domingo, março 19, 2006

JORGE MELÍCIAS


Jorge Melícias nasceu em 1970. Publicou "Ahagahe" (Coimbra, A Mar Arte, 1994), "A Um Deus De Olhos De Graça" (Coimbra, A Mar Arte, 1995), "O Tempo de Foaron" (Coimbra, A Mar Arte, 1998), "Iniciação ao Remorso" (Coimbra, A Mar Arte, 1998), "A Luz Dos Pulmões" (Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2000), "O Dom Circunscrito" (Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2003) e "Incúbus" (Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2004).

Traduziu, entre outros, Saint-John Perse, Leopoldo María Panero e António Gamoneda. Do seu livro "A Luz Dos Pulmões", seleccionei este poema:


[O poema são fogueiras levantadas na garganta] (2000)

O poema são fogueiras levantadas na garganta
ou um sono inclinado sobre as facas.

Alguém diz, a prumo
todos os nomes queimam,
e há uma deflagração assombrosa,

a palavra acende-se
com uma árvore de sangue ao centro.

52 comentários:

laerce disse...

João Luis Barreto Guimarães

Gosto da sua postura neste confronto de ideias com Jorge Melícias acerca da novíssima poesia portuguesa.

No entanto, os exemplos que deu como amostra do que de melhor se faz em poesia, penso que são absolutamente redutores do conceito de poesia.

Anónimo disse...

Só uma nota para indagar de Laerce o que é que distingue um comentário de uma opinião.

Anónimo disse...

...E já agora, indagar também se Laerce tem mais alguma coisa a dizer além da nota de discordância.

Rui Lage disse...

Nenhum risco, neste poema, que não tivesse estado já por conta - e risco - de Herberto Helder (e por outros depois dele, como Nava). Quer dizer, aquilo que Jorge Melícias entende por risco, não é risco nenhum, mas, isso sim, um caminho já mais que trilhado na poesia portuguesa contemporânea. Mais percorrido, aliás, que os trilhos campestres por onde os rebanhos de cabras passam todos os dias rumo aos pastos, e por onde regressam depois à tardinha. Ou caminhos secos, estéreis, que vão dar a becos sem saída. É por isso que não acho pertinente a sua argumentação no "Da Literatura" (embora seja uma argumentação coerente, e bem escrita, fazendo-me suspeitar de que a sua vocação será mais a prosa do que a poesia). Acho muito mais arriscado aquilo que o JLBG escreve: incomparavelmente mais arriscado. Leiam-se os poemas do "Rés-do-chão" ou do ainda quente "Luz Última". Isso sim é escrever no fio da navalha, na corda bamba: um pequeno desequilíbrio, um pequeno acidente, e o discurso estatela-se nas areias incertas, enevoadas e movediças do texto não-poético (o que quer que isso seja). No entanto, o JLBG consegue sempre, de alguma forma, dar a volta ao texto, despoletar um "clique", provocar o estranhamento e a surpresa, fechar, no derradeiro momento, com chave de ouro, lograr essa transmutação sem fórmula que é a poesia, mudar o chumbo do quotidiano no ouro do poema. E outros, dos anos 90 ou de "agora", conseguem igual proeza.

Acontece que a poesia portuguesa está, claramente, a mudar de paradigma. O que é de saudar, porque, francamente, há já muitos anos que não se conseguia ler nada de novo, nada de fresco. Como sempre vem acontecendo ao longo dos séculos, há várias posturas, ângulos de visão e graus de consciência relacionáveis com essa mudança de paradigma. Há os que a reconhecem, e juram por ela (não ficando excluída a hipótese, entenda-se, de afinal, e por paradoxo, não estar a acontecer mudança nenhuma!); há os que suspeitam fortemente que ela esteja a acontecer, e começam, inclusive, a teorizar sobre ela; há os que têm apenas uma leve suspeita, e preferem esperar mais um pouco para ver no que dá; há os que negam a pés juntos a mudança, descartando-a logo à partida (nestes, pasme-se, incluem-se muitos que conhecem bem as dores de parto e os finais de ciclo da história da literatura ocidental, bem como as inumeráveis variáveis da evolução do pensamento humano); e há ainda os que negam a mudança com plena consciência de que a mudança já bateu à porta e até, em muitos casos, já entrou. Casmurrice? Porventura.

