O CRÍTICO E OS POETAS
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quarta-feira, junho 12, 2013
MARTÍN LÓPEZ-VEGA
MARTÍN LÓPEZ-VEGA nasceu em Llanes, Asturias, em 1975. Licenciado em Filología Espanhola pela Universidade de Oviedo, estudou literatura portuguesa na Universidade do Minho e obteve a bolsa Valle-Inclán da Academia de Espanha em Roma, en 1999. Crítico literário e tradutor, tem numerosos livros de poesia publicados. A arte poética que se segue foi traduzida do castelhano por Jorge Sousa Braga para o Poesia Ilimitada, do blogue de Martín López-Vega Rima Interna.
O CRÍTICO E OS POETAS
O verdadeiro poeta está só. Os que andam em manada são o coro.
É impossível que um poeta aceite uma crítica de um libro seu como construtiva. A única coisa que o poeta quer é construir o seu ego e os andaimes do seu ego: uma corte de aduladores o mais numerosa possível.
Para o poeta não há críticos que tenham encontrado defeitos no seu livro: só críticos que não conseguiram compreender a sua riquíssima complexidade.
Tudo se pode dizer de outra maneira, mas não existe nenhuma que não seja susceptível de ser interpretada de forma retorcida. A não ser que se diga “Isto é uma maravilha” ou “Isto é uma merda”...
Citar é retirar do contexto. Se um verso descontextualizado soa ridículo é porque já era ridículo no seu contexto.
Qualquer um com o mínimo de talento pode ridicularizar qualquer coisa; mas há coisas que se ridicularizam a si mesmas.
Se um crítico lê algo que lhe parece um disparate, deve dizer que lhe pareceu um disparate, embora correndo o risco de se expor a mostrar que não percebeu nada. Se o poeta decidiu publicar os seus disparates, porque iria autocensurar-se o crítico.
…
Se numa crítica alheia um amigo te anima a ver insultos encobertos, desconfia do crítico só depois de teres desconfiado do amigo
…
Nunca insultes o crítico que te colocou reparos: ele sentirá que lhe estarás outorgando uma medalha.
O critério do crítico-poeta não pode ser ler, estudar, incensar os livros que se pareçam com os seus, sob pena de se converter num bonsai: se lê apenas aquilo que lhe é familiar, nunca crescerá. Mas isso tão pouco quer dizer renunciar ao sentido crítico. Nem tudo é bom apenas por ser diferente, embora tudo o que é redundante seja sempre mau.
O mau poeta entretém-se com aquilo que considera a sua voz, faz trinados como uma cantora de ópera antes de sair de cena. O poeta verdadeiro morrerá procurando essa voz, tratando em vão ignorar que é o silêncio.
Qualquer crítica literária é ideológica. A primeira sintonia (ou a falta dela) que o crítico sente com um livro tem a ver com a sua visão do mundo e a sua atitude perante ela. Nesse primeiro encontro violento tem a sua origem o resto do diálogo do crítico com o texto.
…
Tenta ser boa pessoa e bom crítico. Mas não mistures as duas coisas. Se como crítico és boa pessoa encher-te-ão a casa de livros com versos horríveis. Se como pessoa és bom crítico, ficarás só.
Não abuses da ironia: as pessoas pouco inteligentes não têm sentido de humor e a maioria delas transformam-se em poetas.
Não confundas os leitores de poesia com os poetas. Por muito que digam que não, os primeiros são muitos mais e é para eles que escreves. Nem uns nem outros te cobrirão de glória, mas ao menos os primeiros não te darão cabo da paciência.
Um crítico que nunca foi insultado é um crítico que nunca acertou em nada.
04/03/2013
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MARTÍN LÓPEZ-VEGA
domingo, fevereiro 20, 2011
JOSEBA SARRIONANDIA

JOSEBA SARRIONANDIA nasceu em Irrueta, no País Basco, em 1958 e é formado em Filologia Basca. É membro fundador do grupo literário POTT, que teve uma importancia fundamental no desenvolvimento da literatura basca nos anos 80. A sua colaboração com a ETA levou-o à prisão em 1980, condenado a 18 anos de cadeia, da qual fugiu em 1985 escondido dentro de um sistema de colunas de som após um concerto, desconhecendo-se o seu paradeiro desde então. A espectacular fuga inspirou uma famosa cantiga "Sarri, Sarri" do grupo basco Kortatu. Muito activo literariamente, traduziu entre outros Fernando Pessoa. É um dos poetas cuja obra poética mais influência exerce sobre as novas gerações. Segundo Mari Jose Olaziregi, para Sarrionandia «toda a literatura é, em última análise, metaliteratura. Depois da morte de Deus, e da morte do Autor, a apropriação de textos de outros, das vozes dos outros, tornou-se essencial na era postmoderna». Eis dois poemas de Sarrionandia, trazidos do inglês, retirados do excelente livro “Six Basque Poets” (Arc Publications, Todmorden, UK, 2007, tradução de Amaia Gabantxo, edição de Alexandra Büchler). Com a devida vénia.
