quarta-feira, janeiro 31, 2007

ATTILA JÓZSEF

ATTILA JÓZSEF (1905-1937) viveu apenas 32 anos, tempo suficiente porém para se ter tornado um dos mais importantes poetas húngaros do século XX. Nascido em Budapeste, filho de mãe lavadeira e pai operário da indústria de sabões, tem um curriculum impressionante de miséria, fome e dificuldades de vária ordem. A sua poesia é muitas vezes reflexo disso mesmo, com influências desde o expressionismo alemão ao surrealismo francês, num tom - a melhor parte das vezes - amargo. Guillevic escreveu a seu respeito: “Ele tem o dom de exaltar, de elevar qualquer coisa ao nível em que a derrota pessoal se torna vitória sobre a infelicidade.Egito Gonçalves – quem mais? – traduziu e editou na sua Limiar, a antologia “Não Sou Eu Que Grito”, onde fui roubar este poema. Coisa sem moldura penal, roubar poesia...



AÍ ESTÁ O SALDO FINAL



Confiei em mim desde o primeiro momento.
Custa muito pouco ser dono do vento.

E à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.

Nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
Com medo, às vezes, mantive-me no posto.

Paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.

Se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.

Fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.

Vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.

Não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.

Vivi (já está aí o saldo final):
Muitos outros morreram deste mal.


terça-feira, janeiro 30, 2007

MORRISSEY

(este post é para o Pedro Mexia)
Steven Patrick MORRISSEY nasceu a 22 de Maio de 1959, em Manchester, Reino Unido. Foi o lendário vocalista dos The Smiths. "First Of The Gang To Die", está incluída no seu álbum a solo "You Are The Quarry", de 2004.



FIRST OF THE GANG TO DIE

You have never been in love
until you've seen the stars
reflect in the reservoirs
and you have never been in love
until you've seen the dawn rise
behind the Home For The Blind
we are the Pretty Petty Thieves
and you're standing on our streets
where Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die
oh my
Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die
oh my
You have never been in love
until you've seen sunlight thrown
over smashed human bone
we are the Pretty Petty Thieves
and you're standing on our streets
Where Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die
such a silly boy
Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and a bullet in his gullet
the first Lost Lad under the sod
And he stole from the rich and the poor
and the not-very-rich
and the very poor
and he stole all hearts away


§


O PRIMEIRO DO GANG A MORRER

Nunca estiveste apaixonado
se nunca viste o reflexo
das estrelas no reservatório

Nunca estiveste apaixonado
se nunca viste o dia crescer
por detrás do Lar para Cegos

Nós somos os Belos Ladrões Insignificantes
e tu estás na nossa rua
onde Hector foi primeiro do gang
com uma arma na mão
o primeiro a cumprir tempo
o primeiro do gang a morrer
oh sim
Hector foi o primeiro do gang
com uma arma na mão
o primeiro a cumprir tempo
o primeiro do gang a esticar
oh sim

Tu nunca estiveste apaixonado
se nunca viste raios de sol abandonados
sobre ossos humanos esmagados

Nós somos os Belos Ladrões Insignificantes
e tu estás na nossa rua
onde Hector foi o primeiro do gang
com uma arma na mão
o primeiro a cumprir tempo
o primeiro do gang a finar
que tolo foi

Hector foi o primeiro do gang
com uma arma na mão
e uma bala na goela
o primeiro rapaz perdido sob a erva

E ele roubava aos ricos e aos pobres
e aos não-muito-ricos
e aos muito pobres
e roubou-nos o coração de vez


quinta-feira, janeiro 25, 2007

Dialogos poéticos: BOCAGE & ALEXANDRE O'NEILL

BOCAGE (1765-1805)


[MAGRO, DE OLHOS AZUIS, CARÃO MORENO,]

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deiades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.




ALEXANDRE O’NEILL (1924-1986)


AUTO-RETRATO


O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada…)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…


segunda-feira, janeiro 22, 2007

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (3)

(actualizado)
Os poemas que se seguem têm uma história curiosa. Em Março de 1991 eu tinha 22 anos e dirigia a página de poesia do jornal da faculdade (I.C.B.A.S./Universidade do Porto), quando convidei o poeta José Tolentino Mendonça, então a estudar em Roma, para publicar na página de poesia “os olhos: pousados na mão”. Nessa altura, José Tolentino Mendonça havia apenas dado à estampa, no Funchal, “Os Dias Contados” (1990).