Para escrever algo como "O poema são fogueiras levantadas na garganta", queiram-me desculpar, não é necessário arriscar nem a unha do dedo mindinho. Duas coisas bastam. Primeiro: ter lido e relido Herberto Helder em doses cavalares, até nenhuma desintoxicação ser já possível. Segundo: ter analisado ao microscópio (nuclear) as estratégias sintácticas, o leque de recursos estilísticos e as escolhas lexicais do mesmo Herberto Helder. E é preciso ainda - já me ia esquecendo! - saber escrever bem (no sentido mais lato que consigam imaginar).

Quanto aos exemplos dados pelo João, aí já não estou de acordo. É verdade, e falo agora sem papas na língua, em português curto e grosso, que é preciso ter tomates para publicar algo como o "Martha". Mas, em meu entender, não estamos, de forma alguma, perante um objecto que abra novas portas, ou que faça desfilar promessas de novos horizontes. Trata-se apenas de uma habilidade, ou de uma curiosidade. Penso aliás que o Freitas, que tem escrito poemas magníficos (e que desbravam, para horror de muitos fundamentalistas, novos territórios) tem plena consciência disso.

Anónimo disse...

Concordo absolutamente consigo, Rui Lage. Melícias, Freitas, outros, não fazem nada de novo, troca palavras, constroi frase que nem ele mesmo sabe o que significa. Poemas destes, vou ali já venho. "Poemas são fogueiras levantada na garganta"!!!?? - o que é isto??? Olhem, mudem para isto, que invento já aqui um poema: "Poemas são flechas que acentuam catedrais ventosas" - Digam lá: grande verso, hem!! Por favor ...demorou 3 segundos, querem mais??' Olhem para outra poesia, por favor!!! Onde está a desnsificação poética da essencialidade?? Há que intensificar um projecto. Herculano Lage

formol disse...

Ok. Também tenho um rápido:

FOLHA POÉTICA:

Depois de o empregado ter surgido
da cave/Com o meu bloco de papel milimétrico,/Fui beber um café e escrevi um poema novo./

Estranhamente rimava a cada centímetro,/e as vírgulas caíram sozinhas/de 6 em 6 centímetros.

Concluí que há um deus dos versos/No fundo da Papelaria Fernandes.

Rui Lage disse...

Confesso, Herculano (tem graça partilharmos o mesmo apelido), que acho mais original o seu pronto-a-servir "Poemas são flechas que acentuam catedrais ventosas" do que "Poemas são fogueiras levantadas na garganta". Ele há coisas.

lydia disse...

o foi nada disso que disseram nem o Barreto, nem o Lage.Leiam bem.
Para além disso, concordo com o Rui, nas tais questões do risco e outras.Como igualmente com o João. Já estamos fartos de "deflagrações", "prumos"., "fogueiras na garganta". E as pessoas, supostamente leitoras e "escribas do "poético", ainda têm a lata de negar que isso são imagens mais que estafadas e já tomadas, de há muito, por poetas "marcantes, que esses sim, as "marcaram". E há um nome para chamar aos pósteros que se não afastam dos prognos.

Lydia

lydia disse...

Errata:
Não saiu o início do comentário que referia:
Freitas e Melícias nada têm a ver um com o outro. Andam aqui confusões. Nem Barreto, nem Lage disseram isso.

Anónimo disse...

pelo amor da santa, leiam poesia... deixem-se de caganças... e disfrutem das palavras... não consigo perceber estes pseudo-intelectuais... palavras sãp palavras... há correntes poéticas que englobam tudo...

"O pêndulo da maledicência compactua com a construção caótica do sublime" (esta é minha - poderá ou não ter sentido... como diz Pessoa "sentir, sinta quem lê!" haha)

Cada pessoa é a interpetação do poema, cada pessoa é um poema, é "o" poema... a palavra entra em nós, em nós ressoa e em nós faz (ou não sentido), é ou não sentida... e atenção que não é preciso fazer sentido, para que seja sentida!

Anónimo disse...

POESIA - PALAVRAS -SENTIDO, não são absolutos, nem deuses inquestionáveis.Precisam como dizia Camões de "honesto estudo" com "amarga experiência misturado".
Não são uns espontâneos armados em iluminados, que pelos vistos, já sabem tudo, que lá chegarão com facilidade.

Anónimo disse...

pois claro! :o)

Citando Eugénio de Andrade:

"Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar."

Anónimo disse...

