sábado, dezembro 31, 2005

Um falso CESÁRIO VERDE

De cada vez que sai uma nova edição de O Livro de Cesário Verde, sendo conhecedor de antemão da colecção de poemas que vou encontrar ainda assim adquiro a obra. Pode parecer tolice já que a colecção de poemas é invariavelmente a mesma, – mais ou menos inclusiva, nesta ou naquela sequência, – mas as notas biográficas sobre a vida do poeta que geralmente informam a introdução suscitam sempre o meu interesse. Agradou-me particularmente a biografia “romanceada” de João Pinto de Figueiredo, prefaciada por David Mourão-Ferreira, para a colecção Poetas, da Editorial Presença (1986), e ainda recentemente se publicaram pelo menos outras duas edições, uma com prefácio de Fernando Pinto do Amaral (Poesia de Cesário Verde, Texto Editora, 2004) e outra fixada por António Barahona (O Livro de Cesário Verde, Assírio & Alvim, 2004), isto para citar apenas algumas das 8 edições que ali guardo. Lidas e relidas.

Ao contrário de Pessoa, porém, – cujo baú parece não ter fundo, – é praticamente impossível aparecerem novos poemas do autodidacta da Rua dos Fanqueiros, porque outros textos que o "nosso Baudelaire" possa eventualmente ter escrito, ou ficaram esquecidos em qualquer folha de imprensa, ou foram apagados pelas chamas do incêndio de Linda-a-Pastora. Não parece ser esse o caso de Cesário Verde – Obra Poética e Epistolografia, de Ângela Marques (Lello Editores, 1999), onde se dá à estampa um poema inédito intitulado Loira (de 1878), acompanhado da seguinte nota de rodapé:


“Teve a rara felicidade de encontrar uma poesia de Cesário Verde, inteiramente desconhecida, o Sr. José do Nascimento Monteiro de Guimarães no álbum de uma senhora cujo nome não pode revelar o generoso bom gosto de a comunicar ao Dia, que a inseriu em seu número de 19 de Setembro de 1910, onde fomos buscar esses preciosos versos:”


LOIRA (grafia de época, itálicos meus)

Eu descia o Chiado lentamente
Parando junto as montras dos livreiros,
Quando passaste ironica e insolente
Mal poisando no chão os pés ligeiros.

O céu nublado ameaçava chuva.
Sahia gente fina de uma egreja;
Destacavam no traje de viuva
Teus cabelos de um loiro de cerveja.

E a mim, um desgraçado a quem seduzem
Comparações
extranhas, sem razão,
Lembrou-me esse contraste o que produzem
Os galões sobre o panno de um caixão.

Eu buscava uma rima bem intensa
Para findar uns versos com amor;
Olhaste-me com cega indiferença
Através do lorgnon provocador.

Detinham-se a medir a tua elegância
Os dandies aprumo e galhardia;
Segui-te humildemente e a distância,
Não fosses suspeitar que te seguia.

E pensava de longe, triste e pobre
(Desciam pelas ruas umas varinas)
Como podias conservar-te sobre
O salto exagerado das botinas.

Havia pela rua uns charcos d’água
E tu, sempre febril, sempre inquieta,
Ergueste um pouco a saia sobre a anagoa
De um tecido ligeiro e violeta.

Adoravel! Na idea de que agora
A branda anagoa a levantasse o vento
Descobrindo uma curva seductora
Cada vez caminhava mais attento

Mas súbito parei, sentindo bem
Ser loucura seguir-te com empenho.
A ti que és nobre e rica, que és alguém
Eu que de nada valha e nada tenho.

Correm-me pelo corpo um calafrio,
E tive para o teu perfil ligeiro
Esse olhar resignado do vadio
Que fita a exposição de um confeteiro.

Vi perder-se na turba que passava
O teu cabelo d’oiro que faz mal.
Não achei essa rima que buscava
Mas compuz este quadro natural.