Encontrei hoje por acaso os três poemas que então me enviou, e que não chegaram a ser editados porque o jornal deixou de ser publidado por falta de verba. São poemas que José Tolentino Mendonça não incluíu em “A Noite Abre Meus Olhos” (Assírio & Alvim, Lisboa, 2006), muito provavelmente porque lhes perdeu o rastro. É da mais elementar justiça que complete, 15 anos passados, aquilo a que me propus e me comprometi. Três poemas inéditos escritos antes de 1991. Que sejam, também para ele, uma surpresa.



CONDITIO MORIENDI
a Arsenij Aleksandrovic Tarkovskij


Dos vultos

No baraço silencioso dos perigos
não se reconhece a morte
é inútil recuar perante a sombra
a morte é de nós
aquele que não tem sombra

Não temas os vultos
não ensombres os dedos
na decifração dos agouros
os mortos só enterram os seus mortos
devias saber

Melhor é correr de encontro ao cão
que mudo nos espera
ao fundo das ruas

e saudá-lo
como se faz a um amigo
e abraçá-lo
como se fossemos loucos


§


De Rubliev

Quando Rubliev morreu, o seu mestre, Danila Tchorny, não jejuou nem fez qualquer lamento. E a sua porta não conheceu o perfume alto dos ramos da árvore do incenso.
Então o ânimo dos seus discípulos vacilou. Que acontecia? Tchorny não amava Rubliev? Ele que fora o vigia fiel dos enigmas arriscados! Ele que sabia, de memória, o escondido desenho dos provérbios!
Por essa altura, Danila Tchorny, o mestre, foi designado para pintar o ícone do Criador, na cúpula do secular mosteiro de Troistsko.
Pintou Deus. Tão grande e brilhante. Os discípulos compreenderam.
Deus era a morada de Rubliev.


§


ainda Dos vultos

O coração
sábio apascentador
dos vultos
que pode temer

a nocturna visitação dos astros
o alvoroçado rumor
as aves
o tumulto que levanta
os mastros



domingo, janeiro 21, 2007

JOSÉ MARÍA FONOLLOSA

JOSÉ MARÍA FONOLLOSA (1922-1991) nasceu e morreu em Barcelona. Viveu em Cuba e nos Estados Unidos. O seu livro mais conhecido “Ciudad del Hombre: New York”, publicado em Portugal - com tradução de Júlio Henriques - pelas Edições Antígona em 1993, é uma colecção de poemas em parte autobiográficos, em parte ficcionados, onde através de breves monólogos se abordam os temas do sexo - nomeadamente da prostituição - , do crime e da vida urbana. O que mais impressiona nestes poemas e os torna difíceis de esquecer é o tom áspero e desprendido, seco e dilacerante, por vezes mesmo, cruel e sarcástico com que o autor veste as diversas personae que falam. Tratam-se, no fundo, de arquétipos transgressivos. O título dos poemas recorre sempre à toponímia de Nova Iorque. Já que me falta coragem para aqui postar “East 50th Street”, aqui seguem, com a devida vénia, três outros poemas:



BEAVER STREET

Para brilhar, rua fora, bonita.
E para conviver, a razoável
beleza que Lucrécio aconselhava.
Para a cama, porém, de preferência feia.

A formosa e a quase isso estendem-se-te
na cama esperando confiantes
a rápida homenagem que merecem.
São porém algo passivas. Limitadas.

A moça se calhar feia, não obstante,
agradece ter sido ela eleita
entre outras mais formosas. Com maior
entusiasmo participa no amor.

A obscuridade ambiente situa-a
em plano de igualdade perante a estética.
E um cego guia um cego, mas os dois
- os corpos - juntos encontram seus caminhos.

E deixa fazer e de bom grado acede
a quanto lhe exija tal momento.
Para gozar com gozo numa cama
é escolher de preferência moça feia.