Vinha acompanhando a conversa entre JLBG e JM e é com espanto que vejo a cordialidade que existe entre os dois a ser contaminada por gente ressabiada como o Rui Lage. Meu caro Rui Lage, conversar sobre poesia pode ter nível, sabia? Aqui ainda ninguém tinha procurado humilhar ninguém. Ao menos ninguém de respeito, como o JLBG e o JM. O tom que trouxe à conversa não é digno. Faz-me crer que deve ser um poeta genial para colocar o seu pescoço assim tão contra o dos outros.

pim disse...

Realmente, esperemos que esta polémica não ameace este espaço tão tranquilo e singular. É bom podermos ler coisas novas que o JLBG vai desencantar não se sabe onde (!) e, inclusivamente, participar. Quanto ao mérito (evidente na pesquisa e no trabalho experimental) e ao crédito da "novíssima" poesia (que virá, ou não, com o tempo), acho que podemos todos ter um pouco de paciência e observar como evolui, se falsifica (como diria o outro) e gera mais coisas.

Décima-dama disse...

Lá diz o O'Neil "Respeitinho é que é preciso".
O Rui Lage fez uma coerente análise, sem servilismos estratégicos e detectou vários gatos com o rabo de fora. Quem teria limado e arrumado o último texto ao sr. Melícias? A analistas experimentados e o jovem Lage, já o é, não escapam certas coisas...Ele vai tendo o tal "honesto estudo" que falta a muitos aqui. Com tanto poeta a escrever em tantas Línguas, no mundo, sejam menos pretensiosos e mais conscientes da vossa insignificância.
Força, Rui. Não te importes de ser incómodo.

DD

Anónimo disse...

Ó DD, que incómoda a Senhora está a ser! Força Rui, upa. Vá que a mamã está a ver.

Jorge Melícias disse...

Sr. Lage,

Como paradigma desta questão da subjectividade ( ou de qualquer outra, no que toca à poesia) o sr. não conta. Isso faz de sí, como compreenderá, um alvo muito pouco apetecível e corta pela raíz qualquer intento de polémica. Continue, antes, com o bom trabalho que, aqui e alí, por esta blogosfera fora, tem vindo a desenvolver enquanto "valet de chambre" de tantos moços de recados.

Adeus

Rui Lage disse...

Você é mesmo infantil, Melícias. Francamente. Dou de barato as suas alfinetadazinhas. E dou-lhe ainda um conselho grátis: não se leve tão a sério. Relaxe, homem! O mundo não está a olhar para si (é com muito orgulho que não conto, da mesma forma que o Jorge Melícias não conta). Bem sei que acorda a meio da noite com suores frios por não escreverem sobre os seus livros no "Mil Folhas" e no "Actual", mas olhe, sabe, isso não tem qualquer importância. E, o que é mais, nem a sua poesia, nem a minha, importam seja para o que for. Viva a vida, deixe correr! Não ande tão atormentado, homem!

Mas registo com agrado, e admito que não sem algum orgulho, o privilégio de ter sido promovido pelo Jorge Melícias a Sr. (ou estarei já a deixar-me levar pela emoção e afinal foi a sr.?). Caramba, fico com o ego inchado, garanto-lhe!

Agora, vamos a coisas mais sérias.

Jamais, em toda a minha vida, cedi um milímetro que fosse nos princípios e nos valores que me foram desde cedo inculcados pela minha família e pelos que me são próximos. Ninguém me pode acusar de alguma vez NA VIDA ter sido desonesto, invejoso, intriguista, mentiroso, mesquinho, malévolo, e por aí fora. Cultivo acima de tudo a humildade, a honestidade, e a verdade. A minha máxima de vida é: "desconfia sempre de ti mesmo" (pois és capaz de melhor para com os outros e para contigo). Há inclusive pessoas que você muito bem conhece que lhe dirão isso mesmo. Daí que, essa de me chamar de "valet de chambre" de não sei que outros, valer-lhe-ia, a si, na próxima ocasião em que nos encontrássemos publicamente, se tal vier a acontecer, umas boas bofetadas na cara (leu bem, descanse). É que, não sei se reparou, mas eu não injuriei a sua pessoa, ao contrário do que você fez com a minha. Limitei-me a deixar por escrito o que penso do que você escreve. E para isso tenho toda a legitimidade do mundo. Toda e mais alguma.

Adeus também, de lágrima ao canto do olho e lenço de cambraia na mão, acenando, comovido, enquanto o paquete se afasta e se funde já com os derradeiros raios do poente...

Rui Lage.

P.S. Peço-te desculpa, João, por invadir assim, com coisas destas, a tua caixa de comentários.

alfinete disse...

