quinta-feira, março 30, 2006

REMCO CAMPERT

Ainda August Willemsen (obrigado!), desta feita sobre REMCO CAMPERT (Haia, 1929): “(…) é estilisticamente o mais comedido e o mais acessível. Sem o experimentalismo de Schierbeek, a busca linguística de Kouwenaar ou o fogo de artificio verbal de Lucebert, Campert, dono de uma dicção inconfundível, sóbria, melancólica, irónica, avessa a efeitos retóricos, é o mais popular dos Cinquentistas (…)


CARTAS

Ainda preciso escrever a fulano e beltrano
que vou bem de saúde
que ontem me embebedei no bar grego
e depois no bar norueguês, no turco

que me preparei
para a altíssima conta do gás

e outras coisas a outros –
como deambular num mundo cada vez mais inexplicável

que alguém disse:
vocês holandeses são todos iguais
e olha que eu tinha pago
e tinha óculos franceses
e uma colectânea de poesia alemã no bolso
e em casa sobre a mesa
aquele insuperável poema de Anne Sexton
wanting to die

e ouve como troquei os fusíveis
e de repente a luz apareceu
e ela dormia no sofá
debaixo do cobertor azul

a beltrano e sicrano ainda preciso escrever
que isso eu não faço
que me recuso
que vou apresentar queixa
que os dias aqui se derretem em chuva
que o mundo não é maior do que uma cidade
do que eu naquela cidade
do que os meus pés naquelas pedras

e o que eu vejo ao pestanejar
e preciso perguntar como vão passando
se a casa já está pronta
o artigo bem traduzido
se as crianças cresceram
se as mulheres não são de todo infelizes


(Tradução de August Willemsen e Egito Gonçalves)

Brothers in arms














Fernando LOWELL e Robert PINTO DO AMARAL

quarta-feira, março 29, 2006

LUCEBERT


Da Introdução de “Um Mundo Claro, Um Dia Escuro” (Limiar, Porto, 1988), de August Willemsen, com uma imensa vénia:

“(...) Ao terminar a 2ª Guerra Mundial havia, pois, na Holanda, poetas, mas não havia poesia moderna (…). Parece que, à maneira dos modernismos português e brasileiro de 1915 e 1922, a ‘revolução de 1950’ se deu, na Holanda, simultaneamente na poesia e nas artes plásticas. Em 1948 os pintores holandeses Corneille e Karel Appel formaram, junto com artistas belgas e dinamarqueses, o ‘grupo Cobra’ (Copenhaga, Bruxelas, Amsterdam), que preconizava e praticava uma pintura primitiva, às vezes selvagem, inspirada pelo desenho infantil e pela arte dos negros africanos. A esse grupo juntaram-se os poetas Lucebert (imagens), Remco Campert, Bert Schierbeek e Gerrit Kouwenaar, para em 1950 formarem um grupo literário independente, conhecido como os ‘Vijftigers’ (‘Cinquentistas’, ou seja, a geração de ’50). (…) Os Cinquentistas, conscientes do atraso da poesia nacional, queriam recuperar o tempo perdido. Assim, vemos em Schierbeek, Kouwenaar, Lucebert e Campert, vestígios de dadaísmo e do surrealismo. Mas também há neles, de acordo com a estética da geração de pós-guerra em geral e com a do grupo Cobra em particular, o esforço de representar um mundo radicalmente diferente do antigo, para o qual recorrem a elementos da linguagem e da imagética infantis: subvertem a sintaxe e a gramática, valendo-se de processos altamente intuitivos e associativos.