***


WEST 14TH STREET

Não me parece bem que falem mal
de prostitutas jovens essas mulheres
que os maridos retiraram
da sua contínua mudança de casal.
São-lhes iguais.

Nada de mal fizeram, ou fazem, a ninguém.
Bem pelo contrário, favorecem.
Quem do prazer breve faz ofício
dá pedaços de amor a muita gente.
E o prémio do amor é o prazer.

Sem amor, até, que bom ganhar o prémio.
Não há que escandalizar-se. Uma fortuna
torna feliz mais gente ao partilhar-se
do que se for guardada por um só.
Pratica pois o bem quem o prazer reparte.

E sabem muito mais estas do que aquelas
para arrancar a um corpo doces gozos.
Gozos que jaziam obscuros
no trato com as menos eficazes.
Não é justo que delas falem com desprezo.

São mulheres como as outras
que do amor-lar fazem ofício.
Se diferença há, é a do preço
por estas exigido a quem as queira.
O do amor-prazer é menos caro.


***


CHANNEL GARDENS

Foram quatro, sim, quatro e uma faca.
Já a lua morrera um dia antes.

Seguraram-lhe os braços pelas costas
e a roupa deparou com o sabor do campo.
Eram doces suas pernas. Como o vinho.

Oito olhos muitas vezes se alternaram.
Parca foi sua defesa. Eram quatro, os homens.
Pude soltá-la passado um bom bocado.
Comigo pôs-me o braço ao pescoço.

Fomos quatro, sim, quatro e uma faca
que naquela noite no cinto me surgiu.
Morreu sem daquele meu abraço se soltar.

Não sei onde isto foi. Não me recordo.
Eu costumava ir a muitos sítios.


domingo, janeiro 14, 2007

RUI PIRES CABRAL (2)

Entender / de súbito que tudo é por acaso”, também disso nos fala o último livro de Rui Pires Cabral, "Capitais da Solidão" (Teatro de Vila Real, 2006). A toada mais abstracta do seu primeiro livro deu lugar, em obras mais recentes, a uma poesia metonímica mais que metafórica, figurativa mais que abstracta, a espaços hiper-realista, onde as viagens, as cidades ou a música podem ser pretexto para uma escrita prosódica muito nítida que fixa os sempre difíceis trilhos do “amor / onde sempre vivi acima das minhas posses”. Rui Pires Cabral (Macedo de Cavaleiros, 1967), não esconde assim um gosto pela contemporaneidade no que de episódico e narrativo possa ter, recorrendo ao mais pequeno acontecimento ou cena urbana para dele extrair palavras. Porque as palavras são, afinal, “o próprio pano de que é feita a solidão”.


A SECÇÃO DOS CONGELADOS

Truncadas, indefinidas, passam
na memória como filmes mudos
pequenas histórias de amor
carnal. Os grandes caudais da noite
sempre desaguam na tarde salobra
e rasa: Janeiro amolece a tinta
das paredes, levamos à rua uma cara
mais fechada, e depois, na secção
dos congelados, não sabemos distinguir
o que sentimos além do frio que represa
as coisas todas: caminhamos sós

num privado bosque, convocamos
sombras que foram perdendo o nome,
sinais que não transportam já
um sentido automático de desejo
ou sofrimento. E contudo, à revelia
das certezas que não quiséramos ter,
acabamos sempre por tornar
às mesmas ruas, à noite insone
e imensa, onde nos dói descobrir,
na companhia dos outros,
o quanto nos reclama a solidão.


LUÍS QUINTAIS (3)

Luís Quintais (n. 1968) regressou, mais crítico, com "Canto Onde" (Edições Cotovia, Lisboa), onde se acentua uma opção oficinal (relativamente recente) por uma poesia algo mais hermética, simbólica e, vou dizê-lo, abstracta. De entre os poetas da sua geração é, talvez, o que responde pela arte poética mais alusiva e referencial. Partindo do real para a sua transfiguração, recorrendo ocasionalmente a códigos pessoais, esta é uma poesia culta, fortemente reflexiva e filosófica, denotando um percurso urbano e o olhar maduro de um “etnógrafo à procura do acidente significativo”. O pendor fortemente alusivo deste seu último título não deixa também de ser um grito – apocalíptico – contra “a improvável realidade” onde a “violência campeia”, um aviso rebarbativo contra “um mundo / onde perdemos todo o norte / ou toda a lisura do norte”, e onde o amor pode ser, afinal, o antídoto: “O gelo queima, mas em nós um secreto fogo queima o gelo”. Numa opção que pretendo provocatória, seleccionei para o Poesia Ilimitada o poema "Field Trial (fragmento)". Quais são afinal os limites da poesia?