Calma, camaradas.
O Rui Lage já faz lembrar o António Nobre a despedir-se no paquete do Alberto de Oliveira (ver as cartas do Nobre, por favor, são excelentes). Gosto muito de vocês todos e não me quero intrometer em polémicas que só dão ressentimentos. Mas que elas ao menos sirvam para lembrar que temos uma tradição poética. Que muito do que agora se chama hiper-realismo, como diz o Lage, não é de facto novo. Tal como não é novo o visionarismo. Foi o que eu tentei dizer no meu blog com um post sobre Gomes Leal que, já agora, gostaria que fizessem o favor de ler, e ajudar na sua interpretação, se quiserem.

alfinete disse...

E mais, julgo eu: hiper-realismo, surrealismo, visionarismo, não são coisas de costas voltadas. É tudo uma questão de acuidade de sentidos.

alfinete disse...

Outra coisa: apesar da piada do paquete, o Rui Lage merece-me o maior respeito. Leio-o atenta e persistentemente, e não acho que seja "valet de chambre" de ninguém.
Já sobre a mudança de paradigma, gostava de lembrar que o termo tem vindo a cair em desuso em favor de "polissistema", que abarca precisamente isto que vocês estão a fazer: choque de tendências. Só que a tendência que a História Literárias virá a chamar dominante terá sempre que ver com a promoção, carisma e capacidade mobilizadora dos génios individuais (falo em génio sem qualquer resquício de romantismo).
Saudações.

Rui Lage disse...

Caro Alfinete, penso que você, à semelhança de outros comentadores, não leram o meu primeiro comentário até ao fim (o que, de resto, não tem qualquer importância). Eu não falo, em lado algum, de hiper-realismo oposto a visionarismo, ou seja lá o que lhe quiserem chamar. De facto, como diz a Lydia, Freitas e Melícias nada têm que ver um com o outro. Se discordo do João quando aponta aqueles dois textos do Freitas e do Gomes Miranda como exemplos do futuro, mais ou menos próximo, da poesia portuguesa, e se não deixo de dizer que, referindo-me ao "Martha", "(...) em meu entender, não estamos, de forma alguma, perante um objecto que abra novas portas, ou que faça desfilar promessas de novos horizontes. Trata-se apenas de uma habilidade, ou de uma curiosidade", também digo, por outro lado, e volto a transcrever: "Penso aliás que o Freitas, que tem escrito poemas magníficos (e que desbravam, para horror de muitos fundamentalistas, novos territórios) tem plena consciência disso". Um exemplo (de um poema magnífico de Manuel de Freitas)? Aqui fica, do livro "A Flor dos Terramotos" (2005):


PASSEIO ALEGRE - I (FOZ DO DOURO)

para o Eugénio de Andrade



O poeta já não vive na casa que lhe deram.
Pelo fim da manhã, as ondas obedecem
ao vento escuro de Dezembro.
Sabemos que não voltaremos
a ver nenhuma destas gaivotas
e que todos os rios, mesmo
os que não existem, desaguam na morte.

E contudo, o amor − esse modo tão simples
de chegar a ninguém. O que custa,
às vezes, é perder a morada
de um afluente do silêncio;
já ficou para trás a casa vazia do poeta.

Mas quero-te mostrar Miragaia
− seguiremos pela ponte de metal,
ignorando todos os eléctricos.

As aves despedem-se.
Nunca fizeram outra coisa.

---

Bem sei que as opiniões variam, divergem, chocam, etc., mas ninguém será capaz de me convencer que versos como

"E contudo, o amor − esse modo tão simples
de chegar a ninguém"

ou o dístico final, a dialogar com o célebre poema de Eugénio,

"As aves despedem-se.
Nunca fizeram outra coisa"

não são do melhor que a poesia portuguesa contemporânea tem hoje para oferecer. É, aliás, o mais belo poema dedicado a Eugénio que me foi dado a ler desde a "Carta de Amor" do Jorge Sousa Braga.

Já agora, uma vez que me referi à "ars poetica" do JLBG, e porque ele, muito sensatamente, não coloca neste blogue poemas da sua autoria, aqui fica também um do recém-nascido "Luz Última":

DECEPÇÃO À REGRA


Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

---

Espécie de subversão, empática, do Mário de Sá-Carneiro.

---

Quanto aos poetas do século XIX que melhor sobreviveram à passagem do tempo, e embora eu continue a gostar muito de ler o Antero, não poderia estar mais de acordo com o Alfinete: Cesário e Gomes Leal, a que acrescento ainda o Pessanha.