(…) LUCEBERT (pseudónimo de L. J. Swaanswijk, 1924-1994) é a incarnação do espírito cinquentista: exuberante, agressivo, rebelde. Tanto na sua obra plástica (…) como na de poeta, é manifesto o seu desprezo por dogmas e convenções artísticas e sociais. Busca a inspiração na arte primitiva (o tema do negro), na ingenuidade (tema da criança), na espontaneidade, na atonalidade, do que resulta uma arte sumamente revolucionária, livre mas ao mesmo tempo estruturada pelo intuito de restituir ao homem as forças elementares, perdidas ou recalcadas na civilização ocidental. Pelo seu olhar desprevenido, que considera as coisas sem situá-las em qualquer sistema (…), pela absoluta liberdade de associações de imagens, pelo emprego de metáforas, símbolos e mitos, pela formação de neologismos e pela desintegração da sintaxe, Lucebert é, à primeira leitura, um dos mais difíceis poetas holandeses modernos."


MEU POEMA

sou o fantasma holofote
instalado em nicho escuro
aqui tem coisa sus-
surra a jóia surripiada
ofuscada por mim ao voltar da festa

sou um espantalho sou olhado
no ovo recheado da minha dor
e a ave que deixa o filhote
espatifar-se no chão (é a sua espécie)
nasce com olhos meigos

sou o grande caos após o incêndio
sou o mobiliário gotejante
que ainda fumega e sou o torcer de mãos
o beber aguardente na noite húmida
sou a constipação após o grande incêndio

sou o tirano pálido na manhã alva
o seu relógio vai atrasado mas o coração antecipa
a sentença de morte e uivo
ao cheiro de carne humana
embora não goze tal delícia há anos

sou a rapariga que na minha memória
encontro na colina florida
converso com ela tão meigamente como a brisa estival
fala ao convalescente
ela é muito pálida e tem rosto de memória

sou a voz que não dá voz
ao que já tem voz
mas que sobre o silêncio angustioso
coloca a imagem miracular de uma palavra
e só depois alheio a todo o medo
se sabe o que eu quis dizer com tudo isso
o poema é amuleto


(Tradução de August Willemsen e Egito Gonçalves)


terça-feira, março 28, 2006

GERRIT KOUWENAAR

GERRIT KOUWENAAR, juntamente com Lucebert e Hugo Claus, foi um dos membros mais importantes da Geração de 50 da poesia holandesa, tendo pertencido na vertente literária ao célebre grupo "COBRA". Escreveu August Willemsen acerca deste poeta holandês, na Introdução a “Um Mundo Claro, Um Dia Escuro” (Limiar, 1988): “Partindo duma poesia de tipo quase jornalístico, comprometido, Gerrit Kouwenaar (n. 1923) evoluirá para uma poesia que deriva de Mallarmé, René Char e Henri Michaux, mas também do americano Wallace Stevens – poesia essa em que o poema, coisificado, é o seu próprio assunto, e em que da primeira fase só restam os grandes temas da violência, da guerra e da morte. Nisto Kouwenaar lembra vagamente o Drummond de Andrade da fase de A rosa do povo (1945), colectânea na qual referências nerudianas à Guerra Mundial emparelhavam com um programa poético como ‘Procura da Poesia’. No entanto, o poema coisificado, associado à lembrança da fome durante a guerra, sugeriu a Kouwenaar uma imagética ‘sui generis’, marcada pela metáfora da (não-)comestibilidade. Em última análise a obra de Kouwenaar pode ser definida como um exame extremamente subjectivo da linguagem, numa tentativa de saber se o poema é a realidade ou se se interpõe entre nós e a realidade.” "Terceiro Canto Heróico" fala de uma dessa experiências de guerra. Um poema que pelo seu curso narrativo (sobre o real ou entre nós e o real?) ecoa a recente polémica deste blogue. É um poema dos anos 50...


