quarta-feira, abril 14, 2010

MANUEL JORGE MARMELO acerca de CESÁRIO VERDE

«Porque continuo a gostar da poesia à moda antiga, com rima, métrica e essas coisas tão fora de moda; porque é o único poema que eu sei de cor; porque ganhei, quando era miúdo, uma viagem à Madeira com um pequeno ensaio que escrevi para concorrer aos jogos florais do Rodrigues de Freitas e, como foi a minha primeira viagem sozinho e, simultaneamente, o meu baptismo de voo, devo ao Cesário o início da minha emancipação (em curso, ainda) e o facto de ter aprendido a voar.» DE TARDE

Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma cousa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!



Manuel Jorge Marmelo nasceu no Porto em 1971 e é jornalista desde 1989. Estreou-se na ficção em 1996, com o livro "O Homem que Julgou Morrer de Amor", reeditado em 2006. Publicou depois "Portugués, Guapo y Matador" (romance, 1997), "Nome de Tango" (romance, 1998), "As Mulheres Deviam Vir Com Livro de Instruções" (romance, 1999; publicado em Espanha, em 2005, e em Itália, em 2008), "O Amor é para os Parvos" (romance, 2000), "Palácio de Cristal, Jardim-Paraíso" (álbum, 2000), "Sertão Dourado" (romance, 2001), "Paixões & Embirrações" (crónicas, 2002), "Oito Cidades e Uma Carta de Amor" (contos e fotos, 2003), "A Menina Gigante" (infantil, 2003, com Maria Miguel Marmelo e ilustração de Simona Traina), "Os Fantasmas de Pessoa" (romance, 2004), "O Silêncio de um Homem Só" (contos, 2004, Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco), "Os Olhos do Homem que Chorava no Rio" (novela, 2005, em parceria com Ana Paula Tavares), "O Peixe Baltazar" (infantil, 2005, com Jorge Afonso Marmelo e ilustração de Joana Quental), "O Porto: orgulho e ressentimento" (crónicas, 2006), "Porto Irrepetível" (guia, 2006), "Zé do Saco" (infantil, 2006, com ilustração de Evelina Oliveira), "Aonde o Vento me Levar" (romance, 2007), "O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo" (contos, 2007), "A Cabra Imigrante" (infantil, 2008, com ilustração de Miguel Macho) e "As Sereias do Mindelo" (Romance, 2008). Tem publicado regularmente textos e contos em diversas antologias e publicações, em Portugal, no Brasil, em Itália, no México e em França.

Leia mais acerca de Cesário Verde no Poesia Ilimitada, aqui (história de um falso poema de Cesário Verde) e aqui (algumas notas sobre a sua vida).



2 comentários:

Alexandre Espanhol disse...

Primeiro poema que li e analisei na minha vida. Muito bom

Eduardo Leal disse...

É de facto um Poeta fantástico e que me marcou imenso.