No defunto "Quartzo, Feldspato & Mica", onde tive a honra de colaborar durante cerca de um ano, coloquei pelo menos dois poemas do Gomes Leal:

http://quartzo-feldspato-mica.blogspot.com/2004/03/post-scriptum-169.html

e

http://quartzo-feldspato-mica.blogspot.com/2004/03/post-scriptum-175.html

Saudações!

Anónimo disse...

A questiúnculas à volta da poesia dão nisto: da teoria (de que se sabe pouco e que não passa de pretexto) passa-se aos nomes e com os nomes vêm os insultos, sobretudo pela mão daqueles que nada têm para dizer, mas que vive devorados pela sua própria mediocridade.

Jorge Melícias disse...

Sr. Lage

O seu adeus comoveu-me profundamente. E fê-lo a tal ponto que não resisti, a uma vez mais, volver os olhos para a sua honesta, dada, conciliadora, honesta de novo, magnânima, boa e bem formada pessoa. Para quem cultiva a humildade são muitos adjectivos, há-de concordar.
Assim como terá de aceitar que, aos meus olhos, a leitura que fez da minha poesia se revelou tão confrangedoramente pobrezinha e redutora, que assumiu contornos de ataque pessoal. Mais do que o resultado do trabalho sério de um "experimentado, ainda que jovem analista" (como alguém, aqui, o apelidou), o seu comentário assemelhou-se a uma nova tentativa para engrossar fileiras.

Depois, bem, depois entramos no domínio das inolvidáveis sequelas do filme "Rocky". Terei sonhado ou fui, de facto, desafiado para um duelo? Terá o fidalgo trocado as luvas de pelica pela nobre arte do boxe? E haverá espectadores? E sangue? Tenha lá santa paciência. Já não há pachorra para essa siciliana noção de honra. Tomarei, portanto, o seu delírio por aquilo que ele é.
E componha-se, homem!

Adeus (sem cenários)

Vitor_Vicente disse...

Lage, tens razão. O Melícias, como não consegue ser falado pelos seus livros de poesia, está a tentar chamar a atenção a pregar sobre o que é e não é poesia, a dele e dos herbertinhos com h pequeno e a da Coopertiva Expresso, respectivamente.

Oh Melícias, ergue mas é uma paróquia e vende passaportes para a posteridade !

Ruy Ventura disse...

Com todo o respeito que tenho por si, caro João Luís, acho que os poemas transcritos do Gomes Miranda e do Freitas (no post anterior) não constituem risco algum. Fazem antes parte de uma estratégia de aproximação ao leitor que já não consegue entender uma metáfora porque está fossilizado por tanta banalidade que lhe é transmitida todos os dias pela televisão, pelos jornais, pelo cinema, por romances sem literatura, etc.. Quanto ao realismo, seja hiper ou não (hiper verá de hipermercado), não constitui novidade alguma nem na nossa poesia nem na poesia de todos os tempos. Que risco há, então, em escrever versos destes? Nenhum. Já Cesário fez o mesmo. Só não falou me telemóveis e em análises clínicas porque no tempo dele não havia tal coisa.
Só que Cesário fazia uma coisa que os poemas transcritos não fazem: transfigurava a realidade. Tal como depois dele fizeram Fernando Pessoa, Raul de Carvalho, Armando Silva Carvalho, José do Carmo Francisco, etc. etc.

Ruy Ventura disse...

Nisto tudo o bom é discutirmos ideias. Insultos não dignificam ninguém. O João Luís e o Rui Lage são pessoas sérias, concorde-se ou não com as suas opiniões.

alfinete disse...

Rui Lage,

De facto, a dada altura devo ter confundido os seus comentários com os do Ruy Ventura, com quem aliás também concordo em muitos pontos. Eu também não gosto da Martha, mas gosto do Manuel de Freitas e do Tom Waits.
Relativamente ao Gomes Leal, ainda bem que gostamos os dois. Deixei mais umas palavrinhas dele no Alfinete d'Ama.

Rui Lage disse...

Obrigado ao Ruy, que me conhece.

Roberto Geada disse...

"As aves despedem-se.
Nunca fizeram outra coisa"

Este verso parece uma das parolices do Eugénio de Andrade... É do melhor que a poesia portuguesa tem para oferecer? Porra, não admira que eu só leia da Inglesa... temos a poesia entregue aos tótós.

Ruy Ventura disse...