TERCEIRO CANTO HERÓICO

Na véspera da paz mandou-nos o nosso omnipotente
pai major a mim e a mais seis para o silêncio
da morte nocturna, rumo
ao inimigo supostamente derrotado

sete batedores na fronteira
de quase tudo: guerra carne vida, caindo
em meio da névoa na armadilha: apenas eu
como por milagre fui poupado

enterraram-se no local
entre eles o meu companheiro inseparável
de quatro anos de trincheira

seis meses mais tarde, já primavera, eu estudava
ciências humanas na cidade, bebia cerveja, comia
bifes, mulheres, veio
o pai dele, disse: você
está vivo, era
companheiro dele, sabe
onde está sepultado, então ajude-me
a desenterrá-lo, é proibido, bem sei, mas é claro
que ele tem de ficar connosco no jardim

que podia eu fazer, fiz, cavei,
desenterrei-o com o pai, reconheci-o
pelo número da plaquinha, ele pendia
desengonçado, tépida massa mole, minha mão
afundou-se no cadáver até ao punho, tão assustada
com a matéria que desastradamente
fez um buraco

após o enterro, ele clandestino na sua própria terra, estava eu
na sala de jantar deles com a mãe a irmã o pai, bebendo
um copinho de lágrimas, conversando
em torno do seu retrato de menino
e contava: íamos juntos agachados, falávamos
em voz baixa acerca de um futuro melhor, fumávamos
juntos um cigarro belga, juntos não suspeitávamos
nenhum perigo / ele era
soldado corajoso, obediente
com dignidade, amava
mozart, wagner a pátria, prestava atenção
ao sussurro das suas árvores / escondi
pouco da sua verdade, só omiti
o indizível putas e pulgas e de que modo
estraçalhávamos como carniceiros

pois é, era primavera no jardim
onde o enterrámos sussurrava
o plátano, árvore fazedora de mãos, no ar
havia algo perfeito, acabado, per-
feito finalmente, até a lua
parecia novinha, sua irmã carnal estava suspensa
dos meus lábios, lá pelo fim de Abril
num corpo apertado, a groselheira
perfumava a terra, a minha mão tocou-lhe
os seios, a minha mão

tocou-lhe os seios e era
a mesma tépida massa mole, a mesma
tépida massa mole, o mesmo material
simplesmente o mesmo, e era
esta mesma mão, esta


(Tradução do neerlandês de August Willemsen e Egito Gonçalves)


quarta-feira, março 22, 2006

A MINHA LISTA DE COMPRAS É POESIA ?


Relendo os comentários - os menos acirrados - que aqui foram deixados durante a recente polémica que se criou neste blogue, apercebo-me de como a esmagadora maioria das visitas discordam veementemente dos exemplos que citei como sendo poemas, e mais, como sendo bons poemas. A palavra foi que “aquilonão era poesia. E no entanto, não me consigo sentir derrotado e apetece-me insistir - sem teimosia, acreditem, mas com profundo respeito por quem por aqui vai perdendo o seu tempo - que aqueles textos são... poemas, e se revelarão muito importantes no nada importante contexto da poesia portuguesa contemporânea. Com as devidas diferenças - com as devidas diferenças, repito - dêmos um salto até à pintura e gastemos um minuto com alguns dos bons exemplos da história da pintura contemporânea. Na primeira década do Séc. XX, Braque e Picasso decidiram pintar o mundo com formas quadradas: violas, tradicionalmente representadas com linhas curvas, foram então traduzidas por linhas rectas. Malevich, por seu turno, chamou "arte pura" a um quadrado preto pintado sobre tela... E Duchamp, uma década depois – como bem notou Jorge Melícias – denominou de “Fonte” um urinol, ainda por cima produzido em série e por outrem. O - já famoso por aqui - sobrinho de Herculano Lage – e digo-o sem ironia – bem poderia ter pintado qualquer um dos quadros tardios de Pollock, mais não fosse por acidente: fios de tinta caindo aleatoriamente pela tela disposta pelo chão. E no entanto, é extremamente interessante tentar imaginar qual terá sido a reacção que, maioritariamente, aquelas obras terão provocado à altura, ainda que hoje possam passar por mais ou menos consensuais. A pergunta, então, é a seguinte: o que faz com que determinada obra, actualmente tida como consensual, possa ter sido vista no seu tempo como um insulto à arte? A segunda pergunta resulta da primeira: que resistências são essas que se opõem à evolução e ao desenvolvimento de uma determinada disciplina artística? Terceira dúvida: como desenvolver em cada um de nós - em tempo real, contemporâneo, – uma eficaz percepção do valor artistico de cada obra de arte que nos é dado presenciar como novidade? O Tempo - o passar do tempo - é uma das respostas mais óbvias, tão óbvia quanto inútil, porque tardia. Então, como? Por um apurado conhecimento da história de cada uma dessas disciplinas e suas sucessivas rupturas? Mas, e se a excelência dessa obra não tiver passado por uma ruptura, por uma vanguarda? Por uma extraordinária capacidade de perceber o seu tempo? Pela identificação da originalidade entre o comum? Por uma qualquer ética ou estética? Por ser perfeita? Porque, simplesmente, gostamos dela? Regressemos então - sem comparações, por favor - a esse universo pequeno e dispensável que é a poesia e deixando de lado o polémico "Martha" de Manuel de Freitas (Vale de Santarém, 1972), atentemos ao outro poema que referi, de Jorge Gomes Miranda (Porto, 1965), aqui na sua versão completa:


