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domingo, agosto 29, 2010

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - CESARE PAVESE (2)



UMA SOMBRA ENTRE NÓS -
Retratos de Cesare Pavese

por Andrea Ragusa


Uma fotografia tirada em 1932 mostra quatro jovens sentados em cima de um muro nas colinas das Langhe. Primeiro à esquerda, Cesare Pavese. Ao seu lado estão, por ordem: Leone Ginzburg, com uns papéis nas mãos; no meio, de chapéu, Franco Antonicelli, escritor, ensaísta, e mais tarde senador da República; último à direita, por fim, o editor Carlo Frassinelli, pioneiro da serigrafia em Itália, para além de fundador da editora que tem o seu nome. Sendo homem de cultura heterogénea, Frassinelli estava profundamente interessado na tradução e difusão de obras estrangeiras, que pensava publicar na colecção Biblioteca Europea da sua editora. E por isso Pavese e Ginzburg deveriam parecer-lhe colaboradores ideais para desenvolver esta sua tarefa pois estes conheciam inglês e russo respectivamente: e tinha sido o próprio Antonicelli a apresentar os dois jovens colegas do Liceo D’Azeglio de Turim ao editor, em 1931. Mas o que a imagem nos diz é mais do que isto. Anos depois, Franco Antonicelli – que parece o mais elegante e estatuário – escreve, inspirado por aquela fotografia, um «Postal a Pavese»:

D’improvviso le Langhe! E t’ho pensato.
Dure, gialle, custodi al sole, arate
da grandi ombre. Lì è nata la tua voce
il gusto dei solinghi patimenti.
Mesi non ci parliamo, anni, ma solo
per quell’urto del sangue che ho sentito
io ti saluto. Un’ombra c’è tra noi
che giudica severa i nostri stenti


«De repente as Langhe! E pensei em ti. Duras, amarelas, guardas ao sol, aradas por grandes sombras. Ali nasceu a tua voz e o prazer dos solitários sofrimentos. Não falamos durante meses, talvez anos, mas só por causa daquele impulso do sangue que senti eu saúdo-te. Uma sombra há entre nós julgando severamente as nossas penas».