Nisto tudo é preciso ter cuidado para não nivelarmos por baixo. É preciso, ainda, não fazermos do realismo uma arte ao serviço de qualquer outra coisa, seja essa coisa a política (como fizeram os neo-realistas) ou outra cena qualquer, por melhor intensionada. Seria muito bom para certos defensores da poesia "hiper-realista" relerem os ensaios de Ruy Belo, por exemplo, para terem consciência de que a poesia só vinga quando vai para além do circunstancialismo, quando se torna universal e intemporal. Isto não significa, claro, que retiremos dos poemas o mundo concreto em que nos foi dado viver. Não. Temos contudo a obrigação de transfigurá-lo, simbolizá-lo, etc., para que a multiplicação de sentidos se dê. Quando isto não acontece, algo de podre está a acontecer na literatura. Até pode estar a surgir um novo paradigma (como no romance, cada vez mais banal), mas é um paradigma empobrecedor e alienante, sem qualquer transcendência. Não é por acaso que o João Barrento chamou à poesia do Freita "imanente". O meu caminho é semelhante ao do García Márquez: fartas da realidade andam as pessoas; vale a pena continuar a dar-lhes, até na poesia, uma realidade tão rasteirinha? Acho que não.
Mas nisto de realidade recordo sempre um post do Rui Lage no defundo "Quartzo": será menos real uma estrela? será menos real uma angústia? Ou é preciso andarmos todos a transformar os poemas em narrativas neo-realistas? Começo a suspeitar que existem alguns poetas que são contistas frustrados, o que não é mal nenhum, desde que se assumam enquanto tal, à semelhança de Lobo Antunes que se diz "poeta frustrado".

Rui Lage disse...

Ruy, não me queres com certeza convencer de que não há boa poesia circunstancial, pois não...? Porque isso seria pura e simplesmente falso. A questão está em a poesia circunstancial não ficar refém da circunstância ou das circunstâncias. Porque esse alcance universal, essa suspensão da temporalidade que TODA a poesia almeja, também pode, justamente, partir do mais banal dos acontecimentos. Não vejo, sinceramente, que objecções é que podem ser feitas a tal constatação. Basta, por exemplo, ler... o Ruy Belo, que invocas no teu comentário. Assim de repente lembro-me de um poema chamado "Vat 69"... que tu conheces certamente se és leitor do Ruy Belo. E poderia falar ainda do Assis Pacheco, do M.A.Pina, do Sena, e de tantos outros. Tu falas em transfigurar a realidade. É uma expressão que também uso com frequência. Mas explica-me por favor, para que nos entendamos, em que consiste para ti essa transfiguração. Não poderá ela partir (ou ter por base, como queiras), virtualmente, de qualquer coisa, qualquer objecto, qualquer situação, etc., como nos poemas do Carlos Williams? Ou falas de uma transfiguração da realidade tal que da realidade já nada reste? Aí temos a poesia que, quando é boa, é abstracta (o que não significa, como tu sabes pois lembras-te bem do meu post, que seja menos "real"), e, quando é má, parece uma sucessão de efeitos especiais, de fórmulas de encher o olho mas que já só conseguem aborrecer, do tipo "há uma deflagração assombrosa". Parece o equivalente aos filmes de "terror" que actualmente se fazem em Hollywood": muito fogo-de-artifício, muitos meios de produção, mas nenhuma ideia nova, nada que surpreenda, nada que não seja previsível. Enfim, aquele tipo de poemas que, lido o primeiro verso, já se sabe como é que vão acabar...

Depois há que dizer que o caminho da abstracção também já foi muito trilhado: Ramos Rosa, Echevarria, Fernando Guimarães, Gastão Cruz... e também já deu o que tinha a dar. Quanto ao "real", ou à "realidade", não sei se serão para aqui chamados. O que eu escrevi foi que há lugar para diversas sensibilidades e registos poéticos, escrevem-se bons livros quer de um lado da barricada quer do outro (mas sobretudo escrevem-se bons livros ao centro, na terra-de-ninguém). Eu escrevi que "um pensamento é tão real quanto uma garrafa de vinho", que "tudo é real ou nada é real" e ainda que "o real/ é tão natural/ quanto a sua sede". O que mantenho, pois claro.

Um abraço.

PEDRada no charcO disse...

