sábado, agosto 26, 2006

EÇA DE QUEIROZ

Visitei hoje Tormes pela segunda vez. Jacinto e Zé Fernandes acabaram de chegar de Paris – na leitura que a Teresa está a fazer de “A Cidade e As Serras”, - e vão agora mesmo começar a percorrer numa égua e num jumento, o íngreme caminho que vai da estação de caminho de ferro de Tormes-Aregos até Vila Nova, a escalada de 350 metros conhecida como "O Caminho de Jacinto". De modo que nos pareceu bem aproveitar o dia de sábado para contextualizar a leitura desse romance póstumo de Eça de Queiroz (1845-1900), visitando a pequena localidade no Douro que sustenta o adágio de que não poucas vezes a literatura se impõe à realidade: Tormes, enquanto tal, não teve existência real até o nosso cônsul em Paris ter decidido dar esse nome à localidade de Vila Nova no referido romance, inspirado ao que se crê no topónimo da localidade espanhola onde se terão apeado indevidamente parte das malas de viagem que José Maria trouxe da Cidade-Luz. Muito grande é o escritor que consegue rebaptizar uma localidade já depois de morto.
Mas não é somente por esse facto que a Casa de Tormes se nos apresenta como um enorme anacronismo: Eça de Queiroz nunca lá viveu, verdadeiramente. Apesar da sua filha D.ª Maria de Castro Eça de Queiroz (1887-1970) aí ter decidido reunir, como espaço museológico, os objectos pessoais que serviram o escritor em Neuilly, Eça apenas terá pernoitado em Tormes umas quatro vezes: em Maio de 1892 (pela primeira vez, de visita com Benedita, sua cunhada); em 1895; em Junho de 1898 (com Luís de Castro, sobrinho de sua mulher, na viagem que o terá inspirado para “A Cidade e As Serras”); e uma última vez em 1899. Sempre por curtíssimos lapsos de tempo, por vezes de apenas dois dias, fundamentalmente para se inteirar de assuntos decorrentes de heranças da sua esposa D.ª Emília de Castro Pamplona, ou da subsequente conservação das mesmas.
Há seis anos atrás, a convite do Professor Arnaldo Saraiva no âmbito do Congresso Portugal – Brasil, Ano 2000, já havia visto como um pouco abusiva a decoração das divisões da casa (hall de entrada, sala de estar, biblioteca, quarto) com os móveis de que Eça terá feito uso em Paris. Mas, tal como condescende a excelente investigadora Laura Castro, no livro “Viajar com… Eça de Queiroz” (Edições Caixotim, 2003), na Casa de Tormes é interessante ver “com a devida e necessária distância, aspectos da atmosfera de Eça escritor. É certo que o ambiente é outro (…); no entanto, é a eles que podemos ainda agarrar-nos para imaginar o espaço da criação queiroziana.
Entrar no espírito do nosso maior romancista pode passar então, por exemplo, por admirar a escrivaninha onde Eça escrevia de pé, em Paris; saborear o famosíssimo “arroz de favas”; ou adquirir um casal de garrafas de vinho verde branco “Tormes”, de cor citrina, e aroma e sabor frutados, produzido e comercializado pela Fundação Eça de Queiroz. Finalmente, dizer como Jacinto: “um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.
Á vossa!

sábado, agosto 19, 2006

SÁNDOR CSOÓRI

A poesia de SÁNDOR CSOÓRI (nascido em 1930, em Zámoly, pequena aldeia a Oeste da Hungria que mudou de mãos entre alemães, húngaros e russos por 17 vezes, durante a IIª Guerra Mundial), é uma poesia estranha e aparentemente fria, no sentido em que se torna desconfortável porque envolvida politicamente com o longo sofrimento do povo húngaro. Fazendo uso de apontamentos surrealistas, simbolistas e até futuristas (“oh, fins-de-semana! / oh, domingos! / oh, Casas Brancas! Parlamentos! / das vossas conchas de caracol por toda a parte / deslizam tanques / e na sua trilha mucosa caem de costas os poetas”), é todavia na abundante riqueza imagística e metafórica que reside a sua complexidade e diversidade, pese embora o seu tom confessional a torne aparentemente mais próxima do leitor. Da antologia de Sandor Csoóri, “Com Cisnes Sob o Fogo do Canhão”, versões de Egito Gonçalves sobre tradução literal de Pál Ferenc e revisão de Mária Demeter (Limiar, 1997), seleccionei, com a devida vénia, o poema que se segue. Deve ser lido duas vezes.



