domingo, janeiro 21, 2007

JOSÉ MARÍA FONOLLOSA

JOSÉ MARÍA FONOLLOSA (1922-1991) nasceu e morreu em Barcelona. Viveu em Cuba e nos Estados Unidos. O seu livro mais conhecido “Ciudad del Hombre: New York”, publicado em Portugal - com tradução de Júlio Henriques - pelas Edições Antígona em 1993, é uma colecção de poemas em parte autobiográficos, em parte ficcionados, onde através de breves monólogos se abordam os temas do sexo - nomeadamente da prostituição - , do crime e da vida urbana. O que mais impressiona nestes poemas e os torna difíceis de esquecer é o tom áspero e desprendido, seco e dilacerante, por vezes mesmo, cruel e sarcástico com que o autor veste as diversas personae que falam. Tratam-se, no fundo, de arquétipos transgressivos. O título dos poemas recorre sempre à toponímia de Nova Iorque. Já que me falta coragem para aqui postar “East 50th Street”, aqui seguem, com a devida vénia, três outros poemas:



BEAVER STREET

Para brilhar, rua fora, bonita.
E para conviver, a razoável
beleza que Lucrécio aconselhava.
Para a cama, porém, de preferência feia.

A formosa e a quase isso estendem-se-te
na cama esperando confiantes
a rápida homenagem que merecem.
São porém algo passivas. Limitadas.

A moça se calhar feia, não obstante,
agradece ter sido ela eleita
entre outras mais formosas. Com maior
entusiasmo participa no amor.

A obscuridade ambiente situa-a
em plano de igualdade perante a estética.
E um cego guia um cego, mas os dois
- os corpos - juntos encontram seus caminhos.

E deixa fazer e de bom grado acede
a quanto lhe exija tal momento.
Para gozar com gozo numa cama
é escolher de preferência moça feia.


***


WEST 14TH STREET

Não me parece bem que falem mal
de prostitutas jovens essas mulheres
que os maridos retiraram
da sua contínua mudança de casal.
São-lhes iguais.

Nada de mal fizeram, ou fazem, a ninguém.
Bem pelo contrário, favorecem.
Quem do prazer breve faz ofício
dá pedaços de amor a muita gente.
E o prémio do amor é o prazer.

Sem amor, até, que bom ganhar o prémio.
Não há que escandalizar-se. Uma fortuna
torna feliz mais gente ao partilhar-se
do que se for guardada por um só.
Pratica pois o bem quem o prazer reparte.

E sabem muito mais estas do que aquelas
para arrancar a um corpo doces gozos.
Gozos que jaziam obscuros
no trato com as menos eficazes.
Não é justo que delas falem com desprezo.

São mulheres como as outras
que do amor-lar fazem ofício.
Se diferença há, é a do preço
por estas exigido a quem as queira.
O do amor-prazer é menos caro.


***


CHANNEL GARDENS

Foram quatro, sim, quatro e uma faca.
Já a lua morrera um dia antes.

Seguraram-lhe os braços pelas costas
e a roupa deparou com o sabor do campo.
Eram doces suas pernas. Como o vinho.

Oito olhos muitas vezes se alternaram.
Parca foi sua defesa. Eram quatro, os homens.
Pude soltá-la passado um bom bocado.
Comigo pôs-me o braço ao pescoço.

Fomos quatro, sim, quatro e uma faca
que naquela noite no cinto me surgiu.
Morreu sem daquele meu abraço se soltar.

Não sei onde isto foi. Não me recordo.
Eu costumava ir a muitos sítios.


3 comentários:

João Luís Barreto Guimarães disse...

"Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fieis, de resto...)"

ALEXANDRE O'NEILL, "Toma lá cinco!"

jcfrancisco disse...

Obrigado pela revelação deste poeta que não conhecia. Parabéns e bom trabalho!

Hugo Milhanas Machado disse...

Um grande poeta! É, se não estou em erro, a primeira vez que lhe encontro votada atenção em todo este vasto mundo dos blogues.
Um abraço!