sexta-feira, abril 07, 2006

VASCO GRAÇA MOURA

Vasco Graça Moura nasceu no Porto, em 1942. Licenciado em Direito, actividade que chegou a exercer, é autor de diversas obras de ensaio, poesia, romance, teatro, crónica, e ainda de traduções. O poema "ofício de morrer" foi publicado no seu livro de 1984, "Os Rostos Comunicantes".


ofício de morrer

eu imagino assim a morte de pavese:
era um quarto de hotel em turim,
decerto um hotel modesto, de uma ou duas
estrelas, se é que havia estrelas.

uma cama de pau, de verniz estalado,
rangendo de encontros fortuitos, um colchão mole e húmido
com a cova no meio, a do costume.
corria o mês de agosto com sua terra escura

encardindo as cortinas. nada ia explodir
naquele mês de agosto àquela hora da tarde
de luz adocicada. e alguém pusera
três rosas de plástico num solitário verde.

vejo como pavese entrou, como pousou a maleta
com indiferença, dobrou alguns papéis
e despiu o casaco (como nos filmes
italianos da época). depois foi aos lavabos

no corredor, ao fundo. talvez tenha pensado
que esta vida é uma mijadela ou que.
voltou ao quarto, havia
uma fétida alma em tudo aquilo.

ele abriu a janela
e pediu a chamada telefónica.
a noite ia caindo sem palavras, memo sem businas
excessivas. encheu um copo de água. e esperou.

quando a campainha tocou, havia muito pouco
a dizer e ele já o tinha dito:
já tinha dito quanto amar nos torna
vulneráveis; e míseros, inermes;

que é precisa humildade, não orgulho;
e parar de escrever;
e que dessa nudez é que morremos.
foi mais ou menos isto – a nossa condição

demasiado humana, a voz humana, a frágil
expressão disso tudo, uma firmeza tensa.
«e até rapariguinhas o fizeram».
tinham nomes obscuros e nenhum

remorso lancinante, ninguém pra falar delas.
a mais temida coisa é a coragem
do que parecia fácil: tudo o que não se disse
carregado num acto de súbitas fronteiras.

foi mais ou menos isto. não sei se ele a seguir
pôs do lado de fora um letreiro
com do not disturb ou coisa assim,
nem se tomou as pastilhas uma a uma, ou se as contou.

não sei se o encontrou uma criada,
se a polícia veio logo, se deixou uma carta
ao seu melhor amigo, se apagou a luz,
nem se pousou ao lado a carteira, o relógio, a esferográfica.

não sei se entrou na morte como quem
traz imagens pungentes na cabeça,
palavras marteladas de desejo, ou como quem friamente
está no avesso do sono e vai calar-se e é justo.

não sei se foi assim, se existe uma outra
verdade imaginável ou vedada. sei que ele tinha
um olhar decidido, alguma instigadora, e quarenta e dois anos,
e sei que nessa altura há já poucas verdades

e nenhuma dimensão biográfica na morte.
já vem nas escrituras. eu prefiro
dizer que ele fechou a porta à chave
e sei que era viril a sua transparência.

21 comentários:

mb disse...

Andava à procura deste poema nos livros que aqui tenho de VGM e que lera num deles, ficando-me desde então na memória como um dos que, de VGM, mais me tocou, à parte qualquer sentimentalismo na escolha. Procurava-o era por Cesare Pavese, quando o título partiu do Ofício de Viver. Tenho de agradecer-lhe o tempo que me poupou.

Luís Entresede disse...

tenho uma coisa a dizer, o poema é belo, se ma podesse mandar masi poemas deste senhor, ficaria-lhe muito grato. aproveitodesde já par visitar o meu blog colher-de-sopa.blogspot.com

Vítor disse...

De uma outra dimensão este poema!
Abraço!

Anónimo disse...

Até que enfim alguém que não é pigmeu de larkin nem é parente do joaquim manuel magalhães

Anónimo disse...

o direito não é uma actividade que se exerce...
o que o senhor vasco graça moura exerceu foi a advocacia...

laerce disse...

Não sei quem foi pavese, sei que vgm me deu o pavio para descobrir pavese. Ou de como é possível entrar num acontecimento e dispor os momentos de acordo com o nosso desejo, mesmo que se ressalve tudo isso com um 'não sei'.

Anónimo disse...

pavese e graça moura e larkin sao todos primos - é o que está nas listas de família do meu patrão.

família dos poetas.

há outras mais medievais.

Francisco Curate disse...

Muito bom!

ana disse...

