terça-feira, março 28, 2006

GERRIT KOUWENAAR

GERRIT KOUWENAAR, juntamente com Lucebert e Hugo Claus, foi um dos membros mais importantes da Geração de 50 da poesia holandesa, tendo pertencido na vertente literária ao célebre grupo "COBRA". Escreveu August Willemsen acerca deste poeta holandês, na Introdução a “Um Mundo Claro, Um Dia Escuro” (Limiar, 1988): “Partindo duma poesia de tipo quase jornalístico, comprometido, Gerrit Kouwenaar (n. 1923) evoluirá para uma poesia que deriva de Mallarmé, René Char e Henri Michaux, mas também do americano Wallace Stevens – poesia essa em que o poema, coisificado, é o seu próprio assunto, e em que da primeira fase só restam os grandes temas da violência, da guerra e da morte. Nisto Kouwenaar lembra vagamente o Drummond de Andrade da fase de A rosa do povo (1945), colectânea na qual referências nerudianas à Guerra Mundial emparelhavam com um programa poético como ‘Procura da Poesia’. No entanto, o poema coisificado, associado à lembrança da fome durante a guerra, sugeriu a Kouwenaar uma imagética ‘sui generis’, marcada pela metáfora da (não-)comestibilidade. Em última análise a obra de Kouwenaar pode ser definida como um exame extremamente subjectivo da linguagem, numa tentativa de saber se o poema é a realidade ou se se interpõe entre nós e a realidade.” "Terceiro Canto Heróico" fala de uma dessa experiências de guerra. Um poema que pelo seu curso narrativo (sobre o real ou entre nós e o real?) ecoa a recente polémica deste blogue. É um poema dos anos 50...


TERCEIRO CANTO HERÓICO

Na véspera da paz mandou-nos o nosso omnipotente
pai major a mim e a mais seis para o silêncio
da morte nocturna, rumo
ao inimigo supostamente derrotado

sete batedores na fronteira
de quase tudo: guerra carne vida, caindo
em meio da névoa na armadilha: apenas eu
como por milagre fui poupado

enterraram-se no local
entre eles o meu companheiro inseparável
de quatro anos de trincheira

seis meses mais tarde, já primavera, eu estudava
ciências humanas na cidade, bebia cerveja, comia
bifes, mulheres, veio
o pai dele, disse: você
está vivo, era
companheiro dele, sabe
onde está sepultado, então ajude-me
a desenterrá-lo, é proibido, bem sei, mas é claro
que ele tem de ficar connosco no jardim

que podia eu fazer, fiz, cavei,
desenterrei-o com o pai, reconheci-o
pelo número da plaquinha, ele pendia
desengonçado, tépida massa mole, minha mão
afundou-se no cadáver até ao punho, tão assustada
com a matéria que desastradamente
fez um buraco

após o enterro, ele clandestino na sua própria terra, estava eu
na sala de jantar deles com a mãe a irmã o pai, bebendo
um copinho de lágrimas, conversando
em torno do seu retrato de menino
e contava: íamos juntos agachados, falávamos
em voz baixa acerca de um futuro melhor, fumávamos
juntos um cigarro belga, juntos não suspeitávamos
nenhum perigo / ele era
soldado corajoso, obediente
com dignidade, amava
mozart, wagner a pátria, prestava atenção
ao sussurro das suas árvores / escondi
pouco da sua verdade, só omiti
o indizível putas e pulgas e de que modo
estraçalhávamos como carniceiros

pois é, era primavera no jardim
onde o enterrámos sussurrava
o plátano, árvore fazedora de mãos, no ar
havia algo perfeito, acabado, per-
feito finalmente, até a lua
parecia novinha, sua irmã carnal estava suspensa
dos meus lábios, lá pelo fim de Abril
num corpo apertado, a groselheira
perfumava a terra, a minha mão tocou-lhe
os seios, a minha mão

tocou-lhe os seios e era
a mesma tépida massa mole, a mesma
tépida massa mole, o mesmo material
simplesmente o mesmo, e era
esta mesma mão, esta


(Tradução do neerlandês de August Willemsen e Egito Gonçalves)


2 comentários:

rui disse...

será que todos os grandes poetas holandeses se chamam Gerrit?

Anónimo disse...

será que isso é uma pergunta?