Ora, a curiosidade deste poema reside no facto de se tratar de um FALSO Cesário. Como refere uma nota à edição, “Este poema foi encontrado por Jorge de Sena, num Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro, no Brasil, e posteriormente Joel Serrão pesquisou a sua autenticidade, tendo concluído que se tratava de um apócrifo e escrito pelo Dr. João de Meira, especialista em imitar versos das nossas maiores individualidades”. De facto, o episódio que o poema narra é demasiado coincidente com a leitura temática que fazemos da obra do poeta para poder ser expontâneo, – realismo, visão de artista, divisão social em classes, a mulher como deusa inatingível, – inclusive misturando aspectos de poemas de diferentes épocas - daquela que Silva Pinto chamou a Crise Romanesca, com os ditos Naturais, - desde a “Milady” de Deslumbramentos, à A Débil (onde inclusive se repete a expressão “Adorável!” no inicio de uma estrofe). No poema Loira vamos então encontrar a “actrizita” de Cristalizações, - os “charcos d’água” de um poema são os “lamaçais” do outro, os “pés ligeiros” aqui são os “pezinhos rápidos” além.

O vocábulo do verso 18 de Loira - "dandies" - é talvez a pista mais denunciadora. Mas esteve-se perto, muito perto, do logro perfeito, tivesse o “falsário” seguido à risca esta máxima da poesia: “Show. Don’t tell.



quinta-feira, dezembro 29, 2005

EZRA POUND

Saiu há dias para as livrarias a obra maior de EZRA POUND (1885-1972), Os Cantos (Assírio & Alvim, 2005), da qual apenas conhecia em português a tradução parcial de Luísa Campos e Daniel Pearlman (Do Caos à Ordem, Assírio & Alvim, 1983, 2ª edição 1993), além do original. Ezra Pound nasceu em Hailey, Idaho, tendo estudado nos Estados Unidos até 1908, altura em que viajando pela Europa se fixou sucessivamente na Irlanda, em Inglaterra, em França e em Itália. Ambicioso de personalidade – desejando deixar uma marca decisiva na poesia ocidental da sua época, – Pound fundou a corrente do Imagismo (mais tarde o Vorticismo) e apoiou decisivamente escritores tão importantes da sua época como vieram a ser Eliot, Joyce, Williams ou Hemingway, entre outros. A segunda metade da sua vida viu-o envolvido em polémicas e atribulações várias como o apoio propagandístico que prestou a Mussolini durante a IIª Grande Guerra Mundial, bem como um diagnóstico de insanidade mental e um internamento de doze anos num asilo americano. Perdoar-me-ão que confesse, no entanto, não serem Os Cantos (1925-70) em toda a sua diversidade e complexidade o "meu" livro de Ezra Pound, antes Cathay (1915), traduzido para português por Gualter Cunha, na Relógio d’Água (1995), obra onde o americano revisita a poesia oriental de Rihaku (Li Po) entre outros, leitura seguramente muito ao gosto de Jorge Sousa Braga e Casimiro de Brito. The River-Merchant’s Wife: A Letter, é um poema a que volto frequentemente para apurar a minha versão.



THE RIVER-MERCHANT’S WIFE: A LETTER
(after Rihaku)

While my hair was still cut straight across my forehead
I played about the front gate, pulling flowers.
You came by on bamboo stilts, playing horse,
You walked about my seat, playing with blue plums.
And we went on living in the village of Chokan:
Two small people, without dislike or suspicion.

At fourteen I married My Lord you.
I never laughed, being bashful.
Lowering my head, I looked at the wall.
Called to, a thousand times, I never looked back.

At fifteen I stopped scowling,
I desired my dust to be mingled with yours
For ever and for ever and for ever.
Why should I climb the look out?

At sixteen you departed,
You went into far Ku-to-yen, by the river of swirling eddies,
And you have been gone five months.
The monkeys make sorrowful noise overhead.

You dragged your feet when you went out.
By the gate now, the moss is grown, the different mosses,
Too deep to clear them away!

The leaves fall early this autumn, in wind.
The paired butterflies are already yellow with August
Over the grass in the West garden;
They hurt me. I grow older.
If you are coming down through the narrows of the river Kiang,
Please let me know beforehand,
And I will come out to meet you
As far as Cho-fu-Sa.



§



A ESPOSA DO MERCADOR DO RIO: UMA CARTA
(a partir de Li Po)

Quando era ainda curto meu cabelo sobre a fronte
Brincava junto ao portão da frente arrancando flores.
Você veio em andas de bambu, brincando aos cavalos,
Caminhando até onde eu estava, brincando com ameixas azuis.
E assim fomos vivendo na aldeia de Chokan:
Duas pequenas pessoas, sem antipatia ou suspeita.

