ELECTRÓNICO

Vi-te pela primeira vez debaixo do quadro electrónico.
Que se agitava e movia como uma roda da sorte;
novos horários, comboios extra, locais para onde viajar.
Tinhas ficado à espera, mesmo sem saberes do quê,
disseste-mo essa noite sob as estrelas que
observávamos através da janela do sótão.
Como se o fim estivesse adaptado à forma
contida nele desde o início, veio uma manhã
em que te foste embora. Murmuraste ainda algo
sobre cometas que não sabem onde a trajectória os leva. 
Levei-te à estação. O átrio parecia agora muito maior,
a luz incidia de forma estranha – vi-te pela última vez
debaixo do quadro electrónico, que matraqueava destinos
como se o tempo tivesse ficado suspenso. Olhaste para cima,
escolheste um cais longínquo. A escada rolante engoliu-te.
Ninguém se voltou para olhar para trás.

sábado, setembro 21, 2013

ESTER NAOMI PERQUIN


ESTER NAOMI PERQUIN nasceu em Utrecht em 1980. Reside em Roterdão, cidade da qual é a poetisa oficial (nomeada em 2011 por um período de 2 anos). Em 2006 concluiu o curso de escritora na Amsterdamse Schrijversvakschool, na variante Poesia. A fim de pagar os estudos, Ester Naomi Perquin trabalhou como guarda prisional durante 4 anos. Essa experiência profissional reflecte-se na temática de grande parte dos seus poemas. No último livro que publicou, Celinspecties (Inspecções às Celas) todo o livro se centra à volta da prisão em geral, e dos seus habitantes em particular. Assinalados pelo nome próprio e a inicial do apelido, eles desfilam numa galeria de tipos, motivações, vivências, atitudes e crimes. Esse desfile faz-se sem juízos ou preconceitos. Ester Naomi Perquin estreou-se em 2007 com o livro de poesias Servetten halfstok (Guardanapos a meia-haste) que recebeu o prémio de estreia da revista Het Liegend Konijn. No ano seguinte, o mesmo livro arrecadou o prémio Eline van Haaren destinado a poetisas até aos 35 anos. Servetten halfstok foi ainda nomeado para dois prémios prestigiosos: o prémio C. Buddingh (2007) e o prémio Jo Peters (2008). Namens de ander (Em nome do outro) foi o seu segundo livro a ser publicado, em 2009. Ganhou o prémio de poesia Jo Peters (2010) e o prémio J.C Bloem (2011) seguidos de mais prémios. O terceiro e último livro chama-se Celinspecties. Publicado em 2012, já recebeu um prémio em 2013.

Em mais uma excelente colaboração de Maria Leonor Raven-Gomes (nota introdutória e traduções), eis quatro poemas de Ester Naomi Perquin. Muito obrigado, Leonor!



De Namens de ander (Em Nome do Outro)


PREVIAMENTE

Na primeira existência aprendes logo o formato,
célula após célula desenrola-se em meadas organizadas, planta membros,
és reduzido lentamente a um conceito de seis letras.

Esqueces-te de como era ser perfeito. Permaneces assim brevemente,
reconheces as oportunidades no decorrer do tempo, roças-te à
coincidência, armas-te com a razão e o tempo,
até demarcas uma vida anterior.

No momento em que te divides
desapareces simultaneamente
em dois amantes.

Muitas vezes é esse o fim, vêem-se demasiado tarde,
é como se houvesse um estranho obstáculo ou
as suas míseras vidas se desenrolassem em cidades incompatíveis.

Por vezes, revelas-te contumaz, encontras com exactidão
a fenda, deixas-te repentina e imprevisivelmente
voltar a fundir-te num só.


§


RISCOS


O nosso quarto habitual. As paredes erguem-se tal qual
como combinado. A janela desdobra-se, completa

com os cortinados fechados. Poderia ser ao princípio da noite ou
ao fim do dia. Penumbra inalterável.

algumas chalaças sobre a luz do dia que menos e menos suporta.
O odor a madeira e a tangerinas muito maduras.

Olha, ali surgem os armários, a cama de casal delineia-se
com os seus lençóis e os cobertores,

a colcha com a mancha exactamente no mesmo sítio. Lá
em baixo recompomos as nossas caras, sentamo-nos à mesa

e a vista enche as ombreiras: quintas, três árvores a abanar.
Sabemos de antemão o que iremos agora comer:

a entrada, que é sempre um desapontamento, o bife e a tarte de maçã.
Estamos mais velhos, entretanto podemos pagar

uma coisa melhor. Aqui chove a maior parte do ano.
O perigo maior envolve-nos com

o mesmo lugar, o mesmo quarto. Arriscamo-nos a ter hábitos,
amamo-nos. Repetimo-nos.