UMA PILHA DE SAPATOS QUEBRADOS
A viagem podia ser uma metáfora para a vida.
A morte, uma pilha de sapatos quebrados sob um luar
que brilha somente para si próprio.
Após uma vida de pegadas, as solas
já não se lembram do que pisaram.
Uma pilha de sapatos quebrados, privados de cordões,
porque os viajantes os removeram
para se irem enforcar noutro lugar.
§
PROPOSTA POÉTICA
O destino foi muito cruel
quando fez de nós poetas.
A poesia não é uma arma carregada de futuro,
como esse tal de Gabriel propôs.
Além disso, o futuro – digam lá, a sério –
é pólvora molhada.
Não quero complicar a nossa triste sina,
meus companheiros de escrita,
mas todos temos escrito suficientes versos
brilhantes e medíocres,
quase todos já escrevemos palavras
para as canções de um cantor famoso,
todos já tivemos uma coisa ou duas traduzida
para uma antologia,
quase todos produzimos um argumento
por encomenda,
já recebemos um prémio ou dois
e gozamos da lisonja,
somos todos jogadores, maiores ou menores
do lamacento campo do jornalismo,
todos desfraldamos as velas da memória, tilintamos
os sinos do virtuosismo, e agora,
depois dos poetry slams, etc., o que é que vocês diziam
de começamos a escrever poemas mesmo?
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JOSEBA SARRIONANDIA
MIREN AGUR MEABE
MIREN AGUR MEABE nasceu em Leikeitio, País Basco, em 1962. É formada em Filologia Basca, exercendo a profissão de editora. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1999, mas foi com “Azalaren Kodea”(2000), “O Código da Pele” que recebeu a aclamação da crítica espanhola. Meabe refere que rebelião, não conformidade e crítica aos estereótipos estão no cerne deste seu livro onde procura um novo código de comunicação mais centrado no corpo. Shanon Keefe Ugalde descreve a sua poética como algo que deixa de lado a ideia da mulher abandonada e escolhe representar o desejo e o erotismo mais abertamente. Mas esta é também uma poesia que se interessa pelas pequenas coisas e pelas experiências concretas do dia-a-dia, tanto quanto com jogos oniricos e sensuais. Eis três poemas, vertidos do inglês, retirados do livro “Six Basque Poets” (Arc Publications, Todmorden, UK, 2007, tradução de Amaia Gabantxo, introdução de Mari Jose Olaziregi, edição de Alexandra Büchler). Com a devida vénia.CÓDIGO
Proclamo um código alternativo:
alheio às palavras,
uma linguagem sem frases,
uma língua que não possa ser condenada à memória,
uma prosa para enganar promessas,
um dialecto mudo sem
listas de preços ou formas de denúncia,
uma fonte gratuita de significados ambíguos,
um modo de expressar tudo quanto não pode ser expresso.
§
BREVES NOTAS (1)
Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.
§
COISAS CONCRETAS
Estou sentada na cozinha, enquanto a massa ferve.
Amo as coisas concretas
descobrir seus nomes ao pequeno-almoço:
despertador, chuva na calçada, supermercado,
beijos na siesta,
um copo de vinho, amigos,
as pequenas mãos de meu filho,
pessoas na praça,
tu...
Elas produzem as mais doces e lânguidas cócegas,
como um banquete após o jejum.
Parece-me impossível afastar-me de tais coisas:
colam-se à minha caneta e parece que não consigo sacudi-las.
No entanto,
as coisas concretas não permitem atrasos,
e a massa já está pronta.
Assim é a vida.
Quando o semear do poema começava a germinar,
eis que o mundano vem intrometer-se.
E lá tenho eu que me levantar da mesa,
enquanto a sombra de um bilioso humor assenta.
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MIREN AGUR MEABE
sábado, fevereiro 19, 2011
RIKARDO ARREGI
RIKARDO ARREGI nasceu em Gasteiz, País Basco, em 1958. Estudou Psicologia e Filologia Basca. É professor do ensino secundário. Traduziu numerosos poetas para basco, incluindo os portugueses Sophia, Eugénio e Sena. Começou a publicar poesia nos anos 90. Para Arregi, a poesia é uma constante luta com/contra a linguagem, o desejo de expressar algo e a incapacidade de o fazer através das palavras. Interessa-lhe, através da poesia, desenhar um mapa, um território onde possa expôr as fendas daquilo a que chamamos realidade. Como refere Mari Jose Olaziregi, no excepcional prefácio que abre “Six Basque Poets” (Arc Publications, Todmorden, UK, 2007, tradução de Amaia Gabantxo, edição de Alexandra Büchler), a espacialização do tempo na postmodernidade «implica que a temporalidade do sujeito poético tenha sido abolida. (...) O sujeito não pode continuar a ser definido como um indivíduo num continuum temporal, antes colocando-se num espaço que, como referiu Jameson, se tornou global (...). O mapa que Arregi esboça mostra-nos cidades que longe de serem centros cosmopolitas da idade moderna, estão próximas daquelas descritas por Calvino, (...) feitas de desejo, violência, esquecimento e literatura». Três poemas do poeta basco, trazidos do inglês. Com a devida vénia.PAPÉIS NA CALÇADA
E eles queimam no asfalto molhado
os reflexos das inúmeras luzes da rua.