Aos catorze, Meu Senhor, casei consigo.
Jamais me ria, de tão tímida.
Baixando a cabeça, olhava a parede.
Por mil vezes chamada nunca olhei para trás.

Aos quinze deixei de fazer carranca,
Desejei que meu pó se misturasse com o seu
Para sempre, oh, para sempre, oh, para sempre.
Porque haveria eu de subir à vigia?

Aos dezasseis você partiu,
Até à longínqua Ku-to-yen, pelo rio de redemoinhos espirais,
E já está fora há cinco meses.
Os macacos fazem um ruído dorido lá em cima.

Arrastou seus pés quando saiu.
Agora, junto ao portão, o musgo cresceu, os diferentes musgos,
Demasiado fundo para os arrancar!
As folhas caem cedo com o vento, este Outono.
As borboletas, aos pares, já estão amarelas com Agosto
Sobre a relva no jardim de oeste;
Elas ferem-me. Envelheço.
Se planeia descer pelos estreitos do rio Kiang,
Por favor deixe-me saber de antemão,
E eu sairei a encontrá-lo
Tão longe quanto Cho-fu-Sa.



CHARLES SIMIC

Um dos registos que mais aprecio na poesia é o tom de ironia e de humor. A ironia verbal, como se sabe, pode ser definida como a prática de afirmar uma coisa quando se pretende dizer – ou se pensa – outra. Assume um valor de subentendido ou atenuação, quando fica aquém dos factos, e a condição de exagero quando diz mais que a verdade. Dois exemplos – não por acaso retirados da Poesia Reunida, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim, 2001) – podem bem ilustrar estes conceitos, o primeiro como exemplo de atenuação, o segundo de exagero (understatement e overstatement, como dizem os anglosaxónicos):



“Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado”

in
Neste Preciso Tempo, Neste Preciso Lugar



"O braço que falta ao mendigo é o que o sustenta”

in O Braço.



CHARLES SIMIC nasceu em Março de 1938 em Belgrado, na antiga Jugoslávia (hoje Sérvia-Montenegro) e emigrou para os Estados Unidos em 1953, onde se encontrou com o pai, emigrante em Nova Iorque, tendo posteriormente obtido a nacionalidade norte-americana. José Alberto Oliveira traduziu-o para a nossa língua em Previsão de Tempo Para Utopia e Arredores, livro que foi editado pela Assírio & Alvim em 2002. O poema que se segue – e que tentei traduzir – é bem exemplo da derisão que caracteriza boa parte da obra deste poeta. São versos exactos e inteligentes, tão inesperados quanto desarmantes, que frequentes vezes tocam o surrealismo. Chama-se o poema Mecânica Popular. Como se perceberá, ainda não será bem esta a solução para os tempos de crise que vivemos cá pelo rectângulo.



POPULAR MECHANICS

The enormous engineering problems
You’ll encounter by attempting to crucify yourself
Without helpers, pulleys, cogwheels,
And other clever mechanical contrivances –

In a small, bare, white room
With only a loose-legged chair
To reach the height of the ceiling –
Only a shoe to beat the nails in,

Not to mention being naked for the occasion –
So that each ribbon muscle shows,
Your left hand already spiked in,
Only the right to wipe the sweat with

To help yourself to a butt
From the overflowed ashtray,
You won’t quite manage to light –
And the night coming, the whiz night.



§



MECÂNICA POPULAR

Os enormes problemas de engenharia
Que encontrarás ao tentar crucificar-te
Sem ajudantes, roldanas, engrenagens,
E outros dispositivos mecânicos inteligentes –

Numa sala pequena, clara e despida
Apenas uma cadeira de pernas frouxas
Para alcançar a altura do tecto –
Um só sapato para martelar os pregos,

Já p’ra não falar de estares nu para a ocasião –
De modo que cada músculo costal se exiba,
A tua mão esquerda já cravada,
Apenas a direita para limpar o suor

E ajudar-te a alcançar a beata
Do cinzeiro a transbordar,
Que não conseguirás acender –
E a noite chegando, a longa noite zumbindo.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Sobre Revisão


