segunda-feira, janeiro 16, 2006

JORGE SOUSA BRAGA

Licenciado em Medicina, nasceu em Vila Verde, Braga em 1957. Exerce a especialidade de Obstetrícia num hospital do Porto. A sua obra poética tem vindo a revelar-se de uma criatividade notável, sendo notório desde o primeiro livro De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu, de 1981, uma abordagem da temática dos Descobrimentos e da portugalidade sempre tomada pelo lado irónico e surrealista, com ressonâncias do movimento Beat, de São Francisco. A sensualidade - e a sexualidade, - em poemas íntimos e por vezes extremos bem como a sua paixão pela poesia oriental têm-no levado a escrever haikus em língua portuguesa com assinalável perfeição. Incansável leitor de poesia verteu para português poemas de Jorge Luis Borges, Matsuo Bashô, Li Po, Guillaume Appolinaire, entre muitos outros. Acaba de publicar o livro de poemas Porto de Abrigo, na Assírio & Alvim.


OBRA POÉTICA

O Poeta Nu (1991), 2ª edição, Fenda Edições, Lisboa, 1999
Fogo Sobre Fogo, Fenda Edições, Lisboa, 1998
Herbário, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999
A Ferida Aberta, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
Pó de Estrelas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
Porto de Abrigo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005


CARTA DE AMOR (1981)

A Eugénio de Andrade

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e ...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


Pode um poema significar exactamente o contrário do que diz? É possível, a uma “Carta de Amor”, se iniciar com versos como: “Um dia destes/ vou-te matar”?

Fazendo uso da expectativa gerada pela dedicatória e pelo título, Jorge Sousa Braga surpreende o leitor incauto com o efeito de intimidação que percorre o poema que dedica a Eugénio de Andrade, numa das mais afectuosas homenagens poéticas escritas em vida por um poeta a outro poeta.

O tom geral do texto é o de uma ameaça assumida, de uma sentença a aplicar indiscriminadamente numa “manhã qualquer”, assumidamente com um “tiro de pistola”. Mas se o ditame é a morte, o crime parece ser a poesia – ela mesmo, – esse ofício maldito que perde vidas para o ócio, essa “não-profissão” (o ser-se, simplesmente, poeta), mister que consiste em ficar “(como de/ costume)/ a medir o tesão das flores” num jardim perto de casa.

Neste belíssimo poema de Jorge Sousa Braga, o narrador veste-se do que poderia ser uma desconfiança generalizada acerca da utilidade da poesia, da escassa importância dos poetas (mesmo os “celestiais”), qualquer deles impotente para acudir a Eugénio. Mas porque está ciente da fragilidade da acusação, o narrador propõe-se agir rapidamente, de forma implacável, não dando sequer à vítima (Eugénio de Andrade, a poesia), possibilidade de se defender. É a, tantas vezes anunciada, morte próxima da poesia.

A verdade é que, porém, mais do que (o que se poderia tomar como) uma indiferença “populi” ante a poesia (no confronto com a prosa?), àquela intimação parece sobrar uma oculta invídia pelos dias de Eugénio, resistentemente preenchidos pelo trabalho poético, a tempo inteiro se deleitando com a sapiência de “Safo Cavafy ou S. João da Cruz”, movendo-se numa apetecida geografia biográfica, por entre “mares de Setembro e dunas de Fão”. Subjacente a esse ciúme (ou quase declarada cobiça), lê-se, pela mão de Braga, um incontornável respeito e admiração pelo mestre, seu bom amigo aliás, quer pelo valor da sua obra de que é confesso leitor, quer pelo curso de uma vida inteiramente dedicada à poesia.

Por isso mesmo quando Braga tenta habilmente parecer duro e violento na linguagem (“tesão das flores”, “vou-te matar”), é do fundo de uma enorme doçura que a sua voz estala, seleccionando a mais bela das formas (“uma certeira bala de pólen”), como arma do crime e escolhendo para alvo a caixa dos sentimentos, a casa mais frágil de todas, “mesmo sobre o coração”.

A grande poesia é, afinal, a mais pequena. Matar a figura do pai, matando a obra do mestre? Ameaçar a poesia para assim a sublimar? Quando o autor se propõe comprometer a ”eternidade” do poeta, mais não faz do que oferecer-lhe, de vez, a imortalidade. E o que encerra uma dedicatória senão a voz da vida eterna? Haverá maior prova de amor do que essa?


11 comentários:

Alexandra Thomaz disse...

Falta aínda um livro nesta sua lista:"Pó de Estrelas", Assírio & Alvim, editado em Outubro ou Novembro de 2004.

João Luís Barreto Guimarães disse...

Falta sim. Vou acrescentar. Obrigado.

Rui Lage disse...

O Clube de Fãs de Jorge Sousa Braga (CBJSB)protesta por não ter sido ouvido antes da publicação deste post! Long Live JSB!

Sistermoonshine disse...

Fabuloso o Jorge de Sousa Braga e fabuloso também o seu novo livro "Porto de Abrigo" devorei-o! Está cheio de Porto, de ironia e doçura.

Abel Ferreira disse...

Boa noite.
Ando há procura de um poema que, julgo, é de Jorge Sousa Braga.
Começa assim: Estou aqui à tua espera, num café da Praça dos Leões..."
Podem ajudar-me a encontrar o livro que o contém?
Muito obrigado.

Desmancha-Prazeres disse...

Sister, esse poema é uma fraude. Não há nenhum café na Praça dos Leões. Ah, grande mentiroso nos saiu este Sousa Braga! Mas ele a mim não me engana que eu passo nessas praça todos os dias!

ângela disse...

De como nem sempre as cartas de amor são ridículas!...
Lindísimo de trazer lágrimas aos olhos, este poema do Jorge de Sousa Braga

Anónimo disse...

Fui presença assídua, melhor fui feirar com o intuito de (re)ver o meu ex-professor de Literatura Brasileira, Carlos Mendes de Sousa e eis que o (ou)vi com "Portugal", como posso ter acesso a este poemário-sinedóquico?
Saudações dos limitrofes-sem-judas.
A anónima com nome...

Tinta_Azul disse...

Gosto tanto de Jorge de Sousa Braga que o meu blog se chama "ALuaFlutua" exactamente porque "um nenúfar flutua/na mesma água/que a Lua" do livro Fogo-sobre-fogo de JS Braga.

Jorge M disse...

O poema que começa Estou aqui à tua espera num café da Praça dos Leões é do 1º livro-De Manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu.

David Rodrigues disse...

Por favor alguém me manda o e-mail do Jorge Sousa Braga para o meu mail: drodrigues@fmh.utl.pt
Obrigado!!

David Rodrigues