sexta-feira, julho 03, 2009

RUI PIRES CABRAL (5)

(este post vai dedicado ao meu novo amigo João Paulo Sousa)

RUI PIRES CABRAL (Macedo de Cavaleiros, 1967) acaba de publicar “Oráculos de Cabeceira” (Averno, 2009). Neste seu último livro, o autor permite que a sua voz assuma um registo mais pessoal - sem sombra de confessionalismo, porém - onde o assunto dos amores e do desencontro ("um coração / com defeito"), bem como uma especial capacidade para ver (para re-parar) naquilo que pode constituir material poético passivel de plasmar a contemporaneidade ("esta pomba trucidada pela ambulância"), são transversais a toda uma obra que, se quisermos, pode ser vista e lida como um único poema urbano feito de fragmentos que terminam, quase sempre, em finais disfóricos.

Uma das características que mais aprecio na poesia de Rui Pires Cabral é a qualidade sintáctica com que os poemas se desembrulham, se desenvolvem, numa original teia descritiva (a tempos, mais narrativa), que deixa vincada uma angustiante sensação de incompletude (“como um verso interrompido / nas costas de um envelope”), e a descrença niilista no absurdo da vida (“ou vontade de vingar / o dissabor de viver”).

As viagens (físicas) que caracterizavam os seus primeiros títulos dão agora lugar (porque "As cidades cansam") a uma muito particular viagem por uma lista de leituras (literalmente “abertas ao acaso”) que encimam cada poema, e que decorrendo num ambiente urbano que estava já presente na sua escrita, acentuam agora a perplexidade de uma paisagem sentimental interior que não é particularmente alegre nem feliz, e que a cada passo questiona a vida e os limites da existência, os "encargos / de sombra", sob o signo da solidão. Um desencanto indesistente, portanto: "tinta preta que não sai". Inconformada.

Um poema deste livro, com a devida vénia:



“He loved beauty that looked kind of destroyed”

Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrebalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


§


Também aqui, aqui, aqui e aqui.


1 comentário:

Efigênia Coutinho disse...

Jorge Sousa Braga, mais uma vez, retorno e gosto do que leio aqui.
Voc6e soube bem escolher o escritor RUI PIRES CABRAL.

Meus cumprimentos,
Efigênia Coutinho
Escritora