domingo, janeiro 14, 2007

RUI PIRES CABRAL (2)

Entender / de súbito que tudo é por acaso”, também disso nos fala o último livro de Rui Pires Cabral, "Capitais da Solidão" (Teatro de Vila Real, 2006). A toada mais abstracta do seu primeiro livro deu lugar, em obras mais recentes, a uma poesia metonímica mais que metafórica, figurativa mais que abstracta, a espaços hiper-realista, onde as viagens, as cidades ou a música podem ser pretexto para uma escrita prosódica muito nítida que fixa os sempre difíceis trilhos do “amor / onde sempre vivi acima das minhas posses”. Rui Pires Cabral (Macedo de Cavaleiros, 1967), não esconde assim um gosto pela contemporaneidade no que de episódico e narrativo possa ter, recorrendo ao mais pequeno acontecimento ou cena urbana para dele extrair palavras. Porque as palavras são, afinal, “o próprio pano de que é feita a solidão”.


A SECÇÃO DOS CONGELADOS

Truncadas, indefinidas, passam
na memória como filmes mudos
pequenas histórias de amor
carnal. Os grandes caudais da noite
sempre desaguam na tarde salobra
e rasa: Janeiro amolece a tinta
das paredes, levamos à rua uma cara
mais fechada, e depois, na secção
dos congelados, não sabemos distinguir
o que sentimos além do frio que represa
as coisas todas: caminhamos sós

num privado bosque, convocamos
sombras que foram perdendo o nome,
sinais que não transportam já
um sentido automático de desejo
ou sofrimento. E contudo, à revelia
das certezas que não quiséramos ter,
acabamos sempre por tornar
às mesmas ruas, à noite insone
e imensa, onde nos dói descobrir,
na companhia dos outros,
o quanto nos reclama a solidão.


2 comentários:

manuel a. domingos disse...

rui pires cabral é um poeta fabuloso. praças e quintais foi um dos melhores livros de poesia que li nos últimos tempos, bem como o Desordem de José Miguel Silva. são mesmo os poetas mais representativos de uma geração (seja lá o que isso for).

Rui Lage disse...

Curioso (ou não), Rui Pires Cabral e José Miguel Silva, seguidos de perto por Freitas, Mexia e o autor deste blogue, são, para mim, o que há de melhor na poesia portuguesa contemporânea. Mas ainda consigo gostar mais do "Movimentos no Escuro" do que do "Desordem...". E é por estes nomes que passa o futuro.

Esmeraste-te nesta última mão-cheia de posts, João.