terça-feira, setembro 26, 2006

ADAM ZAGAJEWSKI

ADAM ZAGAJEWSKI, poeta, ficcionista e ensaista polaco vive em França desde 1982. Nasceu em Lvóv (hoje, Ucrânia) em 1945 e passou a sua juventude na Silesia e em Cracóvia. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1972. É considerado um representante da "Geração de 68". Foi activista dissidente durante os anos 70: alguns dos seus poemas abordam questões politicas. Em 1982 imigrou para Paris. Poesia Ilimitada tem a honra de apresentar 12 poemas de ADAM ZAGAJEWSKI, em mais uma excepcional colaboração de Jorge Sousa Braga.



ODE À SUAVIDADE

As manhãs são cegas como gatinhos,
as unhas crescem confiadamente, não sabem
ainda o que arranhar. São suaves
os sonhos e a ternura abatem-se sobre nós
como nevoeiro, como o campanário da catedral de Cracóvia
antes que o gelo a abrace.


§


AUTORETRATO


Entre o computador, um lápis e uma máquina de escrever
passo metade do meu dia. Daqui a pouco farei meio século.
Vivo em cidades estranhas e por vezes falo
com estranhos acerca de assuntos estranhos para mim.
Ouço bastante música: Bach, Mahler, Chopin, Shostakovich.
Vejo três elementos na música: fraqueza, poder e dor.
O quarto não tem nome.
Leio poetas, vivos e mortos, que me ensinam
tenacidade, fé e orgulho. Tento compreender
os grandes filósofos – mas habitualmente apanho
apenas fragmentos dos seus preciosos pensamentos.
Gosto de dar longos passeios pelas ruas de Paris
e olhar os meus próximos, agitados pela inveja,
ira e desejo; observar a moeda de prata
que passa de mão em mão e lentamente perde
a sua forma redonda (o perfil do imperador está apagado).
A meu lado crescem árvores que não exprimem nada,
a não ser a sua verde e indiferente perfeição.
Aves negras caminham pelos campos,
sempre à espera de algo, pacientes como viúvas espanholas.
Já não sou jovem, mas há gente mais velha do que eu.
Gosto de dormir profundamente, como se deixasse de existir,
de corridas de bicicleta por caminhos rurais quando álamos e casas
se dissolvem como cúmulos em dias de sol.
Às vezes nos museus os quadros falam para mim
e a ironia esfuma-se de repente.
Encanta-me contemplar o rosto da minha mulher.
Todos os domingos telefono ao meu pai.
De duas em duas semanas reúno-me com os amigos,
para provar a minha fidelidade.
O meu país libertou-se do mal. Desejo
que outra libertação se siga.
Posso eu fazer alguma coisa por isso? Não sei.
Não sou um filho do mar,
como António Machado escreveu sobre si mesmo,
mas um filho do ar, da menta e do violoncelo,
e nem todos os caminhos do alto mundo
Se cruzam com os caminhos da vida que – até ver–
me pertencem.


§


TRAÇAS

As traças espiavam-nos através da janela.
Sentados à mesa, os seus olhos
cintilantes cravavam-se em nós,
mais duros que as suas frágeis asas.

Estareis sempre lá fora,
por detrás do vidro. E nós aqui dentro,
cada vez mais dentro. As traças espiavam-nos
através da janela, em Agosto.


§


SEM FORMA

Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
Se houvesse só isto,
as máscaras de morte dos poetas e os esqueletos
dos gigantes nas altas montanhas
e livros sobre o orgasmo dos animais
e negros bem vestidos que não
me vêm, e Keats gritando
e aqueles que estão ausentes e vestígios
tão leves como o arsénico
no cabelo de Napoleão, e máscaras imóveis
em rostos petrificados; os museus fechados
dos sonhos e a força que não quer
dormir e os símbolos maçónicos
Mozart escondido no seu Requiem,
enganando Deus desse modo: tanto por dizer,
e mulheres, que têm que viver neste momento
sem o terem pedido,
e países, livres uma vez,
descascados agora como maçãs,
e o tempo, que não cessa de mudar, e eu, eu próprio, maduro,
sem forma.


§


MISTICISMO PARA PRINCIPIANTES

O dia era calmo, a luz amigável.
No terraço do café aquele turista alemão
tinha no colo um pequeno livro.
Consegui ver o título:
Misticismo para principiantes.
Nesse momento compreendi que
as andorinhas que patrulhavam as ruas
de Montepulciano com os seus silvos estridentes,
e os diálogos surdos dos tímidos viajantes
do Leste, a chamada Europa Central,
e as garças reais de pé—ontem? antes de ontem?—
como freiras em campos de arroz,
e o crepúsculo, lento e sistemático,
apagando os contornos das casas medievais,
e as oliveiras nas pequenas colinas,
abandonadas ao vento e ao calor
e a cabeça da Princesa desconhecida,
que tinha visto e admirado no Louvre
e vitrais como asas de borboleta
salpicadas de pólen,
e o pequeno rouxinol que ensaiava
o seu canto, na berma da auto-estrada,
e qualquer viagem, todas as viagens.
são apenas misticismo para principiantes,
o curso elementar, o prelúdio
para um exame que
foi adiado.


§


A RAPARIGA DE VERMEER

A rapariga de Vermeer, agora famosa,
olha-me. A pérola olha-me.
Os lábios vermelhos, húmidos
e brilhantes da rapariga de Vermeer.