Logo após ter entregue o manuscrito do próximo livro de poemas à casa editora que o acolheu, percorreu-me uma grata sensação de alívio. E de desprendimento, devo escrever. É algo recorrente em mim. Certo que ainda falta essa espinhosa tarefa que é a revisão das provas - que mais não é senão uma nova mutilação dos poemas, - mas a consciência que se tem ao encerrar um manuscrito é a de que o livro já não é mais nosso, a de que se pode agora avançar para novas realizações. Como uma porta que se fecha. Desde esse dia tenho andado perdido, deliciosamente perdido no ofício de tratar as dezenas de cadernos – as dezenas de poemas – onde fui deixando tinta desde Março. Sem me ter apercebido, por falta de visão de conjunto, existe já um considerável número de estudos que fui esboçando desde a data da morte de meu pai. Ainda estão todos em aberto. O que se passa comigo é que há um momento certo (qual?) para copiar os poemas dos cadernos (onde existiam em grafia manual) para o computador (onde viverão em letra de imprensa). Uma precipitação nesse acto, uma antecipação ansiosa pode matar um poema ou pelo menos condená-lo a uma longa hibernação por muitos e muitos meses. O choque de ler em letra de imprensa o que se entreteu à mão pode parecer absurdo mas para mim é tremendo. É bem o seu primeiro teste. Daí que as revisões me ocorram vezes sem conta sobre o mesmo papel, camada sobre camada, tinta preta sobre azul, até o texto ser ilegível. Até só mesmo eu conseguir seguir a pista dos versos como quem segue um trilho. Quase o esculpir de um poema, portanto. Antes reescrevê-lo por inteiro, papel sobre papel, que plasmá-lo cedo de mais no branco frio de num ecrã. E quando é que um poema "está pronto"?


terça-feira, dezembro 27, 2005

D. H. LAWRENCE

D(avid) H(erbert) LAWRENCE (1885-1930), pseudo-imagista inglês nascido e criado em Nottingham, escreveu poemas sobre figueiras, amendoeiras e ciprestes. Também o fez sobre gencianas. Este Bavarian Gentians é bem exemplo do seu desejo por uma união mais estreita entre homem e natureza. Incluído em Birds, Beasts and Flowers, de 1923, é um poema retórico profusamente ritmado, numa cadência muito ao gosto de um Walt Whitman. O segredo está na música, na aliteração das palavras “dark/darkness", “blue/blueness”, “dark-blue" e "blue darkness”. Um petisco para traduzir, portanto. Quem escolheria “bravas” em vez de “bávaras” que ponha o dedo no ar.



BAVARIAN GENTIANS

Not every man has gentians in his house
in soft September, at slow, sad Michaelmas.

Bavarian gentians, big and dark, only dark
darkening the day-time, torch-like with the smoking blueness of
Pluto's gloom,
ribbed and torch-like, with their blaze of darkness spread blue
down flattening into points, flattened under the sweep of white day
torch-flower of the blue-smoking darkness, Pluto's dark-blue daze,
black lamps from the halls of Dis, burning dark blue,
giving off darkness, blue darkness, as Demeter's pale lamps give
off light,
lead me then, lead the way.

Reach me a gentian, give me a torch!
let me guide myself with the blue, forked torch of this flower
down the darker and darker stairs, where blue is darkened on
blueness
even where Persephone goes, just now, from the frosted September
to the sightless realm where darkness is awake upon the dark
and Persephone herself is but a voice
or a darkness invisible enfolded in the deeper dark
of the arms Plutonic, and pierced with the passion of dense gloom,
among the splendour of torches of darkness, shedding darkness on
the lost bride and her groom.


§


GENCIANAS BÁVARAS

Nem todo o homem tem gencianas em casa
no suave Setembro, no lento e triste dia de São Miguel.

Gencianas bávaras, grandes e escuras, somente escuras
escurecendo as horas do dia, tochas com o azul esfumado da
escuridão de Plutão,
alinhadas como tochas, de chama escurecida espalhada de azul
aplanada em pontos, plana sob a varredura de um dia claro
flor em tocha da escuridão azul-esfumada, ofuscação azul escura de Plutão,
candeias escuras dos salões de Dis, ardendo em azul escuro,
emitindo escuridão, escuridão azul, como as pálidas candeias de Deméter
espalhando luz,
guiando-me então, escolhendo o caminho.

Colhe-me uma genciana, dá-me uma tocha!
deixa que me guie com a forcada tocha azul desta flor
pelas escadas abaixo, cada vez mais escuras, onde o azul é escurecido em
azulado
onde mesmo Prosérpina vai, agora mesmo, desde o Setembro gelado
até ao reino cego onde a escuridão é desperta sobre o escuro
e a própria Prosérpina não é senão uma voz
ou uma escuridão invisível envolta na mais funda escuridão
dos Plutónicos braços, e perfurada com a paixão da densa escuridão,
por entre o esplendor de tochas de escuridão, derrama escuridão sobre
a perdida noiva e o seu noivo.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Stop press: DAN BROWN poeta?

