O título, como convém, é ambiguo. Começamos a ler os poemas - que têm por título substantivos, - e logo nos assalta a dúvida sobre quem será o narrador: o poeta, autobiográfico, ou uma
personna literária. Logo no primeiro poema, “
Chávena” apercebemo-nos da existência de um homem como personagem, para mais tarde descobrirmos, vinte e uma linhas depois, que afinal é a própria chávena quem fala: “
o chá desce sobre mim”.
"
O Acidente" é um livro de poemas que joga com o leitor e o surpreende a cada passo. Ao segundo poema, “
Bilhete de comboio”, começamos a desconfiar que o jogo da personificação se vai repetir, que a voz de cada poema irá ser a do objecto cujo significante encima o texto como título. Pela fala do “
Bilhete de comboio” apercebemo-nos de que alguém partiu, e ao terceiro poema, pela voz da “
Estante”, ficamos a saber que também existe uma criança a rondar por ali. No corpo do quarto texto é o “
Lápis” quem informa que a partida aludida no segundo poema terá sido definitiva, - uma morte, portanto - e é um “
Relógio”, ao sexto poema, quem nos diz que quem morreu foi uma mulher.
Este processo prossegue, de revelação em revelação, socorrendo-se de um quotidiano familiar e coloquial, mas mais importante do que isso, traçando a arqueologia de uma narrativa, re-construindo o esboço de um episódio, de uma estória, libertando aos poucos informação rasurada, enigmática, tensa, sintética, como é próprio da construção de uma ficção. Como se a complexidade sintática das obras anteriores a esta desse agora lugar a uma prosa fluente e limpa, densificando-se, ao invés, a forma e a estrutura.
Este é um livro conceptual e aí reside a sua originalidade. Não que
JORGE GOMES MIRANDA (Porto, 1965) não tivesse já esboçado este internar da poesia na ficção (citarei apenas como dois exemplos “
Quatro Mensagens deixadas no Telemóvel” (de “
A Hora Perdida”, Campo das Letras, 2003), ou a sequência de dois poemas em forma de "
E-Mail" sobre a Guerra do Golfo (“
Pontos Luminosos”, Averno, 2004), mas aqui como mais tarde em “
Resgate” (Fundação de Serralves, 2008), - neste último cruzando de forma ideal duas narrativas e duas vozes diferentes num só livro, - essa intenção representa todo um programa de escrita. Surpreendente e original, repito.
A razão porque regresso a este livro é a oportuna edição que teve em Espanha na
Editorial Quálea, (Torrelavega, Cantábria, 2009), graças à visão, labor e inteligência crítica de
José Ángel Cilleruelo que o repescou à vasta poesia portuguesa de hoje e o traduziu para castelhano, assim repondo além-fronteiras com inteira justiça, a atenção que este livro não mereceu em Portugal.
Voltando ao livro: aquele jogo de personificações narra qualquer coisa que não revelarei aqui mas permitir-me-ei escolher alguns dos seus momentos tensos, elípticos, irónicos ou humorados, como quando, por exemplo, o “
Bilhete de comboio” lamenta placidamente que “
meu destino será permanecer / e um dia despertar, no meio de um livro”, ou a “
Lâmina de barbear II” (existe uma primeira “
Lâmina de barbear”), enciumada, fala da “
casa de banho / onde, sem hesitação ou culpa, / me trocou por outra", ou ainda quando o “
Calendário de bolso” pisca o olho ao peso da memória relembrando que “
em mim trago também / os dias passados”. Ou, finalmente, quando a “
Mala de viagem” se queixa de que ele “
Atira a porta de casa / (...) Com maus modos leva-me pela mão" rematando óbviamente com duplo sentido, que só
"Por pudor não direi o que trago dentro de mim.”
Objectos com sentimentos, portanto, mas também o sentir os objectos olhando uma parcela do mundo com uma fortíssima preocupação ficcional, distanciando-se esta escrita da biografia e do confessionalismo.
José Ángel Cilleruelo fala mesmo "
de um passo mais no caminho de despersonificação que abriu Fernando Pessoa na poesia europeia: perdida a essência do eu
, ganham vida os objectos, as coisas, os acidentes
impregnados do rumor do sujeito".
Este é seguramente um daqueles livros que pelos motivos explicados funciona melhor em leitura completa. Mas aqui fica um poema de “
O Acidente” (Assírio & Alvim, 2007), que, relembro, foi finalista da
short-list de poesia do importante prémio literário
Correntes d’ Escritas 2009. Com a devida vénia:
MOLA DE ROUPAConservei-me afastada do estendal
durante algum tempo.
Sofro de vertigens, por isso
intimidava-me olhar para baixo,
o pátio vazio, restos de flores secas.
Um prédio com dez andares
e ele tinha logo que viver no último,
tendo como horizonte o mar
de terraços e antenas parabólicas.
Quando, chegado com a roupa
da máquina de lavar,
pega em mim,
de suas mãos eu deslizo para o chão.
Apressado, em vez de me apanhar
imediatamente, escolhe outra;
no final, atira-me para o cesto
de verga.
Não é que seja particularmente ardilosa,
mas verdade seja dita, preferia ser
mola de rés-do-chão,
dessas que faça sol ou chuva
sempre prendem a roupa numa corda
estendida no pátio.
O destino quis-me feita de plástico,
com um coração inclinado à melancolia.
Tenho, no entanto, como divisa
antes quebrar que torcer.
Sonho com o dia em que nas mãos da criança
serei um comboio.
§
Também
aqui e
aqui.