FIELD TRIAL
(fragmento)


1.

Em que medida se sente culpado por ser VIH positivo?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


2.

Em que medida se sente culpado por precisar da ajuda de outros?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


3.

Em que medida se preocupa com a interrupção da sua linha familiar?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


4.

Em que medida se preocupa com o modo como o irão lembrar depois da sua morte?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


5.

Em que medida o incomodam sentimentos de predestinação?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


6.

Em que medida teme o futuro?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


7.

Em que medida a sua morte o preocupa?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


8.

Em que medida o preocupam pensamentos de que irá morrer de um modo diverso daquele que, um dia, antecipou?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


9.

Em que medida o tempo e o lugar da sua morte o preocupam?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


10.

Em que medida o preocupa o sofrimento antes da morte?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?


11.

Em que medida se culpa a si mesmo pela sua infecção VIH?
Nada? Um pouco? Moderadamente? Muito? Muitíssimo?



JORGE GOMES MIRANDA (2)


Em "Falésias" (Teatro de Vila Real, 2006), através de sequências narrativas quase cinematográficas, Jorge Gomes Miranda (Porto, 1965) evoca uma vez mais a experiência individual para diagnosticar tempos colectivos (“este tempo fantasma”), não abrindo mão, porém, do “instante de beleza / erguida pelo tempo no vazio”. Sob epígrafe de grandes clássicos da Ópera que encimam o sujeito lírico destes poemas como sábios cicerones que pairassem, é de novo o roteiro do amor (porém “o inverno do amor”) quem convoca o poeta para a escrita. E se o pendor narrativo destes poemas nos enleia por vezes por cenários realistas, arriscando literariamente como poucos (“também somos aquilo a que dizemos não”), um súbito golpe de linguagem recoloca-nos sempre, e ainda, nos domínios da poesia. Por prosaicos que possam parecer, há sempre nestes poemas “um verso / que nos atinge no meio da escuridão”.


GIULIO CESARE, GEORG FRIEDERICH HAENDEL

"Se pietà di me non senti
(Magdalena Kožená).


Uma toalha verde e amarela
sobre o extenso areal da praia.
A leve sombra das nuvens na água.
Um caderno com as folhas
viradas pelo vento.
As primeiras palavras
de uma canção lenta, patética
subindo de um transístor
encostado ao azul da mochila.
Os seios desenhados delicadamente
sob o fato de banho branco.
A tua voz.

Moradas onde o homem,
depois da hipótese do nada,
se recompõe.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (2)

(actualizado)José Tolentino Mendonça (n.1965) reuniu no ano passado a sua poesia completa em "A Noite Abre Meus Olhos" (Assírio & Alvim, Lisboa, 2006). A releitura conjunta da sua obra permite-nos recuperar uma linguagem límpida, onde a precisão do vocábulo se reveste de importância sublime. A intertextualidade dos seus poemas com os textos clássicos, designadamente com os textos sagrados - aos quais não será estranho o formato em missal desta edição, - conquanto mais ocupada em enunciar as coisas de todos os dias reveste-as, porém, de uma tonalidade sublime e bela onde uma pretensa inocência ou fragilidade encobre, ao invés, uma imensa sabedoria. Esta é agora uma poesia que não foge às circunstâncias concretas, fixando na sua ética nada autista, o “esterco do mundo”.

