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quarta-feira, maio 24, 2023

JORGE GOMES MIRANDA

 


A ÚLTIMA PEDRA

Jorge Gomes Miranda

Assírio & Alvim, Setembro de 2022

184 páginas

 

Não é de todo novidade na escrita de Jorge Gomes Miranda a utilização de máscaras, isto é, a escrita de poemas numa voz que não é exactamente a sua, naquilo que se tornou um traço distintivo da sua poética. Recordo-me vivamente do belíssimo livro “O Acidente”, editado também pela Assírio & Alvim (e traduzido em Espanha), no qual através de uma sequência de poemas cujo fio condutor desenhava uma narrativa eram os objectos (“No poetry but in things”) que em monólogos dramáticos, falavam nos poemas.

 

Também em “A última pedra” existem caracteristicamente vozes, uma multiplicidade de vozes, masculinas e femininas, novos e velhos, a falar desde o poema. A questão que se coloca ao leitor é a de saber se se tratam de vozes imaginadas (velhos e crianças que nascem da imaginação do autor) ou vozes de pessoas que têm ou tiveram uma existência real e com as quais o autor contactou e às quais pediu emprestada a vida: velhos e crianças que surgem da experiência.

 

Este processo nunca é simples porque é quase sempre híbrido. Imaginação e experiência concorrem simultaneamente para o momento da escrita e se em “O que nos Protege” ou “Requiem”, anteriores obras, o “trabalho de desvio, máscara, personagem, voz alheia ao autor quase não está presente”, em “A última pedra”, apesar de tudo, o jogo é misto.

Os lugares que os poemas evocam são reconhecíveis: o cemitério, casas de repouso, habitações, o espaço da família e do lar onde filhos, pais, mães, crianças, vidas tristes (“Sem anjos da guarda ou ansiolíticos”) são trazidas pela mão da memória (“Aqui poderíamos recordar / tranquilamente as brasas / do passado”), em rituais fúnebres, despedidas, momentos de dor que acompanham a perda (“Certos dias abrem feridas, / são nenhum bálsamo, / flores secas ao redor de / uma campa, / no cemitério do coração.”). É um livro extensamente dedicado aos mortos de Jorge Gomes Miranda. Os seus mortos. Com poemas caracteristicamente curtos (de género lírico e por vezes narrativo, a maior parte das vezes monólogos interiores), quase sempre tecidos na fronteira fina entre poesia e prosa. Uma escrita crua, austera, ética, exacta, de adjectivo preciso, emoldurada pelo espaço branco do silêncio que rodeia a mancha gráfica do poema, centrada no imo da página; poemas breves – a lembrar curtas-metragens – com uma total ausência de pirotecnia verbal; poemas sentidos sem qualquer réstia de sentimentalismo.

 

Num certo sentido, esta é também uma poesia de objectos (cf. “Infância da poesia”) e há poesia nesses objectos que ocorrem na vida das personagens onde a idade é sinónimo de solidão, desamparo, afastamento, tristeza, amargura, lamento, dor que elegia nenhuma poderá apaziguar (“contemplando tanta aceitação, grito”) mas também disponibilidade, compreensão, ensinamento, consolação, memória, afabilidade (“Mãos que passaram de avó / para mãe, e de mãe para filha.”), personagens estas demasiado bem caracterizadas para serem completos desconhecidos – personagens que percebe-se, cruzaram-se directa ou indirectamente com o autor.

 

A poesia é assim “retrato da dor, / preparação para a morte.”; não esconde o seu direito ao sofrimento, a autorização da dor em momentos essenciais ao futuro. Aqui se diz: “Escrevo, recordo nomes / de amigos, lugares / tão preciosos como fotografias”. A poesia tece-se na relação indizível entre as personagens e o poeta, na vulnerabilidade que tantas vezes se cala mas que aqui se expõe, em descrições de fragilidade que curiosamente são a sua força, a “euforia de um verso claro”, revelando-se “agora na labareda / que a proximidade / da morte alimenta.”