Piscando vivem e morrem e vivem
na brilhante esfera escura de um planeta solitário.
Destemido, o vento insufla os lençóis líquidos
esboçando imagens abstractas.
Por outro lado, nós buscamos abrigo
como moscas no inverno,
moscas aprisionadas na amarga neve.
E quem irá escutar isto, e quando, e como
para explicar a súbita alquimia ao espelho:
este monstruoso pedinte?
Talvez a exacta pessoa
que todos os dias atravessa a rua
ao mesmo tempo, aí está quem.
Lembramo-nos de dias e casas,
de quando éramos amantes da verdade.
Molharam-se, os meus papéis caídos na calçada,
tinta turva voou das palavras,
e a partir de agora,
memórias daqui para o futuro.
§
TERRITÓRIOS DA MÚSICA II
Canta-me um dos Lieder de Schubert,
um dos mais tristes,
Tränenregen, ou Der Lindenbaum,
pleno de florestas desamparadas,
inchado de rios transparentes,
transbordando de amores impossíveis.
Toca ao piano suavemente
e canta-me o mais triste Lied.
Abre espaço para o pobre Franz
junto ao fogo.
E se te acontecer cantares a palavra Herz,
certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,
pensa que somos Românticos
circa mil oitocentos e vinte e sete
e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.
Porque ninguém vai compreender nunca
a nossa coragem, a nossa beleza.
§
PROMESSAS AO TELEFONE
Impossível saber como limpar esses rios.
O desejo perde-se entre os automóveis;
o último fio de coragem colapsa no chão
com os sacos de compras, não é culpa de ninguém.
Longe vão os dias em que as pombas repousavam
nos ombros, e a simples carne tornou-se
agora uma estátua. Poeira e folhas caídas,
águas tenebrosas, janelas escurecidas por toda parte.
Eu detecto o cheiro que deixaste para trás.
Precisamos de trompetas aqui, por favor, trompetas.
Fico a olhar o céu à espera de nuvens
e a mais escura não pressagia chuva.
Do outro lado da janela de vidro
uma mulher chora enquanto fala ao telefone,
os sacos de compras abandonados a seus pés;
parece que a vida está prestes a acabar
mas continua implacável, coisa infeliz.
A chuva corrói montanhas; do mesmo modo,
uma simples lágrima corrói o corpo, corrói-o.
Haverá coisa mais dolorosa que promessas ao telefone?
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RIKARDO ARREGI
domingo, abril 04, 2010
VASCO GRAÇA MOURA acerca de FEDERICO GARCÍA LORCA
PRANTO POR IGNACIO SANCHÉZ MEJÍAS
(tradução de Vasco Graça Moura, em “Garcia Lorca: o Romanceiro e o Pranto”, Lisboa, Quetzal, 1998)
1
A colhida e a morte
Davam cinco da tarde.
Davam as cinco em ponto dessa tarde.
Um moço trouxe uma toalha branca
davam cinco da tarde.
Uma seira de cal já preparada
davam cinco da tarde.
Tudo o mais era a morte e só a morte
davam cinco da tarde.
O vento fez voar os algodões
davam cinco da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
davam cinco da tarde.
Já lutavam a pomba e o leopardo
davam cinco da tarde.
E a coxa com uma haste desolada
davam cinco da tarde.
Começaram os dobres do bordão
davam cinco da tarde.
As campanas de arsénico e o fumo
davam cinco da tarde.
Pelas esquinas grupos de silêncio
davam cinco da tarde.
E o touro só de coração ao alto!
davam cinco da tarde.
2
O sangue derramado
Que não quero vê-la!
Dizei à lua que venha,
que eu não quero ver do sangue
de Ignacio a mancha na arena.
Que não quero vê-la!
A lua de par em par.
cavalo de nuvens quietas,
e a praça cinza do sonho
com salgueiros nas barreiras.
Que não quero vê-la!
Que a lembrança se me queima.
Ide avisar os jasmins
em sua alvura pequena!
Que não quero vê-la!
A vaca do velho mundo
passa a língua da tristeza
sobre um focinho de sangues
derramados pela arena,
e os touros de Guisando,
quase morte e quase pedra,
mugiram como dois séculos
fartos de pisar a terra,
Não.
Que não quero vê-la!
Pelos degraus sobe Ignacio,
toda a morte às costas leva.
Buscava o amanhecer
e o amanhecer não era.
Busca o seu formoso corpo
e encontra a sangria aberta.
Ah, não me digais que a veja!
Não quero sentir o jorro
em que a força desalenta;
esse jorro que ilumina
os palanques e rebenta
no veludinho e no couro
de uma multidão sedenta.
Quem me grita a mim que assome?