Rapariga de Vermeer, pérola,
turbante azul: és toda luz
e eu sou feito de sombra.
A luz olha a sombra com altivez,
condescendência, talvez piedade.


§


O ADEUS A ZBIGNIEW HERBERT

No início, só as cerejas e o cómico
voo dos morcegos, a maçã da lua, uma coruja sonolenta,
o sabor da água fria das primeiras excursões da escola.
As torres da cidade elevam-se como declarações de amor.
Depois, muito depois, o pó dourado da Provença,
as figueiras nas vinhas, a lição da branca Grécia,
obscuros museus, Piero e a sua Madona grávida
-e entretanto, duas ocupações, dois exércitos humanos,
os veículos amorfos da morte patrulham as tuas ruas.

Os longos dias traduzindo O Canto do melro cativo
de George Trakl, a alegria da primeira Paris,
após anos de fealdade e miséria soviética;
o teu sorriso matreiro, as tuas piadas infantis, a seriedade
e o humor que trouxeste à pequena catedral de Meuax
(Bossuet olhava-nos friamente),
as tardes de Berlim: Herr Doctor, Herr Privatdozent,
o arroz que espargias como confetti nas bodas de amigos,
mas também o silêncio e a amargura de meses nefastos.

Eu gostava de imaginar os teus passeios
na Umbria , Ligúria: a tua caça elegante,
a tua busca daqueles lugares onde os glaciares
se derretem, revelando as suas formas.
Eu gostava de imaginar as tuas andanças
pelos montes da poesia, na busca daquele lugar
onde o silêncio de súbito explode em fala,
mas encontrava-te sempre nos pequenos apartamentos
daqueles Molochs cinzentos chamados grandes cidades.

Tu por vezes lembras-me as tragédias da vida.
A vida raras vezes te deixou em paz.
Penso na tua geração, esmagada pela fatalidade,
a tua doença em Madrid, em Amsterdam
(Hotel Ambassade), mesmo na sagrada Jerusalém,
o hospital Saint-Louis, onde ficaste internado uma semana,
o calor derretendo os muros das casas e as fronteiras dos países,
e a tua semana final em Varsóvia.
Admiro o porte real dos teus poemas.


§


VIOLONCELO

Aqueles que não gostam dele dizem
que é apenas um violino mutante,
que foi chutado para fora do coro.
Nada disso.
O violoncelo tem muitos segredos,
mas nunca soluça,
apenas canta na sua voz grave.
Nem tudo nele se transforma em
canção, às vezes apanhas
um murmúrio ou um sussurro:
estou só.
não consigo dormir.


§


A ALMA

Tu sabes que não nos é permitido usar o teu nome.
Nós sabemos que tu és inexprimível,
anémica, frágil e suspeita
por misteriosas ofensas quando eras criança.
Nós sabemos que não te é permitido viver agora
na música ou nas árvores no crepúsculo.
Nós sabemos—ou pelo menos disseram-nos—
que tu não existes seja em que lado for.
E no entanto continuamos escutando a tua voz fatigada
--num eco, numa queixa, nas cartas que recebemos
de Antígona no deserto Grego.


§


UM PARDAL MORTO

De todas as coisas
o pardal morto no seu sobretudo cinzento de penas
é a menos invulgar.
Uma pedra na berma da estrada parece-se
com um príncipe quando comparada
com um pardal morto.
As moscas rodeiam-no
atentas como estudantes de anatomia.


§


TENTA LOUVAR O MUNDO ESTROPIADO

Tenta louvar o mundo estropiado.
Recorda os longos dias de Junho,
e os morangos selvagens, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que metodicamente invadem
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens que louvar o mundo estropiado.
Olhaste os iates e os barcos;
um deles preparava-se para uma longa viagem,
enquanto um esquecimento salgado aguardava os outros.
Viste os refugiados partindo para nenhures,
escutaste os carrascos a cantar alegremente.
Devias louvar o mundo estropiado.
Recorda os momentos em que estávamos juntos,
num quarto branco e as cortinas esvoaçavam.
Regressa em pensamento ao concerto onde a música explodia..
Apanhaste bolotas no parque no Outono
e o redemoinho das folhas cobria as cicatrizes da terra.
Louva o mundo estropiado,
e a pena cinzenta que um tordo perdeu,
e a luz afável que se afasta e se desvanece
e regressa de novo.


§


BÁRBAROS

Nós somos os bárbaros.
Vós tremeis perante nós nos vossos palácios.
Vós esperais por nós com os corações batendo ruidosamente.
Vós comentais nas nossas línguas:
Eles aparentemente consistem apenas em consoantes.
sussurros, murmúrios e folhas secas.
Nós somos aqueles que viviam nas florestas sombrias.
Nós somos aquilo que Ovídio receava em Tomi,
Nós somos os adoradores de deuses cujos nomes
vós não sois capazes de pronunciar.
Mas nós também conhecemos a solidão
e o medo, e começamos a ansiar pela poesia.

3 comentários:

ângela disse...

Mais uma vez, obigada pela descoberta de um poeta desconhecido, através da tradução de Jorge de Sousa Braga

Scorpshine disse...

Mais do que um templo de poesia, este Blog é um poço de cultura.

Os meus sinceros parabéns por este magnifico Blog.

salomé disse...

encantada :)