"Depois há que dizer que o caminho da abstracção também já foi muito trilhado: Ramos Rosa, Echevarria, Fernando Guimarães, Gastão Cruz... e também já deu o que tinha a dar. Quanto ao "real", ou à "realidade", não sei se serão para aqui chamados. O que eu escrevi foi que há lugar para diversas sensibilidades e registos poéticos, escrevem-se bons livros quer de um lado da barricada quer do outro (mas sobretudo escrevem-se bons livros ao centro, na terra-de-ninguém). Eu escrevi que "um pensamento é tão real quanto uma garrafa de vinho", que "tudo é real ou nada é real" e ainda que "o real/ é tão natural/ quanto a sua sede". O que mantenho, pois claro."

Concordo muito, menos no "já deu o que tinha a dar", já que neste século XIX penso haver lugar para tudo, inclusivamente o revalorizar de estéticas passadas, goste-se ou não.

Eu não entendo é um coisa: porque é que têm algumas pessoas tanto medo da contradição? (atenção que eu não estou a acusar ninguém)

peço desculpa por esta intromissão, vou-me já embora

PEDRada no charcO disse...

*errata: deve ler-se "século XXI" e não "século XIX". como é óbvio

formol disse...

JLBG, independentemente das estéticas, do valor ou seja o que for; independentemente dos teus círculos, dos teus interesses, e das tuas estratégias que eu nunca vi explícitas (mesmo que fossem, quem não as tem?), continua PF com o blogue no espírito original: exploratório, aberto, progressivo, muito new england.

O teu método é bom, e o resto é... o resto.

Abraço.

PS: Para espantar os analistas, ainda não peguei no livro deste tipo JLBG cujo blogue admiro. Decidi viver nas montanhas (onde a arte nunca faz sentido, porque a maior arte é observar as nuvens, como dizia Goethe); mas quando voltar a Lisboa, na visita mensal, vou à livraria do King procurar as últimas luzes e folhear as orlas. Eu sou um romântico, e a impressão que me dá é que vocês todos vivem há demasiado tempo dentro do cimento e demasiado dentro do cérebro. Isso nem sempre é bom. Experimentem observar as árvores, a forma como a chuva cai, o seu movimento, o seu brilho, e depois reflictam sobre o sentido das coisas, da vida e do caneco. Alguma coisa boa há-de vir daí.

Cumprimentos para todos.

Ruy Ventura disse...

Rui,
tu próprio deste a resposta ao que perguntas: é universal o que não se prende às circunstâncias, mas parte delas para criar (imaginar, se quiseres) outra realidade, que por não estar presa se torna universal. Era o que o Ruy Belo fazia e muitos outros como ele.
É o que os cultores do tal hiperrealismo (eu chamar-lhe-ia neo-realismo recauchutado) não fazem.
Quando à poesia da abstracção (que não é tão abstracta como isso...) é ainda muito válida: basta lermos Echevarría, C. Ronald ou outros poetas que, infelizmente, ainda são muito pouco lidos.

Rui Lage disse...

Sim, Pedrada no Charco, talvez me tenha precipitado um pouco quando escrevi que as poéticas mais "abstractas" (à falta de melhor termo) já deram o que tinham a dar. O Luís Quintais, por exemplo, acaba por fazer a ponte entre o discurso mais abstracto e cerebral (em que a palavra poética reflecte sobre si própria, ou remete para si) e os pequenos acontecimentos do quotidiano. E o Rui Coias também, em certa medida. Há ainda um grande poeta (muito pouco lido, devido à dificuldade e à densidade da sua linguagem), um autor absolutamente original que se serve da poesia para produzir teoria sobre a poesia: FERNANDO GUERREIRO. Devia ser de leitura obrigatória para qualquer estudante de línguas e literaturas. Para além disso, é um ensaísta brilhante, que aborda matérias das quais a maioria se mantém preguiçosamente (e preconceituosamente) afastada.

Rui Lage disse...

Ruy, dir-me-ás que o seguinte poema de W. C. Williams, traduzido pelo JLBG,


O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de

um carrinho de mão
vermelho

luzindo com água da
chuva

ao lado das galinhas
brancas.


----
que se pode chamar de "circunstancial" (a circunstância sendo o "carrinho de mão/vermelho//luzindo com água da/
chuva//ao lado das galinhas/ brancas", ou seja, praticamente todo o poema), não é capaz de proporcionar uma experiência "universal"? Ou ter um alcance universal, para usar a tua expressão?

Ruy Ventura disse...

Atenção: está lá o "tanta coisa" que introduz o vago e anula em boa parte todo o concreto que aparentemente segue; depois o "luzir" que tem a mesma função. Estas duas palavras constituem a "areia nos dentes" de que falava João Cabral, a que distingue um texto de circunstância de um texto que parte da circunstância para outros mundos.