§


De Celinspecties (Inspecções às Celas)


BEM-VINDO DE VOLTA


Sei como eles passam o portão à noitinha.
As mãos ainda côncavas de acariciarem
as cabeças dos filhos, as costas dobradas.

Trazem na roupa o exterior e cheiros a comida,
pêlos de cão, cerveja, o cheiro a mulher quente e
últimos cigarros juntos, lençóis enxovalhados.

Olho para os homens a lavarem-se
deixando para trás sabão, pó e saudades.

Sei que as mulheres ficam junto aos portões.
Os casacos abotoados até ao pescoço,
As mãos nos bolsos, cabeças curvadas.

Como os homens avançam em silêncio.


§


DENTRO DOS LIMITES


Habituas-te à tua forma. Às paredes construídas de paciência, à altura do tecto cheio de manchas estranhas, ao chão pegajoso; imperturbável, a tua respiração sonda o espaço e retorna, as tuas mãos acham no escuro o interruptor, os cigarros, como te movimentares, habituas-te a fumar no escuro, quem vês mais nitidamente são os teus filhos, pedalam em bicicletas de pneus furados, pegam em ferramentas sem terem ninguém que lhes ensine, atiram aos pássaros errados, raspam as faces com a tua navalha embotada. Habituas-te. Debaixo dos cobertores a tua mulher revolve-se nua, sente-la próxima, estendida, em dimensão real, tentas tocar-lhe, habituas-te a um corpo que ninguém mais toca e tu mais e mais perdido à volta dela, difícil de consolar. Habituas-te à vista como a uma história, a quem ta leu naquela altura, quase adormecido, já naquela altura, muitos anos atrás, praticamente não compreendeste o significado, tal como te esqueceste de muitas coisas e habituas-te à imagem que fabricas depois: salteadores aparecem e cantam, há um homem com uma gadanha, uma mulher numa torre, de braços abertos como se estivesse à espera de cair, no entanto a espera dela é voluntária, ri-se. Habituas-te. A que em breve, corajosamente alguém virá socorrê-la, derrotar os ladrões e dar cabo do homem com a gadanha. Habituas-te ao impulso de a meter para dentro. A ficar hesitante ao princípio, em seguida, aos teus hábitos, a uma relação com a luz sobre os lençóis, à porta de ferro, à torneira que pinga, aos buracos dos cigarros nas cortinas, aos teus posters nus que se oferecem, ao rosto omnipresente que se debruça quando escurece, ao bafo da justiça, às conversas dos outros e à música ao longe, ao facto de tudo provocar estalidos, ao desaparecer vagaroso de um passo no corredor, a ter medo habituas-te, à tua nudez completa, sémen na mão, caracol que és. A matutar habituas-te, à inutilidade da respiração contínua habituas-te, ao constante cismar habituas-te.




domingo, junho 02, 2013

THOMAS MÖHLMANN

 
THOMAS MÖHLMANN estudou Neerlandês na Universidade de Amesterdão. Estreou-se em 2005 com o livro De vloeibare jongen (O Rapaz Liquefeito), na editora Prometheus. Foi nomeado para o prémio C. Budding para a melhor estreia em poesia neerlandesa. Em 2007 ganhou o prémio Lucy B. & C.W. van der Hoogt. Em 2009 surgiu o seu segundo livro na editora Prometheus: Kranen open (Torneiras Abertas) eleito como Escolha do Clube de Poesia e nomeado para o prémio de poesia Jo Peters em 2010. Thomas Möhlmann trabalha para a Stichting Nederlands Letterenfonds (Fundação de Letras dos Países-Baixos), é redactor da Poetry International Web, Lyrikline e da revista de poesia Awater, da qual foi co-fundador. Foi autor de várias colectâneas de poesia e organizou diversos programas de poesia. O seu novo livro de poemas será editado dentro em breve. Em O Rapaz Liquefeito, o poeta cria um universo fantasioso, com as suas próprias leis onde tudo é possível e cujas personagens são “figuras” para o povoar. São sobretudo as imagens que interessam e, ainda, experimentar as fronteiras entre a fantasia e a realidade. O segundo livro, Torneiras abertas é um livro mais maduro, uma continuação desse universo interseccionado, mas mais directo e onde as personagens adquirem um eu e uma história.
 