QUATRO MENSAGENS DEIXADAS NO TELEMÒVEL

“Dr_______________
Muito bom dia, é com alegria que o informo que,
num sorteio realizado esta manhã, foi o feliz
contemplado com um serviço de jantar
de 32 peças.
Só terá de ter a maçada de o vir buscar esta noite
pelas 20 horas ao Hotel Ipanema.”

#

“Porra, J_______________,
tens sempre o telemóvel desligado
quando preciso de ti.
Fiz asneira outra vez e a__________
saiu de casa com os miúdos.
Vê se me telefonas ainda hoje.”

#

“Olá, sou eu (silêncio)
Quero dizer (silêncio)
Tudo o que quero dizer, (silêncio)
Não sei (silêncio)
Tudo o que quero dizer levaria
mais tempo do que aquele que tenho
aqui.
Mas há coisas que não queremos ouvir
(silêncio).”

#

“Fala do Laboratório de Análises Clínicas,
Tenho aqui nas mãos o envelope
com o resultado das suas análises.
Quer que o envie por correio ou
passará por cá para buscá-las?
Informe-me da sua decisão.”



Não queria de modo algum limitar a discussão que se seguirá à estafada dicotomia Forma/Conteúdo. Mas a verdade é que a Forma em questão – será ao menos isto consensual? – é a de um poema: existe um título, existem estrofes onde os versos se dobram pela técnica do enjambement, existem pausas e silêncios brancos, e existe - notem bem - todo um programa para o poema que o torna próximo, na sua diversidade de exemplos, das técnicas de colagem e de montagem cinematográfica à maneira, por exemplo, de certas instalações de vídeo. Não estou ainda a discutir a oportunidade cronológica do poema quando comparado com a poesia internacional. Limito-me a tentar provar porque razão o texto em questão é... poesia. Consigo, todavia, entender que será no Conteúdo que o verniz estala. Ora é precisamente aí que me parece que Jorge Gomes Miranda – cuja obra poética está muito longe de se resumir a este “tipo” de poemas, façamos-lhe justiça – opera o tal trabalho de linguagem essencial a "isso" a que chamamos poema. Senão vejamos: as situações esboçadas nos diversos momentos do texto são intrinsecamente contemporâneas: num primeiro momento, desenha-se um apelo directo ao consumo, tão comercial quanto enganador, à maneira dos vendedores de time sharing, uma das pragas modernas do consumo; nos segundo e terceiro momentos, duas situações distintas de relações interpessoais - nem por isso felizes como compete à celeridade e desengano dos tempos modernos, - esboçam uma ameaça de divórcio e um profundo desencontro amoroso ; no quatro e último momento, é clara a intenção de sugerir uma situação dúbia de saúde. Cada um dos leitores vê-se assim tentado – confessem lá… - a esboçar o fio de uma narrativa que possa unir estes quatro momentos e que permita chegar "à história toda” da vida (urbana?) da persona literária a quem Jorge Gomes Miranda decidiu atribuir a propriedade daquele telemóvel. Um bom exercício de interpretação para cada leitor. Isto não elimina ou anula qualquer outro género de poesia. Apenas acrescenta. Mas as “vagas” semelhanças "disto" com um poema não se esgotam por aqui. Além da linguagem – coloquial, é certo, mas também tensa, elíptica e fortemente alusiva – e da interpretação, o texto tem também - hellás! - mistério, tão do agrado da vontade críptica caracteristica da poesia: o tipo será médico ou advogado? Economista ou "dr"? Dr. J. é, ficamos depois a saber. Mas quem seria o seu amigo e o que terá feito à mulher? Uma facadita no matrimónio? Que capacidade terá o Dr. J. para dar conselhos amorosos se ele próprio experimenta as suas próprias dificuldades? E porque terá feito análises ao sangue? Sentir-se-ía doente? Num contexto amoroso atribulado, será licito supôr que possa estar infectado com o HIV? Alguns continuarão a desgostar desde poema pela crua contemporaneidade que retrata, de tão horrível que ela é, porque é hiper-realista e reduz o mundo ao grau zero de lirismo. Eu revejo-me nela como leitor pela sua forma crua e hiper-realista de transportar a contemporaneidade que habito para a escrita. E um dia mais tarde, isso vai ser mais visível ainda. Quem quiser dizer alguma coisa, levante o dedo e fale na sua vez...