A «sombra», contará o próprio Antonicelli, é mesmo a de Leone Ginzburg, o amigo do liceu que tinha sofrido as torturas até morrer pela mão dos nazis na prisão Regina Cœli de Roma em Fevereiro de 1944. A ele (ainda vivo) é dedicado um poema de Trabalhar cansa, Retrato de autor, que, não por acaso, faz lembrar no título Retrato de um amigo, uma sentida recordação de Pavese feita por Natalia – mulher de Leone – e publicada pela primeira vez no Radiocorrere de Roma em 1957.
Ela, cujo apelido de solteira era Levi, casa com Ginzburg em 1938 e com ele partilha a acção antifascista e o exílio em Abruzzo. Depois da guerra é chamada a colaborar na sede da editora Einaudi de Turim, onde Pavese já estava há algum tempo a desempenhar a função de coordenador editorial (conforme a vontade do próprio Giulio Einaudi), mesmo por ser um dos que, dentro do núcleo inicial, tinham sobrevivido à tragédia da guerra. Aqui começa realmente a amizade entre Natalia e Pavese, uma amizade controversa e intermitente da qual também se fala nalgumas notas do diário pavesiano publicado postumamente.
Foi observado que muitas das referências que a Natalia Ginzburg faz a Pavese, quer em Retrato de um amigo como em outras obras, parecem responder a esses apontamentos de O Ofício de Viver, na qual o escritor não esconde a intolerância pela mulher do falecido amigo, sublinhando a distância de atitude que os separa. O que ele critica em Natalia é a sua presumida ‘facilicidade’ em considerar as coisas, o que não se encaixa bem com o sentimento trágico da vida próprio de Pavese. Esta «antipatia crescente» é evidente nas notas de 1948 onde, numa separação ideal entre tragicidade e espontaneidade, a «jovem N.» é explicitamente colocada no lado oposto ao seu: «A minha crescente antipatia por N. provém do facto de que ela toma por granted, com uma espontaneidade granted também, um demasiado número de coisas da natureza e da vida. Tem sempre o coração à mão – o coração víscera – o parto, a menstruação, as velhotas», e acrescenta a 3 de Dezembro do mesmo ano: «As pessoas que take for granted qualquer coisa entram em colisão contigo na medida em que pretendem escapar a esse carácter trágico».
Retrato de um amigo é uma carinhosa, e, ao mesmo tempo, crítica, descrição desta «colisão», através de um ponto de vista, não apenas diferente, mas oposto – como é óbvio – ao das notas de Pavese. Aquilo a que o escritor chama espontaneidade «granted», é chamado por Natalia de vida «simples e respirável» mas, enquanto Pavese fala com desprezo na presumível «inocência» dela (que Cesare Garboli descreveu como «inocência separada da ingenuidade»), está a afirmar ao mesmo tempo, e no mesmo apontamento, o seu próprio ‘fracasso’: «Odiamos os outros porque nos odiamos a nós próprios».
Mesmo que fosse realmente uma resposta de Natalia, o seu Retrato é feito de comoção sincera: o que ela critica no amigo é a incapacidade de uma vida mais simples e «adulta»: «Era, por vezes, muito triste: mas pensámos, durante muito tempo, que ele podia curar-se daquela tristeza, logo que decidisse tornar-se adulto: porque nos parecia, a sua, uma tristeza como a de um rapaz, a melancolia voluptuosa e distraída do rapaz que ainda não tocou a terra e se move no mundo árido e solitário dos sonhos. ». Este aspecto, diz-nos Natalia, era visível aos que o conheciam e parecia quase uma fraqueza de Pavese: «O nosso amigo vivia na cidade como um adolescente: e assim viveu até ao fim. Os seus dias eram, como os dos adolescentes, muito compridos e cheios de tempo». Nisso está aprisonada a sua alma, sempre mais longe, ao longo dos anos, de uma paz qualquer: «e nós também queríamos ensinar-lhe alguma coisa, ensiná-lo a viver duma maneira mais simples e respirável: mas nunca conseguimos ensinar-lhe nada, porque quando tentávamos expor as nossas razões, levantava a mão e dizia que já sabia tudo».
Mas o retrato que Natalia Ginzburg faz de Pavese é sobretudo uma homenagem à amizade, a qual ele próprio considerava algo totalmente espontâneo e natural: e por isso a sua ironia manifestava-se para com os amigos e raramente se encontra presente nos romances ou na vivência das suas derrotas amorosas . E é também um retrato de Turim, cidade industrial mas surprendentemente literária, misteriosa e envolta no nevoeiro e no cheiro a fuligem, que esconde, em cada canto, uma lembrança do amigo: «A nossa cidade é parecida, reparamos nisso agora, com o amigo que perdemos e que tanto a amava». Natalia Ginzburg não deixa de referir-se à cidade, aquela cidade que em toda a obra de Pavese rapresenta o lugar de «vício» oposto à pureza própria do campo e da terra. A cidade que permite o retrato mais sincero e a cidade que torna possível que ele apareça novamente como uma sombra («Na cidade parecida com ele sentimos reviver o nosso amigo em todo lado»), mas uma sombra viva, presente, uma sombra que julga: a par de Leone na fotografia de muitos anos antes, «Ele estava, mais do que nunca, presente naquela encosta da colina».


Lisboa, 13 de Fevereiro de 2010



§



RETRATO DE AUTOR

(para Leone)


A janela que dá para a rua abisma-me
sempre vazia. O azul estival por cima da cabeça
parece ao invés mais firme e nele vê-se uma nuvem.
Aqui não se vê ninguém. E estamos sentados no chão.

O meu amigo – cheira mal – está sentado comigo
na via pública e, sem mover o corpo,
tirou as calças. Eu tiro a camisola.
O empedrado está gelado, o que dá prazer ao meu amigo,
mais do que a mim, que olho para ele, mas não passa ninguém.
A janela de repente enquadra uma mulher
clara de pele. Talvez não tenha sentido o cheiro
e olha para nós. O meu amigo já está de pé e fita-a.
Tem pêlos o meu amigo, das pernas até a cara,
que o dispensam das calças e lhe saem pelos buracos
da camisola. É um pelame que basta para o vestir.
O meu amigo saltou por aquela janela
para o escuro, e a mulher desapareceu. Fogem-me os olhos
para a franja do belo céu compacto, também ele nu.