Ah, não me digais que a veja!
Não se fecharam seus olhos
quando viu os cornos cerca,
mas então as mães terríveis
levantaram a cabeça.
E através das ganadarias
houve um ar de vozes secretas
que gritavam a touros celestes,
maiorais de uma pálida névoa.
Não houve príncipe em Sevilha
a poder pedir-lhe meças,
nem espada qual sua espada,
nem coração tão deveras.
Como um rio de leões
a sua força soberba,
e como um torso de mármore
a desenhada prudência.
Um ar de Roma andaluza
o dourava na cabeça
em que o seu riso era um nardo
de sal e de inteligência.
Que mor toureiro na praça!
Que serrano mor na serra!
Que brando com as espigas!
nas esporas que dureza!
E que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas só de treva!
Porém já dorme sem fim.
Já os musgos e a erva
abrem com dedos seguros
a flor da sua caveira.
E o seu sangue já lá vem cantando:
cantando pelos plainos e lameiras,
resvalando por hirtos cornos frios,
vacilando sem alma pela névoa,
tropeçando nos cascos aos milhares
como uma língua triste, escura, espessa,
para formar um charco de agonia
junto ao Guadalquivir lá das estrelas.
Oh branco muro de Espanha!
Oh negro muro de pena!
Oh sangria atroz de Ignacio!
Oh rouxinol dessas veias!
Não.
Que não quero vê-la!
Que não há cálice que a contenha,
que não há andorinhas pra bebê-la,
não há geada de uma luz que a esfrie,
não há canto nem dilúvio de açucenas,
não há cristal que a cubra já de prata.
Não.
Eu não quero vê-la!
3
Corpo presente
A pedra é uma fronte por onde os sonhos gemem
sem terem água curva nem ciprestes gelados.
A pedra é uma espalda para levar o tempo
com árvores de lágrimas e tiras e planetas.
Vi chuvas pardas correrem para as ondas
erguendo os ternos braços feitos crivo,
para não serem caçadas pela pedra alongada
que desata seus membros sem se empapar de sangue.
Porque a pedra recolhe sementes, nevoeiros,
os ossos das calhandras e lobos de penumbra;
mas ela não dá sons, nem dá cristais, nem fogo,
só praças e mais praças e outras praças sem muros.
Sobre a pedra já está Ignacio o bem-nascido.
Já se acabou: que foi? Olhai sua figura:
veio a morte cobri-lo de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de obscuro Minotauro.
Já se acabou. A chuva penetra em sua boca.
O ar enlouquecido esvaziou-lhe o peito,
e o Amor, empapado com lágrimas de neve,
vai-se aquecer no cimo das ganadarias.
Que dizem? Um silêncio com fedor repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara que teve rouxinóis
e que vemos encher-se de buracos sem fundo.
Quem enruga o sudário? Não é verdade o que diz!
Nem canta aqui ninguém, nem chora no recinto,
nem espeta as esporas, nem espanta a serpente:
aqui não quero mais do que os olhos redondos
para ver esse corpo sem possível descanso.
Eu quero ver aqui os homens de voz dura.
Os que domam cavalos e dominam os rios:
os homens a quem soa o esqueleto e cantam
com uma boca cheia de sol e pedernais.
Aqui eu quero vê-los. Diante desta pedra.
Diante deste corpo com as rédeas quebradas.
Eu quero que me mostrem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.
Eu quero que me ensinem um pranto como um rio
que tenha doces névoas e as margens mais profundas,
para levar o corpo de Ignacio e que se perca
sem escutar o duplo resfolegar dos touros.
Que se perca na praça redonda lá da lua
que finge de menina dolente rés imóvel;
que se perca na noite sem música dos peixes
e no branco daninho do fumo congelado.
Não quero que lhe tapem a cara com um lenço
para que se acostume à morte que assim leva.
Vai-te, Ignacio: Não sintas esse quente bramido.
Dorme, voa, repousa: que também morre o mar!
4
Alma ausente
Não te conhecem touro nem figueira,
nem cavalos nem formigas do teu lar.
Não te conhece a tarde ou o menino,
porque tu estás morto para sempre.
Não te conhece a pedra no seu dorso,
nem o negro cetim onde te perdes.
Não te conhece o teu recordar mudo
porque tu estás morto para sempre.
O outono virá com os seus búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá fitar teus olhos
porque tu estás morto para sempre.
Porque tu estás morto para sempre,
como todos os mortos que há na Terra,
como todos os mortos que se esquecem
num monturo de cães que se apagaram.
Ninguém que te conheça. Não. Mas eu te canto.
Eu canto para já teu perfil e tua graça.
A madurez insigne do teu conhecimento.
Tua apetência de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.
Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Eu canto sua elegância com palavras que gemem
e recordo uma brisa triste pelas oliveiras.