terça-feira, março 21, 2006

ROBERT LOWELL















ROBERT LOWELL
(1917-1977)




MIDDLE AGE

Now the midwinter grind
is on me, New York
drills through my nerves,
as I walk
the chewed-up streets.

At forty-five,
what next, what next?
At every corner,
I meet my Father,
my age, still alive.

Father, forgive me
my injuries,
as I forgive
those I
have injured!

You never climbed
Mount Sion, yet left
dinosaur
death-steps on the crust,
where I must walk.



§



MEIA IDADE

A monotonia do solstício de inverno
está agora em mim, Nova Iorque
atravessa-me os nervos,
enquanto percorro
as ruas maceradas.

Quarenta e cinco,
e a seguir?, e a seguir?
A cada esquina,
encontro meu Pai,
da minha idade, ainda vivo.

Pai, perdoa as
minhas ofensas,
como eu perdoo
aqueles que
tenho ofendido!

Nunca escalaste
o Monte Sião, porém deixaste
pegadas de dinossauro
na crosta
por onde devo caminhar.



domingo, março 19, 2006

DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES e FRANCISCO DUARTE MANGAS

Ainda a propósito da recente troca de posts, ocorreu-me (durante o almoço…) ir procurar à estante e trazer para cima da mesa desta tertúlia, dois outros bons poemas de dois poetas que vivem no Porto, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Francisco Duarte Mangas, ambos nascidos em 1960.

Diospiro”, publicado em “Conhecedor de Ventos” (Porto, AJHLP) é de 1987, e foi escrito pelo primeiro. “Aviso Dos Mais Velhos Aos Jovens Escritores” apareceu em 1984, em “Cavalo Dentro da Cabeça” (Porto, AJHLP), e foi escrito por Francisco Duarte Mangas.



DIÓSPIRO (1987)

depois do almoço
quando arrastamos a cadeira
um pouco para trás
uma sonolência morna
entrelaçada de luz
entra pelas janelas
ludibria as cortinas
e difusa poisa no vinho

é nessa altura que dizemos:
vou comer este diospiro
antes que apodreça



AVISO DOS MAIS VELHOS AOS JOVENS ESCRITORES (1984)

cuidado cão,
e com

JORGE MELÍCIAS


Jorge Melícias nasceu em 1970. Publicou "Ahagahe" (Coimbra, A Mar Arte, 1994), "A Um Deus De Olhos De Graça" (Coimbra, A Mar Arte, 1995), "O Tempo de Foaron" (Coimbra, A Mar Arte, 1998), "Iniciação ao Remorso" (Coimbra, A Mar Arte, 1998), "A Luz Dos Pulmões" (Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2000), "O Dom Circunscrito" (Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2003) e "Incúbus" (Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2004).