 

Lado a lado com os velhos, há as crianças, símbolo da descoberta, da alegria necessária para transpor a perda, para os que têm de continuar “o absurdo quotidiano”. É justamente o equilíbrio entre o dito e o contido, a característica maior da poesia de Jorge Gomes Miranda, a finíssima linha onde se urdem os seus poemas. Onde não se permitirá a mágoa.


 

domingo, dezembro 20, 2009

domingo, julho 05, 2009

JORGE GOMES MIRANDA (3)

(Leia a crítica do jornal espanhol abc: Objetos parlantes, por Jaime Siles)


O título, como convém, é ambiguo. Começamos a ler os poemas - que têm por título substantivos, - e logo nos assalta a dúvida sobre quem será o narrador: o poeta, autobiográfico, ou uma personna literária. Logo no primeiro poema, “Chávena” apercebemo-nos da existência de um homem como personagem, para mais tarde descobrirmos, vinte e uma linhas depois, que afinal é a própria chávena quem fala: “o chá desce sobre mim”.

"O Acidente" é um livro de poemas que joga com o leitor e o surpreende a cada passo. Ao segundo poema, “Bilhete de comboio”, começamos a desconfiar que o jogo da personificação se vai repetir, que a voz de cada poema irá ser a do objecto cujo significante encima o texto como título. Pela fala do “Bilhete de comboio” apercebemo-nos de que alguém partiu, e ao terceiro poema, pela voz da “Estante”, ficamos a saber que também existe uma criança a rondar por ali. No corpo do quarto texto é o “Lápis” quem informa que a partida aludida no segundo poema terá sido definitiva, - uma morte, portanto - e é um “Relógio”, ao sexto poema, quem nos diz que quem morreu foi uma mulher.

Este processo prossegue, de revelação em revelação, socorrendo-se de um quotidiano familiar e coloquial, mas mais importante do que isso, traçando a arqueologia de uma narrativa, re-construindo o esboço de um episódio, de uma estória, libertando aos poucos informação rasurada, enigmática, tensa, sintética, como é próprio da construção de uma ficção. Como se a complexidade sintática das obras anteriores a esta desse agora lugar a uma prosa fluente e limpa, densificando-se, ao invés, a forma e a estrutura.

Este é um livro conceptual e aí reside a sua originalidade. Não que JORGE GOMES MIRANDA (Porto, 1965) não tivesse já esboçado este internar da poesia na ficção (citarei apenas como dois exemplos “Quatro Mensagens deixadas no Telemóvel” (de “A Hora Perdida”, Campo das Letras, 2003), ou a sequência de dois poemas em forma de "E-Mail" sobre a Guerra do Golfo (“Pontos Luminosos”, Averno, 2004), mas aqui como mais tarde em “Resgate” (Fundação de Serralves, 2008), - neste último cruzando de forma ideal duas narrativas e duas vozes diferentes num só livro, - essa intenção representa todo um programa de escrita. Surpreendente e original, repito.

A razão porque regresso a este livro é a oportuna edição que teve em Espanha na Editorial Quálea, (Torrelavega, Cantábria, 2009), graças à visão, labor e inteligência crítica de José Ángel Cilleruelo que o repescou à vasta poesia portuguesa de hoje e o traduziu para castelhano, assim repondo além-fronteiras com inteira justiça, a atenção que este livro não mereceu em Portugal.

