GERRIT KOUWENAAR, juntamente com
Lucebert e
Hugo Claus, foi um dos membros mais importantes da Geração de 50 da poesia holandesa, tendo pertencido na vertente literária ao célebre grupo "
COBRA". Escreveu
August Willemsen acerca deste poeta holandês, na Introdução a “
Um Mundo Claro, Um Dia Escuro” (Limiar, 1988): “Partindo duma poesia de tipo quase jornalístico, comprometido,
Gerrit Kouwenaar (n. 1923) evoluirá para uma poesia que deriva de
Mallarmé,
René Char e
Henri Michaux, mas também do americano
Wallace Stevens – poesia essa em que o poema, coisificado, é o seu próprio assunto, e em que da primeira fase só restam os grandes temas da violência, da guerra e da morte. Nisto
Kouwenaar lembra vagamente o
Drummond de Andrade da fase de
A rosa do povo (1945), colectânea na qual referências nerudianas à Guerra Mundial emparelhavam com um programa poético como ‘
Procura da Poesia’. No entanto, o poema coisificado, associado à lembrança da fome durante a guerra, sugeriu a
Kouwenaar uma imagética ‘
sui generis’, marcada pela metáfora da (não-)comestibilidade. Em última análise a obra de
Kouwenaar pode ser definida como um exame extremamente subjectivo da linguagem, numa tentativa de saber se o poema
é a realidade ou se
se interpõe entre nós e a realidade.” "
Terceiro Canto Heróico" fala de uma dessa experiências de guerra. Um poema que pelo seu curso narrativo (sobre o real ou entre nós e o real?) ecoa a recente polémica deste blogue. É um poema dos anos 50...
TERCEIRO CANTO HERÓICONa véspera da paz mandou-nos o nosso omnipotente
pai major a mim e a mais seis para o silêncio
da morte nocturna, rumo
ao inimigo supostamente derrotado
sete batedores na fronteira
de quase tudo: guerra carne vida, caindo
em meio da névoa na armadilha: apenas eu
como por milagre fui poupado
enterraram-se no local
entre eles o meu companheiro inseparável
de quatro anos de trincheira
seis meses mais tarde, já primavera, eu estudava
ciências humanas na cidade, bebia cerveja, comia
bifes, mulheres, veio
o pai dele, disse: você
está vivo, era
companheiro dele, sabe
onde está sepultado, então ajude-me
a desenterrá-lo, é proibido, bem sei, mas é claro
que ele tem de ficar connosco no jardim
que podia eu fazer, fiz, cavei,
desenterrei-o com o pai, reconheci-o
pelo número da plaquinha, ele pendia
desengonçado, tépida massa mole, minha mão
afundou-se no cadáver até ao punho, tão assustada
com a matéria que desastradamente
fez um buraco
após o enterro, ele clandestino na sua própria terra, estava eu
na sala de jantar deles com a mãe a irmã o pai, bebendo
um copinho de lágrimas, conversando
em torno do seu retrato de menino
e contava: íamos juntos agachados, falávamos
em voz baixa acerca de um futuro melhor, fumávamos
juntos um cigarro belga, juntos não suspeitávamos
nenhum perigo / ele era
soldado corajoso, obediente
com dignidade, amava
mozart, wagner a pátria, prestava atenção
ao sussurro das suas árvores / escondi
pouco da sua verdade, só omiti
o indizível putas e pulgas e de que modo
estraçalhávamos como carniceiros
pois é, era primavera no jardim
onde o enterrámos sussurrava
o plátano, árvore fazedora de mãos, no ar
havia algo perfeito, acabado, per-
feito finalmente, até a lua
parecia novinha, sua irmã carnal estava suspensa
dos meus lábios, lá pelo fim de Abril
num corpo apertado, a groselheira
perfumava a terra, a minha mão tocou-lhe
os seios, a minha mão
tocou-lhe os seios e era
a mesma tépida massa mole, a mesma
tépida massa mole, o mesmo material
simplesmente o mesmo, e era
esta mesma mão, esta
(Tradução do neerlandês de August Willemsen e Egito Gonçalves)