domingo, setembro 21, 2008

LASSE SÖDERBERG

LASSE SÖDERBERG nasceu em 1931 em Estocolmo, na Suécia. Vive actualmente em Malmö. Uma selecção da sua poesia, “Coração de Papel”, revista por Ana Luísa Amaral e Gonçalo Vilas-Boas, de forte inspiração surrealista, foi editada em 2001 pela Quetzal, na sequência da tradução colectiva que decorreu em Mateus, em Abril e Maio de 1998. Dois poemas, com a vénia devida:



OUVIDOS CHEIOS DE ALGODÃO

Primeiro tapo os ouvidos
com ambas as mãos
para não mais ouvir
o eterno sussurro.

Depois começo a encher
os ouvidos de algodão,
grandes pedaços de esquecimento.
Poderei assim escapar?

Para ficar convencido
de ter achado a solução
corto as orelhas
segundo um método experimentado.

Ei-las diante de mim
como duas conchas do mar,
cheias de eterno sussurro
e de anestesiante algodão.


§


GUERRILHA URBANA


(Berlim Leste, 1975)

A altas horas da noite está o centro da cidade
fortemente iluminado como uma sala de interrogatório.
Venho de Greifswalderstrasse.
Nem vivalma. Então algo se ouve subitamente
como se umas botas vazias de borracha
corressem sobre a relva.
Do canteiro erguem-se longas orelhas.
Um coelho salta-nos à frente! Mais um!
E mais um! Um bando de agitadores!
Tropel atrevido, tarados sexuais de olhos congestionados
saltitando como num passe de mágica
tirados das almas adormecidas dos funcionários.
Todas as noites aparecem à luz
sorrindo com desdém de tudo o que lhes mete medo.


CLAUDIA EMERSON

CLAUDIA EMERSON (n. 1957, Chatham, Virginia) é uma poeta americana. Ganhou, em 2006, o prémio Pulitzer de Poesia com a colecção “Late Wife”, de onde traduzi o poema que apresento. É professora de inglês na Universidade de Mary Washington, em Fredericksburg, Virgínia, onde vive com o marido, Kent Ippolito, músico de jazz e blues.



MY GRANDMOTHER’S PLOT IN THE FAMILY CEMETERY

She was my grandfather’s second wife. Coming late
to him, she was the same age his first wife
had been when he married her. He made
my grandmother a young widow to no one’s surprise,
and she buried him close beside the one whose sons
clung to her at the funeral tighter than her own
children. But little of that story is told
by this place. The two of them lie beneath one stone,

Mother and Father in cursive carved at the foot
of the grave. My grandmother, as though by her own design
removed, is buried in the comer, outermost plot,
with no one near, her married name the only sign
she belongs. And at that, she could be Daughter or pitied
Sister, one of those who never married.



§



O ENREDO DE MINHA AVÓ NO CEMITÉRIO FAMILIAR

Ela foi a segunda mulher do meu avô. Chegando tarde
até ele, tinha a exacta idade que a primeira esposa
tinha quando ele casou com ela. Fez
de minha avó uma jovem viúva, para surpresa de ninguém,
e ela enterrou-o mesmo ao lado daquela cujos filhos
no enterro, se agarraram mais a ela do que os seus próprios
filhos. Mas pouco dessa história é contado
neste lugar. Os dois estendem-se sob uma pedra,

Mãe e Pai em caligrafia esculpida aos pés
da sepultura. Minha avó, como se por seu próprio desígnio
afastada, está sepultada a um canto, sem ninguém próximo,
enredo extremo, o seu nome de casada como único sinal de
que pertence. E nisso, bem poderia ser Filha ou Irmã
compadecida, uma dessas que nunca se casou.



ADAM ZAGAJEWSKI (2)

Nasceu em Lvov, na Polónia, em 1945. ADAM ZAGAJEWSKI vive entre Cracóvia, Paris e Chicago. É considerado pela crítica como um clássico contemporâneo, como o foram Milosz, Herbert, Holub, Popa ou Brodsky. É um poeta dessa estirpe. Acaba de publicar, neste 2008, na Farrar, Straus and Giroux, de Nova Iorque, “Eternal Enemies”, traduzido do polaco por Clare Cavanagh, professora de línguas e literaturas eslávicas na Northwestern University, que já havia traduzido para o inglês Szymborska e Milosz. Humor, inteligência, cepticismo e economia de linguagem podem ser encontrados nestas três versões que trago do inglês, onde conspiram o peso do lugar e da história, a emergência da arte e da vida quotidiana. Quando me cruzei por acaso com o Jorge Sousa Braga em Praga, há uns anos atrás, levava na mão recolhas de Simic e Armitage, que lhe anunciei entusiasmado como as grandes descobertas que são. O Jorge, porém, já transportava uma colecção da Faber and Faber de Adam Zagajewski, poeta do qual eu nunca havia lido nada, e sobre o qual colocou um post há tempos atrás, aqui, no Poesia Ilimitada, com a tradução de 12 poemas. São para o Jorge, estas versões, que encontrei numa estante de Estocolmo. Do último livro:



DESCREVENDO PINTURAS

PARA DANIEL STERN

Normalmente fixamos apenas alguns detalhes –
uvas do século dezassete,
ainda frescas e cintilantes,
quiçá um belo garfo de marfim,
ou a madeira de uma cruz e gotas de sangue,
o grande sofrimento que entretanto secou.
O parquet brilhante range.
Estamos numa cidade estranha –
quase sempre numa cidade estranha.
Algures ergue-se um guarda que boceja.
Um ramo cinza balança para lá da janela.
É absorvente,
descrever pinturas estáticas.
Estudiosos dedicam volumes a isso.
Mas nós estamos vivos,
cheios de memória e pensamento,
amor, por vezes arrependimento,
e por momentos temos um orgulho especial
porque o futuro grita em nós
e seu tumulto torna-nos humanos.