Traduziu, entre outros, Saint-John Perse, Leopoldo María Panero e António Gamoneda. Do seu livro "A Luz Dos Pulmões", seleccionei este poema:


[O poema são fogueiras levantadas na garganta] (2000)

O poema são fogueiras levantadas na garganta
ou um sono inclinado sobre as facas.

Alguém diz, a prumo
todos os nomes queimam,
e há uma deflagração assombrosa,

a palavra acende-se
com uma árvore de sangue ao centro.

sexta-feira, março 17, 2006

ACERCA DO SUBJECTIVISMO


Tenho lido com atenção as “breves notas para uma poética da terminologia” que o poeta Jorge Melicias tem colocado on-line, nesse blog de leitura obrigatória que é o “da literatura”. E identifico-me com alguns dos atributos com que informa a sua ideia de poesia. Subscrevo o seu conceito de livro de poesia enquanto “unidade temática e estilística”. Agrada-me a ideia de uma poesia tensa, concisa, densa, elíptica. Uma poesia que não seja oferecida, uma poesia que do outro lado de um sentido mais óbvio encerre um outro sentido e, se possível, um outro ainda. Uma poesia que, por isso mesmo, demande interpretação. E que exista também para o seu léxico, como a de Luís Quintais, por exemplo. O que me parece é que esse pressuposto que, julgo entender, ambos partilhamos, não exclui pelo meu lado, poéticas mais subjectivas contra as quais Jorge Melícias me parece apontar o dedo. É verdade – e neste terceiro ponto também estaremos próximos – que a memória é, como diz, uma muleta literária: é bem mais difícil inscrever o presente num poema do que escrever sobre o passado. Os poemas sobre a memória escudam-se no perdido. O passado é como o código postal: sugere tal grau de adesão emocional no leitor que é “meio caminho andado” para o conquistar. Onde não estaremos porventura de acordo – se bem leio os seus posts – é na asserção de que as poéticas mais subjectivistas ou confessionais sejam parcas em trabalho oficinal sobre a linguagem. Robert Lowell é um poeta assumidamente confessional, altamente subjectivo e tem um extraordinário trabalho sobre a linguagem. É apenas um exemplo, tão estrangeiro quanto arrefecido, para não ferir susceptibilidades. Tal como sugerir que o subjectivismo não acarreta riscos: mas se é essa precisamente a poesia que mais rasga, que mais abre caminhos, que menos se acomoda a modelos, como afirmar que não arrisca? Como dizer que não comunica? Estaremos também provavelmente de acordo nisto: quando lemos poesia desejamos ser surpreendidos. Acontece-me com os mais variados autores. A poesia não é um campeonato, por muito que custe a alguns, e nunca se deve comparar poetas. Surpreeendeu-me, por exemplo, ler há já algum tempo atrás, um poema que Jorge Gomes Miranda publicou em “A Hora Perdida” (Campo das Letras, 2003):


QUATRO MENSAGENS DEIXADAS NO TELEMÓVEL

...

“Fala do Laboratório de Análises Clínicas,

Tenho aqui nas mãos o envelope

com o resultado das suas análises.

Quer que o envie por correio ou

passará por cá para buscá-las?

Informe-me da sua decisão.”


ou, este poema que Manuel de Freitas incluiu em “O Coração de Sábado à Noite” (Assírio & Alvim, 2004), que tinha apenas verso e título:


MARTHA

Perdi o teu número.