Eu não cheiro mal porque não tenho pêlos. Gela-me a pedra
estas minhas espáduas nuas de que as mulheres gostam
porque são lisas: que há de que as mulheres não gostem?
Mas não passam mulheres. Passa em vez disso uma cadela
seguida por um cão que apanhou chuva
e cheira muito mal. A nuvem lisa no céu
Olha imóvel: parece um monte de folhas.
O meu amigo, desta vez, encontrou a mesa posta.
Tratam bem as mulheres que está nu. Aparece
por fim à esquina um miúdo de cigarro na boca.
Tem pernas de enguia também ele, cabelo crespo,
pele dura: as mulheres hão-de querer despi-lo
um belo dia para ver se gostam do cheiro.
Quando passa junto a mim, estendo um pé. Cai logo por terra
E peço-lhe um cigarrito. Fumamos em silêncio.


Cesare Pavese, 1934
trad. CARLOS LEITE


sexta-feira, agosto 27, 2010

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - CESARE PAVESE



«Boa tarde João,

falamos muito em Pavese e até acerca do seu retrato, feito por Natalia Ginzburg. Por acaso hoje é dia 27 de Agosto: há sessenta anos, 27 de Agosto de 1950, Cesare Pavese suicidava-se num quarto do Hotel Roma de Turim, deixando escrito numa cópia dos
Diálogos com Leucó: «Perdono tutti e a tutti chiedo perdono. Non fate troppi pettegolezzi. Va bene?»
É tudo.
Não gosto de aniversários nem de celebrações de qualquer tipo. Mas sempre tive uma ligação com este poeta e a sua morte, e queria lembrá-lo.

Um abraço
Andrea»

sexta-feira, abril 16, 2010

FRANCISCO DUARTE MANGAS acerca de CESARE PAVESE

«A memória da luta parece infinita. Tecida na mais íntima matéria perecível, tão frágil, afinal, é de verdade. Sempre que releio Pavese, paro nas colinas: vício absurdo, eu sei.»


Cesare Pavese (Santo Stefano Belbo, 9 de Setembro de 1908 — Turim, 27 de Agosto de 1950) foi um escritor e poeta italiano. Nasceu nas Langhe (província de Cuneo), tendo-se mudado ainda em criança para Turim, donde se ausentou sempre apenas durante pouco tempo: passou um ano na prisão em Barcaleone (Reggio Calabria), comprometido por amigos políticos; passou algum tempo em Roma em trabalho para o editor Einaudi, de quem foi um dos mais eficazes conselheiros editoriais; suicidou-se em Turim em 1950. A sua tese de licenciatura foi sobre Walt Whitman e já não era um desconhecido quando em 1936 publicou Lavorare stanca: tinha já publicado e continuaria a publicar estudos sobre literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos num volume (La letteratura americana e altri saggi) publicado postumamente em 1951.



[Virá a Morte e Terá os Teus Olhos]


Tu não sabes as colinas
onde se derramou o sangue.
Todos nós fugimos
todos nós largámos
a arma e o nome. Uma mulher
olhava para nós quando fugíamos.
De nós só um
parou de punho cerrado,
olhou para o céu vazio,
inclinou a cabeça e morreu
contra o muro, em silêncio.
Agora é um trapo de sangue
e um nome. Uma mulher
espera-nos nas colinas.


Francisco Duarte Mangas vive em Árvore (Vila do Conde). Cuida de glicínias e exercita nos limoeiros, camélias, magnólias e outras árvores a antiga arte dos enxertadores. Algum tempo gasta também, nos rios de montanha, a iludir trutas Publicou os romances: Diário de Link (Teorema, 1993, 2ª ed. 2002; Akal, Madrid, 2002); Ladrão de Violetas (Teorema, 1995), A Fenda no Cavalo, (Teorema, 1996), Geografia do Medo (Teorema, 1997; Círculo de Leitores, 1998, Galaxia, 1998. Planeta Agostini, 2003), A Morte do Dali (Teorema, 2001); O Coração Transido dos Mouros (Teorema, 2002). Contos: O Medo não Podia Ter Tudo (com Augusto Baptista, Campo das Letras, 2000, NonSoloParole, 2006); O Homem do Saco de Cabedal, (Campo das Letras, 2000); e Os Passos por Dentro da Casa (Asa, 2002). No domínio da poesia é autor, entre outras obras, de Pequeno Livro da Terra (Teorema, 1996), Transumância, (Campo das Letras, 2002); Brévia, (Hidra editores, 2005). O Noitibó, a Gralha e outros Bichos (Caminho, 2009) é o seu mais recente livro para crianças.