Excelente entrevista e magnífico Graça Moura. Apesar das antipatias políticas que tem suscitado, ele é sem dúvida imbatível na sua cultural abrangência e ecumenismo estético.
E aos imbecis, que nos comentários atrás falam de primos, reparem bem como uma grande informação cultural e estética, a do vgm, fala das acepções do "real", sem tendenciosismos sacanas e obnibulados.
Além de que dou os pêsames ao João Luís pelos leitores do seu blogue, que não conheciam o Pavese-nem a poesia do vgm, nem de certeza os "Sôbolos rios..." e devem ser demasiado primários para perceber a entrevista.

Paulo Madeira Gil disse...

Não se dá pêsames pelos vivos ( ainda que ignorantes, de acordo com a iluminada leitorana). A arrogância cultural leva mais depressa ao cadafalso do que ao cemitério - o que não é bem a mesma coisa. Se o senhor João Luís quisesse apenas leitores muitíssimo cultos, como deve ser a leitorana, abria com certeza uma espécie de clube privado, com ou sem maçãs de orestes. Lavorare stanca!

ana disse...

Ó Gilinho!

Há quem chame arrogância ao desgosto da constatação de ser indígena de um país que não merece Camões, nem camoneanos como VHM. Nós já estamos tão habituados a entrevistas indigentes -e não só - nos livros-abertos e mil- folhas, etc do bairro, que quando surge uma coisa com lastro, ficamos emocionados...
Quanto aos "pêsames" significam con/dolências, solidariedade com a pouca sorte alheia.
Excelente ocasião para você entender o sentido migratório da metáfora.
Evidente, que se o autor deste blogue não quisesse ler parlapatices, bastava-lhe ir ao "moderate comments". Mas ele é um entusiasta da difusão da Poesia. Logo, paga o preço, para que muitos bloggers não têm já pachorra.
Boa tarde e boa sorte!

Ana

ana disse...

Esqueci-me de falar em JORGE DE SENA, outro enorme poeta e camoneano, sempre tão perseguido e maltratado pelos portugaleses.

Ana

Gilinho disse...

Vamos ler juntos "Coroa da Terra"?
O que eu não terei ainda de aprender com a Ana! Sinceramente, acho que tenho!
Sinceramente, também, acho que há algum excesso na vitimização do Sena. E eu gosto muito dele, muito mesmo!
Essa do Gilinho, escrita de saltos tão altos, teve a sua graçana!

Anónimo disse...

Portugal não merece Camões? ahahah... há cada urso(a)

aninhas disse...

Gilinho,

Obnrigada pelo seu senso de humor.
Mas olhe que o Sena,como outros grandes espíritos do séc. XX português, foi perseguido, impedido de ensinar, a ponto de se refugiar e se "exportar", com a família, sucessivamente para o Brasil e USA, sendo lá, então, docente universitário de prestígio.
Quando se deu o 25 de 74, ele regressou, cheio de esperança a Lisboa, onde uns militarunchos do Conselho da Revolução, lhe disseram que muito bem, obrigado,mas não era preciso cá para nada.
Há ainda uma história triste,por essa época, de um certo Plenário na Universidade Clássica de Lisboa, onde o nome dele foi, justamente proposto, para reintegração e a proposta foi chumbada...
Alguns dos intervenientes, já morreram, inclusivé o próprio Sena; mas quem estiver vivo, que conte.
Portugal levará muitos decénios a levantar-se da sangria de cérebros que lhe infligiu a ditadura de santa comba dão. Afinal para quê?

Aninhas

Madeira Gil disse...

Querida Ana,
Tudo o que Você diz é verdade,digamos assim. O Sena foi injustiçado, dispensado, etc. etc. Tenho por ele uma admiração total,ainda que possa até preferir outros poetas. Mas não tenho menor admiração por essa mulher única que se chama Mécia de Sena.
E não julgue que não gostei das suas intervenções aqui, cultas e inteligentes.
Só quis "picá-la" porque me pareceu algo injusta para o anónimo dos primos, que acho estar a reagir ao comentário anterior, que insiste na já insuportável cadeia de atacantes (ou atacadores?) ao trabalho do j m magalhães.
E também me parece que, nisto da poesia, pelo menos, há que ter cuidado com as ideologias, que resvalam sempre tanto para o tanto mal que têm feito a todos.
Acredite que o que eu mais quero é aprender com quem me pode deslumbrar e, sem qualquer ponta de cinismo, a Ana pode.
Mas aqui não parece já o sítio para continuarmos a conversa, não acha?
E obrigado ao João Luís que, aceitando os comentários, proporcionou este, ainda que fugaz mas nada inócuo, encontro.
Um sincero abraço.