Rui Lage disse...

Mas então, afinal, Ruy, de que é que estamos para aqui a falar...? Se concordas que em poemas e poetas tão diversos uns dos outros (como aqueles de que se tem falado nestes comentários) acontece a tal transfiguração da realidade... O que é que sobra? Assim não percebo aquilo a que te opões, ou de que te demarcas...

Ruy Ventura disse...

Demarco de poemas descarados como o "Martha perdi o teu número" e outros quejandos que até podem estar a estabelecer na poesia portuguesa um novo paradigma, mas provocarão nela, se tiverem sucesso (coisa que não desejo), o mesmo que já aconteceu a muita ficção: o empobrecimento. Um empobrecimento tão grande que, daqui por alguns tempos, nada seja transfiguração, mas apenas representação do concreto, melhor ou pior conseguida.
O perigoso de tudo isto são os monopólios. Como escreves, pode haver transfiguração em vários domínios poéticos, em vários veículos de expressão. Eu não excluo poetas, mas versejos que provocam uma erosão na poesia.
Também não embandeiro em arco com certas coisinhas que por aí vão aparecendo e que muitos apresentam como inovações, renovações, etc.. Acontece-me frequentemente descobrir que ela são apenas reflexos epigonais de alguns padrinhos que, tantas vezes, se querem esconder. Ora, quando se trata de padrinhos, francamente, prefiro o original à cópia.
Mais poderia escrever, sobre aquilo a que me oponho ou de que me demarco, mas a conversa já vai longa e, com sinceridade, o que me interessa é escrever o que não posso deixar de escrever, agrade ou não aos senhores que vão constituindo a crítica bem colocada.

Anónimo disse...

Este poema de Melícias é fraquinho, fraquinho.
Um imaginário verbal mais batido do que o Caminho de Santiago, o dele. Um cocktail de vozes alheias, a isso se resume este poema, ou seja: 4 versos de Eugénio de Andrade + 3 de Herberto Helder.
Ao menos podia ter ido copiar coisas mais longínquas, que é o que fazem os poetas de maior talento. Mas para isso era preciso ter lido essas coisas longínquas. Só que os "poetas" tipo Melícias não têm tempo para ler. Ou só lêem até aos 20 anos, os preguiçosos. E por isso ficam a vida toda amorosamente agarrados aos poetas da sua adolescência, num doce enlevo de naif imitação.
Mas disto - "a poesia" - não há-de vir mal ao mundo, e se o Melícias está convencido de que escreve poemas, deixá-lo estar. É totalmente inofensivo, e se há adjectivo que se possa aplicar à esmagadora maioria dos poetas, é esse: inofensivos. Muito pior faz a programação televisiva dos canais portugueses, e com isso ninguém se indigna. A televisão sim, é um verdadeiro massacre intelectual.

PEDRada no charcO disse...

Muito obrigado pelas referências de novos poetas, caro Rui Lage... irei procurá-los quanto antes!

cumprimentos

Anónimo disse...

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rouxinol de Bernardim disse...

Melícias trilhar "novos caminhos"? Até me trilha a alma!!!
Trilhar, trilho eu (e mais uns poucos...) fazendo novos trilhos nas veredas do futuro. Mas, como trilha... meu Deus!...

Rouxinoldebernardim@blogspot.com

Luiz Costa disse...

Sr. Lage

Acho que realmente o senhor necessita de uma dose de humildade. Talvez uma tão grande quanto à de vaidade (não justificada porém).

Não lhe vou pedir, nem muito menos implorar que o faça, mas vamos, recomendo-o a crescer um pouco, e voltar à vida quando conseguir alargar o seu mundo literário à poesia de Jorge Melícias.

Se no mundo da música existisse apenas um estilo, de certo muita gente não se conseguiria identificar com a Música em si. O mesmo se passa com a poesia.

Jorge Melícias pede compreensão exímia, e não uma interpretação de 10 segundos. Quando possuir as capacidades para levar a cabo este desafio literário, partilhe.

Vitorarezes disse...

Andam a estragar poesia... enfim... encontrei este video aqui na net e penso que nele está tudo isto muito bem explicado.

http://www.youtube.com/watch?v=apXzDueA0oc


Olha, também sou poeta! Querem ver:

"O pudor assassino das petalas quase escarlates na periclitância de um puxador, faz-me sentir azul."

Rita disse...

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