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sexta-feira, outubro 19, 2012

NOTAS SOBRE LIVROS (3)

GASTÃO CRUZ
Observação do Verão
Lisboa, Assírio & Alvim, 2011


por JOÃO PAULO SOUSA


Talvez não seja desajustado apresentar a arte da variação, no sentido musical, como uma das características distintivas da poesia de Gastão Cruz. A introdução de pequenas diferenças numa melodia serve para a distender no tempo, para a projectar até um período indeterminado, assim lhe incutindo uma vida própria, que não é meramente a da repetição, antes a da multiplicação ou do desdobramento. De certo modo, a variação é uma tentativa de atenuar ou contrariar a evidência da passagem do tempo, é uma resposta à angústia do vazio ou à consciência da morte, mas edificada sem uma intensidade emocional muito visível. É isso o que manifestamente está patente logo no poema de abertura de Observação do Verão, intitulado «Visão do mundo», que termina com uma referência à


duração dos
troncos e dos ramos, vida
contemporânea
das que passaram (p. 11).


Se é certo que os troncos e a folhagem das árvores servem ao poeta para nos aproximar do princípio de um determinado Verão, não o é menos que esses elementos são também utilizados para lembrar a efemeridade da vida humana e a resistência da natureza. Assim, é com uma delicadeza feita de um trabalho rigoroso da língua que Gastão Cruz consegue criar quadros ou imagens capazes de conter uma verdade artística – à maneira da pessoana teoria do fingimento poético, entenda-se – que responda à melancolia. O Verão do poema é uma imagem, mas a sua realidade poética é inquestionável, como se afirma em «Representação»:


Porque tu és imagem

falo de ti verão como se fosses

uma fotografia ou o seu real (p. 20).


Não se pode dizer que Gastão Cruz apresente, neste volume, novidades relevantes em relação à sua produção poética anterior, mas isso também não seria de esperar numa obra que, como já referi, se distingue precisamente pelo uso da variação. Um poema como «Aniversário», que já poderia ser visto como uma resposta ao célebre texto homónimo de Álvaro de Campos, parte da mesma data – 15 de Agosto – que «Esse antigo futuro», incluído no livro Escarpas (Assírio & Alvim, 2010), de início – este sim – acentuadamente pessoano: «O tempo em que festejávamos o dia dos teus anos» (p. 49).

A variação em Gastão Cruz tem como ponto de partida a poesia – a sua ou a alheia, a de língua portuguesa ou a que ele escolheu traduzir – e representa uma afirmação de vitalidade como só a pode ter quem, paradoxalmente, conhece a fundo a angústia existencial e o confronto com a morte. É em Observação do Verão que encontramos, a terminar a primeira secção, homónima do livro, um belíssimo poema que mostra como esse combate se processa, nesta obra, quase com apaziguamento; intitula-se «Vivos no sonho»:


O sonho desconhece a
morte: nele
movem-se vivos os que outrora viram
a metade existente da metáfora
mas apenas

o lado que é imagem
sem matéria
deixam ver hoje no enigma inteligível
desse tempo que não se reconhece
a si mesmo na luz de agora viva (p. 22).


segunda-feira, março 22, 2010

LUÍS MAFFEI acerca de GASTÃO CRUZ


«Um poema especial: três estrofes, doze decassílabos e uma espécie de paralelismo entre os primeiros e os últimos versos. No poema, “nada” é coisa alguma, e “nada” é um pós-morte que não interessa à poesia de Gastão Cruz – ou interessa na medida da sua angustiante impossibilidade. Camões, presença não rara em Gastão, é o poeta que ousou fazer do amor o grande fito do humano, e morreu assassinado/ suicidado por uma penosa “espada”, amorosa e não. Há magistralidade na obra gastoniana, não por qualquer ensinamento que pretenda conter, mas, pelo contrário, em virtude de sua sábia humildade: “Não estamos”, poema inclusive, “preparados para nada/ certamente que não para” excessivas e pretensiosas verdades.»


DENTRO DA VIDA

Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer



Luis Maffei (Brasília, 16 de Fevereiro de 1974) é Professor de Literatura Portuguesa do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense. Doutorou-se em 2007 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a tese “Do mundo de Herberto Helder”. Como poeta, publicou "A" (Rio de Janeiro: Oficina Raquel), em 2006, "Telefunken" (Rio de Janeiro: Oficina Raquel), em 2008 – a edição portuguesa deste livro foi lançada em 2009 pela Deriva – e lança, no próximo mês de abril, "38 círculos" (Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2010). Como músico, lançou, em 2004, o disco "na mesma situação de blake", em parceria com Marcelo Gargaglione. Coordena, para a editora Oficina Raquel, a série "Portugal, 0", dedicada à novíssima literatura portuguesa, responsável pelas antologias brasileiras das obras de Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Luís Quintais, Pedro Eiras e valter hugo mãe. Tem textos publicados em diversos periódicos de literatura, como as revistas Gragoatá, Metamorfoses, Relâmpago e Telhados de Vidro.