Madeira Gil

errata gil disse...

injusta para com

não parece ser já

ana disse...

Simpático comentador Gil,

Grata, vou "desaparecer" desta caixa de comentários. Mas, sem deixar de reiterar a sua ideia "desideologizante". É isso mesmo. A grandeza da poesia é essa. Poder ser heterodoxa; "Liberdade livre" como disse o Rimbaud e repetiu o Ramos Rosa.Forçosamente as ideologias, as religiões, as "morais" - coisa diferente de Ética - têm normas, códigos, leis, que a Poesia pode dispensar. Essa é, para mim, a maior e mais maravilhosa função da Poesia. E não aquele sentido, ainda muito comum, de coisa lindinha ou ambiguamente chata, que dá charme e jeito para acabar discursos ou incrementar paixões. Claro, que eu disse "pode dispensar", porque a liberdade - em suporte verbal - não é mensurável.
E é essa capacidade do imensurável, que penso se devia ensinar às crianças.

Ana
vitabrevis@yahoo.com.br

gilinho disse...

esse endereço não funciona, pois nao?

laerce disse...

Embora a Ana diga que vai "desaparecer" desta caixa de comentários quero deixar aqui o meu desagrado pela forma como fui tratada pelo comentário que deixei acerca deste post.

Gostaria de saber em que é que o facto de desconhecer quem foi Pavese me torna imbecil. Por que motivo não posso fazer uma leitura pessoal do poema e expor o meu ponto de vista num espaço aberto de partilha de opiniões. Por que motivo sou obrigada a venerar um poeta?

A Ana, na pressa imensa em debitar os seus altos conhecimentos, atropelou a leitura dos comentários e meteu tudo no mesmo saco. Devia pedir-me desculpas.

Nas poucas intervenções que tenho feito neste blogue tenho sido sempre respeitadora e nunca pretendi exibir mais do que a minha sensibilidade aos escritos que aqui são colocados.

Por último, parece-me que o autor deste blogue não precisa mesmo nada de vozes protectoras e palmadinhas de compreensão pelo,segunda a Ana, insignificante leque de comentadores que lhe calhou.

Pedro disse...

”A escola que temos não exige a muitos jovens qualquer aproveitamento útil ou qualquer respeito da disciplina. Passa o tempo a pôr-lhes pó de talco e a mudar-lhes as fraldas até aos 17 anos. Entretanto mostra-lhes com toda a solicitude que eles não precisam de aprender nada, enquanto a televisão e outros entretenimentos tratam de submetê-los a um processo contínuo de imbecilização. Se, na adolescência, se habituam a drogar-se, a roubar, a agredir ou a cometer outros crimes, o sistema trata-os com a benignidade que a brandura dos nossos costumes considera adequadas à sua idade e lava-lhes ternurentamente o rabinho com água de colónia. Ficam cientes de que podem fazer tudo o que lhes der na real gana na mais gloriosa das impunidades. Não são enquadrados por autoridade de nenhuma espécie na família, nem na escola, nem na sociedade, e assim atingem a maioridade. Deixou de haver serviço militar obrigatório, o que também concorre para que cheguem à idade adulta sem qualquer espécie de aprendizagem disciplinada ou de noção cívica. Vão para a universidade mal sabendo ler e escrever e muitas vezes sem sequer conhecerem as quatro operações. Saem dela sem proveito palpável. Entretanto, habituam-se a passar a noite em discotecas e noutros proficientes locais de aquisição interdisciplinar do conhecimento, até às cinco ou seis da manhã. Como não aprenderam nada digno desse nome e não têm referências identitárias, nem capacidade de elaboração intelectual, nem competência profissional, a sua contribuição visível para o progresso do país consiste no suculento gáudio de colocarem Portugal no fim de todas as tabelas. Capricham em mostrar que o "bom selvagem" afinal existe e é português. A sua capacidade mais desenvolvida orienta-se para coisas como o /Rock in Rio/ ou o futebol. Estas são as modalidades de participação colectiva ao seu alcance e não requerem grande esforço (do qual, aliás, estão dispensados com proficiência desde a instrução primária). Contam com o extremoso apoio dos pais, absolutamente incapazes de se co-responsabilizarem por uma educação decente, mas sempre prontos a gritar aqui-d'el-rei! contra a escola, o Estado, as empresas, o gato do vizinho, seja o que for, em nome dos intangíveis rebentos. Mas o futuro é risonho e é por tudo o que antecede que podemos compreender o insubstituível papel de duas figuras como José Mourinho e Luiz Felipe Scolari. Mourinho tem uma imagem de autoridade friamente exercida, de disciplina, de rigor, de exigência, de experiência, de racionalidade, de sentido do risco. Este conjunto de atributos faz ganhar jogos de futebol e forma um bloco duro e cristalino a enredomar a figura do treinador do Chelsea e o seu perfil de /condottiere/ implacável, rápido e vitorioso. Aos portugueses não interessa a dureza do seu trabalho, mas o facto de "ser uma máquina" capaz de apostar e ganhar, como se jogasse à roleta russa. Scolari tem uma imagem de autoridade, mas temperada pela emoção, de eficácia, mas temperada pelo nacional-porreirismo, de experiência, mas temperada pela capacidade de improviso, de exigência, mas temperada pela compreensão afável, de sentido do risco, mas temperado por um realismo muito terra-a-terra. É uma espécie de tio, de parente próximo que veio do Brasil e nos trata bem nas suas rábulas familiares, embora saiba o que quer nos seus objectivos profissionais. Ora, depois de uns séculos de vida ligada à terra e de mais uns séculos de vida ligada ao mar, chegou a fase de as novas gerações portuguesas viverem ligadas ao ar, não por via da aviação, claro está, mas porque é no ar mais poluído que trazem e utilizam a cabeça e é dele que colhem a identidade, a comprazer-se entre a irresponsabilidade e o espectáculo. E por isso mesmo, Mourinho e Scolari são os novos heróis emblemáticos da nacionalidade, os condutores de homens que arrostam com os grandes e terríficos perigos e praticam ou organizam as grandes façanhas do peito ilustre lusitano. São eles quem faz aquilo que se gosta de ver feito, desde que não se tenha de fazê-lo pessoalmente porque dá muito trabalho. Pensam pelo país, resolvem pelo país, actuam pelo país, ganham pelo país. Daí as explosões de regozijo, as multidões em delírio, as vivências mais profundas, insubordinadas e estridentes, as caras lambuzadas de tinta verde e vermelha dos jovens portugueses. Afinal foi só para o Carnaval que a escola os preparou. Mas não para o dia seguinte.
Vasco Graça Moura”