Você não perguntou mas eu respondo. José Saramago e DAN BROWN já têm pelo menos uma coisa em comum: ambos começaram pela poesia. É verdade: o americano (chapeaux!), nascido e criado em Nova Iorque também começou por esse género literário menor… O poema As Seen At The Uffizi foi publicado no seu livro Matter, de 1995, editado pela Crosstown Books. Reparem como, - já então, - o autor mostrava preferência pelos seus temas de sempre, a pintura (as in “Galleria degli Uffizi”) e “Matter” (as in matéria/antimatéria).



As Seen At The Uffizi

An audience of shepherds
Looks on adoringly
As Mary gently bounces
The babe upon her knee.

To Mary’s side stands Joseph.
He isn’t looking on.
His gaze is middle distance.
He wishes he were gone

Up into the high mountains
That rim the little town
To dwell among the shepherds
Till things have settle down.



P.S. - Segue um pequeno contributo como forma de ajudar a tornar este jovem autor americano um pouco mais conhecido entre nós.



Como Visto Nos Uffizi

Uma audiência de pastores
Assiste em adoração
Enquanto Maria embala
O bebé com devoção.

Ao lado de Maria está José.
Ele olha para o infinito.
Seu fito é a meia distância.
Desejaria que tivessem ido

Pela montanha alta acima
Pela borda ao povoado
Morar por entre os pastores
Até tudo acalmar um bocado.

sábado, dezembro 24, 2005

THOMAS McCARTHY

Na pequena antologia de poemas sobre o tema do pai que comecei a recolher logo após Março deste ano, O Jardim da Dor, de THOMAS McCARTHY ocupa lugar de destaque, quer pela força narrativa - fluída e indeclinável, - quer pela poderosíssima imagem final que me persegue desde a primeira vez que o li. Hoje é dia 24 de Dezembro, e é também o meu primeiro Natal sem pai. Thomas McCarthy nasceu em Waterford, na Irlanda, em Março de 1954 e é autor de uma importante obra poética onde a memória, a infância, a politica e a família, coexistem – por vezes num mesmo poema – em ambiente pagão e tradicional. Participou num dos Seminários de Tradução Colectiva em Mateus, em Setembro de 1991, tendo a sua colecção de poemas, editada pela Quetzal, sido revista e apresentada por Laureano Silveira.




O JARDIM DA DOR

I
BURACO, NEVE

É uma imagem de perda irreversível,
Este buraco na campa de meu pai que precisa
Continuamente de ser cheio. Agora, todos os meses, o meu
Tio vem para repor a terra com umas pás tiradas
Ao monte que sobrou. Olhos rasos de água,
Compensa o abater do corpo do irmão.
Chego na minha motorizada para ajudar
Mas ele não partilha o peso do desgosto.

Há seis meses que o meu pai morreu
E tem que suportar a neve funda;
Toda a noite caiu, silenciosa como o tempo,
Alisando e assemelhando tudo. Visitei
A campa gelada pelo Inverno, esperando ver
Um rasto de pegadas, um milagre da neve.



quinta-feira, dezembro 22, 2005

KAYLIN HAUGHT


Uma rápida consulta na web parece defini-la como um desses poetas de um poema só. Não será tanto assim. KAYLIN HAUGHT, autora de God Says Yes To Me, é uma jovem poetisa americana que parece seguir a linha de uma Adrienne Rich. Neste poema em particular - o único que lhe conheço - surpreendeu-me muitíssimo a sua definição de Deus.



GOD SAYS YES TO ME

I asked God if it was okay to be melodramatic
and she said yes
I asked her if it was okay to be short
and she said it sure is
I asked her if I could wear nail polish
or not wear nail polish
and she said honey
she calls me that sometimes
she said you can do just exactly
what you want to
Thanks God I said
And is it even okay if I dont paragraph
my letters
Sweetcakes God said
who knows where she picked that up
what I’m telling you is
Yes Yes Yes


In Steve Kowit’s The Palm of your Hand, Copyright 1995, Kaylin Haught.