Mostrar mensagens com a etiqueta BERNARDO PINTO DE ALMEIDA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta BERNARDO PINTO DE ALMEIDA. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, maio 24, 2023

BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

 


SICÍLIA
Bernardo Pinto de Almeida
Relógio d’Água, Dezembro de 2022
112 páginas 

Não é a primeira vez que trago a poesia de Bernardo Pinto de Almeida a estas páginas. No ano passado escrevi uma breve nota de leitura acerca do livro “A estrada menos viajada”, editado pela Sr Teste, em Janeiro de 2022. Salientei então aquela que me parecia ser a característica formal mais notória daquele livro “a opção que o poeta faz por poemas magros, esguios, de verso curto e nervoso, a maioria de género lírico, neste e naquele cindindo a última palavra, obrigando o leitor a optar (…) por um de dois caminhos – uma de duas leituras, um de dois sentidos (…)”. 

Esse jogo de cindir palavras mantem-se neste livro – aqui, talvez, com a função mais de comentário por parte do autor ao próprio poema, anotando com a segunda metade da palavra dividida, o sentido dos versos, numa obra construída com poemas escritos num período temporal próximo do anterior, organizados desta vez em três partes: “O Caminho Estreito”, que de certa forma complementa e encerra tematicamente os temas de “A estrada menos viajada”; “Sicília”, o corpo principal da obra; e a coda “Osuna”, com que o poeta remata o livro. 

Existe um profundo sentido ético nos poemas de Bernardo Pinto de Almeida. Toda a poesia é biográfica mesmo naqueles poetas que não assumem abertamente o quanto a biografia contamina os poemas que escrevem; também por isso escrevem poesia, um género que pelas camadas que possui lhes permite transformar em enigma e mistério aquilo que foi quotidiano. 

Esse sentido ético – que é o do próprio poeta e crítico de arte – atravessa os textos de “O caminho estreito”, a primeira parte deste livro, ocupados com incidentes e episódios que à maneira de Antonio Machado traçam um caminho ao andar, resultando tal caminho, como para Kavafis, numa bela viagem. O papel da arte, a estreita relação entre vida e poema, um amor antigo, o divórcio (“A ilha dos amores”, poema sobre a divisão dos despojos é um favorito), bem como outros elementos femininos são alguns dos temas que Bernardo Pinto de Almeida convoca em poemas capazes de prender a atenção do leitor por três, quatro páginas, dada a graça, a limpidez, a surpresa destes versos maduros, intensos, eufónicos, alusivos, dos quais não está ausente o humor. 

A mesma qualidade assiste à escrita das partes seguintes do livro, “Sicília” e “Osuna”, que dão testemunho da vivência do poeta, primeiro por Itália, uma das suas paixões, depois pela localidade espanhola onde a presença do amor, presente na dedicatória, se mantém viva através da beleza. 

Mas nunca é somente de lugares ou rostos que os poemas falam, antes da densíssima memória cultural, histórica, arqueológica, geográfica, arquitectónica, artística, literária de Bernardo Pinto do Amaral. São convocadas localidades (Nápoles, Catânia, Agrigento…), personagens históricas ou mitológicas (Mnemosyne, Anaximandro, Ulisses…), pintores (Morandi, Fra Filippo Lippi, Caravaggio…), escritores (Dante, Dylan Thomas, tantos…) que informam os versos com a pertinência e a naturalidade de quem escolheu viver o tempo ideal (Kairos) no tempo actual (Cronos). 

Com densidade. Para Bernardo Pinto de Almeida, a memória e a história colectivas fazem parte da viagem que começou nos livros, na arte, no estudo ainda antes de a viagem ter começado, e com os quais, diante da geografia aludida, dialoga agora, homenageando personagens e lugares com inteligência e paixão. Com sentido crítico, sim, comentando os tempos actual e antigo, mas com uma indisfarçável paixão pela beleza da matéria poética, o erotismo, “as pequenas coisas / em que a luz / mal chega a caber”. Porque, na essência, todas aquelas referências permanecem vivas, presente e passado, moldando-se ainda mutuamente. 

É um dos mais jovens autores portugueses que urge descobrir. Se nenhuma nota de leitura substitui a leitura de um livro ou a felicidade de deparar, como em “Sicília”, com versos perfeitos, complete-se esta nota com a leitura do livro.

quinta-feira, setembro 08, 2022

BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

 



A ESTRADA MENOS VIAJADA

Bernardo Pinto de Almeida

Sr Teste, Janeiro 2022

74 páginas


A característica mais expressiva de “A Estrada Menos Viajada”, de Bernardo Pinto de Almeida é a opção que o poeta faz por poemas magros e esguios de verso curto e nervoso, a maioria de género lírico, neste e naquele cindindo a última palavra, obrigando o leitor a optar (“apesar” / “a-pesar”; “acena” / “a-cena”), tal como o sujeito lírico do poema “The Road Not Taken”, de Robert Frost, por um de dois caminhos – uma de duas leituras, um de dois sentidos – ambos válidos, ambos possíveis mas obrigatoriamente como no poema do americano, de escolha exclusiva.

Como na vida. De dentro dessa exígua mancha gráfica, o poeta prossegue o seu conhecido programa de ver, de re-parar nos assuntos da cidade e do amor – a verdadeira força motriz dos recomeços – dialogando com a tradição e com os poetas de eleição através de uma prosódia limpa e de uma dicção aural, aludindo desta vez à pedra no caminho de Drummond de Andrade ou à poesia que existe nas coisas de William Carlos Williams, entre outros.

No poema “A Queda”, por exemplo, socorre-se de um jogo homonímico entre perda de alegria (e a consequente perda de peso) para um apontamento de humor, num livro que é, no restante maioritariamente sério e reflexivo como sucede em “A Porta”, um dos mais importantes textos do livro. A voz que fala de dentro destes poemas recupera numa mão cheia de instâncias, o tema da idade dourada, a infância pura e irrepetível, por oposição à idade adulta tardia, isto é, o topos da mudança de estação na vida; “Lição de Trevas” é uma peça que alude ao Inverno cronológico (“um / ano mais a cair / do calendário, / dessa misteriosa / agenda, ou livro / de horas, a que / chamamos vida.”). O contraste entre estes dois momentos na vida do sujeito lírico – o primeiro trazido pela memória, este vivido no presente – justificam talvez a urgência destes poemas velozes, a ansiedade objectivada através da forma esguia, reflectindo-se nisso a pressa para o que falta viver.

Relê-se agora com outra propriedade a conhecida epígrafe de Robert Frost que abre o livro (“Two roads diverged in a wood, and I – / I took the one less traveled by, / and that made all the difference.” que alude à escolha por ambos os poetas, o americano e o português, pela estrada menos viajada, que ganha aqui para o nosso autor o cunho de um primeiro balanço de vida, à chegada do Inverno. Estrada essa que, pesados perdas e ganhos, fez toda a diferença. Como no caso do amor.