"Por culpa de intelectualóides parvalhões como este gajo é que o país não avança. Senão vejamos:
O fim do serviço militar obrigatório colocou Portugal na linha da frente dos países que consideram que o homem não deve nascer soldado. Se alguma coisa se aprendia no felizmente extinto S. M. O. era a roubar, a obedecer cegamente a ordens estúpidas, a abusar da autoridade e, sobretudo, a meter a cunha para livrar da tropa ou para passar à frente dos outros nas promoções. Quem por lá passou há-de concordar comigo, palpita-me que este palerma não sabe do que está a falar.
Se dermos uma voltinha pelos países europeus veremos que em todos eles os adolescentes têm uma vida similar à dos portugueses, com a diferença de terem mais euros no bolso e de já estarem fora da alçada dos pais. Acho que V. G. M. tem saudades do tempo em que só os meninos bem tinham possibilidades de viver assim, os outros começavam a trabalhar aos doze anos; ou então inveja por não ter feito essa vida quando era jovem porque ninguém estava para o aturar, e não a poder fazer agora porque já mija para os chinelos.
E não, doutor por extenso, já não existe “instrução primária”: desde a primeira reforma no ensino depois do 25 de Abril que o Professor deixou de ministrar instrução e passou a ser educador, para grande tristeza sua, suponho. É que acabando a primária o vulgar cidadão era logo promovido a operário, enquanto que betinhos como o doutor seguiam ao colo por esses liceus e por essas faculdades fora.
Não entendo muito de futebol, mas estes ataques a Mourinho e a Scolari soam--me a dor de cotovelo de um intelectual frustrado que passa a vida a sonhar com “rabinhos” de adolescentes.
Muito mais tinha para dizer, mas não me quero tornar chato (a coisa pega-se). Só quero salientar que, para não variar, a culpa acaba sempre por ser dos Professores, o que só revela que V. G. M. afina pelo diapasão socrático (político, não filosófico), tanto quanto me parece numa tentativa de namorar o poder e voltar a derreter o seu sebo por esses jet sets televisionáveis.
Para responder ao fecho da crónica, é da competência da Igreja Católica e não da Escola preparar os jovens para a Quarta-feira de Cinzas, se é que é a esse dia que V. G. M. se está a referir (deve ser, as suas vistas curtas continuam a não ter cura).
Ermesinde, 14 de Março de 2007
Jorge Seabra"