§
Vasco Graça Moura (Foz do Douro, Porto, 3 de Janeiro de 1942) é escritor e político. Licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi advogado até 1983, tendo optar pela carreira literária que o havia de confirmar como um nome central da poesia portuguesa da segunda metade século XX. A par da poesia, Graça Moura está na escrita como dramaturgo, ensaísta, tendo traduzido Dante Alighieri, William Shakespeare, Petrarca, Jean Racine, François Villon, Frederico Garcia Lorca e Rainer Maria Rilke, entre outros. Recebeu o Prémio Pessoa em 2005 e o Prémio Vergílio Ferreira em 2007. Foi distinguido com o Prémio de Poesia do PEN Clube Português (1994) e da Associação Portuguesa de Escritores (1997), a Coroa de Ouro do Festival de Poesia de Struga (Macedónia, 2004). Recebeu a Medalha de Ouro da cidade de Florença desde 1998. Em Abril de 2008, é distinguido com o Prémio de Tradução 2007 do Ministério da Cultura italiano, que distingue anualmente o melhor tradutor estrangeiro de obras italianas, por decisão unânime do júri. Juntamente com a professora e crítica literária Maria Alzira Seixo, é um dos mais conhecidos opositores à ratificação por Portugal do proposto Acordo Ortográfico defendendo que o Acordo Ortográfico serve interesses políticos e económicos do Brasil, pretende abrasileirar a ortografia de muitas palavras do português europeu e inflige lesões irreversíveis na língua portuguesa. É co-autor e primeiro signatário da Petição Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico, que desde 2 de Maio de 2008 recolheu mais de 110 000 assinaturas.
Leia mais no Poesia Ilimitada sobre Vasco Graça Moura, aqui e aqui.
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quarta-feira, fevereiro 25, 2009
JOAN BROSSA
JOAN BROSSA (1919-1998) nasceu e morreu em Barcelona. Segundo Isidor Consul, que escreve o prefácio a “Quinze Poetas Catalães” (selecção de Alex Broch e Isidor Consul; tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1994), na obra de Brossa “deve ser visto o esforço de actualização do espírito das vanguardas históricas e uma poética em evolução constante. (...) ele foi o fundador do grupo «Dau al Set» com os pintores Tàpies, Ponç, Tharrats e Cuixart, e a sua obra arranca do impacto do surrealismo.» Ainda segundo Consul, «em Brossa o sentido da poesia pode resumir-se encaixando quatro coordenadas: a) um contínuo processo de investigação formal; b) a convicção profunda de que a arte não tem limites nem fronteiras; c) um essencial espírito de pesquisa e de compromisso social, e d) uma manipulação lúdica da realidade.» De saída para Barcelona, aqui deixo um dos poemas de Brossa traduzidos por Egito Gonçalves.Arlequim mete
no bolso das calças a bolsa de Pierrot.
Pierrot, portanto perdeu a bolsa.
Dómino, o cão de Pierrot, caça perdizes
ao luar.
Pulcinella e Colombina convidam Pierrot a jantar.
Pierrot está desolado.
Com um salto, Dómino aparece no meio da mesa
com as calças de Arlequim.
Já podem imaginar a alegria de Pierrot!
Na manhã seguinte devolvem as calças a Arlequim e brincam
à saúde de Dómino.
Por trás
uma armação ou bastidor percorre de cima
a baixo este poema.
A teia tem um punho na sua parte inferior.
Levantai-a um pouco e o poema ficará
suspenso na ar.
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JOAN BROSSA
segunda-feira, abril 09, 2007
PEDRO SEVILLA
PEDRO SEVILLA (Arcos de la Frontera, Cádiz, 1959 - na foto), é um dos poetas traduzidos por Joaquim Manuel Magalhães em “Poesia Espanhola de Agora” (volume 1, Relógio d’Água, Lisboa, 1997). Com a devida vénia:SENSAÇÃO DE VIVER
Para Ángela Sevilla
Que me enchas a casa de perfumes e de meias
de vidro e me quebres,
com as mais recentes bandas sonoras da vida,
o ritmo dos versos que trato de escrever,
isso posso compreendê-lo.
Compreendo
a arritmia na aritmética, o desprezo que tens
pelos Áustria, os corações vermelhos
na brancura virgem das tuas folhas,
as tuas primeiras dores de mulher,
compreendo isso tudo.
Mas não me provoques, minha filha:
não me tragas para casa tão doces miúdas de quinze anos
com olhos inexplicáveis, com olhares
ainda mais inexplicáveis. Diz-lhes que não pintem
os lábios ao meu espelho, que não te emprestem roupa.
Não metas no meu inferno esses diabos
que me tratam por senhor. Sê boa filha
e evita ao teu pai o duro lance
de morrer de amor pela tua melhor amiga.