§


NUM PEQUENO APARTAMENTO

PERGUNTO A MEU PAI, “O QUE
FAZ TODO O DIA?” “RECORDO.”


Assim, naquele pequeno apartamento pardo em Gliwice,
num bloco baixo ao estilo soviético
que diz que todas as cidades se deveriam parecer com quartéis,
que quartos espasmódicos derrotarão conspirações,
onde um relógio de parede antiquado marcha, descansado,

ele revive diariamente o moderado Setembro de 39, as bombas assobiando,
e o Jardim Jesuítico em Lvov, cintilando
com o brilho verde do ácer e árvore de cinzas e pequenos pássaros,
caiaques no Dniester, o odor de vime e areia molhada,
naquele dia quente quando conheceu uma rapariga que estudou direito,

a viagem em carro fretado para o oeste, a última fronteira,
duzentas rosas dos estudantes
agradecidos pela sua ajuda em 68,
e outros episódios de que nunca saberei,
o beijo de uma rapariga que não se tornou minha mãe,

o medo e as doces groselhas da infância, imagens puxadas
daquele abismo de calma antes de eu ser.
Sua memória trabalha no apartamento sossegado – em silêncio,
sistematicamente, luta para recuperar por um momento
o seu século doloroso.


§


LENDO MILOSZ


Li a tua poesia uma vez mais,
poemas escritos por um rico homem, sabedor,
e por um mendigo, sem casa,
um emigrante, só.

Sempre quiseste ir
além da poesia, superá-la, planando,
mas também abaixo, onde a nossa região
começa, modesta e tímida.

Por vezes o teu tom
transforma-nos por um momento,
e acreditamos - verdadeiramente –
que cada dia é sagrado,

que a poesia - como pôr isto? –
torna a vida plena,
mais cheia, orgulhosa, ousada
de formulação perfeita.

Mas o fim de tarde chega,
pouso o livro de lado,
e o estrondo banal da cidade retoma -
alguém tosse, alguém chora e maldiz.



PEDIDO: Por favor enviem o link deste post a Sérgio Neves ou a Júlio Sousa Gomes, tradutores de Milosz e Szymboska do polaco, na tentativa de os interessarmos pela tradução de Zagajewski a partir da língua original. Normalmente as versões de versões limam involuntáriamente as arestas dos poemas, local onde se abriga verdadeiramente a poesia...



quarta-feira, setembro 10, 2008

EGITO GONÇALVES

EGITO GONÇALVES
(Matosinhos, 1920 - Porto, 2001)



ESTOCOLMO


A festa endomingava a tarde, ardia
no granito o sol – entre nós
o tempo em sebes frias se arrastava;
lembrávamos ausências, elas formavam
a névoa que envolvia os jogos de água,
Estocolmo foi isso;
a fuga de nós próprios, a tentação
reprimida
de formalizar a ternura. Diálogos
breves como pistas de cinza
para a correspondência com que nos propúnhamos
prolongar o passado. Um esquilo
atravessava a relva sob os cedros
com a vivacidade dos teus olhos. O fulgor
que nos comunicou foi transformado
na alegria perene de que já desistíamos.


Esse esquilo, Monique,
esse relâmpago que fendeu o letago
transformando a luz num estuário denso
ainda o vês? Ou perdeu-se
no regresso da angústia que rasgara,
na falta de resposta
que a paisagem oferecia ao apagar-se?

3.76


in "E No Entanto Move-se", Quetzal Editores, Lisboa, 1995

GUNNAR EKELÖF


GUNNAR EKELÖF, poeta surrealista e modernista sueco, nasceu em Estocolmo em 1907 e morreu em Sigtuna em 1968. Segundo Marianne Sandels, "foi mestre na arte de descrever os sabores do Verão, a neblina que se ergue sobre os pequenos lagos à noite, os prazeres simples da vida rural, que lhe permitiam comungar com a Natureza. (...) Este amor pela paisagem sueca, embora simples e discreto, podia na verdade compensar a sua falta de entusiasmo pela «nova» sociedade sueca que então surgia". A Quetzal editou, em 1992, "Antologia Poética" com traduções de Ana Hatherly e Vasco Graça Moura. De partida para o longínquo norte, dois poemas:


ENTRE NENÚFARES

Escrevi uma introdução para o que teria dito
mas rasurei-a. - Quero no entanto
que antes de a noite me envolver
a última coisa que de mim se aviste
seja um punho fechado entre nenúfares
e a última coisa que se oiça de mim
seja uma palavra de bolhas de ar

a vir do fundo.


tradução de Vasco Graça Moura



§


NO MERCADO DE ISFAÃO ...

No mercado de Isfaão,
no estrado,
mil e um corpos
mil e uma almas
estavam à venda para escravos.
E mil e um mercadores
faziam diferentes ofertas por corpos e almas.

As almas eram como mulheres.
Os corpos eram como homens.
E sorte teve o Mercador
que, graças à sua perspicácia,
conseguiu arrematar
Uma alma
e um corpo
que condiziam e podiam acasalar.


tradução de Ana Hatherly