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quinta-feira, novembro 24, 2022

ADÍLIA LOPES

 


PARDAIS

Adília Lopes

Assírio & Alvim, Julho 2022

72 páginas 

 

Cada livro da autora lê-se sempre com duas terríveis perguntas na cabeça: pode tanta inocência ocultar algum cinismo? Pode tanta simplicidade esconder ironia? 

A verdade é que a poesia de Adília Lopes é reconhecível em qualquer lugar do mundo lusófono; segundo julgo saber, no Brasil, existe mesmo o adverbio “adilianamente”, o que de certo modo corrobora a minha suspeita de que Adília Lopes é a prima portuguesa que Paulo Leminski não conheceu. 

Adília é tom e é persona. Diz quem priva com a autora que Adília “é mesmo assim”, tal como escreve. Os seus textos (muitos deles em prosa) são atravessados por uma candura, uma inocência e uma ingenuidade desarmantes, mostrando uma obsessão extrema pela descrição e pela narração de detalhes, não só como alguém que procura a verdade do Mundo mas como alguém que quer ter a certeza de que a mesma não só é transmitida ao leitor, como também correctamente apreendida por ele: “Outra coisa de que gosto em casa é de ver a luz da rua apagar-se no castiçal do piano que tenho na casa de estar. O castiçal é de metal, reflecte a luz da iluminação pública”. Assim, tudo explicito. 

Esta obsessão explicativa está patente também, por exemplo, na assinatura que cada texto exibe do local e do dia exactos (o mês em numeração romana, o que não é despiciendo) onde o mesmo terá sido escrito, ou finalizado. Os poemas têm um cariz quase exclusivamente biográfico – desta vez encimados pela imagem conceptual pura, simples e livre de um pardal, como Adília – assumindo outras vezes a voz de raciocínios lógicos do tamanho de um aforismo ou de um slogan, não poucas vezes informados por temas religiosos ou ditados colhidos directamente da sabedoria popular. 

Adília recorre frequentemente à tradição, não apenas a literária (neste livro responde a versos de Cesário Verde, Fernando Pessoa e Gil Vicente) mas também, e principalmente, à secular sabedoria oral do bairro onde habita e onde aprecia viver, transmitida, imagina-se, de vizinho para vizinho, de geração para geração. A persona destes textos fala ao leitor num acento cândido, puro, desprovido de excessos, gerindo em cada parágrafo o espaço em branco (ou seja, o silêncio) de modo a convidar o leitor a parar, ver e reflectir, resultando este processo muitas vezes em ironia, uma vez que desarma o leitor com a candura do que parece óbvio; podermos ver o óbvio escrito num livro de poesia, parece-me ser o achado maior desta poética.

 Existe nestes poemas muito trabalho arqueológico de devolver à poesia o que já foi metáfora (no início das linguagens) mas que agora é cliché, o que significa que Adília escreve, na minha opinião, mais com o ouvido do que com o olhar, e ciente disso, cria uma poesia passível também ela de ser transmitida como um slogan – “Sem liberdade não há felicidade.”; “Sem democracia não há alegria” – desvelando com isso um primacial prazer pela vida e por estar viva, em exercícios líricos habitualmente espantados com o banal.

Esse mesmo espanto por descobrir parece assistir à reprodução, na segunda parte do livro, de 12 desenhos da autora feitos com a mão esquerda em Maio de 2022, partindo do “Cogito, ergo sum” de René Descartes. Os desenhos são de péssima qualidade mas não é esse o ponto: a máxima “Penso, logo existo” (“Penso, portanto sou”) é escrita pela autora ao longo de uma semana e meia em sucessivas tentativas com a sua mão não dominante, acompanhada de um torvelinho gráfico, e o que se verifica é que a caligrafia não sofre qualquer melhoria, tentativa após tentativa, contudo representa para Adília um desafio diário, um jogo pessoal, a prova de que a autora está viva e continua viva, a demonstração de que pensa, logo existe, e isso parece ser suficiente. Viva, como um pardal. 

Já na terceira página do livro, a autora havia feito publicar uma foto a preto e branco de uma divisão da sua casa onde são visíveis inúmeros objectos que bem podiam ser assunto de algum dos seus poemas, como se de um Cabinet de curiosités se tratasse – uma bela imagem resumo do que constitui esta poética colecionada dia a dia, onde os pardais do bairro passaram agora a ter também, com este livro, definitivamente o seu lugar.

domingo, março 28, 2010

JOÃO GESTA acerca de ADÍLIA LOPES

«A poeta que escolho é a Adília Lopes. Considero-a a mais singular e insubmissa voz feminina da poesia portuguesa contemporânea. O seu discurso poético é, ao mesmo tempo, inocente e subversivo, profundamente verdadeiro, apaixonadamente desconcertante.»