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PEDRO SEVILLA
domingo, abril 08, 2007
DAVID GONZÁLEZ
Um livro de leitura quase obrigatória para quem pretende acompanhar a contemporaneidade espanhola é “Poesia Espanhola, Anos 90”, com o qual Joaquim Manuel Magalhães prossegue a sua benvinda tarefa de mostrar e recensear o que de melhor se vai fazendo no país vizinho no que à poesia diz respeito. Tal é o caso – para dar dois exemplos – dos poemas “Fragmento Épico”, de Juan Antonio González Iglesias (Salamanca, 1964) ou “Retiro Sentimental”, de José Luis Piquero (Mieres, Astúrias, 1967). Dois poemas que valem o preço do livro. Ao todo são 90 poemas de 30 jovens poetas, desde Eduardo Moga (Barcelona, 1962) até Paulino Lorenzo (Logroño, 1975), autores de bons e (de uma mão cheia de) excelentes poemas, no que têm de surpresa, originalidade e consistência. Motivos de sobra para ler – e ter – o livro. A minha escolha - periférica, como sempre - vai com a devida vénia para “Os Pêsames”, de David González (San Andrés de los Tacones, Gijon, 1964), nas palavras de Joaquim Manuel Magalhães um “poeta de uma perturbante confessionalidade, enraizado na tragédia da vida que a alguns acontece ter de viver, não é a voz da literatura que meramente nos seus poemas fala, mas uma voz que viveu, por imposição legal, e, depois, por obrigação de sobrevivência quotidiana, universos concentracionários que criam palavras de uma sufocante autenticidade.”
OS PÊSAMES
O Cejas embeiçou-se por mim
e quer foder-me o cu a todo o custo.
Mas sozinho não vai poder comigo.
Bem o sabe.
Então combina com o Tajas e o Bullati.
Em troca da sua ajuda dá-lhes
uma caixa de Roypnol a cada um.
O seu plano é este:
o Tajas e o Bullati levam-me
para a sala da televisão.
Ali dão-me uma sova que me deixa desfeito,
assim quando depois aparecer o Cejas
não estarei em condições de o pegar de caras
e poderá ir-me ao cu a seu inteiro prazer.
Contudo, o plano falha.
Na véspera à noite
morre
a mãe do Tajas e o Tajas,
acabrunhado, não quer levar por diante
o plano. O Bullati também não.
A pergunta é quase obrigatória:
tenho de dar os pêsames ao Tajas?
Entrevista em:
OS PÊSAMES
O Cejas embeiçou-se por mim
e quer foder-me o cu a todo o custo.
Mas sozinho não vai poder comigo.
Bem o sabe.
Então combina com o Tajas e o Bullati.
Em troca da sua ajuda dá-lhes
uma caixa de Roypnol a cada um.
O seu plano é este:
o Tajas e o Bullati levam-me
para a sala da televisão.
Ali dão-me uma sova que me deixa desfeito,
assim quando depois aparecer o Cejas
não estarei em condições de o pegar de caras
e poderá ir-me ao cu a seu inteiro prazer.
Contudo, o plano falha.
Na véspera à noite
morre
a mãe do Tajas e o Tajas,
acabrunhado, não quer levar por diante
o plano. O Bullati também não.
A pergunta é quase obrigatória:
tenho de dar os pêsames ao Tajas?
Entrevista em:
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DAVID GONZÁLEZ
domingo, março 18, 2007
JUAN LUIS PANERO
JUAN LUIS PANERO (Madrid, 1942) é autor de uma das obras poéticas mais interessantes da poesia espanhola da última metade do século XX. Vive em Girona desde 1985. Conheci a sua obra através das traduções de Joaquim Manuel Magalhães, designadamente através do livro “Poemas” (Relógio d’Água, Lisboa, 2003), e ocorreu-me cotejá-la com a poesia de Frank O’Hara mas em Panero, as frequentes alusões “culturais”, chamemos-lhes assim, à volta das quais se constroem muitos dos seus poemas, além de não serem tão obsessivamente explicitas quanto ao espaço e ao tempo como em O’Hara, não resultam em pedantismo na demonstração do vivido, antes constituem o argumento próximo para uma ideia maior que se desenvolve (vida, amor, viagem, desilusão, morte), numa escrita inteligente e limpa, linear e pragmática, que foge da abstracção como Pound e os imagistas fugiram. É evidente que no poema de Juan Luis Panero, “Um Velho em Veneza”, a presença de Ezra Pound – para além da explicita homenagem – não passa de um pretexto para depositar por excrito no poema duas ou três verdades sobre a vida. Com a devida vénia:UM VELHO EM VENEZA
Em Veneza, velho e envelhecido, quase mudo,
rodeado de livros, de solidão, de gatos,
o poeta Ezra Pound,
falou, num breve, muito breve encontro, com Grazia Livi.
Comentou-lhe, sem autocompaixão e sem desprezo,
secamente, com voz entrecortada:
«No fim penso que não sei nada.
Não tenho nada para dizer, nada.»
Se depois de tão alto exemplo, de tão clara sentença,
ainda continuo a escrever e risco palavras no fumo,
não é, que a morte me livre,
por bastardo interesse ou absurda vaidade,
mas apenas por uma simples razão,
porque não conheço outro meio, a não ser o suicídio
- desnecessário é um poema como um cadáver -,
para dar testemunho de nada a ninguém,
do mundo que contemplo, desta vida,
do seu horror gasto e quotidiano.