NEM SEQUER OS POETAS

Há tantos poemas como gente nas ruas para peões.
Chegam, avançam, dão empurrões,
e às vezes apertam-me o coração contra a parede.
Algum deles é como uma cabeça rapada
de freira jovem: está ardente em torno dele
o Verão, a sensualidade sufocante do mundo perdido,
a nudez de virilhas, de ventres e de coxas.
Outro é um esqueleto sonâmbulo, mas
chega com sombrinha do Sul, nos tornozelos
chocalhos de cobre e mãos secas de crianças de peito.
Dançarino macabro da antiga Veneza? Ou o da
Bósnia bélico-pestífera? Ranger de lança-minas,
de sinos, canhões, matracas como rodas de moinho de vento,
acompanham-lhe a dança. Mas quem se detém
nas praças, ao pé das estátuas
alarmadas, a fim de sentir arrepios?
Quem acende os seus cabelos vivos para que
o horror e o amor se ponham de pé
juntamente? Nem sequer os poetas! Nem sequer eles!
Até os poetas vadiam apenas pelas ruas,
sozinhos, como quem já viveu alguns
fins do mundo. Se eu não soubesse onde pernoitam
e onde fumam o seu último cigarro
envenenado depois da meia-noite, até eu poderia
acreditar que são estranhos passageiros em trânsito.

ENDRE KUKORELLY

Uma das características mais marcantes na poesia de ENDRE KUKORELLY (Budapeste, 1951), é a de os seus poemas avançarem por proposições lógicas sucessivas, entre ironia e absurdo, num tom falsamente infantil que não esconde um profícuo gosto pela surpresa e pela irrisão, desfocando escalas de importância e desmontando figuras da história da Hungria. Essa é igualmente uma das estratégias patognomónicas da poesia do leste europeu como já aqui tinha escrito a propósito do poeta russo Danil Harms. Os dois poemas que se seguem foram retirados, com a devida vénia, de “Um Jardim de Plantas Medicinais” (Quetzal, 1997), tradução colectiva (Mateus, Abril de 1995), revista, completada e apresentada por Fernando Pinto do Amaral, com a colaboração de Maria Démeter.


EXERCÍCIOS REAIS

Eu não gostava de ser rei.
Os reis praticamente
não têm vida própria. Têm sempre
que ter juízo, têm sempre que
prestar atenção. E não se pode estar sempre
com atenção. Sempre a cumprimentar.
Máquina de cumprimentos. Máquina
de apertar mãos. Não pode calçar
quaisquer sapatos. Ele bem queria
os azuis. Mas não pode. Porque tem
de calçar os castanhos. Houve alguém
que inventou isto. Tomam conta
do rei. E também ele
toma conta de si. Para não
sujar a camisa. Tem logo que
vestir outra. Da reserva.
Camisas de serviço. Tem à mão
a reserva. Nem uma pedrinha
pode ter na sopa. No entanto,
uma vez encontrou uma
no puré de legumes. O cozinheiro
ficou tramado. Não o tramem. No fundo,
o rei sentiu-se feliz por encontrar
uma pedra no puré de legumes.
Não tinha ideia de encontrar
fosse o que fosse no puré de legumes.
E logo uma pedra! Até que enfim,
alguma coisa lhe aparecia na sopa.
Enfim, alguma coisa. Aconteceram
coisas. É certo que quase cuspiu
um dente. Esteve quase
para partir um dente. E
afinal não partiu. Ficou
a abanar, mas ficou lá.
Chamaram o cozinheiro.
Mostraram-lhe a pedra.
Dias a fio o pobre cozinheiro
andou mesmo desesperado.
Ainda bem que nada de mal
aconteceu. Rapidamente tudo
foi esquecido. Esqueceram.
Este caso também.
E não se falou mais nisso.