Vou falar sem saber o que o Jorge pensa destes dois poemas, é certo. Mas para mim, eis dois poemas que seguramente rasgam convenções, que geram surpresa, que se inventam e superam e – mais do que isto – que se inscrevem na história da poesia portuguesa. Por mais simples que pareçam. O primeiro, porque faz com que o quotidiano mais formal e mais banal invada a poesia, a tal Casa Sagrada da Poesia, através de um conspurcar da mesma com o hiper-realismo de um formal telefonema acerca de análises clínicas. O segundo, porque nos convida também a questionar o coloquialismo, o que pode ou não ser poesia, no fundo essa ténue fronteira entre fala e poesia. São dois poemas que investigam. Que desconstroem. Não evitam o mundo, nem fogem dele. Que culpa têm se esse mundo é pobre e social? Ambos se informam de Hiperrealismo. Ambos são altissímamente subjectivos. Ambos são extraordinariamente quotidianos. Ambos requereram imaginação. Ambos são tensos e concisos. Ambos são síntese. Não me parece que nenhum dos dois deixe de lado a ambição de comunicar, pelo menos comunicar o plasmar de um instante. E ambos acarretaram para os seus autores – que em boa hora tiveram a coragem de os dar à estampa – uma incomparável carga de risco. E que risco correram: porque ambos são poemas não líricos, ambos misturam ao sabor deste pluralismo de início de século, a fala quotidiana e a poesia. Em calão: ambos estão “muito à frente”… Ambos, finalmente, realizam um arriscadíssimo trabalho sobre a linguagem. Pode ser simples. Mas é oficina arriscada. Não é poesia elegiaca, é certo. Mas dizem-me mais como poemas sobre o meu mundo, sobre este chão que piso, este mundo-chão contemporâneo onde respiro do que outros que se continuam a alimentar da palavra pela palavra ou de simbolismos estafados. São poemas-exemplo. E trazem à poesia o presente, falam de telemóveis e análises clínicas como outros antes deles, num passado mais distante, falaram de correspondência postal e sanatórios. São, por isso, poemas do futuro. Só precisam de tempo. Acredite. Tenho muito gosto em continuar este diálogo consigo, se assim entender.


quinta-feira, março 09, 2006

LUÍS QUINTAIS (2)



A PROEMINÊNCIA DA MÃO DIREITA

É a mão direita que domina.
A esquerda obedece
cegamente.
É a mão direita que fere.
A esquerda consola.
É a mão direita que disciplina,
brutaliza.
A esquerda, é o exercício
próximo e doméstico
de afagar
o que a comove, o que
recatadamente a silencia.

Esta é a terra,
os modos de nela me orientar:
as minhas mãos, a proeminência
da direita sobre a esquerda,
o que toda a vida quis negar.



Hoje é a vossa vez. Comentários? Leituras?

segunda-feira, março 06, 2006

FERNANDO GUIMARÃES e FERNANDO ECHEVARRIA

Fernando Guimarães nasceu no Porto, em 1928. Fez o curso de Ciências Históricas e Filosóficas na Universidade de Coimbra. Vive no Porto.

AUTO-RETRATO

Está incompleto. Ainda se vê metade do rosto. Sabe-
mos
como se acentua junto dos olhos a mesma sombra. Os
lábios
fecham-se; à sua volta, um halo apenas: continuam
afastadas
as pregas da cor, o rumor trazido pela luz. Há um con-
torno
que pode tornar-se nítido. É tudo o que se
procura. Depois esperamos
que venha a respiração ao encontro dessa superfície
até se encontrar
um nome. É o meu. Se quiserem podem esquecê-lo
agora.


Fernando Echevarria nasceu em Cabezón de la Sal (Santander, Espanha) em 1929. Filho de pai português e mãe espanhola, veio para Portugal com dois anos de idade, mas regressou mais tarde a Espanha, onde estudou Filosofia e Teologia no seminário de Astorga. Vive actualmente em Paris para onde foi exilado em 1961.