Numa nota pessoal, uma das minhas expectativas em relação à obra de José Tolentino Mendonça - que como alguns saberão, é padre, - foi sempre a de desvendar livro após livro de que forma a sua escrita elíptica e alusiva e atenta aos mistérios do mundo se conseguia libertar de um – supunha eu, mas que sei? – maior espartilho na abordagem profana do Amor e dos afectos, como me pareceu antever em “Calle Príncipe, 25”, ou em “A rapariga de Providence”, ou nesse outro poema de "Longe Não Sabia", Presença, 1997, sobre o onanismo "A Mão, o Muro, o Mundo"). A releitura dos poemas de “Estrada Branca” permite ao leitor atento acompanhar esse movimento, partindo de uma temática do amor próximo para o (não menos sublime) amor ao próximo, isto é, um regresso como em outros poetas da sua geração a uma poesia da dolorosa morte social, como se lê em “Clandestinos” ou neste excelente “Santa Teresa e as Prostitutas”.



SANTA TERESA E AS PROSTITUTAS (2006)


Recebi hoje uma carta do José Bento
que dizia sentir-se um rato diante de Santa Teresa
eu gosto tanto dele, posso dizer o mesmo
mas temo seja o que for
de incalculável

Diante de um rato experimento
não exactamente repulsa para a qual sou demasiado fraco
mas uma tristeza submersa
dissimulada na própria forma
lembro-me no meu quarto há muitos anos
a ratoeira armada debaixo da cama
e o deslizante rumor quase inaudível
cortado por um dique mecânico
um cheiro a folhas mortas apoderava-se da superfície
como se alguma coisa mais longínqua
ficasse presa daquele artifício

Tenho também uma história cómica com ratos
que me custou hora e meia da maior vergonha
reuni em minha casa alguns técnicos de saúde
e voluntários dessas causas
para projectar uma ajuda às prostitutas
e um rato circundou, um por um, os sapatos dos presentes
e tentava subir os degraus da escada numa necessidade
que se diria invencível
as pessoas eram educadas e fizeram todas de conta
mas eu estava para ali
afundado num desespero

Quando por vezes vejo tombar
pelos altos degraus a minha vida
procuro pensar nos dois ou três interesses que me restam
entre eles Santa Teresa e o drama das prostitutas




DANIEL JONAS


DANIEL JONAS (Porto, 1973) publicou três livros de poesia, o mais recente intitulado “Os Fantasmas Inquilinos” (Edições Cotovia, 2005). Traduziu e anotou “Paraíso Perdido”, de John Milton (Edições Cotovia, 2006).


PECADO CAPITAL

A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.


sábado, janeiro 13, 2007

WISŁAWA SZYMBORSKA

Sobre WISŁAWA SZYMBORSKA (Kórnik, Polónia, 1923), prémio Nobel da Literatura de 1996, escreveu Czesław Miłosz (1911-2004), seu conterrâneo, prémio Nobel da Literatura de 1980: "Que relação pode haver entre a poesia de Szymborska, caracterizada precisamente pela sua ligeireza céptica, sorridente, lúdica e a história do século XX, ou de qualquer outro século? (…) A dimensão da sua poesia é pessoal, a de alguém que reflecte sobre a condição humana. (…) Os poemas de Szymborska exploram situações pessoais, mas ao mesmo tempo tão genéricos que permitem à sua autora evitar as confidências. (…) A reticência e a distância irónica consigo mesma são, sem dúvida, reveladoras das tendências mais marcadas da poetisa. (…) Para mim, Szymborska é, antes de mais, uma poetisa da consciência. Isso significa que nos fala, aos seus contemporâneos, como se fosse um de nós, reservando e guardando para si assuntos pessoais e intervindo de certa distância, mas sem deixar de remeter para o que cada um sabe da sua própria vida.” Se acha que já nada em poesia o pode surpreender, corra a ler “Paisagem Com Grão de Areia”, (Relógio d’Água, Lisboa, 1998, tradução de Júlio Sousa Gomes), de onde retirei, com a devida vénia, este poema:



O TERRORISTA… OLHA

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.

O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo... entra.
Um homem de óculos escuros... sai.
Rapazes de jeans... conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.

Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
isso se saberá pelas notícias.

Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo que sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
faltam treze segundos para as treze e vinte,
e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba.... explode


sábado, janeiro 06, 2007

CZESŁAW MIŁOSZ

CZESŁAW MIŁOSZ (1911-2004), poeta, romancista, historiador e ensaísta, nasceu a 30 de Junho de 1911, em Szetejny, na Lituânia, país onde se formou em direito pela Universidade de Vilnius. Foi um dos principais animadores culturais da tertúlia clandestina de Varsóvia, na Polónia, país que adoptou e o adoptou. Depois da ocupação nazi, trabalhou como diplomata em Nova Iorque, Washington e Paris, tendo recebido o Nobel da Literatura em 1980. A editora “Cavalo de Ferro” editou em 2004 a dupla antologia “Alguns gostam de poesia”, (poemas de Czesław Miłosz e Wisława Szymborska), numa tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves, de onde reproduzo, com a devida vénia, este poema.



DESCRIÇÃO HONESTA DE MIM PRÓPRIO BEBENDO
UM WHISKY NO AEROPORTO, DIGAMOS DE MINEÁPOLIS

Os meus ouvidos escutam cada vez menos as conversas, os meus
[olhos enfraquecem, continuando porém insaciados.

Vejo as pernas delas de mini-saia, de calças,
[ou de tecidos vaporosos,

Espreito cada uma, os seus rabos e coxas, pensativo,
[embalado por sonhos porno.

Ó lascivo velho jarreta, estás com os pés para a cova
[e não para os jogos e brincadeiras da juventude.

Mas não é verdade, faço apenas aquilo que sempre fiz,
[compondo as cenas desta terra, movido pela
[imaginação erótica.

Não desejo justamente estas criaturas, desejo tudo,
e elas são como um sinal de convívio extático.

Não tenho culpa de sermos feitos assim, metade de
[contemplação

desinteressada e metade de apetite.

Se depois de morrer for para o Céu, lá, terá de ser como aqui,
apenas hei-de livrar-me dos sentidos entorpecidos
[e dos ossos pesados.

Transformado em puro olhar, continuarei a absorver
[as proporções
do corpo humano, a cor dos lírios, a rua parisiense
[na madrugada de Junho.
Enfim, toda a inconcebível, a inconcebível pluralidade
[das coisas visíveis.


quinta-feira, janeiro 04, 2007

COLECÇÃO BERNARDO

CONSULTA DE MESA, 2006
técnica mista de impressão sobre papel e caneta / 125 x 80 mm
n.º inv. 01-07 / adquirido com fundos do fundo do porta-moedas

***

A Colecção Bernardo, em depósito no Poesia & Lda, constituída por memorabilia quotidiana em homenagem a Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, orgulha-se de apresentar ao público e pela primeira vez, a sua mais recente aquisição. Em “Consulta de Mesa” (peça aquirida por 1,70 Euros), é todo o esplendor matinal do quotidiano urbano que se revisita, num exercício gramático de signos (a “torrada de forma”, 80 cêntimos; a "meia-de-leite”, 90 cêntimos, no caso concreto “magra”), que inesperadamente nos transportam para o subtil território estético da manipulação repetitiva do discurso contemporâneo. A peculiaridade desta obra que terá condicionado a sua guarda à Colecção, reside na dimensão experimental e interventiva da caneta da empregada SÓNIA, co-autora do trabalho, que fornece ao crítico elementos preciosos no que toca ao contexto peculiar da produção do autor: não só ficamos a saber que a mesma terá sido gerada a 11 de Dezembro de 2006, com o intuito de plasmar o dispêndio ocorrido pelas 9h e 03m daquele dia pelo “Dr da manha”, como podemos, graças à intervenção da caneta sobre a peça que o mesmo não terá saldado a dívida de imediato. Remete-nos esta hipótese para a dimensão formal de caloteiro deste doutor, diriamos, algo manhoso, pois terá consumido os signos referidos a 11 de Dezembro e apenas a 4 de Janeiro de 2007, perto de um mês depois, se terá apresentado para saldar a despesa. Disso mesmo faz eco a diligente SÓNIA, ao classificar o doutor em questão como “Dr da manha”, e não de “Dr. da manhã”). A Colecção Bernardo orgulha-se de assim adicionar à sua colecção de carácter eminentemente visionário, mais esta peça única, doravante ao dispor da contemporaneidade.