§


HENRIQUE I, O PÁSSARO

Henrique I, o Pássaro, era um rei muito seco.
Por exemplo, nunca bebeu. Comer, comeu, mas nunca bebeu.
Nem vinho nem cerveja. Nem aguardente.
Nem um grogue.
Não era inimigo do álcool, não bebia álcool porque não bebia nada.
Limitava-se a comer. Nem um gole de água bebeu em toda a sua vida.
Chegava mesmo a odiar a água, nem conseguia olhar para ela. Ao
meter as mãos na água, brrr. Nem pensar, porque quando o fazia logo
lhe apareciam borbulhinhas lilases. Assim, odiava exclusivamente a
água; por exemplo, já não detestava tanto a aguardente. Mas não a
bebia. Também a detestava, mas não tanto. Portanto, odiava a água.
Ficava sempre com aquelas borbulhas. Mas também não bebia leite,
nem sumo de laranja, nada.
Nem coca-cola.
Mas ainda não existia coca-cola, e mesmo que existisse não a beberia.
Não beberia. Antes cuspi-la.
Mas comia.
É verdade que não comia de tudo. Por exemplo, sopa não comia.
Comia muitas coisas, mas sopa não. Assim vivia. Era capaz de comer
imenso. Só não bebia. Comia. Era o seu maior prazer. Era um rei
esquisito. Um caso bastante estranho. Coisas que acontecem.

domingo, agosto 13, 2006

HELEN FARISH

A colecção de poemas de estreia da escritora e crítica britânica HELEN FARISH, “Intimates” (Cape Poetry, London, 2005), venceu o prémio Forward de poesia de 2005 e foi finalista do Prémio T. S. Eliot de poesia do mesmo ano. Helen Farish (nascida em 1962, numa casa de campo perto de Wigton, Cumbria) é professora na Universidade de Hallam, em Sheffield. Em “Intimates”, Farish pratica uma escrita provocadora e apaixonada onde o corpo assume um erotismo exposto, tanto quanto é lugar de desarranjo e medo. Eis três poemas do livro:


LOOK AT THESE

Seeing you makes me want to lift up my top
breathe in and say Look! Look at these!
I’ve kept them hidden till now
under loose shirts, Dad’s jumpers.

Suddenly I’m offering them
like a woman ready to mate.
I’m holding my breath.
Don’t tell me not to.


.


OLHA PARA ESTAS

Ver-te faz-me querer levantar o top
inspirar fundo e dizer Olha! Olha para estas!
Mantive-as escondidas até hoje
sob camisas soltas, os blusões do pai.

De repente estou a oferecê-las
qual mulher pronta a acasalar.
Estou a suster o fôlego.
Não me peças para não o fazer.


§


24TH JUNE 1955

Waiting on the doorstep you can hear
the distant intent of the engine
at Hollin Root, now Low Woodside.
Summer sways in its wake.
A farmer's boy in the beck field
looks up too late.

By now you know just how
that red MG will swing in the yard,
how dogs will bark and hens flap,
and how it will feel
to turn in his arms, his hand
on your blue satin waist.

It's easy with the tall-grass wind,
sun bouncing off the bonnet
and destiny's intent
running louder than any engine;
girl, it's easy now to say I do
to a lifetime's distance.


.


24 DE JUNHO DE 1955

À espera na soleira da porta podes escutar
a intenção do motor à distância
em Hollin Root, agora Low Woodside.
O verão oscila em seu despertar.
Um filho do fazendeiro no campo do riacho
olha para cima demasiado tarde.

Agora sabes ao certo como
aquele MG vermelho oscilará no pátio,
como ladrarão os cães, as galinhas pelo ar,
como será sentires-te
girar em seus braços, a mão dele
na tua cintura de cetim azul.

É fácil, com o vento na relva alta,
o sol resvalando no capot
a intenção do destino
correndo mais alto que qualquer motor;
rapariga, agora é fácil dizer Aceito
à distância de uma vida inteira.


§


BIOPSY

I’m running away with my breasts
to Barcelona, the Canaries.
They’ve a fancy for some seafront life,
fisherman, local wine.
I’m leaving no more of them at the hospital.
I understand the lump now,
how the cells got together
in a crescent like a young moon,
a smooth-sea boat, a hammock.
All these symbols of longing:
if I had taken notice
they could not have taken shape.


.