IN MEMORIAM

A meu pai

Cada dia te víamos andando
mais para dentro de ti mesmo. O tempo
ia ficando parado
à medida que o sangue, mais pequeno,
circulava num espaço
que já era seu próprio esquecimento.
A certa altura, a placidez do campo
lavrava o teu rosto. Que terreno
era então ver-te olhando,
como se o olhar e o fio do centeio
fossem a luz do ano
com nostalgia de parecer eterno.
Foi essa a idade em que haver sido amado
pelo pão, pelo vinho e pelo vento
te trouxe a crestação com que o trabalho
deu tez ao sonho, e honradez e peso
a ficares assim, em paz sentado,
marceneirando teu próprio pensamento.
E, aos poucos, por ele madrugando,
seguiste ainda mais por ele adentro,
de forma que, hoje, nem te vemos. O halo
onde foste minguando é só aceno
de quem se foi pensando
até ao outro lado de si mesmo.

quinta-feira, março 02, 2006

HOWARD NEMEROV

HOWARD NEMEROV (1920-1991), poema americano nascido e criado em Nova Iorque.



THE VACUUM (1955)

The house is so quiet now
The vacuum cleaner sulks in the corner closet,
Its bag limp as a stopped lung, its mouth
Grinning into the floor, maybe at my
Slovenly life, my dog-dead youth.

I’ve lived this way long enough,
But when my old woman died her soul
Went into that vacuum cleaner, and I can’t bear
To see the bag swell like a belly, eating the dust
And the woollen mice, and begin to howl

Because there is old filth everywhere
She used to crawl, in the corner and under the stair.
I know now how life is cheap as dirt,
And still the hungry, angry heart
Hangs on and howls, biting at air.



§



O ASPIRADOR

A casa está tão calma agora
O aspirador amuou no armário de canto,
Seu saco aleijado como um pulmão imóvel, sua boca
Zombando para o chão, talvez da minha
Vida desmazelada, da minha irresponsabilidade.

Vivi tempo suficiente assim,
Mas quando a minha velha morreu, sua alma
Entrou dentro daquele aspirador e eu não suporto
Ver o saco inchar como um ventre, comendo pó
E camundongos, começando a uivar

Porque há imundice por todo o lado
Onde usava rastejar, nos cantos e sob a escada.
Sei agora como a vida é reles como lixo,
Ainda assim o coração ávido, irado
Resiste e brama, mordendo o céu.



Eis um excelente poema. Fala-nos do doloroso vazio que se instalou na vida do narrador após a morte da sua mulher. Alguma coisa se perde na tradução, é claro, desde logo o jogo entre “vacuum”(vácuo, vazio) e “vacuum cleaner”(aspirador), tomados no inglês pela mesma palavra. O trabalho de personificação a que o narrador procede é evidente logo desde o segundo verso. É como se o aspirador representasse a mulher - com pulmões, boca e ventre - e a sua possível fobia pelas limpezas, aqui amuando a um canto por não ser usado mas rindo da enorme desordem em que se transformou a casa do narrador. Agora que ela partiu, o narrador vive rodeado de lixo porque não consegue tocar no aspirador já que vê nele a mulher. Tratando-se de um tema tradicionalmente triste, este consegue ser também um poema deliciosamente irónico, como se o narrador quisesse dizer que de tanto apontar à esposa a sua mania pelas limpezas, ela partiu deixando-lhe o aspirador - simbolo da limpeza - a representá-la, como uma maldição. Por outro lado, o vazio (“vacuum”) em que a sua vida se transformou, também contribui para a estagnação e a imobilidade de que a sua vida padece. Por isso o narrador que começa o poema apreciando a calma que se instalou pela casa, acaba-o com o coração aos saltos, na urgência pelo regresso de ruído e movimento. Reparem como Nemerov é feliz com a imagem sonora da sístole e da diástole do coração, usando a música das palavras “hungry, angry” que tentei traduzir (insuficientemente) por “ávido, irado”. Optei pelo título “O aspirador” e não “O Vácuo” ou “O Vazio”, porque este é também um poema que realça como a placidez da morte faz com que a vida pare, de como a morte e o seu vazio provocam... dor. By the way, por altura da escrita deste poema, a mulher do poeta não havia morrido. Mais um exemplo de escrita sob a capa de uma persona literária. Fiquem bem.