Que o velho Pound, na sua cova,
me perdoe por ligar o seu nome
a estas sórdidas palavras desesperadas.
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JUAN LUIS PANERO
domingo, janeiro 21, 2007
JOSÉ MARÍA FONOLLOSA
JOSÉ MARÍA FONOLLOSA (1922-1991) nasceu e morreu em Barcelona. Viveu em Cuba e nos Estados Unidos. O seu livro mais conhecido “Ciudad del Hombre: New York”, publicado em Portugal - com tradução de Júlio Henriques - pelas Edições Antígona em 1993, é uma colecção de poemas em parte autobiográficos, em parte ficcionados, onde através de breves monólogos se abordam os temas do sexo - nomeadamente da prostituição - , do crime e da vida urbana. O que mais impressiona nestes poemas e os torna difíceis de esquecer é o tom áspero e desprendido, seco e dilacerante, por vezes mesmo, cruel e sarcástico com que o autor veste as diversas personae que falam. Tratam-se, no fundo, de arquétipos transgressivos. O título dos poemas recorre sempre à toponímia de Nova Iorque. Já que me falta coragem para aqui postar “East 50th Street”, aqui seguem, com a devida vénia, três outros poemas:
BEAVER STREET
Para brilhar, rua fora, bonita.
E para conviver, a razoável
beleza que Lucrécio aconselhava.
Para a cama, porém, de preferência feia.
A formosa e a quase isso estendem-se-te
na cama esperando confiantes
a rápida homenagem que merecem.
São porém algo passivas. Limitadas.
A moça se calhar feia, não obstante,
agradece ter sido ela eleita
entre outras mais formosas. Com maior
entusiasmo participa no amor.
A obscuridade ambiente situa-a
em plano de igualdade perante a estética.
E um cego guia um cego, mas os dois
- os corpos - juntos encontram seus caminhos.
E deixa fazer e de bom grado acede
a quanto lhe exija tal momento.
Para gozar com gozo numa cama
é escolher de preferência moça feia.
***
WEST 14TH STREET
Não me parece bem que falem mal
de prostitutas jovens essas mulheres
que os maridos retiraram
da sua contínua mudança de casal.
São-lhes iguais.
Nada de mal fizeram, ou fazem, a ninguém.
Bem pelo contrário, favorecem.
Quem do prazer breve faz ofício
dá pedaços de amor a muita gente.
E o prémio do amor é o prazer.
Sem amor, até, que bom ganhar o prémio.
Não há que escandalizar-se. Uma fortuna
torna feliz mais gente ao partilhar-se
do que se for guardada por um só.
Pratica pois o bem quem o prazer reparte.
E sabem muito mais estas do que aquelas
para arrancar a um corpo doces gozos.
Gozos que jaziam obscuros
no trato com as menos eficazes.
Não é justo que delas falem com desprezo.
São mulheres como as outras
que do amor-lar fazem ofício.
Se diferença há, é a do preço
por estas exigido a quem as queira.
O do amor-prazer é menos caro.
***
CHANNEL GARDENS
Foram quatro, sim, quatro e uma faca.
Já a lua morrera um dia antes.
Seguraram-lhe os braços pelas costas
e a roupa deparou com o sabor do campo.
Eram doces suas pernas. Como o vinho.
Oito olhos muitas vezes se alternaram.
Parca foi sua defesa. Eram quatro, os homens.
Pude soltá-la passado um bom bocado.
Comigo pôs-me o braço ao pescoço.
Fomos quatro, sim, quatro e uma faca
que naquela noite no cinto me surgiu.
Morreu sem daquele meu abraço se soltar.
Não sei onde isto foi. Não me recordo.
Eu costumava ir a muitos sítios.
BEAVER STREET
Para brilhar, rua fora, bonita.
E para conviver, a razoável
beleza que Lucrécio aconselhava.
Para a cama, porém, de preferência feia.
A formosa e a quase isso estendem-se-te
na cama esperando confiantes
a rápida homenagem que merecem.
São porém algo passivas. Limitadas.
A moça se calhar feia, não obstante,
agradece ter sido ela eleita
entre outras mais formosas. Com maior
entusiasmo participa no amor.
A obscuridade ambiente situa-a
em plano de igualdade perante a estética.
E um cego guia um cego, mas os dois
- os corpos - juntos encontram seus caminhos.
E deixa fazer e de bom grado acede
a quanto lhe exija tal momento.
Para gozar com gozo numa cama
é escolher de preferência moça feia.
***
WEST 14TH STREET
Não me parece bem que falem mal
de prostitutas jovens essas mulheres
que os maridos retiraram
da sua contínua mudança de casal.
São-lhes iguais.
Nada de mal fizeram, ou fazem, a ninguém.
Bem pelo contrário, favorecem.
Quem do prazer breve faz ofício
dá pedaços de amor a muita gente.
E o prémio do amor é o prazer.
Sem amor, até, que bom ganhar o prémio.
