terça-feira, janeiro 17, 2006

INÊS LOURENÇO

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Universidade do Porto, cidade onde nasceu, Inês Lourenço (n.1942) tem sido uma das mais activas divulgadoras dos caminhos da poesia portuguesa contemporânea.
A sua obra poética - desde o início ligada à memória, à infância e ao corpo feminino, - tem vindo a desenvolver-se de um laborioso percurso vocabular para uma poética urbana da contemporaneidade, não poucas vezes ligada a outras cidades e a outras artes designadamente a música clássica, o cinema e a pintura; uma poesia de imagens frequentes vezes sob a forma de pequenos apontamentos apresentados com o poder de uma revelação.
Foi directora dos Cadernos de Poesia – Hífen, publicação de carácter inter-geracional onde colaboraram, entre 1987 e 1999, um significativo número de poetas portugueses contemporâneos bem como poetas de outras línguas. Publicou, em 2005, o livro de poemas Logros Consentidos, estranhamente ausente da lista dos melhores livros de poesia do ano passado.


OBRA POÉTICA
Um Quarto com Cidades ao Fundo (poesia reunida 1980-2000), Quasi Edições, V. N. de Famalicão, 2000
A Enganosa Respiração da Manhã, Edições Asa, Porto, 2002
Logros Consentidos, &etc, Lisboa, 2005
Disfunção Lírica, &etc, Lisboa, 2007



CARTA DE AGOSTO
(1994)

Um ermo de turismo alarve este
calor paleolítico, uma poeira meridional
ateia os objectos ressequidos, um misto
de esquinas e esplanadas de cerveja, homens
de camisa às riscas escarrando na noite e mulheres
de pernas depiladas e axilas com Impulse. Enjoa
este cortejo carnívoro de utentes
de O Mesmo. Nos balcões
toda a posteridade de Sancho Pança estende as mãos
e há nas ruas muitos vendedores de brincos e colares,
honestos emigrantes, decentes empreiteiros, padres, cartomantes,
velhas prostitutas e mais
milhentas entidades cheias de humanas intenções
e ainda mais senso comum. Gostava
de te ouvir por alguns momentos. Envio-te
mensagens telepáticas que repito sete vezes seguidas.
Há palavras gastas que não escrevo nem digo há tanto tempo,
como: Amo-te muito. Meu amor, que saudades. Vem depressa.
E outras ainda mais gastas que digo todos os dias,
como: Foda-se esta merda. (Somos do norte e não somos
castos nem cautos na linguagem). Abundam as reprises
pelos cinemas escassos. Os hits de verão atroam
discotecas. Há jardins ralos. Passeios gordurosos. Bufões
de motocicleta. Os cimos das torres das igrejas
à espera das bátegas de chuva dum íntimo outono
são ainda as únicas glórias do verão.



"Carta de Agosto”, de Inês Lourenço, é uma torrente descritiva. Trata-se de um poema proposto ao leitor como um duro abanão, um forte estremecimento sob a forma de envio dirigido a alguém suficientemente próximo da autora para com ela poder partilhar a recusa de uma certa ideia de cidade em pleno período de verão. É um daqueles textos em que a escolha do léxico não trai a sua intenção. O “turismo” de Agosto é “alarve”, isto é, pacóvio e grosseiro; os “objectos” são “ressequidos”, por isso, secos e mirrados; o “cortejo” de personagens é “carnívoro”, quer dizer, bárbaro e feroz; até mesmo os “jardins” e os “passeios”, noutros contextos tidos como belos e amplos são – nesta cidade, – lidos como “ralos” e “gordurosos”. A autora parece assim optar pelo adjectivo aguçado, de forte conotação negativa, com o que pretende reforçar o carácter fero do descrito, levando o leitor a acompanhá-la no repúdio veemente da cidade descrita.