BIÓPSIA

Vou fugir com os meus seios
para Barcelona, as Canárias.
Têm afeição por essa vida de esplanada,
pescadores, vinho local.
Não deixo nem mais um pedaço no hospital.
Compreendo agora a massa,
como as células se aglutinaram
em crescente, qual lua jovem,
um barco polido de mar, uma rede.
Todos esses símbolos de desejo:
tivesse eu tomado conta
não teriam tomado forma.


domingo, agosto 06, 2006

LANDEG WHITE

LANDEG WHITE nasceu no sul do País de Gales em 1940 e - pelo que me posso aperceber - vive em Portugal desde 1994. Passou a infância entre Cheshire, Glasgow e Hertfordshire, tendo-se formado na Universidade de Liverpool. Foi professor em Trindade e Tobago, no Malawi (onde conheceu Maria Alice, sua esposa), na Serra Leoa e na Zâmbia. Em 1989 regressou a York, no Reino Unido, onde foi director do Centro de Estudos Sul-Africanos, tendo em 1994 chegado a Portugal, onde lecciona actualmente na Universidade Aberta. Publicou sete livros de poemas, bem como uma rara tradução para o inglês, já premiada, da obra maior de Luís de Camões, “Os Lusíadas”. Confesso que não me tinha cruzado com a existência deste poeta britânico de 66 anos até Junho deste ano, a pretexto de uma estadia em Praga, quando durante uma daquelas intermináveis esperas no Aeroporto de Frankfurt, para grande surpresa minha deparei com uma versão do poema de Camões “Aquela Cativa”, no The Times Literary Supplement de 9 de Junho. Aí se dava grande destaque à sua versão "from the Portuguese of Luis de Camões", “On the Slave, Barbara”. Aqui segue na integra, com a devida vénia, por curiosidade:



ON THE SLAVE, BARBARA

This slave I own
Who holds me captive,
Living for her alone
Who scorns to live,
I never saw woven
In bright bouquets
One dog rose lovelier
To my gaze.

The flowers in the field,
And the stars above
In their beauty, yield
To my love.
Distinct in feature,
Eyes dark and at rest,
Tired creature,
But not of conquest.

Here dwells the sweetness
By which I live,
She being mistress
Of whom she is captive.
Her hair is raven,
And the fashion responds,
Forgetting its given
Preference for blonde.

Love being Negro
At so sweet a figure,
The blanketing snow
Vows to change colour.
Gladly obedient
And naturally clever,
This may be expedient,
But barbarous never!

Quiet presence
That silence storms,
All my disturbance
Finds peace in her arms.
This is the vassal
Who makes me her slave,
Being the muscle
That keeps me alive.



Sem pretender - nem ousaria - tirar mérito à tradução de Landeg White (que saudo...), aí se prova o bastante que as dificuldades com que deparamos ao tentar verter para português poemas de língua inglesa, são naturalmente as mesmas com que poetas e tradutores daquele idioma se deparam ao tentar resgatar para a sua lingua textos originarariamente escritos na nossa. Tive recentemente oportunidade de participar num animadíssimo colóquio na Feira do Livro do Porto com os excelentes Manuel António Pina e Pedro Mexia, moderado pelo jornalista e (deixem-me insistir nisto) poeta Luís Miguel Queirós, em que o desafio que nos era proposto era, na esteira de Derrida, que esgrimissemos acerca do que é isso da poesia. Uma das “definições” que maior consenso reuniu foi a do poeta americano Robert Frost (1874-1963) quando escreveu isto: “poetry is what is lost in the translation”. Percebo bem o que Frost queria dizer. Poesia é, antes de mais, coisa de linguagem... Bem poderia o americano, acaso fosse vivo, vir aqui colher amparo que corroborasse a sua definição. É que na versão inglesa de Landeg White, por competente que seja - e é, - também se perde alguma coisa. Perde-se, por exemplo, poesia, quando o galês é obrigado a abrir mão do imperecível jogo de palavras com que o génio de Camões imortalizou os dois primeiros versos do seu poema na versão original:


"Aquela cativa
que me tem cativo…"


sábado, agosto 05, 2006

E. ETHELBERT MILLER

Como eu estava a dizer, há dois meses atrás, pareceu-me muito interessante aquele poema de Manuel de Freitas, “Martha”, incluído no livrinho “O Coração de Sábado à Noite” (Assírio & Alvim, 2004), por tão ousadamente, numa aparente homenagem a Tom Waits, desafiar a noção de poema. Aqui segue outro texto, outro exemplo, que encontrei este Verão, do americano E. ETHELBERT MILLER (Nova Iorque, 1950), que explora igualmente o limiar e o limite do que pode ser o real conteúdo de um poema.



ANOTHER LOVE AFFAIR/ANOTHER POEM

it was afterwards
when we were in the shower
that she said

“you’re gonna write a poem about this”

“about what?” I asked



§



OUTRO CASO/OUTRO POEMA

foi mais tarde
quando estávamos no chuveiro
que ela disse

"ainda vais escrever um poema sobre isto"

"sobre o quê?" perguntei