Não há que escandalizar-se. Uma fortuna
torna feliz mais gente ao partilhar-se
do que se for guardada por um só.
Pratica pois o bem quem o prazer reparte.
E sabem muito mais estas do que aquelas
para arrancar a um corpo doces gozos.
Gozos que jaziam obscuros
no trato com as menos eficazes.
Não é justo que delas falem com desprezo.
São mulheres como as outras
que do amor-lar fazem ofício.
Se diferença há, é a do preço
por estas exigido a quem as queira.
O do amor-prazer é menos caro.
***
CHANNEL GARDENS
Foram quatro, sim, quatro e uma faca.
Já a lua morrera um dia antes.
Seguraram-lhe os braços pelas costas
e a roupa deparou com o sabor do campo.
Eram doces suas pernas. Como o vinho.
Oito olhos muitas vezes se alternaram.
Parca foi sua defesa. Eram quatro, os homens.
Pude soltá-la passado um bom bocado.
Comigo pôs-me o braço ao pescoço.
Fomos quatro, sim, quatro e uma faca
que naquela noite no cinto me surgiu.
Morreu sem daquele meu abraço se soltar.
Não sei onde isto foi. Não me recordo.
Eu costumava ir a muitos sítios.
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JOSÉ MARÍA FONOLLOSA
quinta-feira, abril 06, 2006
JOSÉ MARÍA ÁLVAREZ
JOSÉ MARÍA ÁLVAREZ nasceu em Cartagena, Espanha, em 1942. A sua principal obra é "Museo de Cera", que tem conhecido sucessivas edições (1970, 1974, 1978, 1984, 1990, 1993 y 2002), dada a intenção manifestada pelo autor em criar um livro único à maneira de "Leaves Of Grass", de Walt Whitman, ou "Les Fleures du Mal", de Charles Baudelaire. "Peça de Museu", aqui reproduzido com a devida vénia, foi traduzido por Joaquim Manuel Magalhães e editado pela Relógio d'Água em "Poesia Espanhola de Agora", Volume 1.PEÇA DE MUSEU
Voluptuosidad incomparable, inefable embriaguez,
Yo te canto
Paul Verlaine
Um escultor, um dia – Augusto Clésinger
se chamava – entregou ao mundo
essa «mulher mordida por uma áspide»
que um museu hoje conserva.
Os turistas
passam junto dela; se um deles se detém
lê a inscrição e continua
a sua visita. Ou com frequência
são grupos de miúdos, dirigidos
por um professor que lhes explica
os efeitos da terrível mordedura,
como o autor captou a dor,
a angústia, o medo.
E contudo
bastar-lhes-ia contemplar o voo desses olhos,
esse rosto, escuta os suspiros
que saem da sua boca, desse peito
pelo amor dilatado, esse flanco que se curva,
essas coxas que cerra
o gozo,
para entenderem
que não é a Morte que toma
essa mulher, mas o prazer,
o êxtase, o absoluto
aniquilamento do orgasmo.
Se o bom Auguste Clésinger
se viu forçado pela censura do seu tempo
a inventar uma história trivial
que permitisse às suas fantasias
serem expostas no Salão de 47,
que subtil, sedutor, inteligente
foi, para nos legar essa beleza apaixonada:
o instante supremo
em que uma mulher entrega a sua carne
à História.
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JOSÉ MARÍA ÁLVAREZ
domingo, abril 02, 2006
LUIS ALBERTO DE CUENCA
Poeta, tradutor e ensaista espanhol, LUIS ALBERTO DE CUENCA nasceu em Madrid em 1950. Interrompeu os estudos de Direito para se licenciar em Filologia Clássica. O poema "A Mal Casada", apareceu no seu livro “El Outro Sueno”, de 1987, e foi traduzido pelo poeta Jorge Sousa Braga para o Poesia Ilimitada.A MAL CASADA (1987)
Dizes-me que Juan Luis não te compreende,
que só pensa nos seus computadores
e que não faz caso de ti de noite.
Dizes-me que os teus filhos não te ajudam,
que só te dão problemas, que se aborrecem
com tudo e que estás farta de aturá-los.
Dizes-me que os teus pais estão velhos
que se tornaram tacanhos e egoístas
e que já não és a sua menina como dantes.
Dizes-me que já fizeste trinta e cinco
e que não é fácil começar de novo,
que os únicos homens que conheces
são os colegas de Juan na IBM
e não gostas de executivos.
E eu, o que é que eu faço nesta história?
Que queres que eu faça? Que mate alguém?
Que dê um golpe de estado libertário?
Amei-te como um louco. Não o nego
mas isso foi há muito, quando o mundo
era uma reluzente madrugada
que não quiseste compartilhar comigo.
A nostalgia é um passatempo grosseiro.
Volta a ser a que foste. Vai ao ginásio,
Pinta-te mais, disfarça as tuas rugas
e veste roupa sexy, não sejas tonta,
que talvez Juan Luis te volte a mimar,
e os teus filhos vão para um acampamento
e os teus pais morram.
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