Se por vezes as palavras são escolhidas por sugerirem um plural de quantidade – em detrimento da qualidade, – reforçando-se assim a ideia de asco pelo “senso comum” (“misto”; “utentes”; “abundam”; “milhentas entidades”, aqui recorrendo à soma da hipérbole com a ironia), outras há em que se faz uso de marcas comerciais ou estrangeirismos para acusar o lado mais loquaz da aculturação (“axilas com Impulse”; “reprises pelos cinemas”; “hits de verão”), bem como da palavra burlesca (“motocicleta”, por vez de “moto”), sendo outras vezes a autora mais explícita e enfática ao utilizar sem pejo o vocábulo duro (“escarrando na noite”; “Enjoa/ este cortejo”; ou o grito, “Foda-se esta merda”). Até a simples enumeração, por vezes com reforço irónico desse autêntico rol de personagens – os mesmos do costume, dir-se-ía, – acentua o efeito sarcástico pretendido: “há nas ruas muitos vendedores de brincos e colares,/ honestos emigrantes, decentes empreiteiros, padres, cartomantes,/ velhas prostitutas”. Isso também acontece, com particular contemporaneidade quando recorre a outros estereótipos para expressar atitudes de um certo gosto médio (“homens/ de camisa às riscas”), de intimidades escusadas (“mulheres/ de pernas depiladas”), representativos de uma certa formação (“Bufões/ de motocicleta”), ou de um exibicionismo boçal (“Sancho Pança estende as mãos”), com as quais, porém, a autora esboça implicitamente uma ténue cumplicidade feita “de humanas intenções” (“Somos do norte e não somos castos nem cautos na linguagem”).

Ao longo do poema, Inês Lourenço tem o cuidado consciente de propor ao leitor uma ideia de repetição inevitável, com o que pretende significar aprisionamento. Isso é particularmente bem conseguido através do uso de um léxico com todo o peso de um passado implícito (“paleolítico“), do uso da aliteração (“esquinas e esplanadas de cerveja,/ homens (...) escarrando na noite”), ou até mesmo da elevação da “mesmísse”, essa impressiva rotina, ao estatuto de instituição (assim grafada com maiúscula, “O Mesmo”). Na nesga de tal atrocidade, o amor e a amizade surgem como esboço de esperança a cada dia da semana (“sete vezes seguidas”, apontando-se aqui, também, para outra continuidade), hipótese gorada pela distância física e pelo uso desmesurado de palavras entretanto “gastas”. A poeta consegue assim criar uma impressão cognitiva no leitor a expensas do uso e abuso de substantivos e adjectivos, bem como de expressões de tensão e conotação negativas que transmitem indícios de desfavor, repulsa e por vezes asco acerca do cenário descrito. Existe, a espaços, um tal nível de identificação entre cenário e poema que desgostar-se de algum verso é, já, desgostar-se da cidade em vista.

Pelo contrário, os três últimos versos contrastam em efeito no seu apelo ao não-terreno (“cimos das torres das igrejas”; “chuva”; “glórias”), onde fazendo uso de sígnos de beleza e apaziguamento, bem como de imagens poéticas fulminantes (“bátegas de chuva dum íntimo outono”, que lavem de vez estes verões nada íntimos), conseguem asseverar ao leitor onde se acha o boçal e o gosto médio e de que lado se encontra a individualidade e a riqueza da diferença.

5 comentários:

Rui Lage disse...

Façam um favor a vocês mesmos e comprem o último livro da Inês, "Logros Consentidos" (&etc), quanto a mim o melhor que a autora já escreveu, e um dos quatro melhores de poesia do ano que findou.

nnannarella disse...

Precisamente, dos "Logros Consentidos", há um poema da Inês que me comoveu. Coisa que até parece paradoxal, sendo esta poeta tão anti-melo.
Chama-se "Que faísca fugiu do teu olhar" (verso de um poema de Ruy Belo).
Foi uma emoção estranha e deleitosa ao mesmo tempo, num tempo em que a poesia parece saída de fábricas chinesas, feita para consolar o consumo da metáfora ilegível e não da alma (inadjectivável).

couvinha portuguesa disse...

Eu tb acho que é um poema que merece permanecer aqui.



QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR *



Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.


Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre doméstico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservgar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sítio de partidas
que ele conhecia.

Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
de todas as chegadas. A probidade do do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.


Só os nosso animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de nenhum hades, nenhum céu.



* verso de um poema de Ruy Belo



...............

Samartaime disse...

e...............obrigada....!


pela "mostra".


boa tarde.

samartaime disse...

Coisa estranha esta de me encontrar comentando num post que nunca comentei!

Por que colocaria mostra entre meias aspas? Por que escreveria obrigada rodeada de tantas reticências?

Por que terei escrito «boa tarde» se me é tradicional «bom dia» a todas as horas do dia ou «Abraço!» ?

Não pela Inês - de quem sou amiga pessoal e conheço a obra, além de concordar com o J.Barreto Guimarães.

Haverá outra «samartaime»? Estou estupefacta!