Voltando ao livro: aquele jogo de personificações narra qualquer coisa que não revelarei aqui mas permitir-me-ei escolher alguns dos seus momentos tensos, elípticos, irónicos ou humorados, como quando, por exemplo, o “Bilhete de comboio” lamenta placidamente que “meu destino será permanecer / e um dia despertar, no meio de um livro”, ou a “Lâmina de barbear II” (existe uma primeira “Lâmina de barbear”), enciumada, fala da “casa de banho / onde, sem hesitação ou culpa, / me trocou por outra", ou ainda quando o “Calendário de bolso” pisca o olho ao peso da memória relembrando que “em mim trago também / os dias passados”. Ou, finalmente, quando a “Mala de viagem” se queixa de que ele “Atira a porta de casa / (...) Com maus modos leva-me pela mão" rematando óbviamente com duplo sentido, que só "Por pudor não direi o que trago dentro de mim.

Objectos com sentimentos, portanto, mas também o sentir os objectos olhando uma parcela do mundo com uma fortíssima preocupação ficcional, distanciando-se esta escrita da biografia e do confessionalismo. José Ángel Cilleruelo fala mesmo "de um passo mais no caminho de despersonificação que abriu Fernando Pessoa na poesia europeia: perdida a essência do eu, ganham vida os objectos, as coisas, os acidentes impregnados do rumor do sujeito".

Este é seguramente um daqueles livros que pelos motivos explicados funciona melhor em leitura completa. Mas aqui fica um poema de “O Acidente” (Assírio & Alvim, 2007), que, relembro, foi finalista da short-list de poesia do importante prémio literário Correntes d’ Escritas 2009. Com a devida vénia:



MOLA DE ROUPA

Conservei-me afastada do estendal
durante algum tempo.
Sofro de vertigens, por isso
intimidava-me olhar para baixo,
o pátio vazio, restos de flores secas.
Um prédio com dez andares
e ele tinha logo que viver no último,
tendo como horizonte o mar
de terraços e antenas parabólicas.

Quando, chegado com a roupa
da máquina de lavar,
pega em mim,
de suas mãos eu deslizo para o chão.
Apressado, em vez de me apanhar
imediatamente, escolhe outra;
no final, atira-me para o cesto
de verga.

Não é que seja particularmente ardilosa,
mas verdade seja dita, preferia ser
mola de rés-do-chão,
dessas que faça sol ou chuva
sempre prendem a roupa numa corda
estendida no pátio.
O destino quis-me feita de plástico,
com um coração inclinado à melancolia.
Tenho, no entanto, como divisa
antes quebrar que torcer.

Sonho com o dia em que nas mãos da criança
serei um comboio.


§


Também aqui e aqui.


domingo, janeiro 14, 2007

JORGE GOMES MIRANDA (2)


Em "Falésias" (Teatro de Vila Real, 2006), através de sequências narrativas quase cinematográficas, Jorge Gomes Miranda (Porto, 1965) evoca uma vez mais a experiência individual para diagnosticar tempos colectivos (“este tempo fantasma”), não abrindo mão, porém, do “instante de beleza / erguida pelo tempo no vazio”. Sob epígrafe de grandes clássicos da Ópera que encimam o sujeito lírico destes poemas como sábios cicerones que pairassem, é de novo o roteiro do amor (porém “o inverno do amor”) quem convoca o poeta para a escrita. E se o pendor narrativo destes poemas nos enleia por vezes por cenários realistas, arriscando literariamente como poucos (“também somos aquilo a que dizemos não”), um súbito golpe de linguagem recoloca-nos sempre, e ainda, nos domínios da poesia. Por prosaicos que possam parecer, há sempre nestes poemas “um verso / que nos atinge no meio da escuridão”.


GIULIO CESARE, GEORG FRIEDERICH HAENDEL

"Se pietà di me non senti
(Magdalena Kožená).


Uma toalha verde e amarela
sobre o extenso areal da praia.
A leve sombra das nuvens na água.
Um caderno com as folhas
viradas pelo vento.
As primeiras palavras
de uma canção lenta, patética
subindo de um transístor
encostado ao azul da mochila.
Os seios desenhados delicadamente
sob o fato de banho branco.
A tua voz.

Moradas onde o homem,
depois da hipótese do nada,
se recompõe.