Comprei hoje
na Casa Batalha
uma camélia amarela
de pano
pendurei-a na parede
a tapar um prego
para não me esquecer
de me benzer


JOÃO GESTA nasceu em Matosinhos, em 1953. Escritor, programador cultural e membro do colectivo poético "Caixa Geral de Despojos". Organiza, desde Janeiro de 2002, o ciclo poético "Quintas de Leitura" do Teatro do Campo Alegre do Porto. Escreveu três livros de ficção e um de fricção, o melhor. Já traz outro no ventre. Continua desesperadamente à espera da Liberdade livre. Culpas no cartório: Embolia, Edicións Positivas (Espanha), 1993. Dança Com Lobbies, Felício & Cabral – Publicações, Lda., 1995. O Céu A Seu Dono, Edición Positivas (Espanha), 1997. Obra a três rins, de parceria com Daniel Maia e Pinto Rodrigues. Dorme Cá Hoje, Objecto Cardíaco, 2006. No ventre: A Chamuça Ardente, com prefácio de Demis Roussos.


Leia mais sobre Adília Lopes, no Poesia Ilimitada, aqui.




terça-feira, novembro 10, 2009

ADÍLIA LOPES (2)

Em leitura: Dobra, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, de Adília Lopes.


Também aqui.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

ADÍLIA LOPES

(actualizado)

Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira (Adília Lopes, n.1960) é licenciada em Literatura e Linguística Portuguesa e Francesa pela Universidade de Lisboa, cidade onde nasceu. Começou a publicar regularmente poesia em 1985 com o livro Um jogo bastante perigoso. Destacando-se desde cedo como uma das mais originais vozes da sua geração, a sua poesia é percorrida por um humor e uma ironia que chegam a ser sarcásticos. O tom ingénuo e confessional da sua escrita, com recorrentes alusões à infância e à sabedoria comum, desvenda uma visão desarmante, por vezes surrealista, da natureza humana em particular das relações interpessoais e amorosas.


OBRA POÉTICA
Dobra, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009



O MARQUÊS DE CHAMILLY A MARIANNA ALCOFORADO
(1992)

Minha senhora deve ter
uma coisa muito urgente e capital
a dizer-me
porque me tem escrito muito
e muitas vezes
porém lamento dizer-lho
mas não percebo
a sua letra
já mostrei as suas cartas
a todas as minhas amigas
e à minha mãe
e elas também não percebem bem
não me poderia dizer
o que tem a dizer-me
em maiúsculas?
ou pedir a alguém
com uma letra mais regular
que a sua
que me escreva
por si?
como vê tenho a maior boa vontade
em lhe ser útil
mas a sua letra minha senhora
não a ajuda


O diálogo entre o poema de Adília Lopes O Marquês de Chamilly a Marianna Alcoforado e as Lettres Portugaises traduites en François, atribuídas à freira de Beja estabelece-se em poucas linhas: ao longo de cinco cartas atribuídas a Soror Marianna Alcoforado e editadas em Paris em 1669, a religiosa declarava o seu amor por um gentil-homem francês sem nunca ter obtido o favor de uma resposta. É exactamente a suposta resposta às cartas de Marianna o que autora nos traz neste poema pela pena do Marquês de Chamilly.

A entoação formal de dúvida e indefinição atribuída ao Marquês no início do poema (“Minha senhora deve ter/ uma coisa”), estabelece desde cedo no poema o tom de falsidade que irá marcar o seu discurso. Sob a capa de uma escrita justificativa e até cavalheiresca, esconde-se um rol de cruéis provocações. Desde logo pela humilhação e desconforto que resultam do facto de o destinatário das cartas já as ter mostrado – repare-se! – “a todas as minhas amigas/ e à minha mãe”, ou seja e por junto, às clássicas adversárias do elemento feminino de um casal. Mais ainda, um verso como “e elas também não percebem bem”, não pode ser lido senão como uma ofensa directa a Marianna ao apontar cruelmente o caminho do isolamento e da exclusão. Depois, porque o Marquês faz questão em erigir e manter uma enorme distância entre os dois, o que não permite nunca que a paixão seja tida sequer em consideração: é como se tudo se passasse apenas a um nível funcional. Quando o receptor das cartas afirma “não poderia dizer/ o que tem a dizer-me/ em maiúsculas?”, está de uma só vez a exprimir impaciência, indiferença e enfado, tanto quanto a apequenar Marianna ao apontar-lhe um defeito que se parece indiciar somente um problema de diálogo (“lamento dizer-lho/ mas não percebo/ a sua letra”) porque a caligrafia impede a boa comunicação, metonímicamente funciona possivelmente como o apontar de uma característica física desfavorável, a altura, ou talvez reflectir a pouca importância que o Marquês lhe atribui no leque das suas relações, parecendo-lhe portanto Marianna pequena e dispensável, tal e qual a sua letra.

O golpe de misericórdia não tarda a ser desferido quando ele sugere que Marianna peça a outrem (a outra mulher?) que lhe escreva por vez dela (“com uma letra mais regular/ que a sua”), isto é, sem aquele pequeno handicap que a empurra, sem pejo, para o âmbito da competição amorosa. Nos versos com que termina o poema, o Marquês chega mesmo a ser hipócrita ao fingir-se prestável (“como vê tenho a maior boa vontade/ em lhe ser útil”), sendo o final da carta de um formalismo que dói e quase insulta (“mas a sua letra minha senhora/ não a ajuda”). Parece existir assim por parte da persona do poema a procura de uma causa que possa justificar, por razões extrínsecas à si própria, o desamor que repetidamente tem sofrido ao ver a sua paixão pelo Marquês (ou pelos homens?) adiada e não correspondida.