Em mais uma colaboração de Maria Leonor Raven-Gomes (nota introdutória e traduções do original), eis quatro poemas de Thomas Möhlmann retirados de De vloeibare jongen (O Rapaz Liquefeito). Muito obrigado, Leonor.
 
 
 
O Rapaz Liquefeito

I

Depois de largar as roupas e os velhos adornos,
ligeiramente curvado, acocorado, ele juntou-se ao rio.
Enquanto as penas secam

ele
dobra
as suas
pequenas
palavras

em barcos, quedando-se a olhar
frases bem formadas, em silêncio amoroso.

Levantar-se, perder gradualmente a forma
agora e esperar até se poder embalar
por entre as paredes finas
da sua pele, como se estivesse num aquário tombado.

Coloca um passarinho morto
à superfície do braço
para conservar um segredo que ele próprio inventou
antes de ser levado pelas águas.




II

Ela flutua de olhos abertos, a boca
quase tão descorada como as pedras
e ele veste-a com tudo o que tem

transportando-a até ao término
soubera ele onde, com os braços
que se recusam a tornar-se carne, a ela,

a sua irmã transformada num pano encharcado,
ele marulha na sua face inchada
para mais um aceno, um relampejo no olhar.




III

‘Era aqui que devias ter aninhado, meu passarinho,
e aqui as ondas quebraram o último pedaço de fita,
um remoinho adornou o último barquinho
e contudo nada mais fizeste salvo inchar e empalidecer
e esboroar-te sucessivamente em bocadinhos mais pequenos e descoloridos,
partículas cada vez mais e mais pequenas.’

‘Tudo ficará mais leve, querido mano,
quase não há mais nada intacto entre nós,
mais um pouco e já não distingues a diferença
nem a relação que nos separa
retoma – um beijinho – o teu segredo, recupera as palavras
e deixa-as – um beijinho – rolar pelos teus lábios secos.’


§


Ele procurou por muito tempo

Cada passo diminui e aumenta o número de possibilidades
mas não as possibilidades que ele procura
tem de haver outro caminho que não este, mas assim que ele o toma,
tem de haver outro caminho. Abordou pessoas

apresentou-se sob nomes diferentes e perguntou se
as pessoas sabiam onde estavam. No mar alto, no umbigo do mundo
à beira de jardinzinhos bem-tratados: ninguém sabia.
Onde o ar era tão rarefeito que ele tinha vertigens, onde

o ar denso lhe cortava a respiração, onde todos
se ofendiam mutuamente, onde ninguém se atreveria ir,
onde todos deveriam ter estado: ninguém sabia.


§


Ele tem tempo

Lá fora um motorista espera pacientemente, por ti por mim?
Há um outro sítio a que não chegamos por um triz
prometo não abrir antes de a campainha tocar
enquanto tudo ficar como está, a campainha não toca

ele tem a porta fechada, continua sentado e à luz fraca
acende um cigarro, deixa escapar o primeiro fumo sem um suspiro
não olha mas liga o motor, na consciência tranquila que a única coisa
que poderíamos fazer era levantarmo-nos e abrir um pouco

as cortinas. O teu motorista? O meu? Deveríamos estar
mais indiferentes ou mais em pânico. Soam passos
próximos, afastam-se, desaparecem e, umas ruas além
aproximam-se passos, hão-de se afastar desaparecer e

o último fumo desaparece subindo em espirais no carro
silencioso frente à nossa porta. Há um outro sítio onde
nos reencontraremos, mesmo que toquem à campainha,
mesmo que um de nós acene ao outro para o tranquilizar.


§


As pessoas dormem em toda a parte

Caídos onde estiveram outrora
a testa encostada ao braço
o rosto voltado para a terra, respirando calmamente.

Sobre a terra, debaixo de cobertores quentes
sob tectos sólidos, enlaçados uns nos outros
à sorte, enrodilhados em si mesmos

enquanto o mundo se abre qual mão
enquanto os dedos procuram outros dedos
outros dedos procuram outros e os peixes

embalam o mar para o acalmar e os navios as suas cargas
e a rádio embala o pai e, como um tecido macio,
o pai a mãe, os candeeiros a noite.

Porque velas. Por que razão alguém
está de vigília, alguém está presente.